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Tenho de desafiar meus próprios limites para que meus filhos encontrem os deles

Meu maior desafio como pai é descobrir como ensinar meus filhos a serem independentes e protegê-los ao mesmo tempo.

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Há algumas semanas, a escola primária do meu filho mais velho participou do Dia Nacional de Ir a Pé e de Bicicleta para a Escola, o que significou encontrar os professores em um estacionamento a quase dois quilômetros da escola e ir caminhando até lá junto com um monte de gente, com uma escolta policial. Nós moramos em uma pequena cidade da Nova Inglaterra, rodeada principalmente por fazendas e florestas, com uma estrada movimentada que atravessa o lugar. Acho notável precisarmos de um feriado nacional para incentivar as pessoas a caminhar até a escola, e que a jornada tenha de ser tão cuidadosamente orquestrada.

Além disso, no início deste ano, uma família em Maryland virou manchete por deixar seus filhos, com idades entre 6 e 10 anos, irem a pé até um parque a menos de dois quilômetros de sua casa. A polícia local pegou as crianças e as entregou ao Conselho Tutelar.

A infância do meu filho não poderia ser mais diferente da do meu pai. Meus avós duvidavam que meu pai chegasse aos 18 anos. Quando terminou o ensino médio, ele já tinha caído de uma árvore altíssima e quebrado os dois braços; também havia destruído uma porta de vidro tentando passar enquanto ela estava fechada, o que causou um corte tão profundo e tão perto do olho que os médicos não tinham certeza de que poderiam dar pontos com segurança; descido um morro impossivelmente íngreme em um carrinho feito em casa, quase matando uma vaca; e enfiado o pé em uma cuba de óleo a 190 graus, o que resultou em meses no hospital.

Contar e recontar os acidentes e as aventuras do meu pai nas refeições de feriado se tornou tradição da família. Mas o drama dessas histórias ofusca uma verdade mais silenciosa sobre a infância dele. Na maior parte dos dias, especialmente no verão, ele pegava um lanche em casa e passava longas horas ao ar livre, explorando, brincando e fazendo sua cota de travessuras menos perigosas.

Desde que me tornei pai, fico espantado com a forma como nossa cultura limita a liberdade de movimento das crianças e surpreso com meus próprios sentimentos complicados sobre crianças e riscos. Em um artigo de 2013 na Orion Magazine, Jay Griffiths argumentou que uma sociedade avessa a riscos não é apenas um resultado benigno de nossa época excessivamente litigiosa, mas também tem profundas implicações pessoais e políticas para as crianças que estamos criando.

"A liberdade física... molda todos os tipos de liberdade", escreveu Griffiths, "pois as crianças aprendem tanto com o corpo como com a mente. Quando se veem demonstrando coragem física, elas também aprendem a ter coragem moral ou política — e pensamento independente, que tem profundas implicações políticas".

Os pais de Maryland que viraram notícia por deixar seus filhos andarem sozinhos pelo bairro aderem a um movimento chamado "criação livre", que o Washington Post descreveu como "um contraponto à hipervigilância dos pais 'helicópteros', com a ideia de que as crianças aprendem a autossuficiência por se permitir que progressivamente testem limites, façam escolhas e se aventurem no mundo".

Griffiths não usa a expressão "criação livre", mas há paralelos em seu artigo. "A sociedade avessa a riscos, negando o perigo e o que é perigoso, não é só irritante, mas também conceitualmente malévola", ele escreveu. "Isso vai contra o instinto da criança de encontrar uma relação entre acaso e risco; caso contrário, suas aventuras não podem sequer começar."

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Eu me sinto atraído aos valores por trás da "criação livre", mas sempre tive dificuldades em viver de acordo com esses ideais. Embora minha infância não tenha sido tão selvagem quanto a do meu pai, eu tive diversas boas aventuras explorando os campos e florestas em volta da minha casa. Eu andava quase dois quilômetros até a escola desde o segundo ano e passava horas construindo engenhocas elaboradas na oficina de carpintaria do meu pai sem supervisão.

Mas, na adolescência e no início da vida adulta, trabalhei durante anos como conselheiro de acampamento em um programa da cidade com regras rigorosas de segurança. Todos os jogos tinham regras; todas as atividades tinham limites. Cola e palitos de picolé, tudo bem. Lama e pedaços de pau, nem tanto. Mais tarde, fui treinado como socorrista em áreas desertas, trabalhando em projetos de conservação no interior do país e construção de trilhas. Lá longe, a quilômetros de qualquer cidade ou do sinal de celular, um único movimento errado com uma serra elétrica ou outra ferramenta poderia colocar em perigo todo o grupo. Nós fazíamos exercícios de pior cenário — operações de resgate que duravam uma noite inteira em que nossos instrutores simulavam emergências médicas —, e a intensidade desses exercícios me marcou até hoje.

Agora, como pai, quando vejo crianças correndo em um parquinho ou brincando de luta de espada com pedaços de pau, é como se aqueles anos de treinamento fossem uma velha memória muscular. Preciso lutar ativamente contra meu reflexo de manter todos totalmente seguros o tempo todo. Como se isso fosse possível.

Às vezes, quando vejo meu filho mais velho prestes a pular de algum ponto elevado ou se pendurar nos brinquedos do parquinho, eu ouço minhas próprias palavras como se viessem de alguém que eu não reconheço plenamente: "Cuidado!","Segurança em primeiro lugar" ou, quando seu irmão de 3 anos vai atrás dele, se esforçando para se pendurar nas barras, eu corro até ele e nunca o deixo aprender com a queda.

Minha esposa consegue ver no meu rosto quando eu entro no modo de conselheiro de acampamento. Ela era salva-vidas em uma praia na adolescência, então ela entende o impulso de procurar o apito tantos anos depois. Mas minha esposa também estudou em uma escola primária progressista, uma "escola-laboratório" em um campus universitário. Ela fez aulas de carpintaria no primeiro ano. No sexto ano, ela já tinha usado serras circulares, furadeiras, tornos e muito mais. Ela adorava aqueles dias trabalhando com as ferramentas elétricas, e se maravilha com a quantidade de liberdade que eles tinham.

Essa liberdade era combinada de forma quase imperceptível com orientação e apoio. Ela ainda consegue recitar as várias canções de segurança que as crianças cantavam para aprender sobre as ferramentas: "Esquadro, esquadro, ficha e pincel! Serra, serrote, formão e plaina!"

Criar filhos é uma tarefa cheia de negociações e contradições. Para mim, nenhuma tensão é maior do que a que existe entre a vontade de desenvolver um espírito de aventura selvagem e autossuficiência em meus filhos e o profundo desejo de protegê-los, e eu reconheço a mesma busca por equilíbrio entre risco e segurança nos "parques de aventura". Esses espaços encarnam o tipo de liberdade criativa supervisionada das aulas práticas de minha esposa na escola.

Erin Davis, que fez um documentário sobre um parque de aventura chamado "The Land" em North Wales, disse que eles podem ter muitas formas e tamanhos, "de ferros-velhos caóticos a favelas lunáticas". Por toda a sua diversidade, Davis observa, todos esses parques compartilham "uma necessária e positiva relação entre risco e brincadeira".

Os espaços estão cheios de matérias-primas — madeira, metal, pneus, túneis e tubos —, e as crianças têm liberdade para construir e remodelar o cenário do jeito que acharem melhor. Parques de aventura têm equipes com adultos treinados, que desempenham um papel de apoio às brincadeiras imaginativas das crianças. Nos Estados Unidos, há parques de aventura em Berkeley, Filadélfia e Ithaca, Nova York. E, embora só estejam começando a ganhar atenção nos Estados Unidos, a história desses parques infantis remonta a mais de 80 anos atrás na Europa.

Em sua pesquisa de 2014 sobre "a criança superprotegida" para The Atlantic, Hanna Rosin entrevistou Ellen Sandseter, uma especialista em educação infantil que estudou "brincadeiras arriscadas". Sandseter identifica tipos específicos de brincadeiras arriscadas — como explorar alturas, manipular ferramentas perigosas e lutar — e explica que elas são importantes para o desenvolvimento infantil porque ajudam as crianças a desenvolver seu próprio senso de limites em vez de os impor. Quando as crianças definem seus próprios limites, baseados em emoções como medo, empolgação e desconforto, elas aprendem a dominar essas emoções e a lidar com o que está à sua volta.

"Crescer é um processo de controlar medos e aprender a chegar a boas decisões", escreveu Rosin. Mas como é que nós, pais, podemos conciliar isso com o forte instinto de fazer de tudo para proteger nossos filhos do mal? Quando vejo meus filhos descendo um morro a mil em suas bicicletas ou explorando um parque, eu sinto um nó no estômago. Como é que decidimos quando gritar e quando calar a boca?

Essas preocupações persistem mesmo diante da lógica e de estatísticas que sugerem que a proteção excessiva das crianças não as deixa mais seguras. Esses receios são viscerais e imediatos, ao passo que a ameaça representada por remover os riscos e brincadeiras da vida diária das crianças é muito mais difícil de ver de onde estamos.

Quando eliminamos essas experiências, nós fazemos uma troca: a segurança a curto prazo pela experiência de longo prazo. Nosso controle pelo bom senso deles. Nós pensamos nessas coisas como binárias. Se desistirmos da ordem, vamos acabar com desordem. Se abrirmos mão do controle, vamos acabar com caos.

Mas Jay Griffiths disse que nós entendemos tudo errado. "O verdadeiro oposto da ordem não é a desordem, mas sim a liberdade", escreveu ele. "Mais profundamente, o verdadeiro oposto do controle não é o caos, mas o autocontrole."

Mesmo acreditando que isso seja verdade, eu não acho mais fácil deixá-los ir. Eu entendo os benefícios das brincadeiras arriscadas na minha cabeça, mas boa parte da criação dos filhos vem do coração. O que estou aprendendo aos poucos é que, ao ouvir minha mente — sem ignorar meu coração —, posso dar a meus filhos espaço para tomarem suas próprias decisões. Às vezes, temos de desafiar nossos próprios limites para deixar que nossos filhos encontrem os deles.

Meu filho mais velho, que acabou de completar 7 anos, começou a fazer "engenharia de papelão". Nenhuma caixa vazia em casa está segura. Ele criou dioramas, casas de passarinhos, montanhas-russas, canhões de confetes e muito mais. Recentemente, fiquei observando enquanto ele lutava para cortar uma caixa de papelão grosso com uma tesoura escolar. O papelão ondulado encurvava e rasgava entre as lâminas pouco afiadas.

Eu procurei em minha mesa de cabeceira e encontrei o canivete suíço que ganhei quando era criança. Não me lembro quantos anos eu tinha quando meu pai o deu para mim, mas ele havia esculpido meu nome no plástico vermelho. Esse era o jeito de ele me dar propriedade sobre algo. Eu não precisava pedir permissão para usá-lo; eu não precisava ter supervisão.

Entreguei o canivete ao meu filho, dizendo-lhe que era dele agora. Eu lhe mostrei como segurá-lo para manter os dedos afastados das lâminas. Nós praticamos como abrir e fechar cada uma das lâminas, e ele se divertiu bastante com todas as surpresas escondidas no canivete. Um palito de dentes! Pinças!

Ele cortou o papelão com uma facilidade que parecia abrir novos mundos de possibilidades enquanto eu observava a alguns passos de distância, fazendo tudo o que podia para não ficar toda hora falando para ele tomar cuidado.

A Semana de Pais e Filhos trará conteúdo voltado para honrar o trabalho mais difícil e mais amado do mundo: ser mãe ou pai. Veja mais posts da Semana Pais e Filhos aqui.



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