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Juiz mais ameaçado do país se aposentou e vai virar político

Prisão de Battisti foi último ato da carreira de Odilon Oliveira, juiz que virou celebridade com condenação de grandes traficantes em Mato Grosso do Sul.

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O despacho que determinou a prisão preventiva de Cesare Battisti, após ele ter sido detido em Corumbá (divisa de MS com a Bolívia), foi o último ato do juiz federal Odilon Oliveira, 68.

Oliveira, ou o "juiz Odilon" como é chamado em Mato Grosso do Sul, é uma espécie de precursor de Sergio Moro em termos de celebridade e admiração das pessoas comuns naquele Estado do Centro-Oeste.

No início dos anos 2000, ele ganhou fama quando estava lotado em Ponta Porã, cidade da fronteira de MS com o Paraguai. O cenário naquela região evocava (e ainda evoca) a minissérie Narcos (Netflix), com guerras frequentes de facções criminosas.

A região é uma das maiores produtoras de maconha da América do Sul (foi lá que o então ministro da Justiça Alexandre de Moraes foi filmado cortando umas plantas num vídeo que viralizou) e um grande entreposto da cocaína produzida nos Andes que entra no Brasil e segue para a Europa.

Quando chegou à fronteira, o juiz Odilon passou a distribuir em escala inédita condenações a réus suspeitos de serem os principais atacadistas do mercado de cocaína e de lavarem dezenas de milhões de reais em dinheiro sujo.

Caso simbólico ocorreu em 2004: Fahd Jamil, que era considerado o mais poderoso chefão do crime organizado, foi condenado a 20 anos por tráfico internacional e lavagem de dinheiro. Jamil, que nega os crimes, conseguiu a anulação da sentença no STJ (Superior Tribunal de Justiça).

Houve condenações também de líderes do PCC, facção criminosa que fincou raízes no Paraguai no fim dos anos 90, e de Fernandinho Beira-Mar. Os confiscos de bens de traficantes superaram a casa do bilhão de reais.

À época, veio a público que traficantes se uniram em um consórcio para matar o juiz. Foi aí que ele ganhou a fama de juiz mais ameaçado do país.

A reputação do juiz durão se nacionalizou depois que o jornal O Estado de S.Paulo em que Odilon se deixou fotografar deitado num colchonete no próprio gabinete porque vivia sob ameaça dos traficantes que condenava.

A foto, que representava o poder do Estado "preso" enquanto os traficantes estavam soltos, causou comoção.

Desde 2000, o juiz tem escolta 24 horas por dia de agentes da Polícia Federal, armados com pistolas e submetralhadoras. Sua casa é monitorada e usa um carro com blindagem capaz de suportar tiros de fuzil.

Transferido para a capital do Estado, o magistrado era regularmente visto sob forte escolta da Polícia Federal até mesmo em momentos prosaicos, como quando corria pelo Parque das Nações Indígenas (uma espécie de Ibirapuera de Campo Grande).

A lei manda dar segurança a juízes ameaçados no exercício do cargo, mas não fala nada sobre magistrados aposentados. A PF não informou como deve ficar a situação do juiz.

A proeminência do juiz foi filmada no longa "Em nome da lei", do diretor Sérgio rezende, com o ator Mateus Solano em papel inspirado em Odilon. Ao lado da celebridade, cresciam também os questionamentos.

Os destinos de Fahd Jamil e de outros condenados por Odilon que conseguiram reverter as condenações em outras cortes alimentam até hoje as críticas (veladas) sobre a efetividade das condenações do juiz. Detratores de Odilon também atacam a fama de gostar de aparecer.

Battisti

Os caminhos do ex-terrorista italiano Cesare Battisti e do juiz Odilon Oliveira se cruzaram na semana passada.

Battisti, que teve a extradição para a Itália negada por Lula em 2010, foi detido na quarta sob suspeita de evasão de divisas, ao tentar atravessar a fronteira do Brasil com a Bolívia portando 6.000 dólares e 1.300 euros.

Para o juiz Odilon de Oliveira, responsável por sua prisão, o italiano tem antecedentes "gravíssimos". Battisti estava acompanhado de mais duas pessoas. Só o italiano, um personagem altamente midiático, teve a prisão decretada na audiência de custódia pelo juiz Odilon.

A defesa de Battisti afirmou que o dinheiro apreendido era compatível com uma viagem de três pessoas e que o italiano asilado não tem qualquer impedimento legal de viajar ao exterior. A soltura do ex-ativista foi determinada na última sexta pelo desembargador José Marcos Lunardelli, do TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região).

Enquanto o pedido de habeas corpus era analisado por Lunardelli em São Paulo, Odilon reunia os servidores da 3a Vara Federal de Campo Grande, na tarde de sexta, para uma festa de despedida. A prisão de Battisti, que durou só três dias, foi a última com a assinatura do juiz que se aposentou.

Self-made man

Na noite da mesma sexta, Odilon foi a estrela de um ato de filiações do PDT em Campo Grande. O presidente nacional da legenda, Carlos Lupi, o convidou para ingressar na legenda e disputar o governo do Estado no ano que vem.

"Queremos sua coragem e competência para servir a esse estado como governador", afirmou Lupi, sob fortes aplausos da plateia, segundo o site Campo Grande News.

Ele não discursou, mas falou a jornalistas na saída do evento: "Um convite [para ser candidato a governador] feito com a alma, com o coração. Isso mexe com o sentimento", destaca.

A candidatura de Odilon não é uma invenção recente. Um dos entusiastas da aventura eleitoral do juiz é o conselheiro do Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul, Jerson Domingos.

Os apoiadores de Odilon sonham que ele encarne o "novo" na política, figurino com o qual João Doria foi eleito prefeito de São Paulo no primeiro turno e sonha com uma candidatura a presidente.

Se a fama de juiz durão faz lembrar o magistrado da Lava Jato no Paraná, a trajetória de Odilon lembra a de Lula. Nascido em Exu, sertão de Pernambuco, Odilon e a família migraram para a Mato Grosso do Sul. O sotaque pernambucano é forte até hoje.

Ele viveu na roça até os 17 anos e se formou em direito apenas aos 29 anos. O curso noturno foi bancado como professor primário. Depois de advogar por dois anos, ele passou no concurso e passou 30 anos na magistratura.

Jerson Domingos, o entusiasta de Odilon, é cunhado de Jamil Name e tio de Jamil Name Filho, que investigado e preso pela operação Xeque-Mate da Polícia Federal sob suspeita de ser um dos chefes da máfia dos caça-níqueis em Mato Grosso do Sul.

O juiz não atendeu o pedido de entrevista do BuzzFeed News.


Graciliano Rocha é Editor de Notícias do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ele pelo email graciliano.rocha@buzzfeed.com.

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