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Meu ano sem maquiagem

Sou uma mulher transgênero, e minha relação com a maquiagem – e os ideais de beleza cisnormativos que a acompanham – é particularmente complicada. Minha resolução para 2015 foi abandonar completamente a maquiagem. Eis o que aconteceu.

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Num táxi numa tarde chuvosa de junho passado em Nova York, abri o estojo de maquiagem que tinha acabado de comprar na Sephora, enquanto o carro estava preso no trânsito. No espelhinho limpo e intocado, olhei para o meu rosto e tentei decidir se me embelezava ou não.

Estava a caminho do estúdio da BBC America para participar de uma discussão sobre a capa da Vanity Fair com Caitlyn Jenner. Não usava maquiagem desde o ano anterior, pois tinha decidido abrir mão dela em 2015. Mas a ideia de aparecer na TV sem maquiagem, diante de milhões de pessoas, me deixava ao mesmo tempo empolgada e aterrorizada.

O medo de aparecer de cara limpa era especialmente irônico porque eu iria discutir uma capa de revista que imediatamente se tornou a imagem icônica do glamour transgênero. A capa da Vanity Fair com Jenner provocaria debates sobre o lugar das mulheres trans nos ideais de beleza cisnormativos, mas, no dia em que ela foi revelada, a resposta da internet foi majoritariamente positiva; muita gente se derreteu com a beleza de Jenner e a comparou com Jessica Lange.

Em fevereiro, quando ela se revelou trans em uma entrevista com a apresentadora de TV Diane Sawyer, Jenner apareceu sem maquiagem e se referiu à sua versão mulher na terceira pessoa, como se ela não estivesse na sala. Era como se a pessoa sentada diante de Sawyer não pudesse ser uma mulher plena sem maquiagem e roupas de mulher. Me identifiquei profundamente com Jenner; senti a mesma coisa quando comecei minha transição. Tinha de estar glamourosa e convencionalmente linda só para acreditar na possibilidade de que eu era mulher, pois era isso o que o mundo tinha me ensinado.

Todas as mulheres passam por muitas dificuldades para serem percebidas pela sociedade como pessoas aceitáveis, mas no caso das mulheres transgênero a situação é especialmente terrível. Uma coisa é o medo de ser chamada de feia se você não estiver maquiada, outra bem diferente é ouvir xingamentos, apanhar ou coisa pior. Apesar de Jenner fazer um esforço enorme para se apresentar de acordo com as normas convencionais de beleza para mulheres cisgênero, ela continua a ouvir comentários transfóbicos que negam sua feminilidade, seja de trolls na internet ou de feministas de destaque, como Germaine Greer e Elinor Burkett.

No começo da minha transição, quando o mundo me enxergava como homem, mas eu queria ser vista como mulher, a maquiagem era um elemento fundamental para que as pessoas me vissem como eu queria ser vista. Comprei vários livros de maquiagem e transformei uma mesa velha de computador numa penteadeira. Usava sombra para desviar a atenção das minhas sobrancelhas e tentava disfarçar os ângulos do queixo. O batom realçava meus lábios, a parte mais feminina do meu rosto.

Com algum esforço, descobri que a maquiagem era uma maneira de ter algum controle sobre a percepção que os outros tinham a respeito do meu gênero. Eu estava no começo do processo de transição, que sentia sua feminilidade policiada pelos outros, apesar de senti-la profundamente. Fiquei viciada no controle que a maquiagem representava.

Como uma droga, a maquiagem me dava um barato temporário, e cada vez mais eu dependia dele para me sentir plena. Andava na rua e era admirada pelos homens, mas de vez em quando percebiam alguma coisa – meu pomo-de-Adão, ou talvez meus traços duros – e a admiração rapidamente virava nojo. Minha reação era me cobrir ainda mais, encontrar outras maneiras de me esconder por trás da maquiagem, para que ninguém enxergasse a feiúra que os outros enxergavam e que eu também enxergava em mim mesma.

Com o tempo, fui perdendo o constrangimento, e os hormônios foram mudando minhas feições. Mas, quando precisava causar boa impressão ou me sentir melhor comigo mesma, pegava o estojo de maquiagem e ficava horas na frente do espelho, momentaneamente intoxicada com a imagem refletida, apesar de saber que a maquiagem só mascarava minha infelicidade. Foi por isso que senti um desejo forte de separar a maquiagem do meu senso de identidade.

Quando um amigo me pediu para escrever um artigo sobre resoluções de ano novo para 2015, resolvi vir a público e abrir mão da imagem feminina convencional. A primeira coisa que abandonei foi a maquiagem. Depois de anos vivendo com medo da minha cara limpa, queria afirmar que não havia nada de errado com a pessoa que realmente sou. Queria existir sem pensar o tempo todo que só seria aceitável se as pessoas me vissem bonita e normal. Queria passar um tempo sem maquiagem para entender minha relação com ela – o que ela me trazia e o que ela tirava de mim.

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As primeiras semanas foram marcantes não pelo que as pessoas disseram, mas pelo que elas não disseram. As pessoas não me chamavam mais de linda ou maravilhosa nem mencionavam meus lábios ou minhas maçãs do rosto, partes que eu costumava destacar porque os entendidos em maquiagem sabiam que seria sucesso na certa.

De maneiras sutis, o poder que eu sentia por me sentir atraente começou a se dissipar. As pessoas sorriam menos para mim na rua, os homens não abriam mais a porta. Os pequenos privilégios da beleza com os quais tinha me acostumado, de baristas preparando meu café rápido a descontos na hora de comprar roupas, desapareceram.

Como eu vivia como mulher havia muito tempo, muitas das experiências pelas quais passei depois de abandonar a maquiagem eram mais típicas das mulheres cisgênero, apesar de eu ainda me estar muito consciente do fato de ser trans. Era como se o que as pessoas viam não acompanhasse a imagem que eu fazia de mim mesma na minha cabeça. Um dos primeiros benefícios de viver sem maquiagem foi perceber que eu não dependia mais dela para ser mulher e não estava sujeita ao tipo de assédio que enfrentei no início da transição.

Mas era significativa a perda que senti por não ser mais considerada bonita, especialmente quando via várias celebridades trans sendo elogiadas pelo visual. Também vi uma correlação direta entre contentamento e beleza cisgênero convencional entre as mulheres trans das minhas redes sociais.

Se tivesse crescido sendo considerada menina, teriam enfiado à força na minha cabeça a ideia de que o visual é vital para minha sensação de valor.

Ao largar a maquiagem, parecia que eu estava abrindo mão de uma vantagem, e a tentação era voltar a usá-la. Comecei a me perguntar quanto do meu sucesso até aquele ponto – meu emprego estável e minha formação acadêmica – poderia ser atribuído não à minha inteligência ou ao meu esforço, mas sim ao fato de as pessoas me perceberem como uma mulher atraente. Mas tentei silenciar essas vozes na minha cabeça e decidi me dar tempo a fim de me aclimatar e entender o que a maquiagem realmente significava para mim.

Foi durante este período que lembrei como me sentia antes de toda essa pressão para parecer bonita. Da infância até o começo da vida adulta, quase nunca me perguntei se era bonita o suficiente, porque ser bonita tinha muito pouco a ver com meu valor com um ser humano considerado homem. Ser inteligente e talentoso eram as qualidades mais importantes e, se eu fosse bonitinho, era só um bônus. Se tivesse crescido sendo considerada menina, teriam enfiado à força na minha cabeça a ideia de que o visual é vital para minha sensação de valor.

Ao continuar o experimento de viver sem maquiagem, comecei a me lembrar de algumas coisas de que gostava quando vivia como homem (ao contrário do que muita gente acredita, nem todas as mulheres trans sofrem constantemente antes da transição). Adorava acordar, colocar um moletom e sair para a rua sem me preocupar o que achariam da minha aparência.

Também comecei a observar várias coisas com as quais eu não precisava mais me preocupar se não estivesse maquiada. Podia coçar os olhos à vontade, limpar a boca com guardanapo sem me preocupar com o batom. Não sentia aquele peso esquisito do rímel quando piscava nem aquela textura estranha da base na minha pele. Mas, acima de tudo, não tinha de me preocupar com a aparência do meu rosto.

Então não foi exatamente uma surpresa quando o primeiro semestre de 2015 foi uma das épocas mais produtivas da minha vida. O simples fato de não ter de ficar pensando na aparência me deixou livre para pensar e escrever sobre as questões dos transgêneros que eram tão importantes para mim. Isso incluir escrever muito sobre Caitlyn Jenner, da época em que ela revelou publicamente ser trans ao momento em que ela anunciou seu nome e seu novo visual na capa da Vanity Fair. Meus textos, não minha aparência, levaram a BBC a me convidar a aparecer na TV britânica.

Há algo muito irônico em convidar uma mulher trans que decidiu não usar maquiagem para comentar o glamour das mulheres trans diante de milhões de pessoas. Minha decisão sobre me maquiar ou não para o evento era só a cereja do bolo ou, pensando bem, o blush sobre a base.

Chegando à BBC, fui levada para uma sala de espera, onde deveria esperar 15 minutos. Fui ao banheiro, olhei no espelho de novo e me perguntei se realmente deveria aparecer na TV sem nem mesmo um pouco de corretivo. Meu rosto tinha muitas marcas; seria tão errado cobrir um pouco do meu “T”? Abri o estojo de maquiagem e olhei para o pó, da cor da minha pele.

Pensei em usar o corretivo, mas minha pele ficaria muito pálida, então teria de aplicar um pouco de blush. E se fizesse isso por que não aproveitar para passar um pouco de delineador para destacar meus olhos? Aí meus cílios loiros ficariam esquisitos sem rímel, então poderia usar só um pouquinho. Mas não posso maquiar os olhos e não usar batom, então – fechei o estojo. Antes de voltar para a sala de espera, mordi e lambi os lábios para que eles pegassem um pouco de cor e brilho, e depois apertei minhas bochechas, como aprendi com Jane Austen.

Um assistente de produção me levou para um estúdio pequeno. Sentei numa cadeira de frente para uma câmera e uma luz forte. A apresentadora trans inglesa Paris Lees e o âncora Evan Davis estavam em Londres, e eu entraria no ar de Nova York.

“Quer se ver no monitor?”, perguntou o assistente, apontando para uma tela ao lado da câmera, onde vi que o programa já tinha começado. Fiz que não com a cabeça e ela desligou o monitor. Quando começou a discussão, imaginei o rosto de um britânico enquanto falava para a câmera. Em nenhum momento pensei no meu próprio rosto enquanto dizia que Jenner não precisava se maquiar para ser respeitada como mulher e que a comunidade trans tem muitas questões que vão além da visibilidade.

Dias depois da minha aparição na BBC, acordei com vontade de usar meu novo estojo de maquiagem. Foi o que fiz – e tuitei uma selfie com a seguinte mensagem: “Me sinto bonita lutando pelos direitos #transgêneros”. Olhando meus olhos maquiados e meus lábios rosa, não senti as mesmas dúvidas que tinha quando pegava o pincel.

No fim das contas, 2015 não foi meu ano sem maquiagem. Foi só o ano em que a maquiagem parou de mandar na minha vida. Se eu posso aparecer na TV de cara limpa, dividindo a tela com duas mulheres incrivelmente glamourosas, não preciso mais da afirmação que a maquiagem me proporcionava. Abrindo mão do controle sobre minha aparência, acabei retomando o controle sobre o meu eu pleno.



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