back to top

Médico investigado chama paciente de 'galinha para botar ovo' ao justificar cirurgia desnecessária

Ao investigar esquema de médicos que recebiam propina, PF descobriu que até cirurgias desnecessárias eram usadas para fazer dinheiro.

publicado
Coletiva de imprensa da PF após a operação Marcapasso.
Reprodução / Via youtube.com

Coletiva de imprensa da PF após a operação Marcapasso.

Grampos telefônicos feitos pela Polícia Federal revelam esquema de fraudes feitos por médicos e empresas em Palmas (TO), como forma de desviar dinheiro do SUS e de planos de Saúde.

As principais suspeitas são fraudes em licitações para beneficiar empresas pagadoras de propinas, além do fornecimento de produtos fora da validade. No total, dez médicos são suspeitos de receber mais de R$ 4,3 milhões em propina. A PF realizou nesta terça-feira a operação Marcapasso, que cumpriu 137 mandados judiciais, incluindo 12 prisões temporárias.

Mas foi ao grampear um dos principais suspeitos que a PF descobriu que até cirurgias sem necessidades eram feitas, como forma de arrecadar mais dinheiro.

Assim o juiz João Paulo Abe resumiu o episódio:

"Ainda durante as interceptações, em diálogo que choca pela absoluta irrelevância da vida humana e pela evidente mercantilização da saúde, foram recolhidos elementos de convicção que evidenciaram a utilização desnecessária de equipamentos cardiológicos e de procedimentos médico-cirúrgicos, em situações que, aparentemente, não demandavam qualquer intervenção".

O diálogo é do mês passado e o médico Ibsen Trindade, um dos principais suspeitos, manda "cozinhar" o paciente, para fazer um cateterismo. E conclui: "que a galinha dê os ovinhos que têm que dar".

Reprodução

Ibsen foi um dos presos pela investigação e é suspeito, ainda, de usar a conta bancária da mãe de 89 anos para receber R$ 165 mil de propina.

A investigação descobriu também que médicos tiraram equipamentos de hospitais públicos para levar para clínicas particulares. Um exemplo foi um gerador de marcapasso que foi utilizado.

Reprodução

Na decisão, o juiz chama atenção para o crítico estado da rede de saúde de Palmas. Ele chegou a falar que os atendimentos de cardiologia poderiam ficar comprometidos em razão do número de médicos suspeitos. Por isso, a prisão temporária foi de três dias, em vez de cinco.

"Por fim, conquanto o Departamento de Polícia Federal tivesse identificado na cidade de Palmas a existência de 31 médicos especializados em cardiologia e atividades correlatas, dessumindo-se de tal circunstância a inexistência de abalos irreparáveis na custódia dos aludidos investigados, entendo que a prisão temporária de mais de 10 médicos cardiologistas em plena atividade poderá ocasionar algumas dificuldades para a realização de procedimentos desta natureza nesta municipalidade", escreveu o juiz.

Ibsen foi um dos presos e sua defesa não foi localizada pelo BuzzFeed News.



Filipe Coutinho é repórter do BuzzFeed News, em Brasília

Contact Filipe Coutinho at filipe.coutinho@buzzfeed.com.

Got a confidential tip? Submit it here.