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É assim que é a vida sob um Estado de vigilância

"Você nunca sabia o que estava realmente acontecendo."

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Petra Epperlein já tinha se esquecido do que estava fazendo no dia 7 de outubro de 1989, quando uma fotografia lhe mostrou tudo claramente. "Eu quase desmaiei", disse enquanto olhava a imagem tirada à distância. Na foto, ela aos 20 e poucos anos com seu pai em meio a uma multidão de pessoas que observavam um protesto. A foto foi tirada pela polícia secreta nos últimos dias da ditadura na Alemanha Oriental, como parte do conhecido e invasivo programa de controle de massas do país.

Epperlein encontrou a foto enquanto investigava um segredo de família: pouco tempo após a queda do Muro de Berlim e a reunificação da Alemanha, seu pai recebeu cartas anônimas o acusando de ser um informante do Ministério para a Segurança do Estado (a Stasi). Após o suicídio do seu pai em 1989, Epperlein quis saber se a acusação era verdadeira e se ela tinha contribuído para a morte do seu pai.

Essa investigação é o mote de um novo documentário, "Karl Marx City". O filme leva o nome da cidade onde Epperlein nasceu. Na época em que a Alemanha estava dividida em duas e a República Democrática Alemã era comandada por uma ditadura comunista, a cidade de Karl Marx era um centro industrial da chamada ditadura do proletariado. A cidade passou a utilizar seu nome pré-guerra após a reunificação, Chemnitz, e a maioria dos sinais do regime comunistas foi apagada.

"Não houve continuidade na vida dos alemães orientais", disse Epperlein. "Quando a Alemanha discute sua história, a Alemanha Oriental ocupa um papel muito pequeno na narrativa oficial". "Karl Marx City", assim, acompanha o esforço de Epperlein em desvendar a verdade sobre sua família e em entender um mundo que foi literalmente apagado do mapa.

A vigilância era "um elemento essencial da vida", disse Epperlein ao BuzzFedd News em uma entrevista. "Todos tiveram uma boa infância. Eu tive pais e amigos amorosos." Apesar disso, ela foi cautelosa ao traçar uma distinção: "Minha experiência pessoal está desconectada da brutalidade do que aconteceu".

O documentário explora esse paradoxo por meio das próprias gravações de vigilância da Stasi. À primeira vista, as imagens parecem ser banais, quase que entediantes — homens, mulheres e crianças em suas rotinas normais do dia a dia. No entanto, ela revelam uma espionagem obsessiva e intrusiva. "Você sempre tinha a sensação de que aquilo [a vigilância] existia, mas nunca sabia o que estava acontecendo", disse Epperlein, ao recordar de sua infância.

Era a incerteza que dava à Stasi o seu poder. A questão sobre quantas pessoas trabalhavam para a Stasi ainda não está clara. Um funcionário que faz parte dos arquivos da Stasi disse ao BuzzFeed News que "não há uma resposta simples" para esta pergunta.

No entanto, documentos mostram que em 1988 havia dezenas de milhares de funcionários da Stasi e aproximadamente 200 mil informantes registrados. Isso significa uma proporção de um espião para cada 60 habitantes, e as pesquisas sugerem que os números eram ainda maiores, com muito mais "fornecedores de informações" não registrados que espionavam seus colegas de trabalho e de escola, vizinhos ou amigos.

Você nunca sabia ao certo se estava conversando em segredo, e isso silenciou com eficácia as discussões políticas por décadas. Se você tinha algo a dizer, "você saia para dar uma longa caminhada no bosque", disse Epperlein, agora com seus 50 anos.

A opressão da Stasi era "muito sofisticada", de acordo com Michael Tucker, coprodutor e marido de Epperlein. "Não necessariamente uma opressão violenta, mas muito sutil e onipresente." Epperlein concorda. Para ela, "algo que a vigilância conquistou naquela época e continua conseguindo nos dias atuais é que ela compromete a confiança."

No filme, a mãe de Epperlein, Christa, discute a possibilidade de seu marido ter sido um informante e diz: "Eu tenho um pouco de medo...se você descobre que alguém em quem você confiava fazia algo... é complicado. Essa é a razão pela qual eu sempre achei que era melhor não saber".

Mas enquanto Christa se escondia das perguntas sombrias sobre seu marido, Epperlein desconfiava do pai. "Tudo era possível e você nunca sabia o que realmente estava acontecendo", recordou. "Nós éramos crianças e você nunca conhece bem os seus pais. Eu estava praticamente pronta para qualquer coisa."

Hoje os registros da vigilância da Stasi está arquivado e disponível ao público mediante solicitação. Já houve mais de 7 milhões de pedidos desde 1991. Fora das sombras, os registros acabam se tornando estranhamente pitorescos. Todo o material, incluindo fotografias, gravações em vídeo e áudio e as 41 milhões de fichas teriam 109 quilômetros de extensão se colocados lado a lado.

"Uma das coisas mais interessantes é a quantidade de informações que eles coletaram e que eram absolutamente sem sentido", observou Tucker. "Há uma certa loucura nisso. O quanto você pode coletar até que isso beire o ridículo?"

Demorou quatro anos até que Epperlein recebesse o registro de seu pai. Por fim, ela descobriu que ele não era um informante. Na verdade, o arquivo revela que a Stasi considerava suas posições políticas como suspeitas e que seu chefe reportava suas atividades, junto com detalhes sobre a vida de sua família. "Isso é cruel", diz no filme a mãe de Epperlein. É "uma invasão de privacidade em um grau que eu não esperava", disse Epperlein.

Embora o arquivo não responda à pergunta sobre o porquê da decisão do pai de cometer suicídio, saber que ele não era um informante encerrou o assunto na família. Quando Epperlein encontra a foto do protesto no filme, o narrador observa que a vigilância da Stasi exibe seu pai como o homem que ela sempre soube que ele era.

Tornou-se uma prática banal as pessoas compartilharem detalhes íntimos de suas vidas nas redes sociais no quarto de século seguinte à queda do Muro. "Nós já não temos quaisquer barreiras de privacidade, todos queremos atenção, é assim que nós adquirimos o nosso status", disse Tucker, refletindo sobre nosso cenário atual.

"As pessoas confiam que suas informações não serão utilizadas contra elas", disse Epperlein. "Será que toda essa confiança é justificada? Eu não sei, não estou no Facebook."

Este post foi traduzido do inglês.

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