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Como Taylor Swift construiu toda a sua carreira bancando a vítima

O vitimismo da cantora não começa nem termina com Kanye West, mas vem desde o início. Até que Kim Kardashian aparecesse com provas, isso mal tinha sido notado.

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Em janeiro do ano passado, Kanye West ligou para Taylor Swift para perguntar se ela se importaria de ele escrever uma música que insinuasse que os dois tivessem transado. Depois de ouvir os versos, ela respondeu que a letra "não importava". E teve uma ideia.

"Se as pessoas me perguntarem", disse, sua voz demonstrando animação, "acho que seria legal de minha parte agir, tipo: 'Olha, ele me ligou para falar da letra antes de ela ser lançada. É brincadeira, pessoal! Estamos bem!'". Então, Swift disse a West que faria exatamente isso no tapete vermelho do Grammy, semanas depois do lançamento da música.

Quando a música "Famous" foi lançada, no entanto, o repúdio do público foi imediato. A letra foi descrita como sexista, misógina e profundamente ofensiva, com muitos fãs de West ameaçando boicotá-lo. Ele tentou explicar que Swift estava ciente do conteúdo, mas ela não cumpriu o trato. Em vez disso, Swift fez uma declaração pública chamando a música de "misógina" e dizendo que havia se posicionado contra seu lançamento a West.

No Grammy, quando Swift subiu ao palco para receber o prêmio de Álbum do Ano, fez um duro discurso. "Para todas as jovens que estão por aí", disse, "haverá pessoas em seu caminho que tentarão diminuir o seu sucesso ou receber crédito por suas conquistas". Então, olhando diretamente para as lentes da câmera, disse: "Ou de sua fama." Ela fez uma pausa por vários segundos, permitindo que sua mensagem se espalhasse.

Swift observou de perto a reação negativa a "Famous", com seu porta-voz dizendo que ela nunca teve conhecimento do verso “Eu fiz aquela vadia famosa" de antemão. Ela manejou a situação fazendo um papel que já conhecia muito bem: o de vítima.

O discurso de Swift no Grammy foi indiscutivelmente o que impulsionou a esposa de West, Kim Kardashian, a se intrometer. Três meses após a cerimônia do prêmio, ela disse à revista "GQ" que acreditava que o discurso tinha sido uma tentativa deliberada para "acabar" com West depois de ele não ter feito nada além de "seguir o protocolo". Ela declarou também que não só Swift tinha "aprovado totalmente" a letra de "Famous", mas que também havia uma gravação para provar isso. A resposta oficial de Swift à entrevista acabou com a seguinte frase: "Taylor não entende por que Kanye West e agora Kim Kardashian não a deixam em paz".

Dois meses após a entrevista, vimos Kim Kardashian sentada em um sofá de veludo falando sobre esse assunto com sua irmã Kourtney enquanto as câmeras de "Keeping Up With the Kardashians" rodavam. "Você sabe que eu nunca vou falar merd* de ninguém publicamente, especialmente em entrevistas", disse Kim à sua irmã. "Eu só senti que precisava defender Kayne nessa." Girando seus olhos cheios de delineador para o teto, ela suspirou: "Foi só mais uma forma de ela se fazer de vítima. Isso definitivamente chamou muita atenção para ela da última vez".

Assim que o episódio foi ao ar, Kim foi ao Snapchat e postou 22 clipes consecutivos sem contexto ou legendas. Mas nenhum dos dois foi necessário: ficou imediatamente claro que ela tinha vazado a gravação da ligação entre West e Swift. É crucial notar que foi preciso mais uma mulher caucasiana -- embora uma com uma história complexa de proximidade e apropriação da cultura negra -- para expor Swift. West jamais poderia ter liberado esse áudio, pois isso teria sido uma continuação da posição de "ameaça" que ele ocupou em sua narrativa -- algo que Swift mencionou em sua declaração sobre a ligação.

Nessa declaração, ela pediu para ser "excluída da narrativa, da qual eu nunca pedi para fazer parte desde 2009". Ao fazer isso, ela relembrou do momento em que encontrou West pela primeira vez, no MTV VMA, onde uma jovem Swift segurava o seu prêmio quando West entrou no palco como uma tempestade, tirando dela o microfone e dizendo que Beyoncé deveria ter ganho em seu lugar.

No entanto, na ocasião, West não estava sugerindo que ela não era merecedora -- ele estava se opondo contra o racismo sistêmico na indústria da música que consistentemente favorece artistas brancos. Depois do incidente, West disse: "Isso não é sobre o Kanye West. Isso não é sobre a Taylor Swift. Há muitas pessoas na América que sentem que não tem uma plataforma para expressar o racismo velado."

Ele continuou dizendo que o painel de juízes da MTV deu o prêmio a Swift em uma tentativa de preencher o vazio de "jovem estrela do pop branca" deixado por Britney Spears, adicionando que sentiu a necessidade de "ficar bêbado" para conseguir lidar com "todas as mentiras" na cerimônia.

A reação dominante, no entanto, foi um reflexo do que o mundo foi condicionado a ver: a "ameaça" de um homem negro "furioso" aterrorizando a "inocente" mulher branca. Até mesmo as roupas alimentaram o cenário vítima/vilão que iria definir o incidente: a imagem de West, usando cores escuras e uma roupa completamente preta, contra a Doce Swift, em seu vestido de festa branco e prateado.

A queda de West foi imediata. A opinião pública se espalhou tão drasticamente que até mesmo o presidente Barack Obama o rotulou como um "babaca". Swift, por outro lado, conseguiu capitalizar o estereótipo do "homem negro furioso", um arquétipo que já foi descrito como uma "invenção da imaginação branca" para encarcerar e oprimir homens negros. Para Swift, foi a melhor RP. O incidente pode não ter tornado-a famosa, como diz a letra de "Famous", mas com certeza a impulsionou para dentro da consciência mainstream.

Apesar de dizer que quer ser "excluída da narrativa", Swift lembrou o público sobre essa mesma narrativa inúmeras vezes em piadas e discursos. Ela tem até uma foto emoldurada do momento em sua casa de Nashville.

Em 2010, Swift escreveu "Innocent", em que perdoou West: "32 e ainda crescendo / Você não é o que você fez / Você ainda é inocente". Swift lançou a música com uma apresentação no VMA da MTV, abrindo com um replay da invasão de palco de West do ano anterior. No entanto, a cena foi editada para omitir a fala infame de West, e o take final deu destaque ao rosto da cantora com uma expressão triste.

Pode parecer que a postura de vitimismo de Swift está fundada em sua relação com West. Mas ela pode, na verdade, ser traçada desde o comecinho de sua carreira.

No começo de sua carreira, Swift aderiu aos indicadores da fragilidade feminina branca, apresentando-se como uma figura ingênua dos tempos modernos. Sua passividade e pureza eram a peça central de sua narrativa. Esses traços se manifestaram em seus vídeos -- vestidos de festa brancos, cabelos ondulados soltos, Swift olhando para fora de torres de castelos -- e foram retratados em suas letras. Swift cantou sobre esperar por um homem em um "cavalo branco" para vir salvá-la, apaixonado "ajoelhando-se no chão" e pedindo-a em casamento, bem como ser "encantada" por "contos de fadas".

A ideia de inocência sexual formou-se enquanto ela lamentava por sua melhor amiga, que teria dado "tudo o que ela tinha" para um "cara que mudou de ideia", e também a partir de repetidas menções a "outras mulheres" roubando seus interesses amorosos. Sua inocência também contribuiu para o impacto emocional do seu tema mais comum: Swift como vítima de um namorado ruim ou sendo rejeitada por um crush. Esse é um assunto muito comum na música pop teen, mas, para Swift, foi a base de sua postura de vítima.

Em "Cold as You", uma faixa de seu primeiro álbum, lançado em 2006, Swift canta: "Você aparece com uma ótima historinha / Da bagunça de uma sonhadora com paciência para te adorar". Em "You're Not Sorry", de seu segundo álbum, diz: "Todo esse tempo eu estava desperdiçando / Esperando que você viria / Eu te dei chances / Mas você só sabe me decepcionar." Em "Tell Me Why", também de seu segundo álbum, ela está tão exausta da rejeição que está literalmente "no chão", cena que ela mais tarde reviveu em “I Knew You Were Trouble”.

Conforme Swift tornava-se uma celebridade, seus interesses amorosos transformaram-se de crushes anônimos do ensino médio para homens famosos. Quando esses relacionamentos terminaram, a mídia reportou todo o drama, e Swift fez o de sempre: escreveu sobre suas experiências. Como ela disse uma vez, essas letras foram compostas "em sua maior parte de corações partidos ou dores que foram causadas por outra pessoa e sentidas por mim". Querendo ela chamar atenção ou não, apresentar-se como vítima da traição de ex-namorados famosos abasteceu a cobertura da mídia.

Por exemplo, quando ela e Joe Jonas terminaram em 2008, Swift foi ao horário nobre da TV para culpá-lo. Em entrevista no "The Ellen DeGeneres Show", ela disse: "Quando eu encontrar a pessoa certa, não vou conseguir me lembrar do garoto que terminou comigo por telefone em 25 segundos quando eu tinha 18 anos".

Mais tarde, no mesmo ano, ela falou sobre o término durante seu monólogo no "Saturday Night Live", dizendo: "Você pode achar que eu falaria sobre Joe, o cara que terminou comigo pelo telefone. Mas eu não vou falar sobre ele no meu monólogo. Hey, Joe, estou me saindo muito bem, hoje estou apresentando o 'SNL'”.

Ela também escreveu a música “Better Than Revenge”, assumindo abertamente ser sobre a mulher por quem Jonas alegadamente a trocou. Ela alimentou os rumores quando revelou a inspiração por trás da música: "É sobre uma garota que roubou meu namorado. Acho que ela provavelmente achou que me esqueci disso". Virando sua cabeça lentamente e olhando a câmera de lado, ela confirmou: "Não me esqueci".

Swift continuou chamando a atenção para os assuntos de suas músicas quando seus relacionamentos com Jake Gyllenhaal e John Mayer terminaram. Durante a apresentação de “We Are Never Ever Getting Back Together”, Swift pediu à multidão que "cantasse junto" antes de dizer: "Jake, é a sua vez!".

Seu tempo com Mayer inspirou a música "Dear John", que tinha em sua letra: "Você não acha que 19 anos é cedo demais para jogar seus jogos sombrios e bagunçados?".

Foi conveniente que a duração desses relacionamentos coincidiu com a expansão contínua da indústria de fofocas on-line. O ano de 2008 viu o relançamento do gigante "MailOnline", que logo tornou-se conhecido por sua incessante cobertura sobre as celebridades, bem como viu um aumento do uso das redes sociais por celebridades. O Twitter, que teve seu maior ano de crescimento em 2008, e o Instagram, depois de sua chegada em 2010, foram utilizados por famosos para controlar suas próprias narrativas, guiando suas representações na imprensa. Isso foi especialmente poderoso porque a indústria da fofoca buscava uma nova narrativa depois do reino de Britney Spears, Lindsay Lohan, Paris Hilton, Nicole Richie e Amy Winehouse, sobre as quais tinham sido feitas matérias sobre direção sob a influência de álcool, sentenças de prisão e períodos de reabilitação. O Drama de Swift, de uma doce e despretensiosa jovem sendo repetidamente injustiçada por homens famosos, era algo mais reconhecível e prazeroso para a mídia contar. Para Swift, isso foi traduzido em recorde de vendas.

"Speak Now", o primeiro álbum da cantora lançado após o incidente do VMA e seus términos de relacionamento com Mayer e Gyllenhaal, teve quatro músicas que posicionaram firmemente Swift como vítima -- a já mencionada “Dear John”, “Better Than Revenge”, e “Innocent”, bem como a faixa “Mean”, sobre sofrer bullying no ensino médio.

Aí veio Harry Styles e o relacionamento que se tornaria o ápice dessa dinâmica de vítima/vilão. Styles tinha recebido o título de garanhão depois de uma série de relacionamentos e términos. Swift, por outro lado, ainda estava construindo a imagem de garota inocente. A combinação dessas imagens teria um desfecho certeiro: um coração partido que poderia ser apropriado para construir uma narrativa.

A curta união chegou ao fim após o Natal. Provas do estado emocional de Swift rapidamente surgiram na forma de fotos de paparazzi dela saindo de uma ilha exótica. A imagem dela sentada sozinha e desamparada na traseira de um barco, olhos cobertos por óculos escuros, mãos derrotadas entrelaçadas em seu colo, foi uma representação evocativa de seu coração partido.

Esse término, no entanto, sinalizou uma mudança aparente de estratégia. Em vez de abertamente fazer referência a Styles em entrevistas e músicas, ela começou a discutir sua vida amorosa em termos mais criptográficos, manifestados em letras com trocadilhos. Foi uma ação brilhante -- uma que serviu para aumentar a fascinação por sua vida pessoal. Como um perfil da "Vanity Fair" descreveu: "Swift escreve músicas sobre os caras que ela namora e depois manda os fãs a uma caça para que descubram quem eles são".

Um dia após o término com Styles, Swift tuitou as palavras: "Até você me decepcionar." (Til you put me down.) Era uma parte da letra de sua música “I Knew You Were Trouble”. Foi uma tentativa magistral de ligar a narrativa da música a esse término, sugerindo que a música era sobre Styles. Mais tarde, no mesmo ano, perguntaram a Taylor como ela se sentia ao cantar a música na frente de Styles. Ela respondeu: "Bem, não é difícil ter acesso àquela emoção quando a pessoa a quem a música é direcionada está em pé ao lado do palco assistindo."

O problema? A duração do relacionamento não permite que a letra tenha sido escrita sobre ele. Swift revelou que a ideia da música veio aproximadamente em janeiro de 2012. Isso aconteceu ao menos três meses antes de ela conhecer Styles. No entanto, o clipe para o single sugere claramente que a música é sobre ele, até usando um modelo parecido com o cantor e com uma tatuagem idêntica.

“I Knew You Were Trouble” foi lançada no final de novembro, chegando ao primeiro lugar das paradas nove semanas depois - um pouco antes do final do término de Taylor e Styles. E ficou no topo por mais sete semanas. Em outras palavras, ao manipular a linha do tempo, Swift conseguiu se apresentar como a vítima das ações de um suposto galanteador, criando o tipo de narrativa que ajudaria a vender discos.

Swift continuou essa narrativa quando, depois de apenas um mês do término, ela apresentou “We Are Never Ever Getting Back Together” no Grammy. Essa música apresenta um interlúdio falado, em que Swift diz: "Ele me liga e diz 'eu ainda te amo'". Na apresentação no Grammy, ela disse a frase "I still love you" (eu ainda te amo) com sotaque britânico.

Essa música também não era sobre Styles, mas o sotaque britânico nos lembrou da separação. Mais tarde naquele ano, ela recebeu um MTV Award por “I Knew You Were Trouble”, dizendo: "Eu quero agradecer à pessoa que inspirou essa música, ele sabe exatamente quem é, porque agora eu tenho um desses", enquanto a câmera cortou para um Styles de aparência claramente desconfortável.

"Red", o álbum que contém as duas músicas, chegou a ultrapassar as vendas de "Speak Now", quebrando recordes e fazendo Swift a quarta artista a conseguir vender um milhão de cópias na primeira semana de venda por duas vezes.

Então, em uma tentativa aparente de ligar o término com Style à próxima fase de suas composições, ela tuitou, apenas alguns dias após a separação: "De volta ao estúdio... Uh oh."

Esse tuíte permitiu que Swift empurrasse a narrativa do término além dos pontos finais de seu ciclo de notícias. Ao sugerir que ela estava indo ao estúdio para escrever músicas sobre Styles, ela criou interesse em torno de um álbum dois anos antes de ele ser lançado. E ela garantiu que ele estivesse na mídia quando, ao longo do reino de "1989", ela divulgou informações suficientes sobre as músicas para sugerir que elas eram sobre Styles sem nunca confirmar essa informação.

Ela descreveu “Out of the Woods” como sendo sobre um relacionamento "frágil e passageiro", exatamente como seu romance tinha sido percebido pelo público. A música também continha inúmeras referências potenciais a Styles: o "colar de avião de papel" que ele deu a Swift, por exemplo e a menção a um acidente de moto de neve sobre o qual "ninguém sabia" (o que levou fãs a acharem fotos de Styles com pontos).

No entanto, talvez a tentativa mais flagrante de Swift de ligar todo o álbum ao seu relacionamento com Styles tenha acontecido durante um perfil para a "Rolling Stone". Uma música havia chamado a atenção do entrevistador, a sobre um cara de "cabelo comprido", que tinha o nome de "Style" [Estilo]. Quando o repórter ligou o título da canção ao nome de Styles, Swift nem confirmou nem negou nada. Ela simplesmente respondeu, com um sorriso: "Nós devíamos ter apenas chamado a música de 'I'm Not Even Sorry [Eu nem mesmo sinto muito]'."

Ao provocar a imprensa e o público dessa forma, Swift conseguiu controlar a narrativa em volta de seus relacionamentos, garantindo a atenção constante da mídia e reforçando as vendas dos seus discos. Ela criou uma narrativa tão atraente, tão regular e tão melodramática que lembrava uma novela: claro que queríamos saber do próximo episódio. Ela ensinou o público -- gradualmente, de maneira inteligente -- a esperar pelo próximo acontecimento. Por que o público é tão obcecado por seus relacionamentos? Porque ela fez dele irresistíveis.

Ela criou uma narrativa tão atraente, tão regular e tão melodramática que lembrava uma novela: claro que queríamos saber do próximo episódio. 

No entanto, quando "1989" se concretizou, Swift indiscutivelmente tinha exagerado. Ao repetir a mesma narrativa com cada relacionamento, ela falhou ao dosar a fascinação e a superexposição. Então, antes do lançamento do álbum, ela atribuiu a responsabilidade pela fascinação com sua vida amorosa à imprensa. Ao se apresentar como vítima da mídia, Swift ofereceu uma boa narrativa para enfrentar a retórica cada vez mais negativa ao redor de sua vida amorosa.

A negatividade tinha, na verdade, alcançado um ponto de inflexão. Swift foi chamada de "psicopata", "devoradora de homens" e "desesperada". Sua vida amorosa se transformou em assunto de piadas e análises e contribuiu para ela ter sido votada como uma das celebridades mais odiadas do ano de 2013. Então, quando ela retornou com "1989", Swift fez de seu foco o sexismo: "Para uma mulher, escrever sobre seus sentimentos e depois ser retratada como uma namorada desesperada, louca e pegajosa... Isso está se tornando em algo que é, francamente, um pouco machista".

Invocar o sexismo foi de certa forma irônico, já que ela publicamente havia criticado o feminismo mais cedo em sua carreira. No entanto, em 2014, Swift viu as conversas sobre o feminismo se tornando populares e usou isso a seu favor. Ao sugerir que o retrato da mídia sobre sua vida amorosa tinha sido injusto e sexista, Swift conseguiu absolver-se de qualquer culpa sobre a maneira com que seus relacionamentos foram reportados e percebidos.

No entanto, a mídia não inventou a imagem de "namorada desesperada e pegajosa" do nada. Ela sempre esteve lá em suas letras.

Em "Picture to Burn", por exemplo, Swift canta: "Eu não realizei minha fantasia perfeita / eu percebi que você se ama mais do que me ama / Então vá e diga aos seus amigos que sou obsessiva e louca / Tudo bem / Eu vou dizer aos meus que você é gay".

O refrão e o segundo verso continuam: "Então assista-me acender um fósforo / Sobre todo meu tempo perdido / Até onde eu sei / Você é só mais uma foto para queimar / Não há tempo para lágrimas / Só estou sentada aqui planejando a minha vingança / Nada me impede de sair com todos os seus melhores amigos".

A ideia de Swift como uma namorada obsessiva também está presente em "I'd Lie", em que canta: "Eu conto as cores em seus olhos / Eu conheço todas as suas músicas preferidas / E eu poderia dizer a você que sua cor preferida é verde / Ele adora discutir / Nasceu no dia 17 / Sua irmã é linda / Ele tem os olhos do pai / E se você me perguntasse se eu o amo / Eu mentiria."

A letra de "Enchanted" beira o histerismo, já que Swift canta sobre ser enfeitiçada por alguém com quem se encontrou uma vez: "A questão que não sai da minha cabeça e que me mantém acordada / Às 2 da manhã / Quem você ama? / Estou andando para lá e para cá / Desejando que você estivesse em minha porta / Essa sou eu rezando para que essa seja a primeira página / Não onde a história termina". Ela continua até repetir o verso "Por favor, não esteja apaixonado por outra pessoa" três vezes antes de a música terminar.

E em "The Way I loved you", Swift canta, literalmente: "Você está tão apaixonado que age de maneira insana / Essa é a forma como te amei".

É indiscutível, então, que a percepção de Swift como uma "louca e obsessiva" foi enraizada em seu trabalho.

No entanto, divulgar "1989" como uma observação mais madura da vida amorosa legitimou as declarações de Swift de que a imagem da mídia de que ela era uma sedutora desesperada era incorreta. Tão incorreta, na verdade, que ela teria sido "humilhada" por ainda estar solteira.

Essa confissão atraiu simpatia e permitiu que Swift se reinventasse em uma era de empoderamento feminino. É indiscutível, no entanto, que Swift não é de forma alguma uma aclamadora do movimento. Isso fica claro em seus comentários sobre haver um "lugar especial no inferno para mulheres que não conseguem apoiar outras mulheres" e a repetida menção de seu "incrível grupo de amigas" que sempre "estão entusiasmadas em relação a outras mulheres". Mas, como o "Washington Post" pontuou: "Há uma diferença entre ser feminista e se chamar de feminista. O feminismo é mais do que apenas apoiar suas amigas ou só exibir frases encantadoras sobre o 'girl power'; é um movimento político com objetivos políticos".

Na verdade, seu grupo zomba dos princípios feministas ao ser um clube exclusivo e esmagadoramente branco, magro e heterossexual -- e isso acontece porque Swift enxerga o feminismo somente a partir de sua própria experiência pessoal. Quando perguntada sobre o tipo de conversas feministas que tinha com suas amigas, Swift disse: "O tipo de coisas que conversamos é: 'Por que é divertido e sexy um cara ter várias amantes que ele deixa de lado? No entanto, se uma mulher sai com três ou quatro caras em um período de oito anos, ela é uma namoradora em série?'".

Não é fácil deduzir que a "mulher" anônima nesse cenário é Swift, lembrando o público do sexismo que ela enfrentou. Longe de expressar os valores feministas por meio de situações tangíveis -- como, por exemplo, comentando publicamente sobre o suposto assédio sexual contra Kesha e oferecendo sua opinião sobre a eleição de Trump à Presidência dos EUA -- Swift invoca o feminismo para garantir sua postura como vítima.

No entanto, assumir essa postura feminista aumentou seu recorde de vendas. O principal single de "1989", "Shake It Off", uma despedida definitiva do "retrato sexista que a mídia fazia dela", tornou-se o single mais vendido de toda a sua carreira.

Ainda assim, apesar de sua vontade de expressar seu novo interesse no feminismo e o desejo de apoiar outras mulheres, foi, na verdade, sua situação com Katy Perry que se tornou um momento crucial em sua carreira. Ela não só se apresentou como vítima de uma Nêmesis feminina, mas a briga também a expôs como uma manipuladora poderosa e magistral da imprensa.

A briga começou com Swift escrevendo "Bad Blood", uma outra música sobre ser injustiçada que, na superfície, parecia ser sobre o fim de um relacionamento romântico. Ainda assim, na corrida para o seu lançamento, Swift revelou que a música não era sobre um cara, mas sim sobre uma mulher da indústria da música que havia tentado "sabotar" uma série de shows da cantora.

Os fãs rapidamente concluíram que a música era sobre Perry. No entanto, Swift alterou sua história em uma entrevista subsequente, dizendo que tinha se sentido pressionada a direcionar a culpa a outra pessoa que não fosse um ex-namorado: "Sabe, você está em paz com seu ex-namorado e não quer que ele pense que você está atacando. Então você diz: 'Foi sobre perder uma amiga'. E isso é basicamente tudo o que você diz."

Além do fato de isso não ter sido tudo que Swift disse -- sua revelação de que a disputa tinha acabado e que a outra parte estava alegadamente "roubando" dançarinos diminuiu enormemente a lista de potenciais sujeitos -- o que ela revelou depois foi fascinante: "Eu sabia que a música seria associada a uma pessoa, e o mais fácil era alguém que eu não queria que fosse rotulado com essa música. Eu só precisava desviar [o público] do alvo mais fácil".

Em outras palavras, ela evitou a erupção de um rumor indesejado criando um novo, o que revela o quão inteligente Swift é: sua habilidade de manipular as letras e os sujeitos em suas músicas da forma que melhor vá se adequar aos seus desejos de RP.

Swift não é sempre tão sutil sobre ser a vítima, como ficou claro em sua disputa com a cantora Nicki Minaj. Quando Minaj tuitou sobre o racismo sistêmico na indústria da música depois de seu vídeo não ter recebido uma nomeação ao VMA da MTV, Swift assumiu que o comentário era sobre ela. Swift se tornou tão especialista em construir narrativas que ela não só se vê como a vítima em histórias explicitamente sobre ela, mas também como assunto de todas as histórias.

Então, em uma ação estranhamente reminiscente de sua situação com West em 2009, Swift pintou Minaj de vilã e se apresentou como a parte inocente: "Eu não fiz nada além de te amar e te apoiar. Não combina com você colocar mulheres umas contra as outras. Talvez algum dos homens tenha tomado o seu lugar".

Minaj confirmou que seus comentários não eram especificamente sobre Swift, mas sobre algo mais amplo na indústria da música: "As mulheres negras influenciam muito a cultura pop, mas são raramente premiadas por isso".

A resposta de Swift transformou uma questão de racismo institucional em uma briga entre mulheres, silenciando Minaj. Ela se colocou no centro de um desabafo sobre as dificuldades enfrentadas por mulheres negras, enquanto ignorava que o sistema inerentemente a beneficiava.

Swift até mesmo se apropriou das influências mencionadas por Minaj, tirando proveito delas. No clipe de "Shake It Off", ela veste uma bomber jacket e uma corrente de ouro e tenta fazer twerk, antes de se arrastar por entre as pernas de dançarinas de maioria negra, compondo a fetichização histórica do corpo negro feminino. Ela também foi repetidamente acusada de forjar o termo "squad" para dizer "grupo de amigos" -- uma palavra que na verdade tem suas raízes na cultura negra.

Na verdade, o "squad" de Swift se tornou o pilar de uma estratégia bem-sucedida de marketing que mudou sua imagem na época do lançamento do "1989". A composição de um "squad" de mulheres lindas e descoladas pode ser lido como um "vai se ferrar" de Swift a todas as garotas que a oprimiram e rejeitaram na adolescência. Em outras palavras, até quando apresenta seu triunfo em sucesso, Swift ainda consegue invocar seu vitimismo passado.

Uma técnica similar foi usada em uma segunda vertente de sua estratégia de RP -- fazer amizade com fãs vulneráveis on-line. Ela deu conselhos a adolescentes sendo oprimidos, palavras profundas e uma playlist a uma fã sofrendo com o fim de um relacionamento e um cheque de $ 1.989 para ajudar a pagar um financiamento estudantil. No entanto, no meio disso, havia um senso compartilhado de vitimismo, exemplificado em um comentário que ela deixou para uma fã: "Nós passamos pela vida com uma lista de apelidos pelos quais já nos chamaram (e eu pressinto que a minha seja maior do que a sua ;) ). Mas não significa que essas coisas são verdade e não significa que devemos deixar esses apelidos nos definirem. Você é uma garota LINDA e amável".

Essa estratégia se estendeu em seu Tour Mundial do "1989", onde as apresentações foram intercaladas com longos discursos sobre crescer, se apaixonar, sofrer bullying e continuar forte. O mais famoso de todos foi o discurso antecedente à apresentação de "Clean", em que ela implorou aos fãs que nunca deixassem que as percepções dos outros os definissem. O discurso circulou amplamente no Tumblr, com alguns fãs até mesmo tatuando as frases.

O resultado foi dobrado: ao dar conselho aos fãs e se colocar dentro da narrativa, ela os encorajou a se conectarem com as mensagens que apresentava, comprarem seus discos e pagar pelos seus ingressos de shows, abastecendo a marca Taylor Swift. E, a cada vez que Swift conquistava os fãs por meio do vitimismo, isso também resultava em uma fartura de atenção positiva da mídia. Foram-se os dias em que ela era rotulada de "precoce", "maliciosa" e uma celebridade sobre quem ninguém queria ler. Ela agora ela considerada a "estrela mais legal DO MUNDO", a "pessoa mais incrível do planeta", alguém com um "coração de ouro".

Depois da situação com West e Kardashian, essa percepção positiva de Swift ficou em farrapos. A briga expôs que a fragilidade branca é o componente mais imperativo no sucesso de Swift. Apresentar o melodrama da mulher branca permitiu que Swift firmasse sua postura como vítima e resolvesse qualquer conflito com facilidade, sem levar nenhuma culpa. No entanto, seu conflito com West não pode ser considerado insignificante -- há coisas sinistras por trás disso. Isso provou que Swift sabia do poder que ser uma mulher branca lhe trazia -- a presunção de inocência e empatia -- e que ela usou isso em sua vantagem para manchar a reputação de West enquanto fortalecia a sua própria. Swift propagando essa narrativa de mulher branca frágil para pintar o homem negro de vilão é "cruel", no mínimo, e, no máximo, perigoso.

E também há o fato que, enquanto as referências ao vitimismo em suas letras são cruciais para reter sua base de fãs, elas se aplicam apenas a mulheres como ela. Ou seja, mulheres brancas, de classe média, heterossexuais e femininas. Qualquer outra pessoa não está representada em suas letras e não são levadas em consideração na comunicação mais ampla de Swift com o mundo. Na verdade, em vez de falar aos fãs sobre a desigualdade, ela escolher falar sobre se sentir "machucada" pelo final de um relacionamento. Consertar os devidos erros culturais de "Shake It Off" foi deixado para trás em favor de um novo clipe retratando "uma fantasia africana colonial". E a única vez em que foi lhe dada a oportunidade de aprender sobre a experiência das mulheres negras (por Minaj), Swift imediatamente voltou à sua postura de vítima. Na verdade, sua frágil feminilidade branca é meramente um reflexo de seu privilégio. Ela se sentir tão profundamente vitimizada pelos tuítes de Minaj e West é a prova de que nunca sofreu nenhuma opressão.

E, ainda assim, ela se transformou na porta-voz e avatar de uma nova maneira como as mulheres jovens estão vendo o mundo e estabelecendo seu lugar nele. Isso deve-se em grande parte à sua adoção de elementos "divertidos" e "convenientes" do feminismo -- amizade, festas do pijama, trazer as Campeãs da Copa do Mundo Feminina ao palco com ela -- e usar esses elementos como ferramentas de autopromoção. A postura é danosa a fãs que acreditam que o sucesso seja medido pelo número de supermodelos que pode contar como amigas, mas também é danoso a mulheres como um grupo. Conforme a administração do presidente dos EUA, Donald Trump, ameaça tirar das mulheres seus direitos fundamentais, enviando uma mensagem profundamente misógina a mulheres de toda a parte -- e especialmente às minorias -- nós precisamos do feminismo como nunca antes. Mas festas do pijama, banalidades de "girl power" e vitimismo pessoal não são o suficiente. Precisamos do feminismo fundado em desafio, força e união e levado pela raiva de uma injustiça e desigualdade mais ampla.

Ainda assim, a imagem que fez com que Kim expusesse Swift foi uma da cantora em pé no palco do Grammy. Lá estava Swift usando a fragilidade feminina branca para compor a já velha narrativa dela como vítima e West como vilão, enquanto simultaneamente pedia que todas as jovens trabalhassem duro. No entanto, de todas as pessoas que a ajudaram a criar seu álbum vencedor do Grammy e estavam no palco, não havia nenhuma outra mulher.


Quando a crise com West e Kardashian surgiu, Swift também estava no meio de outra situação -- seu curto romance com Tom Hiddleston -- muito repudiada pelo público. A imagem de Hiddleston e Swift brincando no mar com ele vestindo uma camiseta estampada com suas iniciais foi considerada pelo público como uma prova de que a relação nada mais era que uma jogada de RP, e o casal foi zombado sem piedade nos 3 meses da união. Desde então, Swift vem tentando se esconder dos olhos do público, evitando as redes sociais e passeios em que pode ser pega por paparazzi, em uma tentativa aparente de acalmar a opinião pública. Nas poucas vezes em que foi vista, ela demonstrou uma grande mudança de imagem.

Recentemente, ela se alinhou com mulheres que, na superfície, parecem mais duronas -- como Gigi Hadid e Cara Delevigne, duas jovens tatuadas, abertas sobre sua sexualidade e que já se envolveram em escândalos com drogas. A associação de Swift com o "bad boy" Zayn Malik, assim como com Drake e Nelly, também sinaliza uma mudança de foco dos membros brancos e femininos de seu grupo de amigos. Ela se fantasiou de um personagem pansexual de Deadpool para o Dia das Bruxas; está com um cabelo mais desgrenhado, mais delineador nos olhos e há rumores de uma tatuagem. Recentemente, ela escreveu e lançou uma música para o filme "50 Tons Mais Escuros".

Swift está claramente rejeitando a feminilidade e a postura de vítima que ela ocupou por tanto tempo. Ela é fã das narrativas, e a reinvenção de sua imagem é o começo de uma nova. A pergunta é: depois de ser exposta bancando a vítima por mais de uma década, será que alguém vai acreditar?



Este post foi traduzido do inglês.

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