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Precisamos Falar (de Novo) Sobre Racismo E Representatividade

A escolha de Monalysa Alcântara como Miss Brasil 2017 mostrou que muita gente confunde racismo com opinião e que é fundamental falar sobre representatividade

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Aconteceu no sábado (19) a edição 2017 do Miss Brasil, no qual a piauiense Monalysa Alcântara, 18, foi escolhida como vencedora e, como consequência, representante do país no Miss Universo. Até aí, nada novo sob o Sol, mas começaram a pipocar comentários negativos à vitória de Monalysa pelo fato de ela ser negra.

OK, sejamos justos, muita gente apoiou a escolha dos jurados, mas houve grande número de pessoas que externaram o descontentamento com o resultado em forma de preconceito. Isso é ainda mais sintomático ao levar-se em conta que é a terceira vez em que uma mulher negra é escolhida como Miss Brasil desde 1954 — ou seja: três em 64 edições.

Pôde-se ver entre os comentários os combos de racismo reverso — jura que ainda falam nisso em pleno 2017? — , falsa simetria com cotas raciais, uso de estereótipo classista e racista, por meio do uso do estereótipo de empregada doméstica e o racismo propriamente dito, por meio de críticas ao cabelo — o crime de Monalysa é ter cabelo cacheado e, sendo assim, não liso. Ah, sim: pelo fato de a nova miss defender o empoderamento feminino, ela já foi julgada como militante de esquerda. Sejamos francos: mulher ter voz ativa e recusar-se a ser submissa, bela, recatada e do lar é algo inadmissível para uns e outros.

Não entrarei nos méritos da objetificação da mulher por meio de concursos de beleza ou da erotização da mulher negra, pois esses não são os meus lugares de fala e elas podem falar com propriedade a respeito. Contudo, alguns aspectos devem ser levados em conta: 52% das mulheres negras no Brasil não vivem em relações estáveis de acordo com levantamento feito em 2016 pelo IBGE, além de terem rendimento médio equivalente a 52% em comparação com mulheres brancas. Qual a consequência disso tudo? Elas têm menos oportunidades no mercado de trabalho e, como consequência, têm de procurar por empregos com menor remuneração — coincidência ou não, trabalhar como empregada doméstica ou diarista virou senso comum, o que torna ainda mais problemático e preconceituoso falar que mulheres negras têm cara de empregada doméstica.

Além disso, falar sobre representatividade conta — e muito. Vamos falar sobre estereótipos e padrões de beleza? Vamos. Não é segrego para ninguém que a população brasileira tem fortes traços de miscigenação. Mas, contudo, todavia e assim por diante, há aspectos que ficam nas entrelinhas: povos europeus são vistos como dominantes, a começar pela colonização (RISOS) portuguesa e a escolha por imigrantes do mesmo continente, além de povos asiáticos, após a abolição da escravatura no Brasil.

Como consequência, a população negra sempre foi historicamente marginalizada e, sendo assim, traços culturais e estéticos foram considerados como errados e fora de padrão. Há quem se depare com uma pessoa negra e diga que ela tem beleza exótica ou é ~tipo exportação. É sempre necessário repetir: esses tipos de falas são superpreconceituosas, pois: a) nós, negros, não somos mercadorias para sermos exportados, assim como qualquer outra etnia; b) se algo é considerado exótico, isso é visto como fora de algum padrão. Logo, apenas parem com isso.

Qual o resultado desse lance todo? Falta representatividade para a população negra. Com toda a certeza, alguém já se deparou com alguém falando que queria ser branco para se ~enquadrar a algum padrão, a se submeter a métodos absurdos para alisar o cabelo, até mesmo com ferro de passar roupa, porque queria ficar com a aparência próxima à de alguma apresentadora de programa infantil ou à da atriz protagonista da novela das 21h. Em contrapartida, até há pouco tempo atrizes negras eram condicionadas a interpretar empregadas domésticas, isso quando havia papéis para elas. Os relatos impactantes da atriz Ruth de Souza, 96, sobre a sua carreira não deixam mentir. Idem o depoimento desolador e emocionante de Diva Guimarães, 77, durante a edição deste ano da Flip.

Enfim, por todos esses motivos e antes de que comece um tradado pseudo-sociológico sobre representatividade negra e racismo, é necessário debatermos o preconceito étnico e falarmos sobre representatividade. Que o sorriso de Monalysa Alcântara seja o espelho para o sorriso de todas as mulheres e meninas negras. Que seja mais um fator importante para a quebra de paradigmas e do ethos que inferioriza a mulher negra. Que seja o início da fase em que a beleza da mulher negra deixe de ser vista como exótica e se torne, de fato, parâmetro para beleza de Miss Brasil.

O que seria ter cabelo bem cuidado? Cabelo liso? Zerou o bingo do racismo. (Reprodução / Facebook)

O que seria ter cabelo bem cuidado? Cabelo liso? Zerou o bingo do racismo. (Reprodução / Facebook)

Qual é o padrão necessário para uma mulher ser ou não miss, fera? (Reprodução / Facebook)

Qual é o padrão necessário para uma mulher ser ou não miss, fera? (Reprodução / Facebook)

Cara de empregada = negra. Fala racista detectada. (Reprodução / Twitter)

Cara de empregada = negra. Fala racista detectada. (Reprodução / Twitter)

Postura de miss não é só estética, amigo. E empoderamento não é ~modinha, mas sim sinal de transformação social. Lide com isso. (Reprodução / Facebook)

Postura de miss não é só estética, amigo. E empoderamento não é ~modinha, mas sim sinal de transformação social. Lide com isso. (Reprodução / Facebook)

Comentário racista. Fim. (Reprodução / Twitter)

Comentário racista. Fim. (Reprodução / Twitter)

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