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Após a transição de gênero, ninguém mais me chama de gordo

Quando os médicos começaram a me ver como homem, minha obesidade pareceu estar curada – apesar de meu tamanho não ter mudado.

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Em uma sala de espera de um consultório pediátrico no qual eu já me sentia muito velho para estar, minha mãe e eu observávamos as crianças subirem em um castelo de brinquedo de plástico encardido. "Fico pensando quantas injeções vão dar em você", disse ela, brincando.

Estava na hora do meu exame físico anual para prática esportiva da escola, uma chatice que, pelo menos, permitia que eu saísse da aula mais cedo. Uma enfermeira chamou meu nome, e eu fui para uma sala de exames. Logo em seguida, uma médica que eu nunca tinha visto antes se juntou a mim. Era fácil perceber que ela era o tipo de pessoa que adora dar injeções em crianças. Eu tinha 16 anos, 1,83 m de altura e usava roupas femininas nos tamanhos grande ou extragrande. Assim que ela me viu, eu era um problema a ser resolvido.

A médica sorriu, revelando dentes perfeitos. Sob a iluminação fluorescente, suas mechas pareciam artificiais, como uma zebra. Ela começou a me fazer um monte de perguntas sobre o que e quanto eu comia, quanto me exercitava, meu histórico familiar de doenças relacionadas a diabetes e doenças cardíacas. Olhei para o teto, contando azulejos.

Depois do exame, ela limpou a garganta. Ela disse: "Serei honesta com você. Você está obesa. E precisa de uma intervenção séria para evitar futuras consequências disso em sua saúde". Nas mãos dela, havia um gráfico de IMC (Índice de Massa Corporal) impresso, com uma linha diagonal que ia de um canto a outro, dividindo o saudável do não saudável. A médica apontou para algum lugar acima da linha do excesso de peso, mas era tão acima e tão distante da linha que parecia que eu estava a ponto de não aparecer no gráfico. Senti minhas bochechas ficarem vermelhas.

Enquanto a médica continuava falando, olhava a sala ao meu redor, a saboneteira meio vazia, o cartaz da vacina contra HPV grudado no armário com suas extremidades enroladas, lutando para continuar firme.

Obesa. Que palavra horrível.

Depois que a médica saiu, tentei não chorar. As meninas no cartaz de HPV riam de mim. Todas elas eram magras.

Fui encontrar minha mãe na recepção. Tínhamos quase o mesmo tamanho e me perguntei se ela também estava acima daquela linha vermelha. Achei que não. Sou muito maior, gigante.

Não me ocorreu que meu pai ou meus irmãos pudessem ser considerados outra coisa além de musculosos ou poderosos. Eles desafiavam um gráfico de IMC. Como minha mãe disse: “É diferente para os meninos”.

Os homens deveriam dominar o espaço. Era esperado, por sua vez, Esperava-se que as mulheres fossem menores do que os homens, e estava claro para mim que eu nunca seria assim.

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No restaurante chinês naquela noite, insisti que queria apenas brócolis cozidos e arroz integral. Minha mãe pediu enroladinhos fritos para nós duas assim mesmo, não dando ouvidos a mim enquanto o garçom anotava o pedido.

Durante grande parte da minha vida, minha mãe fez tratamento contra o câncer de mama. A quimioterapia fazia seu corpo mudar como um iô-iô: o tratamento a deixava enjoada e magra como um papel, como se tivesse sido envenenada. Para evitar esses efeitos colaterais, ela tomava altas doses de esteroides que a faziam reter líquido.

Minha mãe sabia como eu estava me sentindo após a médica ter me feito sentir vergonha do meu tamanho. Ela me fez lembrar que “todos neste mundo estão a uma receita de Prednisona de distância de ganhar 20 quilos." Pensei em um médico que ela foi ver uma vez e que fez uma pausa no meio de uma explicação dos resultados dos exames para fazer perguntas cáusticas sobre seu peso.

Não é raro que mulheres acima do peso recebam esse tipo de atendimento. Muitas, inclusive, evitam ir ao médico por medo de serem julgadas. Mesmo em casos não relacionados ao peso, profissionais da saúde erroneamente atribuem os problemas do paciente ao seu peso. Isso é ainda mais premente no caso de mulheres e pessoas negras.

Minha mãe colocou um pouco do frango dela em meu prato. "Temos que ser fortes", disse, com um sorriso triste, de lábios fechados. "Parece que não temos muita opção."


Aproximadamente um ano depois, me assumi como transgênero e comecei a ter um novo tipo de consulta médica: aquelas que envolvem terapias de reposição hormonal e preparação para a cirurgia reconstrutiva do peito. Meu contato com profissionais da saúde tornou-se mais frequente. A testosterona é classificada como uma substância controlada onde moro, então preciso de uma análise sanguínea periódica e prescrições médicas de tempos em tempos.

Seis semanas depois de minha cirurgia reconstrutiva no peito, fui ao médico porque estava sentido pequenos espasmos nas costas. Fiquei chocado quando, em menos de dois minutos de consulta, o médico me prescreveu um relaxante muscular comum sem atribuir os espasmos ao meu peso. Em vez disso, ele deu um tapinha no meu ombro e disse: "Você passou por uma cirurgia! Não se preocupe muito com isso".

Ele verificou como estava a cicatrização de meu peito, e eu cheguei a tremer enquanto ele passava seu dedo enluvado pela incisão, com pontos ainda inchados, irritados e cor-de-rosa. "Você está ótimo", disse. "Então, quando é que você vai fazer a parte de baixo para combinar?" Não respondi. Um pouco depois, ele me perguntou: "Você levanta peso?".

Ninguém mais me achava gordo. Soube disso quando parei de receber aquele olhar que paira entre o desgosto e a piedade antes que o observador rapidamente desvie os olhos.
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A época em que eu era uma garota com traços masculinos e com sobrepeso virou história após eu optar por uma aparência mais tradicionalmente masculina. Ninguém mais me achava gordo. Soube disso quando parei de receber aquele olhar que paira entre o desgosto e a piedade antes que o observador rapidamente desvie os olhos. O olhar de alguém que acha que você não tem solução.

Minha estatura praticamente não mudou, tirando uma pequena perda de peso após começar a tomar a testosterona, quando meu corpo se redistribuiu. Ao ter meu sexo definido como masculino, em vez de feminino, aliado a uma pequena perda de peso, eu deslizei daquela linha vermelha assustadora no gráfico de IMC: curado da obesidade.

Agora que eu parecia um homem para a maioria das pessoas, estranhos não me davam aquele olhar. Meu peito e meus ombros largos não eram mais um problema, como costumavam ser. Fui instantaneamente perdoado pela suave inclinação em meu estômago. Para os médicos, o meu porte era a prova de que estava fisicamente aceitando ser um homem.

No início deste ano, ao tirar suas luvas de borracha depois de me examinar, outra médica me disse: "Nunca teria dito que você não era um homem, a menos que eu..." Pude sentir que ela estava prestes a fazer uma piada, como: a menos que visse você sem calças. Ela viu minha cara e notou que devia mudar de rumo. "A menos que, claro, eu estivesse olhando seu gráfico." Sua risada era aguda e nervosa, e chegou a ressoar em meus ouvidos. Queria dizer algo, mas ela ainda não havia escrito minha receita médica, da qual eu precisava. Então eu também ri, e decidi procurar uma nova médica.

No fim da minha primeira consulta com outra médica, alguns meses atrás, ela começou a inserir informações sobre a minha visita em um computador. A médica havia esquecido de registrar meu peso, então eu o disse a ela. Não tentei esconder os números, porque sabia que ela realmente não se importaria.

Depois de fazer uma pausa para escrever minha receita e entregá-la para mim, a médica voltou a digitar algo e me perguntou se eu tinha alguma dúvida. Olhei para a folha de papel na minha mão — estava livre para ir para casa.

"O que você acha do meu peso?"

Minha voz estava calma e firme, embora tenha ficado surpreso ao ouvir as palavras saindo da minha boca.

No meu dia a dia, eu escolho ser transgênero. Falo francamente sobre identidade de gênero, principalmente porque vejo os benefícios de ter me assumido: isso dá mais espaço no mundo para pessoas como eu reconhecermos as nossas diferenças e, além disso, torna as pessoas cisgêneros melhores apoiantes por causa da visibilidade. Ao assumir-me como trans e não binário de gênero, faço o que posso para evitar o privilégio masculino, para desafiar suposições sobre minha identidade de gênero e sua relação com meu corpo. Notei que faço isso em minha vida como um todo, exceto no consultório médico.

Me sentia um traidor: Há pouco tempo atrás, quando era visto como uma mulher com sobrepeso, eu não tinha a chance de optar por conversar sobre peso com os médicos. Eu era forçado a passar por isso, tendo que responder sobre diabetes ou sendo alertado sobre doenças cardíacas. Agora, não tinha como suportar passar tão facilmente por outra consulta médica: estava na hora de me posicionar.

Embora você não precise se assumir como gordo, você precisa se assumir como alguém que aceita ser gordo. Percebi que poderia me assumir como alguém que gosta de seu corpo a um profissional de saúde — fazia parte de meus direitos como paciente entender isso como algo não negociável, assim como minha identidade transgênero que está em todas as outras partes de minha vida.

"Não entendo." A médica tentou buscar explicações. "Você quer perder peso?"

"Não, eu não quero", disse, sentindo-me acanhado. Batia meus pés, inquieto. A médica deixou de olhar para a tela do computador e olhou para mim.

Poderia largar tudo isso e sair do consultório com a minha receita médica nas mãos nesse exato momento. Eu podia ir para a rua e fugir desse assunto inquietante.

Então pensei em como o rosto da minha mãe ficou quando um médico começou a passar por aquele velho interrogatório sobre o peso: Então, o que você come em um dia normal? Sua boca ficava achatada em seu rosto fechado, como um fiorde. Um segundo depois, ela abriria a boca para responder, incapaz de esconder o desapontamento em sua voz. Aqueles momentos de sua vida tão curta eram uma perda de tempo.

Eu não podia simplesmente esquecer o assunto — tinha que falar.

“Quero que você saiba que estou feliz com o meu corpo como ele é”, disse. "Só quero ter um médico que eu possa ver, receber uma receita médica de hormônios e fazer um exame físico uma vez por ano. Gosto de como eu sou — não quero mais fazer cirurgias relacionadas ao meu gênero e não quero perder peso. Se você vai ser minha médica, preciso que saiba disso."

Suspirei, certo sobre ter ultrapassado a barreira. Em todo caso, posso encontrar outro médico.

Ela franziu as sobrancelhas, confusa. "Não acho que nada disso seja um problema."

"Certo." Concordei. "Era tudo que precisava saber."

Este post foi traduzido do inglês.


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