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Porque assédio NÃO é só o que acontece depois do “não”

A expressão “Tudo depois do ‘não’ é assédio” não define o que é assédio por um motivo bastante lógico: nem sempre a vítima pode dizer “não”.

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“Tudo depois do ‘não’ é assédio” foi uma frase recorrente na pesquisa do BuzzFeed Brasil abordando como nossos leitores definem assédio sexual com 30 mil pessoas. Foram ouvidas quase 30 mil pessoas e mais de mil pessoas responderam uma variável dela para a pergunta aberta “Defina o que é assédio sexual”.

A fala ficou popular depois de um vídeo da youtuber JoutJout, “6 TOQUES PARA UM CARNAVAL AGRADÁVEL”. Ele foi ao ar em 17 de janeiro, dois dias antes de postarmos o formulário da pesquisa do BuzzFeed Brasil. Ou seja: a frase estava fresquinha na cabeça das pessoas.

No vídeo, JoutJout dá várias definições de assédio, passando por situações em que caras ouvem “não” de uma mulher e não respeitam a resposta, mas também falando sobre como uma roupa não é um convite, entre outras coisas. Mesmo assim, foi a última frase listada, “Tudo depois do ‘não’ é assédio”, que pegou.

“Vi um comentário num vídeo da JoutJout que dizia que ‘tudo que vem depois do ‘não’ é assédio’ e acho que essa frase representa muito bem o que é assédio”, respondeu uma mulher de idade entre 16 e 24 anos em nosso questionário. “Como foi mencionado no vídeo da JoutJout: depois do ‘não’ é tudo assédio. Ainda assim, é incrivelmente triste saber que tem gente com dificuldade de aceitar um ‘não’ em pleno 2018”, disse outra mulher na mesma faixa etária.

É louvável que mais pessoas entendam que insistir depois de alguém dizer “não” seja assediar. O problema é que esta é apenas UMA forma de assédio, não TODAS. Ela certamente não define o que é assédio por um motivo bastante lógico: nem sempre a vítima pode dizer “não”.

Alguns depoimentos anônimos que recebemos em nossa pesquisa exemplificam situações que podem ser consideradas assédio mesmo quando não houve o “não”.


“Achei que eu tivesse a resposta do que é assédio bem clara dentro de mim pelo que leio, pesquiso e falo sobre o assunto. Mas só bem recentemente, com 24 anos, percebi que fui assediada por um familiar bastante próximo. Não fui eu que percebi que ele ultrapassou esta linha algumas vezes, foi minha psicóloga que me contou” – mulher, 24 anos

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“Estes dias sofri assédio sexual. Foi muito estranho para mim, que sempre defendi que qualquer situação em que alguma mulher não se sentisse bem é assédio, não reconhecer o que estava acontecendo. Estava bêbada e resolvi deitar na cama na casa de uma amiga. Logo depois entrou um dos meninos presente no lugar e começou a passar a mão em mim e insistir muito para eu beijá-lo, dizendo que meu namorado não descobriria. Depois de um tempo, alguns amigos meus entraram no quarto e este garoto fingiu que estava dormindo” – mulher, idade entre 16 e 24 anos


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“Estava saindo de um salão, estava de shorts pois estava muito calor e passou um cara de carro e parou o trânsito atrás dele para ficar me olhando enquanto se masturbava. Nunca me senti tão mal em ser mulher. Senti nojo e me senti um lixo naquele momento. Sem poder fazer nada, apenas corri pra dentro do salão novamente e fingi que nada havia acontecido” – mulher, idade entre 16 e 24 anos


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"Uma vez eu estava em casa, com amigas e amigos da minha mãe (estavam todos na mesa bebendo e conversando). Fui pegar uma cerveja pra ela, e um dos ‘amigos’ me seguiu até o cozinha. Ele me disse que eu ‘já estava grande, tinha crescido e ficado muito bonita’. Dei um passo pra trás com medo do olhar dele, ele me encurralou na parede e me deu um beijo no pescoço. Mesmo sendo ‘só’ um beijo no pescoço, eu me senti imunda por deixa ele fazer aquilo comigo. Gostaria de ter dito ‘não’ e me afastar dele, mas na hora eu congelei, não sabia o que fazer” – mulher, idade entre 16 e 24 anos


Também é assédio quando você não pode dizer “não” por questões financeiras ou por outras relações de poder

“Eu já sofri assédio dentro de uma empresa. Ele me empurrou para trás da porta de incêndio para as câmeras não filmarem e tentou me agarrar a força. Foi o pior dia da minha vida e não consegui falar com ninguém pois era um supervisor com muitos anos dentro da empresa. Me sinto mal até hoje por não ter contado para ninguém de dentro da empresa” – mulher, idade entre 16 e 24 anos

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Estas e inúmeras outras situações que uma vítima pode passar ajudam a entender que tanto assédio sexual quanto consentimento não podem ser resumidos ao que acontece depois do “não”. A verdade é que falta de consentimento e assédio sexual são sobre o que acontece quando você NÃO disse “sim” – ou nem mesmo teve a opção de dizer de “não”.


Também fizemos um vídeo para explicar um pouco mais porque "assédio" precisa de uma definição mais ampla.

Veja este vídeo no YouTube

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