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Paulo Gustavo ouve críticas das redes sociais e recria personagem sem blackface

Depois de extenso debate humorista reavaliou a construção de Ivonete.

publicado

O comediante Paulo Gustavo divulgou no dia 12 de junho duas imagens da personagem Ivonete na nova temporada do programa "220 Volts". Ele foi alvo de diversas críticas por fazer blackface.

"O blackface é uma técnica de maquiagem teatral, na qual pessoas brancas pintam-se de negras para imitá-las de forma caricata, o que reforça características físicas, estereotipando-as com o intuito de fazer piadas," explica nesta matéria da Revista Época, Rebeca Campos Ferreira, doutoranda em Antropologia pela Universidade de São Paulo.

No mesmo dia Paulo Gustavo publicou uma tentativa de justificar a prática. "Eu nunca fui atacado por representar um playboy machista mesmo sendo gay. Também não se incomodaram por eu fazer um nerd, uma mulher feia, uma Vagaba, uma mãe de família ou um anjo", afirmou em seu Facebook:

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A publicação foi novamente muito criticada por seus seguidores que tentavam explicar o racismo que envolve a prática do "blackface".

E aparentemente os pedidos tiveram efeito. No último sábado, dia 18, o humorista publicou uma nova imagem da personagem Ivonete e um belo texto.

Facebook: Paulo.Gustavo.oficial

"Nesses últimos dias li, ouvi, pensei e entendi que há uma longa discussão sobre o uso de "blackface" muito anterior e muito maior do que eu, minha carreira, minha personagem e o 220 Volts, por isso decidi refazer a Ivonete sem que ela pareça uma caricatura risível da mulher negra", explicou.

Em entrevista ao BuzzFeed Brasil, a militante do movimento negro Djamila Ribeiro afirmou que foi um "avanço o Paulo Gustavo ter reconhecido o erro". Segundo ela, o debate é muito antigo, mas "infelizmente as pessoas não se informam e ignoram todos os estudos e só percebem o erro depois de feito".

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Para Djamila, que também é coordenadora da secretaria de Direitos Humanos da cidade de São Paulo, a repercussão do caso e as redes sociais têm um papel fundamental nas mudanças e combate ao preconceito. "Quando alguém do alcance do Paulo Gustavo para e ouve as mulheres, ouve as mulheres negras e deixa de fazer o 'blackface', ele acaba contribuindo e muito para esse debate mais progressista". Já as redes sociais fazem com que as pautas das minorias cheguem "em espaços que não chegavam, e pautam a grande mídia e a própria opinião pública".

Leia o texto completo escrito por Paulo Gustavo:

"Nesses últimos dias li, ouvi, pensei e entendi que há uma longa discussão sobre o uso de "blackface" muito anterior e muito maior do que eu, minha carreira, minha personagem e o 220 volts, por isso decidi refazer a Ivonete sem que ela pareça uma caricatura risível da mulher negra. Ela não é. Ivonete é esperta, crítica, consciente e questionadora. É uma brasileira que passa por todas as dificuldades absurdas que todos passamos como a falta transporte eficiente, sistema de saúde precário, violência, etc etc etc... Ela se revolta, reclama, exige, sofre, mas não perde o rebolado, mantém-se de cabeça erguida, forte, guerreira e sobretudo alegre. Mas o blackface historicamente remete a experiências que são dolorosas para muitas pessoas e, mesmo não sendo a intenção, eu peço desculpas se ofendi ou magoei alguém. Eu posso pintar minha pele, posso fingir, representar, tentar dar voz a essa mulher, mas eu nunca saberei de verdade como é ser uma mulher negra. Nos textos, a alegria da personagem não fazia dela uma alienada, mesmo assim eu compreendi que a negra animada é um estereótipo que os movimentos negros combatem com razão pois na vida real, muitas vezes, não é nada engraçado. Apesar de conhecer e adorar muitas Ivonetes, ser negro no Brasil é difícil sim. Como ser mulher também é difícil; como ser gay também é difícil. Tanto na minha arte quanto na minha vida pessoal tenho feito o que posso pra tentar transformar o mundo num lugar melhor. Casei com o Thales, assumi isso publicamente, mudei minha certidão. Entendo que temos um grande processo de conscientização sobre o racismo, o machismo e a homofobia no Brasil e ele vem passando por etapas dolorosas. Eu não quero de forma alguma ser agente dessa dor, corroborar com preconceitos e manter o status quo de uma sociedade que necessita melhorar. Todos nós precisamos conversar e pensar mais a respeito. Eu tenho feito isso. Eu e a Ivonete."

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