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Por que é difícil falar sobre a minha bissexualidade

“A parte mais difícil de ser bissexual é que eu não consigo decidir o que dizer para todos que me amam para que eles se sintam completamente à vontade em relação a isso.”

publicado

Eu conheci meu amigo Paul em uma oficina de escrita de romances; nós gostamos do trabalho um do outro e nos demos bem logo de cara, então ele me convidou para tomar um café com ele e outro rapaz gay da nossa oficina. No fim, a conversa acabou tomando o rumo das nossas vidas pessoais, e Paul me pediu para eu esclarecer a minha sexualidade. Eu estava escrevendo um romance sobre, entre outras coisas, duas mulheres na casa dos vinte anos que se apaixonam. Só que meu visual na maioria das vezes segue a estética de uma menina hétero e eu acho que mencionei algo sobre o rapaz que eu estava saindo na época. Então ele fez a pergunta.

"Eu sou bissexual", eu disse.

Paul me deu um sorriso carinhoso e perguntou, "Quantos anos você tem?"

"23", eu disse.

"Você é nova", ele disse, "Você vai superar isso".

"Sou bissexual", eu disse para um cara no nosso terceiro encontro quando a conversa tomou o rumo dos nossos relacionamentos anteriores. Foi um jeito abrupto e estranho de me assumir, assim como é na maioria das vezes em que eu me assumo. Eu tenho que me assumir o tempo todo, para quase todo mundo que eu conheço, mas eu nunca consegui ficar boa nisso – provavelmente porque eu estou em um estado ansioso constante de antecipação das reações dos outros. É muito broxante eu estar gostando de alguém de verdade e a pessoa dizer algo como "eu não acredito que a bissexualidade realmente exista".

Com o Cara do Terceiro Encontro, eu me assumi de uma maneira tímida e estranha, tentando me prevenir de qualquer conversa ruim que poderia me fazer deixar de gostar dele. "As pessoas sempre me fazem as duas mesmas perguntas. A primeira —" Ele me interrompeu: "Pare de agir como se você fosse a primeira garota gay com quem eu já saí".

No nosso quarto encontro, ele me fez as perguntas.

Essa é a primeira pergunta: "Ok, você é bissexual, mas você já saiu mais com qual?"

Significado: devo pensar em você como hétero ou gay?

Eu me assumi para todos meus amigos do colégio assim que nós nos formamos para ir para a faculdade, enquanto a gente ainda continuava a ler os blogs do Live Journal uns dos outros todos os dias. Uma amiga publicou um post se assumindo como bissexual sem usar essa palavra, algo como: "Para mim são caras e meninas, os dois". A gente era imaturo demais em relação a isso, se contorcia tentando encontrar a linguagem certa. Isso, claro, foi pré-Tumblr e antes de irmos para a faculdade, então nenhum de nós tinha seu próprio computador. Para a maioria de nós, fazer essa auto-investigação em um computador que nossas mães e pais e irmãos e irmãs poderiam se conectar mais tarde era arriscado demais.

Todos os meus amigos da faculdade sabiam que eu era bi, e eles concordaram que agora que uma outra pessoa havia se declarado, eu deveria fazer isso também. Era a minha vez, eles diziam.

Meus amigos sentaram comigo na minha cama estreita de solteiro e me abraçaram apertado. Eu falava em voz alta cada palavra que eu digitava, e eles me ajudavam a reposicionar e reestruturar, dando forma a um pequeno post num canto escondido da internet. Essa foi a única vez em que me assumi de uma forma que se pareceu com o que a gente vê nos livros, filmes e séries de TV. Era para ser uma grande declaração pessoal que criaria uma fronteira entre antes (fechada, fingida) e depois (aberta, verdadeira). Essa fronteira sólida e real existe para algumas pessoas, eu acho, mas não existe para mim, não mesmo.

No meu post, eu não consigo lembrar se eu usei a palavra "bissexual".

Depois que o post ganhou vida, minha amiga Ellie, muito doce e muito bem-intencionada, comentou: "Eu acho maravilhoso que você seja bissexual, mas eu tenho que dizer que eu nunca teria adivinhado! Você não se parece com uma pessoa gay!"

Eu nunca uso a palavra "gay" para me descrever, já que eu sinto que ela implica somente atração pelo mesmo sexo. Algumas vezes eu me chamo de "queer", mas na maior parte das vezes eu gosto de me identificar como "bissexual", mesmo que essa palavra tenha sido intoxicada por polêmicas. Eu pessoalmente acredito que o significado da palavra tenha deixado para trás suas origens etimológicas – e que, basicamente, mesmo que haja um "bi" em bissexual, a palavra em si não implica atração por "um homem ou uma mulher", mas por uma pessoa "independentemente do gênero". Eu gosto de me identificar como bissexual não por toda a carga que vem junto com a palavra, mas apesar dela. Eu sinto que eu estou brigando para expressar a verdade da minha identidade o tempo todo, lutando para ser entendida, então um rótulo sobre o qual eu tenha que argumentar me cai bem, como se a forma encontrasse seu conteúdo.

Depois que alguém me faz a primeira pergunta, eu digo algo como "eu não acho que dizer com qual gênero eu saí mais vai dar conta de como eu me sinto sobre isso", ou se eu estou me sentindo bem incisiva: "Eu sou o tipo de pessoa que acredita que gênero é uma construção e um espectro, e essa pergunta meio que me deixa desconfortável".

Às vezes eu minto e digo, "Eu saí com mais homens, mas transei com mais mulheres". Até quando eu tinha quase 23 anos, eu só me masturbava pensando em mulher. Por algum tempo, eu me perguntava se a minha atração por homens não era algo que havia sido socializado em mim.

Ainda que eu estivesse bem certa sobre a minha bissexualidade desde que eu tinha 15 anos, eu questionava isso de vez em quando. Agora eu tenho aquela segurança sobre as minhas convicções que só surge quando sua fé é minuciosamente interrogada.

A primeira vez que eu ouvi a palavra bissexual foi quando minhas amigas Nikki e Bari estavam falando isso sobre o Leonardo DiCaprio. Isso foi na época de "O Homem da Máscara de Ferro", um filme que saiu um ano após "Titanic" e foi um tremendo fiasco. Naquele tempo, havia uma fofoca nos tabloides de que o Leo era bissexual, Nikki e Bari me disseram.

"O que é bissexual?", eu perguntei.

"Significa que você curte caras e meninas, os dois", elas disseram.

Os dois foi uma revelação. No meu âmago mais íntimo, eu suspirei – mas não naquele sentido clichê de "eu soltei a respiração que eu não sabia que estava segurando". Eu sabia muito bem que eu não estava respirando. Eu sabia muito bem que mesmo com aquele primeiro suspiro, eu teria de aprender um novo jeito de respirar.

A definição de bissexualidade que eu vejo mais frequentemente é: "sente atração por homens e mulheres". Eu não acho que isso funciona para a bissexualidade em geral e para a minha sexualidade, especificamente. Eu gosto da definição de Robin Ochs: "Eu me considero bissexual porque eu sei que tenho dentro de mim a possibilidade de me sentir atraída – romântica e/ou sexualmente – por pessoas de mais de um sexo e/ou gênero, não necessariamente ao mesmo tempo, não necessariamente do mesmo jeito e não necessariamente no mesmo grau".

Um outro jeito de dizer é, "eu tenho a possibilidade de me sentir atraída por pessoas independentemente do seu gênero".

A segunda pergunta é: "Como será que sua vida romântica vai terminar, com um homem ou com uma mulher?", o que é impossível de responder e é outra armadilha.

A segunda pergunta tem a mesma intenção que a primeira, tentar descobrir se eu sou "mais gay" ou "mais hétero". Eu tento deixar o mais difícil possível descobrir isso, mas às vezes é impossível para mim nadar contra uma forte maré. No meu antigo emprego, eu tinha amizade com duas mulheres na casa dos 40 anos. A hétero tinha certeza de que eu ia acabar me casando com um cara. A lésbica tinha certeza de que eu ia acabar casando com uma garota.

A lésbica quarentona, Jen, não escondia seu desdém pela minha bissexualidade. Nossa relação incluía um monte de provocação de um lado e do outro; ela me desafiava, e eu mandava para ela links de textos sobre bissexualidade de outros autores, exigindo que ela os lesse. Eu pensava que podia fazê-la mudar de ideia. Um dia, quando eu estava dando um tempo na sala dela, toda aquela gozação desvaneceu e ela me disse que, sinceramente, a razão pela qual ela se sentia desconfortável era porque ela sentia que a bissexualidade implicava que lésbicas como ela poderiam escolher entre ser gay e hétero. Ela era muito envolvida com aquela narrativa "eu nasci assim", em que os gays poderiam ser capazes de escolher como agir, mas não conseguem escolher não sentir atração pelo mesmo sexo.

Eu tentei explicar que, do mesmo modo que ela não escolheu sentir atração por mulheres ao invés de homens, eu não escolhi sentir atração por pessoas independentemente do gênero delas. "Nós somos iguais", eu lembro de dizer. Posso afirmar que ela não gostou nada disso.

A parte mais difícil de ser bissexual é que eu não consigo decidir o que dizer para todos que me amam para fazer com que eles se sintam completamente à vontade em relação a isso. Eu não sei que palavras usar, que tipo de conversa ter. Explicações "racionais", destituídas de emoções, acabam sendo rasas; raiva e frustração alienam meu interlocutor; fazer piada sobre isso na verdade me faz soar magoada e triste. A contranarrativa de que há "fases" bissexuais, tipo a música da Katy Perry que diz "I kissed a girl just to try it/Hope my boyfriend don't mind it", é tão forte e tão predominante que tentar explicar minha bissexualidade é quase sempre como construir uma casa sobre areia movediça. Tudo acaba desmoronando.

***

O primeiro romance de Catie Disabato
The Ghost Network, foi publicado em maio de 2015 pela editora Melville House. Ela é colunista da Full Stop. Escreve críticas e reflexões para This Recording, The Millions e The Rumpus, e seus contos de ficção apareceram na Joyland. Cresceu em Chicago, graduou-se pelo Oberlin College e agora vive em Los Angeles e trabalha na área de relações públicas.

Para saber mais sobre
The Ghost Network, clique aqui.

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