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Como eu passei de consumista para uma pessoa com 57 peças de roupa

Algumas verdades sobre fazer um armário-cápsula.

publicado

Provavelmente você viu “O Diabo Veste Prada”. Seguinte, trabalhei em uma revista de moda e pela minha experiência posso dizer que o filme aumenta, mas não inventa. Sim, eu vivia sob a pressão me vestir “bem” e “com estilo”. Não, eu não usava peças Chanel nem sapatos Jimmy Choo. Como uma versão Andy da vida real, eu era repórter, tinha um armário de quatro portas e oito gavetas abarrotadas de roupas e sapatos de loja de departamento e qualquer mágoa ou estresse no escritório (vocês viram o filme) era motivo suficiente para me presentear com uma passadinha na Zara.

Felizmente as coisas mudaram: agora trabalho no BuzzFeed, diminuí a "terapia de compras" e superei os excessos, mesmo ainda adorando moda. Ah, e hoje me tornei uma pessoa com 57 peças de roupa.


A primeira vez que ouvi falar de armário-cápsula foi em 2015 e até fiz um post. A ideia começou na década de 70 e a blogueira Caroline Rector deixou pop em 2014. O lance é ter poucas e boas peças de roupa para aproveitar melhor o que se tem e ser mais criativo nas combinações.

Caroline é dos Estados Unidos e criou uma fórmula pensando nas estações do ano: a cada três meses ela seleciona 37 peças de seu armário e guarda as outras. Durante as “coleções” ela não faz compras, só na troca, quando percebe o que está fazendo falta. O número impressiona, mas ela dá uma roubadinha, já que roupas de academia, de festa, pijamas e tal não entram na conta trimestral.

Mesmo simpatizando, não quis o formato da Caroline porque sabemos que aqui no Brasil esse lance de estação a cada três meses quase não rola. Também não queria me restringir a um número, queria um guarda-roupa só com peças que amo muito, independente do tamanho. Antes ter mais do que 37 peças englobando tudo que tenho do que me prender a um número chocante, mas com artimanhas.

Todo mundo que tem roupas demais entende: armário cheio, nada para vestir, quase sempre usando as mesmas coisas. Então eu sabia que meu armário encolheria independentemente do número de peças final.

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Conquistei o sonho do armário-cápsula próprio em novembro do ano passado, depois de me sentir mais feliz que o normal viajando apenas com minhas roupas preferidas na mala. Também não me sinto bem acumulando coisas e sabia que isso estava rolando com minhas roupas.

Você pode ter outros motivos para querer um armário-cápsula, o importante é não se desfazer de um montão de coisas só porque rende boas fotos de Pinterest.

Agora eis um não tão breve guia para te ajudar a criar o seu.


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Bom, não li o livro da Marie Kondo, mas sei que o método dela passa por só ficar com objetos que te fazem feliz. Parece uma boa, mas pensemos no aspecto prático: talvez suas roupas de trabalho não sejam um motivo dos seus sorrisos e você não pode exatamente se desfazer de todas elas. Mas sempre é possível encontrar um caminho: nesse caso, talvez você não precise de tantas camisas absolutamente iguaizinhas e pode começar por aí. Aqui no Buzz não rolam restrições do que vestir, então não tive problemas em relação a isso.

Fui eliminando por:

  • Roupas que não uso ou não me servem mais, mas estão em bom estado para doar

  • Roupas sem condições mais de serem usadas, mesmo escondida em casa

  • Roupas que simplesmente não gostava nem sei porque comprei, ou presentes que não tinham nada a ver comigo, mas não troquei a tempo

Daí deixei só o que gostava muito. Tudo bem manter uma peça que não usava tanto assim, desde que eu tivesse ideia de como começar a usá-la.

Também entendi bem rápido que me faltavam opções de partes de baixo e comprei duas saias que estavam na minha mira há um tempão. Ou seja: o processo pode incluir comprar roupas. Um armário-cápsula não tem muita regra, ele precisa fazer sentido para você e para a sua vida e só.


O passo seguinte foi guardar longe das roupas o que eu não tinha certeza se queria manter. Coloquei em uma mala. Não me dei um prazo para decidir se ia ficar com elas ou não, acho que isso vai do quanto você se considera uma pessoa impulsiva – ou de repente você é muito indecisa e se impor uma data pode funcionar.

Guardei umas 20 peças. Em um mês comecei a cobiçar duas camisas que estavam guardadas e as recuperei de volta. Uma usei bastante e resolvi manter, a outra voltou pro maleiro na primeira lavagem porque não curti tanto. Em algumas semanas olhei o que estava guardado de novo e fiz uma seleção do que podia ir embora mesmo (quase tudo!).

As peças em bom estado foram para o Exército da Salvação. Acho importante dizer que não sou muito apegada a roupas e sempre doei bastante, mesmo quando tinha muita coisa, então já estava acostumada com a dinâmica, sem arrependimentos.

Resultado: sobrou menos da metade do meu guarda-roupa e o processo inteiro durou dois meses.

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A conta ficou assim:

  • 30 peças para o dia a dia, que ficam todas penduradas em cabides, facilmente visíveis. Tenho duas calças jeans, três vestidos, quatro saias, cinco casacos de “quenturas” diferentes, seis camisas e 11 variações de blusas entre manga curta, longa ou regata.

  • 16 peças na minha gaveta de “ficar em casa”, com moletons, roupinhas confortáveis e peças que já foram minhas preferidas e estão mais batidas, mas não queria me desfazer ainda. As que estão em melhor estado vez ou outra saem para passear comigo, nada contra.

  • 3 conjuntos de pijamas. Não estou roubando, eu contabilizo 6 peças. E sinceramente amo bons pijamas e vou protegê-los!

  • 3 peças bem quentes, térmicas ou de lã grossa, que costumo usar em viagens ou quando está muito frio. Elas ficam guardadas lavadinhas em sacos de pano.

  • 1 tricô de família que, mesmo que não use, tem significado, né? Também guardado em um saquinho.

  • 1 vestido de festa, que se Deus quiser eu começo a usar mais. Mesmo caso das peças acima, elas ficam todas reunidas um a uma nesses sacos de tecidos onde normalmente vêm bolsas e sapatos. Tudo isso fica reunido na mesma gaveta.

  • Nenhuma roupa de academia, pois já não tinha mais nenhuma mesmo, mas este ano se Deus quiser eu começo.

  • Depois também diminuí bolsas (fiquei com 5, uma sendo mochila) e sapatos (fiquei com 10), então na verdade tenho 57 roupas, mas 72 peças e acessórios.

  • Calcinhas, meias e sutiãs não entram na conta porque faça-me o favor, tudo tem limite – mas mantive só o que estava em bom estado.

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Com menos roupas, você visualiza muito melhor o que tem, inclusive na sua cabeça, e começa a criar novas combinações. Um pouco óbvio então que você passe a usar muito mais vezes cada peça. Para preservá-las, comecei a ter mais cuidados, mas nada que seja uma grande função.

Não lavo as peças a cada uso, a não ser que elas estejam com alguma sujeira ou cheirando. Você sabe como é a sua transpiração e fica a seu critério o que você considera higiênico, mas cada vez que você lava uma peça ela desgasta um pouquinho. E Deus me dibre de lavar roupa na mão, então passei a pular lavagens desnecessárias e sempre coloco a máquina para bater no modo delicado. Também recomendo lavar itens que pegam bolinhas ou que são mais sensíveis do que a média no avesso. E saquinhos de pano para máquina de lavar também ajudam.

Outra coisa que considero bem importante são algumas ferramentas que te ajudam a manter as peças inteiras por mais tempo. Talvez seja um certo exagero, mas tenho três: um papa bolinhas, um rolo adesivo e uma escovinha mágica removedora de fiapos. Cada um custou menos de R$ 20 e ajudam a preservar as roupas de coisas que você não necessariamente consegue tirar em lavagens. Quando não estão em uso, deixo eles guardados na mesma gaveta das peças em saquinhos e bora.

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Nestes quase cinco meses, acho que só fiquei em dúvida do que vestir UM DIA, sério! Não é papo de blogueira: eu realmente passei a aproveitar muito melhor o que tenho e sou muito feliz só com peças que gosto muito.

E aí, nunca mais comprei nada? Claro que comprei. Com o tempo você acaba substituindo peças, mudando de estilo, se interessando por algo, acho isso bem normal. Durante o processo todo comprei uma bolsa que precisar eu não precisava, mas queria e que estou usando bastante. A vida tem dessas.

Agora, nas eventuais bateções de pernas, penso melhor se a compra é necessária, se a peça combina com o que tenho, se aquilo está me fazendo falta. Também comecei a levar em consideração o custo-benefício: algo de melhor qualidade acaba custando mais, mas também tende a durar mais. Minha relação com consumo e descarte mudou bastante.

Sem neuras: entendo que talvez um armário menorzinho não seja para todo mundo, que cada um sabe do que precisa, do que quer e tudo bem. Mas se você anda flertando com a ideia, recomendo a experiência de um armário-cápsula – com as suas regras, claro.

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