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Rachado, Itamaraty já projeta fechamento de embaixadas na África

Corpo diplomático está dividido entre apoiadores de fechamento de postos sem estrutura e críticos que temem que o senador tucano use o cargo para se projetar politicamente.

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O Itamaraty deverá iniciar pela África os cortes de representações brasileiras no exterior.

O fechamento das embaixadas do Brasil na Libéria e em Serra Leoa é parte dos cortes que estão sendo formatados pelo gabinete do ministro das Relações Exteriores, José Serra, de acordo com informação apurada pelo BuzzFeed Brasil.

A lista de cortes ainda não foi anunciada. Confrontado com a informação sobre Serra Leoa e Libéria, o ministério limitou-se a dizer que a "informação não procede". As duas embaixadas ainda não receberam qualquer comunicação.

Os cortes estão em linha com a guinada da política externa conduzida pelo chanceler José Serra em relação à era petista. Sob Lula, o país abriu 17 novas embaixadas.

No seu discurso de posse, o tucano criticou fortemente a estratégia da diplomacia dos governos Lula e Dilma.

Quando citou a estratégia Sul-Sul (estreitamento dos laços com países do hemisfério Sul), Serra atacou a diplomacia "praticada com finalidades publicitárias, escassos benefícios econômicos e grandes investimentos diplomáticos". Veja íntegra do discurso.

Na última sexta, para começar a formatar os cortes, o gabinete de Serra pediu à SGAP III, a subsecretária do Itamaraty responsável pela África, uma lista de cinco embaixadas a serem fechadas no continente, conforme apurado pelo BuzzFeed Brasil junto a fontes no ministério.

Na negociação, a SGAP III incluiu Serra Leoa e Libéria na lista de representações a serem extintas.

Um dos critérios adotados é que os dois países prometeram abrir embaixadas em Brasília, mas ainda não fizeram.

Ao norte da linha do Equador e na África ocidental, Serra Leoa e Libéria foram países muito afetados pela epidemia de ebola.

O relacionamento comercial do Brasil com estes países é pequeno, mas a decisão pode trazer consequências políticas.

Serra Leoa preside o C10, grupo de 10 países africanos de quem o Brasil busca apoio para a pretensão de obter um assento no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas).

Segundo o BuzzFeed apurou, o fechamento da embaixada em Serra Leoa chegou a ser cogitado no ano passado, mas a posição do país no C10 dissipou o rumor.

Além da África, embaixadas abertas na última década no Caribe devem ser as próximas a entrar na fila dos cortes.

Um estudo de custos de representações na África e no Caribe já foi encomendado pelo gabinete de Serra, segundo informou o jornal "Folha de S.Paulo". Leia aqui.

O Itamaraty está rachado com guinada promovida pelo governo interino.

O fechamento de embaixadas não é unanimidade entre os diplomatas do Itamaraty. Apoiadores da medida - e do próprio chanceler Serra - afirmam que a expansão das representações sob Lula e Dilma não foi acompanhada do suporte orçamentário necessário.

Ex-ministro da Fazenda no governo Itamar Franco (1992-94) e ex-secretário da Unctad (agência das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o embaixador Rubens Ricupero tornou-se uma eminência parda no Itamaraty.

Sem cargo na gestão Serra, Ricupero é um dos principais conselheiros do ministro.

Ele defendeu o fechamento de representações em outros países por conta da escassez orçamentária.

Em entrevista à BBC Brasil, ele questionou a manutenção de "um número enorme de embaixadas" sem dinheiro para pagar "aluguel, água ou telefone".

Na outra ponta, uma parte do corpo diplomático é crítica a dois grandes temas da nova gestão.

O primeiro seria o déficit de legitimidade de um ministro interino para dar uma guinada tão significativa na política externa, inclusive com mudança imediata de embaixadores.

A segunda fonte de apreensão diz respeito ao fato de Serra ser um político, e não um diplomata de carreira.

O temor é que o chanceler use o ministério simplesmente como trampolim para suas pretensões de política doméstica, como uma candidatura presidencial em 2018.

O tom duro em que o Itamaraty repeliu as críticas de países sul-americanos governados pela esquerda ao impeachment de Dilma Rousseff, como Bolívia e Venezuela, é um dos sintomas da contaminação da política externa brasileira pelas considerações eleitorais, conforme críticos do novo ministro.