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12 provas de que a celulite é uma invenção sexista

O conceito de "celulite" não existe nem há um século, mas já afetou, e MUITO, as mulheres.

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A celulite – definida como a “infiltração de líquido seroso de origem metabólica no tecido subcutâneo que dá uma aparência de ‘casca de laranja’ à pele" – não é uma invenção, mas uma realidade. E, às vezes, ela é exibida orgulhosamente por mulheres como Lena Dunham e Ashley Graham.

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No entanto, a vergonha dela, mesmo que a celulite seja apenas um detalhe anatômico influenciado por hormônios femininos, é algo cultural e que representa muito bem o desprezo que os corpos femininos enfrentam na sociedade.

Como a socióloga Rossella Ghigi relata em seu artigo "O corpo feminino entre a ciência e a culpa – A história acerca da celulite", a forma como a celulite é percebida “pode ser o vetor de mensagens mais amplas e abstratas, e também tendenciosas, sobre as relações de poder entre os sexos"

1. A celulite foi inventada na década de 1920.

Kino Lorber / Via giphy.com

O conceito de "celulite" não existe desde sempre. Aliás, não faz nem cem anos que ele existe. “A celulite como conhecemos – aquela que inspira terror nas clínicas e farmácias modernas – é uma preocupação coletiva cujo hora e local de nascimento podem ser determinados com precisão: França, década de 1920”, explica Rossella Ghigi. Antes disso, “a celulite não era mais do que a pele feminina adulta.” Ninguém pensava a respeito dela e ela não era causa de preocupação: “Ninguém nem sequer percebia que a pele com celulite era diferente da do resto do corpo.”

Até então, a palavra “celulite” só era usada para descrever uma inflamação infecciosa grave que poderia levar à necrose cutânea severa (uma descrição que existe desde 1873), segundo a socióloga. Vale notar que o sentido original, que nada tinha a ver com a pele de casca de laranja, ainda existe como termo médico.

Somente quando a definição da palavra mudou para uma abordagem estética que os médicos começaram a diferenciar a celulite "normal" do tipo infeccioso, na década de 1920.

2. Na época, ela só era detectada na nuca.

Paramount Pictures / Via giphy.com

Embora hoje seja comum, a campanha anticelulite não costumava focar nos glúteos e nas coxas. “De 1937 a 1939, a nuca era a principal área de preocupação”, ressalta Rossella Ghigi.

É verdade – em 1938, o Dr. Josub Fraitag publicou um livro intitulado "La cellulite de la nuque" (“A celulite da nuca”, em tradução livre). Estranho, não?

Isso porque, “por mais surpreendente que pareça hoje em dia, naquela época, as partes mais expostas do corpo de uma mulher eram os tornozelos e a nuca", diz a socióloga.

Além disso, “cabelos curtos estavam na moda, deixando o pescoço e os ombros à mostra.” Era o famoso visual “joãozinho”, basicamente.

3. A popularização do uso de trajes de praia foi que contribuiu para o "aumento" da celulite na região das coxas.

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Para que a celulite aparecesse em outras partes do corpo, essas partes deveriam estar expostas. E foi isso que aconteceu. Principalmente em regiões litorâneas, "cuja popularidade repentina é uma das maiores mutações culturais do final do século 19”, de acordo com o historiador Georges Vigarello no livro "Les Métamorphoses du gras" (“As metamorfoses da gordura”, em tradução livre).

"De repente, uma nova consciência passou a existir”, assim como um aumento pela “demanda de corpos magros” para mulheres, que deixaram de vestir longos vestidos para usar roupas de banho na praia: "Essas roupas mais 'reveladoras' criavam a sensação de um corpo mais exposto. Quando mais exposição, mais as diversas 'deformidades' apareciam".

Os corpos normais já não atendiam às expectativas, criando surpresa e rejeição: “A gordura das mulheres estava lá para qualquer um ver e elas não imaginavam que as pessoas as olhariam com repulsa.”

4. A moda feminina também sustenta essa pressão anti-celulite.

Polydor / Via giphy.com

Em relação à isso, é preciso lembrar que “os corpos femininos são mais expostos do que os corpos masculinos”, de acordo com Solenn Coarof, socióloga do Inserm — Instituto Nacional de Pesquisa Médica e de Saúde da França — que realizou pesquisas sobre o excesso de peso. Da mesma forma, os bolsos em shorts e calças femininos tendem a ser bem menos úteis do que os dos shorts masculinos.

Além disso, “quanto mais o corpo está exposto, mais há regras para as partes expostas." E como “o corpo das mulheres está cada dia mais exposto e visível em público e nas mídias, as exigências em relação ao corpo feminino, constantemente observado e julgado, são diferentes das exigências para o corpo masculino.”

5. A invenção do espelho também teve papel.

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Essa pressão não está presente apenas em ambientes públicos. Ela também está internalizada nas mulheres, permeando ofensivamente a intimidade.

Isso significa que, no início do século 19, enquanto os corpos das mulheres estavam sendo observados constantemente na praia, em todos os ângulos possíveis, o mesmo também estava acontecendo em casa, na frente do espelho.

Isso graças ao químico Justus von Liebig, cuja descoberta de 1835 levou à invenção dos espelhos de vidro com uma fina camada de prata.

O historiador Georges Vigarello defende que também “a observação íntima do corpo nu através do espelho” exerceu influências na evolução das regras que controlam o corpo.

6. As revistas para mulheres sempre trataram a celulite como algo horrível que precisa ser combatido.

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Hoje em dia, se você digitar “celulite” em alguma ferramenta de busca, como no Google, vai perceber que os primeiros resultados têm a ver com “como se livrar dela”, “como perder”, “dicas para não ter celulite” etc.

Esse ódio pela celulite sempre esteve presente nas revistas femininas. A celulite apareceu pela primeira vez na revista francesa "Votre Beauté", de acordo com Rossella Ghigi. Ela chamava a celulite de um “problema” que precisava de um “cuidado específico” — em outras palavras, algo a ser solucionado.

A "Marie-Claire" defenderia o mesmo ponto. A celulite apareceu em maio de 1937 na décima edição da revista, em um artigo com um título bem explícito: “Cuidado com a sua cintura”.

7. A celulite, com o tempo, passou a ser considerada como um sintoma precursor da obesidade.

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Não há nada surpreendente no fato de que “o período entre os anos 20 e 40 é quando a celulite começou a ficar gravada no consciente coletivo”, segundo Rossella Ghigi. Nessa época, a imagem do corpo feminino começou a mudar.

George Vigrello diz em seu trabalho: “A descrição de Vinca, a protagonista de 'Le Blé en herbe', livro de 1923 da autora Colette, é convincente. As referências ao corpo ‘magro e elegante’ da personagem são um indicador claro de uma tendência emergente que considerava o corpo magro mais bonito do que o curvilíneo. Tudo mudou em uma questão de anos. A dinâmica prevaleceu sobre a estática; as linhas retas prevaleceram sobre as curvas. [...] Tudo isso causou uma mudança ainda mais profunda. A forma não era mais definida pela ‘carne’, mas pelos músculos. Um corpo carnudo e um magro também eram diferenciados pela textura, que, no caso dos corpos magros, era firme e não flácida."

Isso trouxe o surgimento da “lipofobia”, que é o medo da gordura: “a gordura passa a ser um ‘elemento indesejável’ que deve ser combatido”, de acordo com Rossella Ghigi. A gordura precisa ser eliminada a qualquer custo. E, com ela, a celulite.

Mais do que isso, Georges Vigarello mostra como surge nos anos 20 a ideia de "procurar" potenciais sinais de obesidade no corpo. Foi assim que a celulite se tornou a fase intermediária que precisava ser combatida antes de chegar à obesidade.

8. Ter "pele de casca de laranja" passou a ser visto como um sinal de fraqueza.

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Essa perspectiva ainda existe com muita força nos dias de hoje. Além disso, ela é exacerbada pelo fato de que vivemos em uma sociedade onde o corpo é visto como um material maleável que cada pessoa deve controlar e moldar de acordo com os ideais de beleza. Neste mundo, a celulite é certamente considerada um defeito, algo que precisa desaparecer, mas também “o símbolo de um traço de personalidade”, de acordo com a pesquisadora Solenn Carof.

Gilles Boëtsch, coautor do "Dictionnaire du corps" (CNRS Editions, 2008), escreveu como “o excesso de gordura é visto como uma falta de controle e de cuidado do próprio corpo” — uma percepção cuja origem vem desde a Renascença, de acordo com Georges Vigarello.

A pele de laranja passa a ser, portanto, associada à preguiça e é vista como um sinal de fraqueza.

“Isso tem tudo a ver com a questão da responsabilidade individual”, explica Solenn Carof. Como todo mundo é responsável pelo próprio corpo, a obesidade ou celulite são consideradas culpa da própria mulher, ignorando a influência da genética e da idade. Por outro lado, ter pernas lisas é considerado uma demonstração de força, já que a atividade física é uma forma de eliminar a gordura e a celulite.

Sendo assim, “com o julgamento estético, vem o julgamento moral”. É um ciclo vicioso. “Depois de ouvir constantemente que é preciso ‘se livrar da celulite’, é natural sentir que ela é uma coisa ruim.” E, quando uma pessoa não consegue ‘combater’ a celulite, se torna necessário usar roupas para poder disfarçá-la, como evitar usar bermudas e saias, mesmo em períodos de calor.

9. Este desdém em relação à celulite resultou na promoção de corpos jovens e andróginos.

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O desprezo em relação à celulite indica, portanto, a rejeição do corpo feminino em seu estado natural e dos efeitos da idade, segundo Solen Carof: “É uma questão de idade também. Uma menina de 16 anos, em média, tem menos celulite do que uma mãe de 35 anos. O movimento anti-celulite também promove um corpo jovem (leia-se: muito jovem).”

Isso se manifesta por meio das modelos pré-puberes promovidas na mídia . Um fato não surpreendente, considerando que “o corpo feminino mais jovem também é mais andrógino”, de acordo com a socióloga.

Com a idade, as curvas começam a aparecer, mas não em lugares onde elas são consideradas bonitas, de acordo com o ideal de beleza: “Um corpo mais velho parece mais feminino; algo que parece problemático e precisa ser mudado.”

10. A celulite é comparada a “toxinas”.

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A falta de compreensão sobre a origem da celulite também teve efeitos perniciosos. Desde os anos 20, e mesmo com o progresso do conhecimento científico desde então, ainda é difícil obter uma explicação precisa e clara sobre o que é realmente a celulite (é gordura? É retenção de líquidos?), o que prejudica a sua compreensão exata.

Assim que apareceu, a celulite "estética" foi descrita como “um monte de toxinas”, segundo Rossella Ghigi, referindo-se à tese "Sciatiques et infiltrats cellulagiques", publicada por Paul Lagèze em 1929. “A celulite veio para definir a intoxicação — um processo ‘natural’ de acúmulo de toxinas”, resume. Ela também era capaz de se espalhar pelo corpo todo: “Em formas mais severas, a celulite literalmente toma o corpo todo”, escreveu Dr. Alquier escreveu em 1924.

As revistas femininas seguem a mesma abordagem. Em "Votre Beauté", em 1933, a celulite é descrita como um ‘lixo tóxico’ similar ao que encontraríamos em um abscesso ou tumor. Ela também já foi descrita como uma “deterioração da pele”, em 1935.

11. A presença crescente de mulheres no ambiente de trabalho já foi apontada como a causa da celulite.

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Não tanto porque o ambiente de trabalho é sedentário por natureza, mas porque trabalhar, antes de mais nada, faz com que as mulheres tenham menos comprometimento em cuidar do corpo.

Em seu trabalho, Rossella Ghigi mostra como revistas femininas passam a criticar "o estilo de vida ‘artificial’ e ‘sedentário’ das cidades modernas" que levam "à inércia e intoxicação do corpo das mulheres”.

“O confinamento do ambiente de trabalho nas cidades se torna o maior inimigo da magreza e da beleza, já que atua como um obstáculo para quem quer lutar contra a própria natureza. É por isso que as revistas recomendam ginástica incessantemente para as leitoras, especialmente ‘quando elas trabalham demais’ e ‘ficam sentadas no escritório o dia todo’, inspirando-as, também, a ter ‘coragem para serem fisicamente ativas mesmo ao trabalharem oito horas por dia’, porque ‘o trabalho jamais deve impedi-las de serem bonitas’('Votre Beauté', abril de 1932; abril de 1936; dezembro de 1936)."

12. Condenar a celulite é, portanto, condenar o corpo feminino

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Basicamente, desde que as pessoas começaram a falar sobre celulite, elas não estavam falando apenas sobre a celulite. “O problema é que todas as mulheres se sentem obrigadas a se livrar da celulite ou a escondê-la. Essa é uma questão estrutural, não individual”, explica Solenn Carof.

“De acordo com alguns autores”, resume Rossella Ghigi, “essa 'obsessão em acabar com a celulite' (Remaury, 2000) é apenas um efeito da dominação masculina, já que declara que o dever da mulher é controlar a si mesma, enquanto os homens têm o dever (e privilégio) de controlar os outros.”

Denegrir a celulite é, portanto, denegrir o corpo feminino, excluindo-o da esfera pública.

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Este post foi escrito originalmente em francês.