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Eu não soube desde sempre que era gay

Você só é gay se, lá no fundo, sempre soube que era. Certo?

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Foi no ano em que fiz 20 anos que me tornei a soma de mil caixinhas marrons e envelopes pardos. Recebia em casa pacotes arrumadinhos de shorts masculinos, de todas as cores. Uma jaqueta de couro vintage chegou até mim direto dos anos 1980, tão autêntica que tive de tirar as ombreiras. A bota de couro marrom usada que eu calçaria nos próximos três anos, e que mandei consertar incontáveis vezes, veio por último, no fim do inverno. Serviu direitinho no meu pé.

Comprar era um ritual. Toda vez era a mesma coisa: abria as caixas e os envelopes de plástico, arrancava os adesivos e me maravilhava com as roupas: pareciam membros que tinha perdido numa guerra. Provava as peças sozinha e as guardava, novinhas e quase intocadas, pequenos lembretes de quem eu poderia ser – se um dia eu conseguisse decidir quem era essa pessoa.

Eu era a menina que usava um colar de pérolas enormes com macacãozinho, corpetes e batas, bolsas floridas enormes, vestidinhos de verão, suéteres. Mas, naquele ano, vesti camisetas de gola V e shorts masculinos e jaquetas de couro e andei até o espelho do banheiro para ver se parecia ou me sentia diferente. Sim, me sentia.

Era aquilo o que todas as minhas amigas gays vestiam, casual e tranquilamente, como se aquelas roupas fossem parte do corpo. Era aquilo que me separava delas. Era aquilo que parecia um cumprimento secreto, ou um distintivo usado para proclamar ao mundo quem elas realmente eram. Queria estar à vontade naquelas roupas da mesma maneira que me sentia à vontade sendo a pessoa que tinha sido por duas décadas, sem pensar muito no assunto.

Não que eu não pudesse ser gay ou curiosa ou confusa, usando meus vestidos e minhas pérolas. Também não ia abandonar aquelas roupas – mas, se isso fosse necessário, sim, eu as largaria para sempre. Naquele momento, eu precisava nascer de novo. Precisava ser mais diferente do que parecida com a pessoa que tinha sido por duas décadas, sem pensar muito no assunto.

Então fui às compras. Experimentar aquelas roupas era uma maneira de experimentar ser gay – ou pelo menos o que na época era um jeito garantido de ficar parecida com a pessoa que eu poderia ser. Foi estonteante e eletrizante. Cada vez que olhava os presentinhos que mandava para mim mesma, me sentia mais perto de entender quem eu realmente era – mas aí uma sombra de dúvida envolvia o ambiente e me deixava enjoada. Guardava tudo e deitava na cama de olhos fechados, questionando tudo, especialmente a mim mesma.

Por que eu não sabia? Como perambulei por esses desertos emocionais por 20 anos sem ao menos considerar que essa poderia ser minha verdade? Como nunca guardei segredo? Como nunca senti aquela diferença incômoda dentro de mim?

Naquele ano, o que mais queria era um segredo. Mais que tudo, queria uma verdade escondida dentro de mim. Mais que tudo, queria saber desde sempre.

Em vez disso, o que eu tinha era um vício em leilões do eBay e um recibo de sete pares de shorts masculinos novinhos, guardados no fundo da minha gaveta de calcinhas.

“Conheço gays. Vi programas de TV sobre gays. Os gays sabem.”

Estava no carro da minha mãe quando ela disse isso. Me arrependi de tocar no assunto. Ainda me sentia confusa com a ideia e estava com tanto medo de mim mesma que não usei rótulos nem categorias para tentar me explicar. Só disse que tinha acordado aquele dia gostando de mim de um jeito que sempre me disseram que eu gostaria de alguém.

“Você não é gay. Sou sua mãe, sei que você não é.”

Olhei pela janela enquanto ela rodava pelas ruas do subúrbio e me perguntei – em pânico – se ela estava certa.

Eu não tinha provas. Não era lésbica de carteirinha. Tinha só 20 anos e estava apaixonada por uma mulher.

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Tive vários amigos e amigas gays na escola e na faculdade. Eles lutaram por suas identidades. Reivindicaram-nas em meio a rejeição familiar, isolamento social e o risco de se tornarem invisíveis. Meus amigos sentiram atração por pessoas do mesmo sexo durante anos e lutaram contra a dificuldade de se assumir. Para todos eles, sair do armário era um obstáculo quase intransponível.

Ouvi muitas histórias de gente que saiu do armário. Todas começavam do mesmo jeito: eu sempre soube.

Um amigo se apaixonou pelo único outro menino gay da escola e tentou não contar para ninguém. Outra tinha beijado uma menina no jardim da infância, num canto da classe. Outro entrou na faculdade cedo, aos 16 anos. Uma noite, cercado de amigos, escreveu uma carta para os pais contando que era gay. Outro amigo evitava sair com meninas, apesar de ser o menino mais popular da escola – em vez disso, ele começou a namorar meu melhor amigo gay.

Com o passar do tempo, entendi como as coisas funcionam. Você passa a vida inteira rolando na cama e acorda suando frio só por ser assim. Você é gay porque sempre soube que era a única opção. Você é gay antes de ter o vocabulário para descrever o que é. Você é gay, como pode ser loiro, alto, emotivo ou inteligente. Você sempre soube que era gay.

Você é gay porque sempre soube que era a única opção. Você é gay antes de ter o vocabulário para descrever o que é. Você é gay, como pode ser loiro, alto, emotivo ou inteligente. Você sempre soube que era gay.

“Como você sabe?”, perguntou minha amiga Amanda. Estávamos no apartamento dela. Tinha acabado de contar para ela que era gay, ou provavelmente que achava que era gay. Não conseguia me decidir. Não conseguia me decidir havia meses, mas falei para ver se alguém acreditava em mim.

“Achei que gostasse desses meninos todos”, disse para ela. Naquele instante, lembrei dos caras que tinha agarrado em festas. Evitei namorar na escola e na faculdade. Minha família e meus amigos racionalizaram, dizendo que eu era muito difícil, muito independente, muito inteligente. Mas às vezes eu fugia pro canto de uma festa, dava uns amassos nuns caras e ia pra casa deles. No dia seguinte, sentia uma certa ansiedade, que para mim era só empolgação disfarçada.

A conversa cultural sobre o namoro de homens com mulheres me fazia pensar que tolerar um homem era o mesmo que estar loucamente apaixonada por ele. Era o meu caso – eu tolerava. Tolerava as coleções de discos e as blusas de capuz e a barba. Tolerava os quartos sem graça e as terríveis festas temáticas que eles davam. Tolerava o vazio no estômago quando estávamos sozinhos. Tolerava como meu corpo endurecia quando eles se aproximavam para me tocar ou me beijar.

Não que eu achasse errado ficar com homens: flertar, dar uns amassos, mandar uma mensagem de texto no dia seguinte. Mas tudo era preto-e-branco, ou sem áudio.

Quando finalmente me deixei apaixonar por uma mulher, o som era alto. Era technicolor.

Gostar dela era como essas músicas bregas do rádio no repeat. Finalmente esqueci de mim mesma. Me senti aberta, cheia de energia, leve. Era puro êxtase. Soube imediatamente que gostar dela era certo e importante. Queria me sentir daquele jeito para todo o sempre – só precisava me reinventar.

“Agora sei que nunca gostei de ninguém”, disse, cheia de autoridade. “Não desse jeito.”

Soltei a respiração e prestei atenção nessas palavras: era a mais pura verdade.

Tinha 18 anos quando nos trombamos; a segunda vez viria dois anos depois. Antes de me beijar, ela perguntou se eu ficaria bem no dia seguinte. Não entendi o que ela queria dizer com aquilo, então só acenei com a cabeça. De manhã, pulei da cama, botei a roupa e chorei no metrô. Em casa, abri meu diário e escrevi mil vezes o que seria meu lema nas semanas e meses seguintes:

“Não sei o que isso significa. Não sei o que isso significa. Não sei o que isso significa.”

Josh, meu melhor amigo, me perguntou se eu era gay. Optei por dizer não, insistentemente. Afinal de contas, pensei, se fosse gay eu saberia. Arrumei as malas e fui passar o verão na casa dos meus pais. Me forcei a parar de pensar e falar no assunto. Deixei o acontecido no passado, como se o passado comportasse esse tipo de coisa. Como se não fosse nada.

Voltei para o campus no outono determinada a me lembrar de quem eu era. Afinal de contas, tinha me desviado do meu caminho. Tinha desistido de tentar dar uma nova forma à minha vida. Tinha me afastado dos meus planos e, acima de tudo, dos planos que minha família e meus amigos tinham feito comigo.

Eu não era assim. Repeti isso para mim mesma várias vezes. Olhando para trás, é estupidez admitir que você achava que se conhecia aos 18 anos. Mas era meu caso. Gostava de fazer listas com as palavras diferentes que usava para me descrever. Escrevia passagens no diário registrando a definição sincera do meu nome para um público desconhecido.

Eu era tantas coisas. Tantas identidades minúsculas e memórias formavam meu esqueleto. Mas eu não era gay. Essa ideia nunca tinha passado pela minha cabeça. Parecia inautêntico e impossível sentir-se gay por acaso, em vez de lutar com esse sentimento. Num mundo em que a identidade homossexual nem sempre é reconhecida e validada, não parecia uma opção dar de cara com ela de repente.

Eu não era gay. Essa ideia nunca tinha passado pela minha cabeça. Parecia inautêntico e impossível sentir-se gay por acaso, em vez de lutar com esse sentimento. Num mundo em que a identidade homossexual nem sempre é reconhecida e validada, não parecia uma opção dar de cara com ela de repente.

No ano seguinte comecei a correr atrás de meninos, dessa vez para valer. E acabei esquecendo. A menina que me perguntou se estaria tudo bem no outro dia saiu do armário, eu não. Tudo superado, passado, ótimo. As memórias daquela noite se apagaram.

Dois anos depois, eu tinha 20 anos e ela era minha melhor amiga. Quando ela colocou as mãos nas minhas costas no auge do verão, foi como uma ferida abrisse e começasse a doer de novo.

Foi mais uma descoberta do que uma declaração.

Escrevi poemas até achar que estava pronta para formar sentenças. Fechei os olhos e finalmente tive sonhos loucos, como sempre imaginei que as pessoas sonhassem quando estão realmente vivas. Vesti a jaqueta de couro e calcei as botas e coloquei os shorts e saí de casa completamente nova.

Tinha 20 anos e estava apaixonada por uma mulher. Dessa vez, não tinha como evitar. Dessa vez, era uma paixão desenfreada e urgente. Dessa vez era enorme. Me olhava no espelho de manhã e procurava aquela pessoa conhecida – mas eu não estava mais lá. Tinha deixado de existir. Era uma página em branco. Estava vazia e aberta e burra e inteiramente dominada.

Às vezes eu me desfazia sob o peso daquela tela branca. Outras vezes, eu a preenchia de luz e me permitia acreditar que um dia me conheceria de novo.

Era fácil traduzir o sentimento em palavras. Estou apaixonada por uma mulher. De novo e de novo. Essa era a parte fácil. Essa era a parte que ninguém poderia tirar de mim.

O que veio depois foi decidir o significado disso tudo. Era a verdade que me definiria pelo resto da minha vida, mas que me deixava desnorteada. E se eu estiver errada? Sabia que a pergunta era ridícula, que eu era a pessoa que me conhecia melhor, mas não conseguia deixar de achar que poderia estar fazendo algo errado.

Naquele ano, tinha um diário num pequeno Moleskine vermelho. Escrevi na capa: “Tudo vai mudar”. Dentro, escrevi o verso de uma música: “Passe por isso e você não vai olhar para trás”.

E se a questão não fosse “sair do armário”? E se eu nunca tivesse me escondendo? E se ser gay não tiver nada a ver com a dor de guardar um segredo? E se na verdade a questão é o sorriso da minha namorada quando ela está dirigindo na estrada, ou a suavidade dos movimentos da Terra sob meu corpo quando saio para a rua com aquelas botas?

E se o fato de ser gay significa que você, contra tudo e contra todos, não tem nada de errado, que existe um poço infinito de amor onde você achava que não havia nada, que dentro de você existe uma força incrível que te torna algo que você nunca imaginou?

Talvez seja possível acordar uma pessoa.

Talvez seja possível perambular pelo mundo por duas décadas sem se reconhecer no espelho.

Talvez seja possível ter 20 anos, se apaixonar por uma mulher e nunca mais olhar para trás.

Um dos primeiros livros que comprei quando estava enchendo carrinhos de compra virtuais com meus sentimentos foi The New Fuck You, uma antologia de poemas editada por Eileen Myles. Um dos meus versos favoritos era de um poema de Holly Hughes:

Passei minha infância inteira em coma. Aí fiz 20 anos e beijei uma mulher.

Sublinhei o verso e marquei a página e coloquei o livro no meu criado-mudo, só para me lembrar que minha história já tinha sido escrita antes.

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