Como era fazer um aborto em 1959

Ilegal, secreto, caro e muito assustador. Uma avó norte-americana de 74 anos conta sua história.

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Manhã de sábado, 7 de março de 1959

Uma chuva gelada caía sobre a estação Grand Concourse, então esperei o táxi no vestíbulo de um prédio. Através do vidro, vi uma mulher gesticulando para que eu me apressasse. Atravessei a rua correndo, sem guarda-chuva.

Eu morava em Nova York (EUA), mas tinha ido ao bairro do Bronx apenas algumas vezes. Não tinha ideia de onde estava.

O táxi parou na frente de um prédio residencial. Meu acompanhante me levou até o 12º andar e foi embora quando a porta se abriu. Uma loira de uns 50 e poucos anos me convidou para entrar no apartamento.

Eu conseguia enxergar a sala de jantar e uma mesa coberta com uma toalha branca. “Vamos começar pelo começo”, disse ela. “Você trouxe o dinheiro?” Dei o dinheiro para ela, e ela contou: cinco notas de 50 dólares. Mais do que eu ganhava num mês.

Um homem alto caminhou na minha direção, com um ligeiro sorriso. Me disseram que ele era um médico italiano à espera da licença para praticar medicina nos Estados Unidos. Ele só sabia meu primeiro nome; me referi a ele apenas como “doutor”.

“Tem certeza que está grávida? De quantas semanas? Quando foi a última vez que você menstruou?”

“Sou tão irregular que nem reparei que não tinha menstruado. Fiz um teste no hospital – estou com mais ou menos oito semanas.”

A mulher me mostrou o banheiro e me pediu para esvaziar a bexiga e tirar a calcinha.

A acompanhei até a mesa. Ela me colocou na posição – deitada de costas para a mesa – e pôs um travesseiro embaixo da minha cabeça. Foi um pequeno conforto, um pouco de humanidade naquela transação. De luvas, o médico levantou meus joelhos, examinou minha vagina e inseriu um espéculo.

“Fique bem quieta e mantenha os joelhos afastados.” Uma vara fina de metal foi introduzida no colo do meu útero e colocaram um monte de gazes na minha vagina. Senti a pontada de uma agulha hipodérmica no bumbum e me pediram para ficar sentada.

Não tive de ficar de cama; na verdade, a recomendação era caminhar. O colo se dilataria e o útero se contrairia, reagindo àquele objeto estranho. Em 24 horas, a sonda seria removida.

Deveria esperar cólicas. Se sentisse muita dor, tivesse sangramento excessivo ou perdesse a consciência, não deveria procurar um médico ou um hospital. Deveria ligar para o transporte, que entraria em contato com a loira. Eu não deveria voltar ao apartamento sem antes avisar.

Era o fim de semana do feriado de 4 de julho de 1958.

Os programas de residência e treinamento da Escola de Enfermagem do hospital do Brooklyn estavam entre os melhores da cidade. Em fevereiro, tinha recebido meu uniforme e meu chapéu de enfermeira. Depois de seis meses de treinamento e avaliações, tinha sido oficialmente aceita no curso de três anos. Estava prestes a completar 18 anos.

O vi pela primeira vez a caminho da cafeteria, carregando uma bandeja. Cabelo escuro, pele branca e olhos azuis, muito azuis. Não conseguia desviar meu olhar ou engolir minha comida. Ele se sentou de frente para minha mesa. Senti seu olhar, uma força poderosa que se misturava com o ar do verão.

Sai dali sem acenar com a cabeça, sem dizer nada para ele.

Meu turno da noite era no segundo andar. Preparando os remédios das 22h, descobri que faltava uma dose. A farmácia estava fechada e, depois de ligar para os outros andares, descobri que o departamento de ginecologia tinha o que eu precisava. Era só ir buscar na estação das enfermeiras.

As portas do elevador abriram e lá estava ele, encostado na parede, lindo em seu uniforme branco. Entrei no elevador e me virei, ficando de frente para a porta, corada. Ele veio por trás de mim, lábios perto da minha orelha. “Oi.” Minha boca estava tão seca que não consegui responder. As portas abriram e eu saí. Ele me seguiu. Caminhei rápido pelo corredor, ele bem atrás de mim. Chegando à estação da enfermaria, eu disse: “Tchau”. Ele sorriu e virou num corredor escuro, enquanto eu pedia os remédios.

Apertei o botão do elevador e ouvi um sussurro alto. “Espere...” Vê-lo correndo para me alcançar era uma visão de outro mundo. Com um toque sutil no meu cotovelo, ele me levou até o departamento de radiologia. Sentia a respiração dele no meu rosto, de tão perto que ele estava.

“Posso te ligar?”

“Você sabe onde me achar – fico na Residência das Enfermeiras.”

Então ele perguntou: “Quantos anos você tem? É importante, porque sou um cara velho, tenho 29.”

Eu disse: “Tenho idade suficiente para cuidar de mim mesma.”

Sábado à tarde

Shirley me ofereceu comida, mas recusei. Sabia que, se fosse parar numa sala de cirurgia de um hospital do Bronx, seria melhor não complicar o trabalho do anestesista.

Ele veio me ver naquela noite na casa de Shirley, uma residente que estava cobrindo sua ausência no setor de obstetrícia. Reclamou do trânsito e de ter de ir até o Bronx.

Procurando complicações, ele perguntou: “Está sentindo dor? Está sangrando?”

Ele checou minha pressão e meu pulso. A distância profissional dele me incomodava; ele era meu médico ou meu amante? Essa gravidez indesejada era nossa, não só minha.

Me senti abandonada, mas o que mais poderia fazer? No fim das contas, era meu problema, minha gravidez. Tinha insistido que era capaz de ter controle sobre o que estava acontecendo, mas a realidade era aterradora: eu era uma criança sozinha em meio a uma situação muito séria.

Tentando se livrar do intruso metálico, meu útero se contraiu. A cada espasmo, meu medo aumentava: isso pode dar muito errado. Falei pouco com ele. Nunca duvidei da decisão de abortar, mas até aquele momento não tinha considerado a ideia de que pudesse realmente morrer.

Ele foi embora por volta de meia-noite. “Volto amanhã às 15h para te levar para casa. Se estiver preocupada ou tiver alguma emergência, me ligue imediatamente. Vai dar tudo certo. Saiba que te amo do fundo do meu coração.”

Dormi mal, obcecada com meus sinais vitais, mas a cólica foi moderada – não tive febre nem hemorragia. De manhã, pensei: “Vou sobreviver”.

Não tinha muita gente no clube naquela terça à noite. Pegamos uma mesa e pedimos drinques. Ele me falou dos seus planos de estudar medicina na Itália e dos seus sonhos de ter uma boa vida.

A banda tocava baladas de jazz, e dançamos sozinhos na pista. Nas minhas costas, as mãos dele tinham controle completo sobre mim. Me entreguei, e nos movíamos como um, nossos corpos perfeitamente encaixados. Meus lábios estavam colados no rosto dele.

Voltamos para o hospital em silêncio. Me sentia viva. O mundo à minha volta parecia vago e supérfluo, só havia nós dois.

Entrei no hospital correndo, com o gosto dele ainda nos meus lábios, o abraço dele ainda me envolvendo. Todos estes anos depois, o céu estrelado e o perfume da loção pós-barba dele ainda estão vivos na minha memória.

Eu era uma menina direita, condicionada a proteger minha reputação no clima de repressão sexual dos anos 1950. Não havia conversas sobre sexo entre mães e filhas; você aprendia tudo com as amigas. Se você fosse “fazer”, tinha de confiar que seu parceiro cuidaria da camisinha. Meninas direitas não perguntavam.

Mas eu estava pronta.

O verão trazia consigo o desejo e, em setembro, definimos nossos objetivos: eu largaria a escola para nos sustentar. Ele terminaria a residência e abriria um consultório no Brooklyn.

Eu via uma casa cheia de filhos. “Talvez cinco.” Ele disse: “Talvez dois.”

Era tudo muito romântico; seríamos felizes para sempre, teríamos uma vida perfeita.

Nossas famílias se conheceram e começamos a planejar o casamento para março. Ele morava na Residência dos Médicos, e eu voltei para casa, em Coney Island, no Brooklyn; tinha um emprego em Manhattan.

Era quase impossível encontrar um lugar para nossas intimidades, mas a gente dava um jeito. Fazer amor era nossa obsessão. Depois do Natal e do Ano Novo, contávamos os dias para finalmente termos nossa própria cama.

No fim de fevereiro, estava claro que não tinha menstruado. Deixei uma amostra anônima no laboratório do hospital; usar meu nome seria muito vergonhoso. Três dias depois, recebi o resultado: positivo.

Tínhamos de resolver o problema rapidamente, nosso casamento aconteceria dali três semanas. Mas não era sordidez! Outros poderiam escolher ter o bebê, mas nós não queríamos. Pelo menos não por enquanto.

Nosso mundo era um limbo. “O que vamos fazer? Não temos condições de sustentar uma família. Não é esse o plano.” Eu disse bem baixinho: “Você vai cuidar disso.”

A resposta era muito simples, no fim das contas: ele poderia induzir um aborto natural. Ele era residente de obstetrícia; seria seguro, fácil e secreto. Ele me olhou como se eu estivesse louca. “De jeito nenhum vou correr esse risco. É perigoso demais.”

Não tinha escolha. No trabalho, conversei com minha amiga Shirley, que prometeu perguntar se havia alguma solução no Bronx. Ela conhecia uma pessoa que conhecia uma pessoa. Alguns dias depois, decidimos. Ficaria com ela. Tudo daria certo.

Domingo

O acompanhante estava me esperando num táxi na frente do prédio de Shirley às 11h. As cólicas estavam toleráveis; eu estava enjoada e um pouco tonta, mas me mantive estóica.

Depois de posicionada na mesa, o médico começou a remover as gazes e a sonda. Ele me pediu para ficar completamente imóvel e introduziu a cureta. Senti uma cólica fortíssima quando o instrumento de metal começou a me raspar por dentro. Em um instante de desconexão psíquica, parecia flutuar acima de mim mesma. Via a sala, eu deitada na mesa, o médico trabalhando entre minhas pernas. Alguns minutos depois, a cureta foi removida lentamente.

Ele me deu outra injeção de antibióticos, disse para me arrumar no banheiro e ir embora. A toalha branca estava cheia de gazes ensanguentadas. Meu sangue.

Eu estava viva – mas tinha dúvidas.

No hospital, tinha visto o resultado de abortos malsucedidos. Mulheres jovens com hemorragia ou queimando de febre, com infecções que antibiótico nenhum conseguia matar. Os pais ficavam ao lado do leito ou nos corredores, tentando aceitar o fato de que suas filhas iriam morrer. Algumas mães eram tomadas pelo sentimento de vergonha; outras, pelo de luto; outras, pelo ódio. Pais angustiados perguntavam uns aos outros: “Será que podemos manter isso em segredo das crianças, dos amigos, dos vizinhos?”, “Por que ela não esperou até casar?”, “O rapaz vai pagar pelo que fez?”, “Por que ela não nos procurou?”, “Quando foi que perdemos o controle sobre ela?”, “Como ela foi capaz de fazer isso?”, “Quem a levou para fazer o aborto?”

E eles rezavam. Mas Deus era impiedoso, o pecado era grande demais. A punição: a morte. Depois de alguns dias, um choque séptico – uma resposta inflamatória do corpo todo – levava à falência dos órgãos. As meninas eram vilipendiadas pelas famílias e abandonadas pelos rapazes que amavam, mas a equipe do hospital oferecia simpatia. Eu chorava quando elas morriam; sabia que poderia ser eu.

Fiquei quieta até ele me procurar. Shirley entendia que eu não estava afim de conversa. Estava esperando e procurando os sinais de infecção. Poderia demorar uma ou duas semanas até eu ter certeza de que tudo tinha corrido bem. Consegui me manter sob controle e evitar o pânico.

Durante todo aquele período angustiante, nunca pensei no bebê que tinha abortado. Não havia bebê; era só eu. Era eu, minha vida, minha escolha.

Segunda-feira

Fui trabalhar. Foi meio como ficar menstruada: tive pequenos sangramentos durante uma semana. Nosso casamento aconteceria dali cinco dias, e minha mãe estava ocupada com os detalhes de última hora da cerimônia. No fim de semana que passei no Bronx, meus pais estavam visitando minha tia, em Maryland. Nunca passou pela minha cabeça contar sobre o aborto para eles, e nunca o fiz. Para quê?

Voltando para o Brooklyn na quarta-feira à noite, senti um líquido quente saindo do meu corpo. Quando o metrô chegou na estação Prospect Park, o sangue escorria pelo assento. Desci do trem apertando uma perna contra a outra. Entrei numa cabine telefônica, fechei a porta e peguei um absorvente e lenços de papel da bolsa. Quinze minutos depois, ele veio me buscar. Passei a noite na casa da minha futura sogra e enchi os lençóis e o colchão de sangue. Ela aceitou minha explicação: “problemas de mulher”.

De manhã, fomos ver um ginecologista de um hospital privado. A hemorragia provavelmente tinha sido causada por um pedaço de tecido que o médico não tinha retirado.

Minha mãe e meu pai vieram me ver no hospital. Como minha menstruação era irregular e eu tinha muito sangramento, eles aceitaram a recomendação do médico para fazer uma dilatação e curetagem, a fim de interromper o fluxo de sangue. Ninguém falou em gravidez.

Naquela época não existia seguro-saúde. Meu pai pagou a conta de 125 dólares e me levou para casa no sábado de manhã, a tempo de ir para o salão de beleza.

Na tarde seguinte, 250 convidados foram ao nosso casamento. Foi um domingo de Páscoa lindo e ensolarado. Eu estava de branco.

Depois, comecei a usar diafragma – a maior parte do tempo. Nosso filho nasceu pouco depois do nosso primeiro aniversário de casamento. Um ano e três meses depois, tivemos uma filha. E aí, um milagre: a pílula! O Enovid de 10 mg era tão forte que ficava enjoada o dia inteiro. Mas estava segura.

Dois anos depois, estava no ginecologista para colocar um DIU. Outros dois anos depois, o retirei para a única gravidez planejada da minha vida. Quando nosso filho tinha um ano, engravidei de novo, uma falha do DIU. O aborto ainda era ilegal, mas meu ginecologista me recebeu em seu consultório e inseriu uma sonda no colo do meu útero. Algumas horas depois, fui parar no hospital: tinha “perdido” o bebê e passei de novo por uma curetagem. Em 1970 – apesar de usar diafragma –, engravidei mais uma vez; meu marido fez o parto de nossa filha em 1971 (e aí ele fez vasectomia).

Os abortos são parte da minha história e dos nossos 55 anos de casamento. Não me arrependo deles nem fico pensando no que poderia ter sido. Nossos filhos estão crescidos e temos oito lindos netos. Eles vivem num mundo pós Roe vs. Wade, a lei que legalizou o aborto nos Estados Unidos, e têm acesso a métodos anticoncepcionais seguros e acessíveis. Contei para todos eles a história do meu aborto; para mim, é questão de vida ou morte. Penso nas meninas que vi morrer em 1958, as vidas que elas nunca viveram.

Este post foi traduzido do inglês.