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Estes refugiados expressam por meio da arte os perigos da jornada até a Europa

Para os eritreus, atravessar o mar Mediterrâneo é apenas uma das várias etapas de uma perigosa viagem.

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Mebrahtu é um homem de 45 anos com uma missão.

Denis Bosnic/Jesuit Refugee Service

Ele é um refugiado da Eritreia e sabe que milhares de outras pessoas sonham em ir para a Europa. Mas ele teme que muitos não entendam os riscos da travessia.

Por isso ele está pintando quais são esses riscos. Mebrahtu começou a pintar quando era jovem, depois que viu seu irmão fazendo o mesmo. Agora ele tenta colocar em prática todos esses anos de autoaprendizado para salvar vidas.

Mebrahtu dá aulas em um campo de refugiados em Mai Aini, no norte da Etiópia.

Denis Bosnic/Jesuit Refugee Service

Milhares de eritreus estão indo para a Etiópia a fim de escapar de uma série de violações de direitos humanos, desde perseguições políticas e serviço militar obrigatório até trabalho forçado. Muitos também estão fugindo da pobreza.

No campo onde vive Mebrahtu, 50% da população é composta por crianças. Eles estão sedentos para expressar o que vêm passando e quais são seus medos. Há cerca de três anos, Mebrahtu ensina cerca de 50 estudantes em um centro para jovens administrado pelo Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS), organização internacional de auxílio.

No entanto, pode ser bem difícil sentir que há um futuro pela frente quando você vive em um campo de refugiados. Muitas pessoas se sentem tentadas a buscar uma vida melhor na Europa. Em 2016, quase 130 mil pessoas já atravessaram o mar Mediterrâneo vindas da Africa até a costa da Itália.

Embora seus alunos sejam talentosos, as imagens que eles criam não são belas — no sentido literal e figurativo.

Denis Bosnic/Jesuit Refugee Service

A jornada da Eritreia até a Europa já tirou muitas vidas, e Mebrahtu quer que as pessoas saibam o que virá pela frente caso decidam partir.

Chegar no destino com segurança exige coragem e sorte — além de dinheiro. Mebrahtu aprendeu isso com as histórias de terror que já ouviu. Um conhecido de Mebrahtu foi sequestrado com refugiados no Egito por pessoas que ameaçaram não libertar ninguém sem resgate. O homem contou a Mebrahtu que os sequestradores o puseram em um carro e mostraram a ele uma caveira humana.

Ele escapou e conseguiu voltar para o campo de refugiados na Etiópia. Isso faz com que ele tenha sido uma das pessoas mais sortudas a não ter completado a jornada: Muitos são abandonadas no deserto ou acabam morrendo de fome. Mulheres e crianças são constantemente abusadas.

Quando Mebrahtu pensa sobre as histórias de riscos e abusos que são tão comuns, ele fica triste, mas não necessariamente surpreso.

"Não dá para esperar que pessoas desalmadas sejam misericordiosas", disse. Seus estudantes e ele dividiram suas histórias com o JRS em abril para a campanha "Artistas em Movimento" da organização.

Mebrahtu quer usar a arte para mostrar os perigos de imigrar ilegalmente para a Europa — e, quem sabe, convencer as pessoas a não correrem esse risco.

Angela Wells/Jesuit Refugee Service

A rota de imigração que os compatriotas de Mebrahtu seguem é longa e perigosa — através do inabitável deserto do Saara, passando pela instável Líbia e atravessando o mar até a Itália.

Mais de 3.000 pessoas morreram ou desapareceram no mar neste ano, segundo a Agência da ONU para Refugiados (UNHCR), e ninguém sabe ao certo quantas pessoas morreram no deserto.

Para Mebrahtu e outro eritreus na Etiópia, os riscos reais começaram em casa.

Angela Wells/Jesuit Refugee Service

"Muitos de nós morrem ao cruzar a fronteira entre a Eritreia e a Etiópia", contou ao JRS. A pintura é sobre uma mãe e seus três filhos, deixados para trás na Eritreia. Um de seus filhos se afogou em um rio perto da fronteira, e ela e suas crianças ficaram para trás. O resto da família seguiu seu caminho até a Etiópia.

"Outras pessoas que conheço não conseguiram chegar tão longe – elas foram devoradas por animais selvagens ou mortas pelos militares", disse ele. "E isso continua acontecendo."

Todos que conseguem chegar até a Etiópia já encararam algum tipo de terror.

Angela Wells/Jesuit Refugee Service

"A decisão de deixar sua casa é a mais difícil que alguém pode tomar", disse o aluno de Mebrahtu chamado Abel, 19. Ele retratou uma família atravessando a fronteira entre a Eritreia e a Etiópia.

Eles seguem "em total silêncio, para que os militares patrulhando a fronteira não os encontrem e os matem", disse ele.

Mas, para aqueles que continuam tentando chegar até a Europa, há ainda mais perigos pela frente — como Mefin descobriu quando seu irmão foi sequestrado no Sudão.

Angela Wells/Jesuit Refugee Service

Seu irmão estava tentando chegar até a Europa, mas homens armados o capturaram e levaram à prisão. Amigos e a família tiveram que se unir para arrecadar os US$ 10 mil exigidos de resgate. "As milícias", disse Mefin, "irão matar qualquer um que não puder pagar".

Mefin pintou esta imagem em homenagem às pessoas que não conseguiram pagar por sua liberdade.

(Mefin não é seu nome real; o JRS disse que deu este pseudônimo a ele por motivos de segurança.)

"Eu quero mostrar para a comunidade internacional o que está acontecendo."

Angela Wells/Jesuit Refugee Service

Filmon, 17, não consegue parar de pensar nas histórias que ouviu sobre refugiados que escaparam de serem sequestrados no deserto do Sinai.

"[Eles] voltaram para este campo e nos mostraram as marcas do açoitamento em suas costas. Há vezes em quem vídeos e fotos são postados no Facebook e nós vemos pessoas que conhecemos espancadas, penduradas de cabeça para baixo e até mesmo abatidas como se fossem ovelhas. Há alguns pais aqui que estão recebendo ligações há mais de dois anos de seu filhos implorando para que paguem o resgate, mas eles não têm nada", disse.

Os jovens pintores aprendem seu simbolismo tocante e livre de equívocos com seu professor, cujas pinturas forçam um confronto com a realidade da jornada.

Angela Wells/Jesuit Refugee Service

"Eu sei que existem artistas melhores do que eu por aí, mas acredito que, se eu puder expressar minhas ideias por meio das pinturas, poderei ajudar a explicar diversas coisas para outras pessoas", disse Mebrahtu.

Mesmo que você consiga concluir a jornada, as lembranças do lar que você deixou para trás podem machucar.

Angela Wells/Jesuit Refugee Service

Um jovem de 24 anos chamado Tesfalem pintou esta imagem sobre uma amiga. "Ela está com muita saudade de sua família na Eritreia. Ela se recorda de seu lar e seus irmãos, que estão representados como flores. Ela se questiona sobre sua decisão de partir e sofre quando pensa em seu lar", contou Tesfalem a um membro da equipe do JRS que visitou o campo no ano passado.

Hoje, no entanto, Tesfalem encontra-se desaparecido. Os amigos acreditam que ele tentou chegar até a Europa, mas ninguém tem notícias dele há quase um ano.

Mebrahtu diz que, independentemente de onde consiga se sentir seguro — e caso isso seja possível —, ninguém está realmente livre após o fim da jornada.

Angela Wells/Jesuit Refugee Service

"Eu creio que, mesmo que as pessoas consigam chegar até a Europa, elas nunca conseguirão apagar essas lembranças de suas mentes."

Hoje, essas pinturas e outras de Mebrahtu e seus alunos estão no início de uma turnê pelo mundo.

Angela Wells/Jesuit Refugee Service

Elas já foram expostas em Nairobi, Quênia. As próxima exibições ocorrerão em Roma e em Washington, D.C.

Jina Moore is the global women's rights correspondent for BuzzFeed News and is based in Berlin.

Contact Jina Moore at jina.moore@buzzfeed.com.

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