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Ser uma garota "igual aos caras" foi ótimo, até que se tornou um problema

Demorei a perceber que o preço para entrar nesse grupo era caro demais.

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"Você vai adorar essa série", meu amigo me disse, enquanto eu sentava na poltrona e ele me servia uma dose de uísque. "Quando vi, pensei em você imediatamente". A série era "My Boys", uma sitcom americana que foi exibida de 2006 a 2010. Desde a primeira cena, já pude perceber o motivo de ele estar tão animado. A série era sobre PJ, uma jornalista esportiva de Chicago com jeito de moleca, e seus "garotos", um grupo de homens que ela considerava seus melhores amigos. Ela tinha uma amiga mulher, Stephanie, que usava maquiagem e era o alívio cômico da série.

Fiquei imediatamente interessada, pois era a primeira vez que eu via, pelo que me lembro, uma amizade platônica entre homens e mulheres héteros na telinha. Até então, esse tipo de relacionamento só servia para gerar tensão sexual em comédias românticas como "Harry & Sally: Feitos um para o Outro", "Alguém Muito Especial", "As Patricinhas de Beverly Hills" e, estranhamente, "Um Encontro com Seu Ídolo!" (cujo clímax é que eles eram "amigos", mas estavam realmente apaixonados um pelo outro o tempo todo). A amizade nesse filmes sempre foi apenas um trampolim — um mero consolo que poderia, e deveria, ser trocado por algo maior e melhor.

Essas comédias românticas não representavam a minha vida. Eu fazia parte há anos, e com orgulho, "do grupinho dos caras". Por isso, assistir a uma versão da minha experiência na TV foi algo fascinante: ver PJ bebendo cerveja e jogando pôquer com seus amigos homens, fazendo piadas com eles e se sentindo bem consigo mesma.

Porém, havia um problema: comecei a ter dúvidas sobre o cara com quem eu estava assistindo à série. Ele gargalhava quando Stephanie reclamava do comportamento misógino dos caras e aplaudia quando PJ os defendia. Ele achava que o fato de PJ fumar charutos comprovava que ela não era "fresca". Ela rejeitava a própria feminilidade e era isso que ele gostava nela. "Ela é como você", ele me disse.

Os meus "caras", ou seja, meus amigos de antes da faculdade, eram pessoas para quem eu ligava no meio da noite quando estava com problemas, amigos que me apoiavam em meus términos de relacionamento, amigos com quem eu conversava abertamente sobre meus medos e ansiedades, para quem eu já havia reclamado da minha menstruação. O tipo de amigos que, para a maioria das mulheres, era como as outras mulheres (ou gays) deveriam ser.

Eu valorizava esses caras porque eles tinham se provado valorosos. No entanto, eu também os valorizava porque havia aprendido a desvalorizar as mulheres. A PJ parecia comigo e eu estava começando a odiar isso.

Eu não me encaixava no estereótipo de menina-moleca na infância, apenas não tinha medo dos meninos. Na escola, acompanhei com o passar dos anos a mudança das meninas ao meu redor, de ver os meninos como uma espécie completamente diferente a vê-los como alvos sexuais. Enquanto isso, para mim, eles eram apenas pessoas que pareciam compreender melhor minha obsessão com o Blink-182. Eles me aceitavam. Não se importavam com meu peso, se eu estava ou não a fim de alguém ou com o fato de eu ir para aula todos os dias com trancinhas porque não tinha ideia do que fazer com meus cachos. Eles só queriam ver filmes e jogar Sonic no porão do Jon.

Isso era basicamente tudo o que fazíamos, porque, com melhores amigos, não é necessário fazer muito mais do que isso. Passávamos os fins de semana do ensino médio alternando entre as salas de estar de Jon, Alex e Matt – vendo filmes, jogando videogame, dirigindo até o mercadinho para comprar sorvete e disputando quem conseguia comer mais pizzas.

Às vezes, eles iam para minha casa e nós ficávamos sentados em meu telhado até 4 da manhã, sóbrios, conversando sobre o que era importante quando se tem 16 anos. Comprávamos ingressos para shows uns para os outros, assistíamos às peças de escola dos outros e deixávamos nossos pais confusos, já que geralmente eles não conseguiam compreender como é que nenhum de nós estava namorando

Ser a garota que era amiga dos caras era como ter um superpoder. Meu vocabulário ainda não incluía termos como "feminismo" ou "patriarcado", mas eu já mostrava descontentamento com a dicotomia meninos=amor e meninas=amigas que havia sido apresentada a mim. Parecia que eu tinha feito uma grande descoberta: eu sabia como ter um relacionamento que não levava em consideração o gênero. Eu havia encontrado pessoas que eram boas para mim, que gostavam de mim e de quem eu gostava. E que, por acaso, eram meninos.


Outro termo que também não fazia parte do meu vocabulário era "misoginia internalizada". É verdade que eu gostava de videogame, WAR e Incubus (foi mal), mas eu não era a única garota que gostava dessas coisas. Ainda assim, eu presumia que as outras garotas eram diferentes de mim, que elas preferiam ficar ouvindo música pop e fazendo coisas idiotas para chamar a atenção dos caras.

Mesmo quando saía com minhas amigas mulheres, eu fazia de tudo para me distanciar delas. Eu as chamava de idiotas caso se importassem muito com garotos ou roupas bonitas. Fazia questão de deixar claro que estava vendo "Buffy" com elas apenas pela zoeira. Eu detestava a ideia de uma "noite das meninas". E eu folheava as revistas de casamento com elas apenas para rir dos vestidos mais feios.

E não fazia isso porque os homens me julgariam caso me vissem fazendo qualquer coisa que tivesse o menor traço de feminilidade — era eu quem me julgava. Apesar de rejeitar o sistema binário que dizia que homens eram para o amor e mulheres para a amizade, eu passei a acreditar em um que me dizia que os homens eram melhores. Os homens com os quais eu andava eram excelentes, então todos os homens deviam ser assim. As coisas das quais os homens gostavam eram melhores e mais interessantes, e o fato de eu gostar dessas coisas me fazia melhor e mais interessante do que as outras garotas, não?

Durante a festa de formatura de Alex, teve um momento em que sentamos e fomos jogar cartas, como a versão púbere de PJ e seus garotos, conformando-nos com a ideia de que iríamos todos para faculdades diferentes. Mas não estávamos com medo, apenas animados — e confiantes em nossa capacidade de permanecermos os mesmos diante da mudança.

Enquanto jogávamos, alguém fez uma piada sobre eu ser uma garota. Antes que pudesse reagir, Alex corrigiu o piadista: "Jaya não é uma garota, é só um cara de cabelo comprido". À época, encarei como o maior dos elogios.

Na faculdade, continuei a presumir que, pelo fato de só ter conhecido homens bons, todos os homens seriam amigos melhores do que qualquer mulher. Mas lá, de uma maneira que não havia acontecido anteriormente, eu me tornei a Garota Fazendo Coisas De Garotos. Atraía os caras que achavam o máximo quando eu bebia cerveja e jogava futebol americano e que não conseguiam acreditar que uma garota gostasse de "Os Irmãos Cara de Pau". Do ponto de vista deles, isso me fazia diferente. Em vez de inspirá-los a ver garotas como seres humanos com interesses diversos, isso apenas confirmava o desdém deles por qualquer garota que não fosse eu.

A identidade é algo da qual a maioria das pessoas não pode fugir. Podemos lutar para que as identidades com as quais nos importamos mais — sexual, racial, geográfica — sejam as mais eminentes, mas alguém vai acabar rotulando você, quer queira ou não. Eu queria que meu gênero não interferisse no modo como me viam, porém, lentamente, meu gênero tornou-se não apenas uma identidade, mas uma mercadoria.

O patriarcado é uma droga potente, e estar no centro das atenções masculinas (independentemente do tipo de atenção) era viciante. Se os homens queriam ser meus amigos, eu pensava, devo estar fazendo alguma coisa certa. Mas algumas coisas não pareciam certas. Esses caras não entendiam que beber cerveja e falar sobre "coisas de garota" não era algo mutuamente exclusivo e que meus feitos de masculinidade não tinham o objetivo de me transformar na mascote deles.

Comecei a questionar as coisas, em silêncio. Se eu gostava de todas essas coisas de "homem", por que as outras garotas não podiam gostar também? E se esses caras odiavam tanto as mulheres, por que estavam sempre tentando transar com elas? Se eu já havia encontrado outras garotas que gostavam das mesmas coisas que eu, que eram divertidas, motivadas e muito legais, por que eu não estava indo atrás delas?

Mesmo assim, eu me recusava a acreditar nas mulheres que me diziam que talvez esses caras da faculdade não fossem tão bons, ignorando-as por achar que elas simplesmente não acreditavam no conceito de amizade entre homens e mulheres. Eu fiquei na defensiva e me fechei.

Não tinha importância o fato de alguns dos meus novos amigos serem rudes e sexistas ou que alguns deles estavam tentando transar comigo e até mesmo que eu estava começando a sentir algo por um ou dois deles. A defesa do conceito de amizade platônica tornou-se meu dever. E, depois, eu trocava mensagens com meus amigos de infância, lembrava como as coisas costumavam ser, e chorava escondida. Por que não é assim com todo mundo?

Quando sentei naquela poltrona para ver "My Boys" pela primeira vez, eu estava desesperada por qualquer representação de amizade homem-mulher platônica — nem que fosse apenas para ter uma comprovação de que isso existia e eu não estava louca.

O que eu vi foram algumas atuações bem convincentes, que davam credibilidade ao fato de esses caras e essa garota terem desenvolvido uma forte amizade. No entanto, analisando agora, a amizade platônica deles parecia ser passiva no que diz respeito à PJ. É ela que "parece com um cara", não os caras que parecem com ela. Ela não exige nada deles e eles a adoram por isso. Eu enxerguei a amizade, mas também enxerguei uma ameaça velada: comece a agir "como garota", e essas novas amizades desaparecerão.

Tentando afirmar minha identidade como pessoa, não apenas como mulher, eu havia substituído o prazer de encontrar pessoas que me compreendiam (independentemente do gênero) por uma busca por amigos homens. E, ao mesmo tempo, estava sabotando minha própria feminilidade. Havia coisas tidas como femininas das quais gostava e que gostaria de experimentar que eu estava me negando. Conheci mulheres que gostavam de ir a shows de punk rock, jogar WAR e conversar até 4 da manhã sobre nada e sobre tudo. Mas eu havia criado um novo sistema binário para mim mesma, no qual homens eram tudo e mulheres eram nada. Eu estava deixando o gênero interferir nas coisas.

Ao longo de "My Boys", comecei a prestar mais atenção em Stephanie, a única amiga mulher de PJ. Ela era engraçada, inteligente e não tinha problema em dar um chega pra lá nos homens quando eles estavam sendo babacas. Ela também começou a namorar um dos amigos de PJ e, eventualmente, passou a jogar pôquer com eles. Ela não era perfeita, mas aqui estava uma mulher com seus próprios interesses e uma carreira, que não havia centrado sua vida ao redor dos homens, e que mesmo assim se divertia sendo amiga deles. Eu queria ser vista como uma pessoa única, mas demorei a aceitar que deveria parar de paparicar os homens na minha vida para conseguir isso.

Quando a série acabou, eu já tinha terminado a faculdade há alguns anos. PJ havia se apaixonado por um dos seus amigos e Stephanie e seu namorado haviam se mudado para Londres por causa do trabalho dela. Um dia, saí para jantar com meu tio e alguns amigos dele. Agora eu já estava mais flexível, aceitando mulheres como amigas e sendo mais criteriosa com os homens na minha vida. Também havia começado a namorar Matt, um dos meus amigos de longa data.

Eu expliquei para o meu tio o quão legal isso era, ter uma amizade duradoura que se transforma em algo maior e ter um parceiro que não tinha ciúmes ou desconfiava de meus outros amigos homens. "É, mas eles não serão seus amigos por muito tempo", disse ele. "Assim que arrumarem namoradas, vão largar você."

Eu sorri, pedi licença para ir lá fora, liguei para meu amigo Dan e comecei a chorar. Fiz ele jurar que era meu amigo, independentemente do que acontecesse. Ele me falou para respirar fundo e garantiu que não ia me abandonar. E ele não o fez.

Sistemas binários geram insegurança, porque não há um caminho claro a seguir quando você se vê fora deles. Muitos já presumiram que minhas amizades com homens não eram de verdade. Mas elas são e elas resistiram a tudo.

As melhores amizades, com homens ou mulheres, não são estáticas. Elas não dependem que você permaneça de um único jeito. Bons amigos não exigem que você seja "como um cara", eles deixam que você seja quem quiser. E eu tive muita sorte de ter meus garotos para me ensinar isso.

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