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Artistas estão usando seu trabalho para estimular o debate sobre saúde mental

Jovens negras relatam discriminação no próprio sistema de saúde do Reino Unido.

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A britânica Kirsty Latoya Peters, 24, que é negra, sofreu com a depressão durante anos antes de ter qualquer tipo de apoio.

Só depois que sua mãe morreu, no início deste ano, que um clínico geral sugeriu que ela fizesse terapia — até então, ela vinha lidando com sua doença mental sozinha.

"Tem sido muito traumático", disse Peters, ilustradora do sul de Londres, ao BuzzFeed News. "Eu passei por uma longa fase de depressão e não recebi tanto apoio quanto pensei que receberia. Tive que lidar com boa parte da situação por conta própria."

Peters disse que sua mãe sempre a incentivou a seguir seu sonho de se tornar uma ilustradora. Mas, depois que sua mãe faleceu, Peters parou de desenhar e entrou em uma depressão ainda mais profunda.

Quando um amigo a encorajou a voltou a desenhar, Peters percebeu que a arte a ajudava a lidar com seus problemas de saúde mental. "A arte me ajuda a expressar minhas emoções e meus sentimentos", disse ela. "É a minha terapia, basicamente."

As obras de arte de Peters agora farão parte de uma exposição em Londres cujo objetivo é criar um espaço para as mulheres negras falarem abertamente sobre saúde mental.

Unmasked Women
foi organizada por Nicole Krystal Crentsil, 24, assistente de gerente de projetos que também já passou por problemas de saúde mental e foi repetidamente ignorada quando pediu ajuda.

"Eu também achava difícil falar sobre meus próprios problemas", contou Crentsil ao BuzzFeed News. "Fui ignorada por autoridades locais, serviços públicos e até mesmo amigos e familiares que não entendiam o que eu estava passando. Não desejo isso para ninguém."

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Os dados existentes sobre a saúde mental da população afro-caribenha no Reino Unido mostram um quadro preocupante. De acordo com um relatório de 2013 da NHS (o Sistema Único de Saúde do Reino Unido), os afro-caribenhos, especialmente os mais jovens, estão mais propensos a ser detidos sob a Lei de Saúde Mental — ou seja, serem internados à força e tratados sem consentimento — do que brancos.

Eles também são mais propensos a ser diagnosticados com doença mental grave e até cinco vezes mais propensos a ser diagnosticados e internados por esquizofrenia.

O estigma associado à doença mental, assim como a discriminação racial, podem piorar os sintomas de uma pessoa. Além disso, acredita-se que o medo do racismo institucional seja uma das razões pela quais as pessoas negras relutam em se envolver com serviços públicos de saúde.

Authorrising Zine, projeto de fotografia que explora a miscigenação, também será exibido na mostra Unmasked. Ele foi criado por Gabriela Chase, 23, que acredita que o racismo desempenha um papel crucial na saúde mental de pessoas negras.

Chase, cujo pai é negro, disse que tinha apenas 13 anos quando foi parada pela polícia e advertida sob a Lei de Terrorismo enquanto esperava por seus amigos do lado de fora de uma estação.

"Nós estávamos do lado de fora de uma estação em Croydon, sudeste de Londres, e [acabamos] esperando por uma hora e meia, pois nossas amigas estavam atrasadas. Foi quando fomos abordadas por policiais que disseram que parecíamos suspeitas", contou Chase.

"Foi tão aleatório, porque não estávamos fazendo nada. Eu disse ao meu pai e ele apenas riu de mim. Ele não acreditava que eu passaria por isso, porque eu não era obviamente negra".

Chase acrescentou: "Mas isso é apenas uma coisa normal para as pessoas negras, simplesmente andar na rua e saber que você não precisa fazer nada para a polícia te abordar."

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Em 2015, um estudo realizado pelo jornal "The Independent descobriu que os negros estavam mais propensos a ser detidos e revistados pela polícia do que membros de outros grupos étnicos.

A pesquisa também mostrou que os negros eram até 17 vezes mais propensos a ser alvo de revista do que brancos em certas partes do Reino Unido. Menos de 25% dessas revistas resultaram em prisão.

Embora a maioria das pessoas no Reino Unido acesse serviços de saúde mental por meio de seu clínico geral, isso não acontece com a população afro-caribenha do país. Os negros são mais propensos a acessar esses serviços pela porta dos fundos (por ordem judicial, pelo sistema prisional ou após internação compulsória).

No entanto, estatísticas sobre mulheres negras do Reino Unido ainda são escassas. Cal Strode, porta-voz da instituição de caridade Mental Health Foundation, disse ao BuzzFeed News que mais pesquisas sobre esse grupo são necessárias. Para ela, "a desigualdade e a discriminação são condutores essenciais de problemas de saúde mental".

"Mulheres negras são mais propensas a ser expostas a experiências e fatores de estresse que prejudicam sua saúde mental", disse.

A discriminação no local de trabalho é um dos fatores de estresse.

No ano passado, um estudo do Trades Union Congress mostrou que negros diplomados ganhavam, em média, £14,33 por hora. Já seus equivalentes brancos ganhavam £18,63. Também em 2016, um relatório da Joseph Rowntree Foundation mostrou que quase um quarto de todos os formados no Reino Unido tem mais qualificação do que o demandado por seus empregos. Já entre os formados negros, esse número sobe para 40%.

Também falta consciência cultural nos serviços de saúde mental, segundo Strode, o que torna mais difícil para as mulheres negras conseguirem a ajuda certa. "Se elas acessam o serviço, os problemas de saúde mental são menos propensos a ser detectados e mais propensos a ser diagnosticados erroneamente."

Heather Agyepong, 26, por exemplo, disse ao BuzzFeed News que uma terapeuta com quem ela se consultou no passado a tratou com muito desdém e fez suposições sobre sua cultura.

Na sua primeira sessão de terapia, antes de qualquer pergunta ser feita, Agyepong ouviu comentários como: "Ah, um monte de africanos têm relações ruins com os pais, é muito comum" e "Você provavelmente teve um relação de evitação com sua mãe, então, quando você estava chorando quando era bebê, ela provavelmente te deixou."

"Ela fez esses comentários rápidos e nada foi aprofundado... Ela nunca sequer considerou outras razões pelas quais eu estava deprimida", acrescentou Agyepong.

Pesquisas mostram que negros são mais propensos a receber medicação em vez de receber a oferta de conversar com um terapeuta. Além disso, o NHS atualmente não permite que os pacientes escolham com qual conselheiro ou terapeuta preferem conversar.

Para contornar esse problema, Sait Cham, 25, lançou um aplicativo chamado Recovr, que visa ajudar jovens adultos negros com problemas de saúde mental a encontrar tratamento profissional de terapeutas e conselheiros negros.

O aplicativo busca conectar os usuários com profissionais com as quais eles podem se identificar. "Foi como um um presente divino", disse Agyepong.

Alegría Adedeji, gerente de comunicações digitais e da comunidade do Recovr, disse ao BuzzFeed News que mulheres negras enfrentam vários problemas no Reino Unido para obter ajuda para problemas de saúde mental. É comum elas simplesmente ouvirem que "a vida tem seus desafios" ou que vão "aprender uma valiosa lição no fim".

Adedeji também disse que ser negra e mulher pode significar enfrentar tanto o sexismo quanto o racismo, ambos condutores de problemas de saúde mental. "Isso sem contar fatores como a sexualidade ou a religião", afirma Adedeji.

Entre os 16 e 19 anos, disse Agyepong, ninguém tinha ideia de que ela estava chorando todos os dias. "[Eu estava tão ruim que] eu tive que abandonar a sexta série", disse ela. E, como muitas outras pessoas, ela decidiu não contar a ninguém sobre seus problemas por vários anos — nem mesmo a seus familiares e amigos mais próximos.

No entanto, sua personalidade engraçada e animada fez as pessoas duvidarem de que havia algo de errado com ela. "As pessoas não aceitavam que eu tinha depressão", disse. "Eu era muito brincalhona na escola e na universidade, então ninguém acreditou de verdade em mim."

O projeto de fotografia de Agyepong, chamado "Too Many Blackamoors", também será exibido na exposição Unmasked Women.

O trabalho é sobre uma princesa órfã do oeste africano, Lady Sarah Forbes Bonetta, que, no século 19, aos oito anos, foi dada como um presente para a Rainha Vitória.

Ao pesquisar sobre a vida de Bonetta, Agyepong disse que ficou surpresa ao não encontrar nenhuma menção sobre como a situação impactou psicologicamente a vida da menina. Naquela época, populações africanas eram vistas como subumanas e incivilizadas pelos europeus.

As fotografias de Agyepong desafiam a narrativa da mulher negra forte, resiliente e independente, o que pode ser um fardo. "Quando eu estava lendo sobre a vida de Bonetta, ela sempre era representada como estando muito feliz. No entanto, naquele tempo, obviamente, havia problemas em torno da política de gênero e da raça", disse ela. "Mesmo na televisão, as negras sempre são tratadas como sendo fortes ou corajosas, nunca vulneráveis."

Agyepong espera que sua arte ajude mulheres negras a falar sobre por que elas podem sentir a necessidade de fingir que estão bem, mesmo quando não estão. "Espero que meu trabalho ajude as mulheres negras a ser mais honestas com seus sentimentos e compartilhar suas experiências", disse ela.

Crentsil espera que a exposição Unmasked Women incentive mais organizações a encontrar soluções para os problemas que as mulheres negras enfrentam em relação à sua saúde mental. "Se conseguirmos mudar a ideia que existe em relação à saúde mental do negro, isso pode induzir mudanças políticas", disse ela.

"As mulheres negras lidam com muitas pressões, mas há poucos espaços para discutir e falar sobre isso", acrescentou Crentsil. "Eu, particularmente, quero que mais jovens saibam que não há problema em não estar bem."