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10 obras essenciais para entender a América Latina

10 livros de vários gêneros literários para se compreender o que é esse conceito chamado América Latina.

publicado

10. América Latina: as cidades e as ideias (José Luís Romero)

Produzida por um dos maiores historiadores nascidos no Novo Mundo, este é um livro concluído na maturidade do autor, pouco tempo antes de falecer. Devido à abrangência, considero essa obra uma versão historiográfica d’As veias abertas da América Latina, com o método e o rigor científico que o jornalista Galeano obviamente não poderia imprimir. Porém, o foco do trabalho de Romero, em lugar das relações econômicas, é a relação social entre metrópoles e colônias, passando para as transformações que se produziram com o nascimento das grandes cidades e o choque desse mundo com o âmbito rural no interior dos novos países surgidos com a onda de independências entre o final do século XVIII e o primeiro quartel do século XIX. Para quem tem interesse de ir a fundo no conhecimento sobre a história da América Latina, esse livro é obrigatório!

9. Os sertões (Euclides da Cunha)

Mais do que uma grande reportagem sobre um episódio nos confins do sertão nordestino, o trabalho de Euclides da Cunha pode ser lido hoje como uma metáfora que sintetiza os mais de três séculos de relações entre metrópoles e colônias na América Latina. Mais do que isso, Os sertões é um registro que ajuda a explicar o choque entre os mundos urbano e rural que marca a construção conflituosa de todas as nações latino-americanas ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX, seja no massacre das populações originárias (como o povo Mapuche no Chile e na Argentina) após independências que separaram nações constituídas muito antes da noção de Estado ter chegado ao “Novo Mundo”, seja no massacre de comunidades locais que desenvolveram experiências autônomas à margem do poder da vez – caso de Canudos e tantas outras. Após essa leitura, a interpretação de muitos fenômenos sociais do Brasil que você nunca entendeu direito poderá ficar mais nítida. E ouso dizer que essa observação vale para praticamente todos os países latino-americanos.

8. Culturas híbridas (Nestor Garcia Canclini)

Talvez a obra mais completa – e também instigante e apaixonante – do antropólogo argentino Néstor García Canclini, autor que transita com mais desenvoltura na academia. Publicado no Brasil pela editora da USP, esta obra, muito mais do que uma peça acadêmica, é um belíssimo estudo ensaístico que pensa a modernização da América Latina entendendo-a como lugar da emergência de uma heterogeneidade que não apenas a caracteriza, mas a constitui indelevelmente. A complexidade cultural é pensada a partir do que o autor chama de hibridação, um conceito que busca entender a relação sempre sofisticada e representativa da mistura entre os âmbitos do culto, do popular e do massivo, que nunca chegam a nós de modo puro ou “higienizado”, como lugares que não se “contaminam" uns com os outros. É ainda um livro que pensa a questão da modernidade nas suas contradições e idiossincrasias latinas, seus fracassos e acordos com as referências culturais e identitárias do povo latino e seu permanente descrédito frente às filosofias que valorizam o pós-moderno. O subtítulo da obra, “Estratégias para entrar e sair da modernidade”, nos ajuda, em grande medida, a entender o objetivo de Canclini e o título do último capítulo “Culturas Híbridas, Poderes Oblíquos” nos permite dar conta que compreender a América Latina é entender sua não-pureza, seus cruzamentos religiosos, artísticos, políticos, nacionais, étnicos, a necessidade de relativizar seus fundamentalismos e perceber que a reorganização dos cenários culturais e dos cruzamentos permanentes das identidades exigem um outro modo de ver esse povo e entendê-lo em sua diferença.

6. Angosta (Hector Abad Faciolince)

Romance distópico que se passa na Colômbia, mas que pode ser visto como a narrativa do cotidiano e da história de qualquer metrópole latino-americana. As divisões de classe se reproduzindo nas divisões de espaços geográficos, os conflitos entre personagens aparentemente comezinhos espelhando as complexidades e contradições das nossas sociedades cada vez mais violentas e desintegradas da sociabilidade pacífica e acolhedora que costuma marcar – pelo menos no imaginário dos visitantes – os povos da América Latina. Magnífica obra de Hector Abad Faciolince, que misturou suas memórias autobiográficas da vida em Medellín às reflexões sobre as transformações pelas quais nossos países têm passado. Vai virar filme pelas mãos do brasileiro Affonso Beato.

5. Se me deixam falar: Domitila (Moema Viezzer)

A partir de um relato profundo da ativista boliviana Domitila Barrios de Chungara, colhido e transformado em texto pela socióloga brasileira Moema Viezzer, esta obra magistral é inigualável enquanto testemunho de quem está na base – e sente o peso – do sistema de exploração secular descrito por autores como Galeano, Ruy Mauro Marini e tantos outros. Pouco depois de suas conversas com Moema Viezzer, Domitila e mais quatro mulheres derrubaram uma ditadura na Bolívia. Neste livro, a militante conta como deixou a vida de esposa de mineiro no interior para se tornar militante e referência mundial na luta contra o subdesenvolvimento de países cujas riqueza eram drenadas por empresas multinacionais que até hoje contribuem com a perpetuação da miséria nos locais onde operam. O modelo de exploração e o contexto das minas bolivianas dos anos 1960 é basicamente o mesmo de todos os projetos de larga escala implantados na América Latina até o presente. Domitila faleceu em 2012 e para o público brasileiro – incluindo a militância de esquerda – a sua vida e a obra que produziu junto com Moema permanecem quase completamente ignoradas. Este livro, aliás, é peça rara em livrarias e em formato digital está disponível apenas em espanhol, inglês e alemão. Essas injustiças irreparáveis da América Latina...

4. Nossa América (José Martí)

Embora haja versão traduzida para o português no Brasil, recomendamos – a quem puder – a leitura do original no castelhano por conta da riqueza de metáforas e expressões idiomáticas (mas não difíceis de se compreender) utilizadas pelo autor. Este é provavelmente o melhor texto já escrito sobre o “sentimento” latino-americano em contraposição ao preconceito e à soberba dos colonizadores e dos “gringos” do norte. O tom muitas vezes lírico do texto não recai, contudo, num idealismo desenraizado da realidade que muitas vezes se atribui erroneamente a José Martí. Trata-se de uma verdadeira joia literária que registra um dos pioneiros pensadores latino-americanos. Política, democracia, racismo, indigenismo e outros temas são percorridos pelo herói cubano nesta obra.

3. O outono do patriarca (Gabriel García Marquéz)

Considerado pelo próprio autor o seu mais elevado trabalho, este romance escrito em ritmo contínuo, quase sem pausas, descreve de forma satírica o arquétipo do ditador latino-americano e suas idiossincrasias, sobretudo quando enfrenta a sua inevitável decadência. Não deixa de ser também um retrato muito bem feito dos costumes e visões de mundo das elites e nobrezas que habitam nossas terras desde a colonização.

2. A América Latina existe? (Darcy Ribeiro)

Publicado em 2010, 13 anos após a passagem do autor, este pequeno livro reúne ensaios que demonstram a enorme capacidade de reflexão e elaboração de Darcy Ribeiro, influenciador e amigo pessoal de tantos literatos e pensadores latino-americanos do século XX. Nesta peça, organizada pela Universidade de Brasília (UnB), Darcy aborda, como ninguém antes, inúmeras questões relativas à identidade do "ser" latino-americano, bem como explora o sentimento de pertencimento à América Latina do ponto de vista do povo brasileiro. O estranhamento (ou a frustração) do mestiço ao não se enxergar no europeu – mas tentar sempre uma aproximação com ele – também é tema deste opúsculo, cuja leitura é imprescindível e prazerosa.

1. As veias abertas da América Latina (Eduardo Galeano)

Um passeio profundo por cinco séculos de história, um tratado de economia política acessível para leigos, uma grande reportagem, um guia de viagem de lugares não necessariamente turísticos, mas indiscutivelmente muito importantes para a história ou para a economia desse recanto do mundo. O livro do uruguaio Eduardo Galeano, falecido em 2015, é tudo isso simultaneamente. Ao versar sobre a América Latina – um conceito que, mais do que geográfico, está inserido nas esferas cultural e política – de modo tão original, numa linguagem que reuniu tanto o humor ácido de um ensaio quanto o preciso detalhamento do jornalismo, Galeano produziu uma obra que segue atualíssima na sua essência, mesmo após quase cinquenta anos de tê-la presenteado ao mundo.

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