Como lidar com imagens virais de crianças sofrendo?

    Quando fotos assim aparecem na minha linha do tempo, eu vejo o meu próprio filho refletido nelas. Mas isso não significa que tenho mais razão para dizer como, ou se, essas imagens devem ser compartilhadas.

    Rebecca Hendin / BuzzFeed

    Mais ou menos nessa época do ano passado, me vi à beira das lágrimas, xingando o editor de política do "Huffington Post UK" no Twitter.

    Eu não sou o tipo de gente que faz esse tipo de coisa. Quer dizer, não sei se existe um "tipo de gente" que xinga editores de política on-line. Mas, se existe, não sou eu. Eu sempre fui uma pessoa bastante impassível, aberta e não muito emotiva. Mas lá estava eu, sendo claramente emotivo. Não tinha como negar que algo havia mudado.

    A crise de refugiados estava acontecendo a todo o vapor, com migrantes tentando atravessar o mar Mediterrâneo até a Europa, e Paul Waugh – o editor do "HuffPo" – compartilhou a imagem que todos estavam compartilhando: aquela de Alan Kurdi, garotinho sírio de três anos cujo corpo foi encontrado em uma praia da Turquia.

    Kurdi estava em um barco com sua família tentando chegar à Europa quando a embarcação virou. Ele se afogou, assim como seu irmão mais velho, Galip, e sua mãe.

    Na foto, Alan parecia dormindo – de bruços, com as mãos ao lado do corpo – exceto pelas ondas batendo contra ele. Eu não conseguia olhar para a imagem, mas também não conseguia olhar para outra coisa, ela estava em todo o lugar. Não tinha como evitá-la na minha linha do tempo. Então, quando Waugh tuitou, eu perdi o controle: "PARE DE TUITAR. PARE DE TUITAR ESSA DROGA DE FOTO. É um *garotinho*. Um garotinho morto. Vamos dar um pouco de dignidade a ele".

    O que, todos podemos concordar, não foi uma forma totalmente OK de reagir.


    Eu não sei se é certo ou errado publicar fotos de crianças mortas. Talvez isso mude a cabeça das pessoas ou as inspire a tomar uma atitude, talvez, não; ninguém sabe ao certo. É um dos grandes debates da ética do jornalismo, e ninguém tem a resposta correta. No entanto, qualquer que ela seja, xingar colegas jornalistas não vai nos ajudar a encontrá-la.

    O que mais achei interessante foi a forma como aquela foto me afetou. Coisas assim não costumavam me afetar. Quando você trabalha com jornalismo, às vezes você vê imagens horríveis, mesmo se (como eu) você fica principalmente fechado em um escritório.

    Eu fiz a cobertura da Primavera Árabe e do terremoto de Tōhoku remotamente – a partir da segurança de uma redação em Londres. As fotos que apareciam na TV e nos jornais – pessoas sendo esmagadas por veículos blindados que transportavam soldados armados, corpos inchados flutuando entre os escombros na costa do Japão – eram perturbadoras.

    E eu fiquei perturbado com elas, mas nunca no estado de choque que fiquei com a imagem de Alan. Nunca ao ponto de quase chegar às lágrimas, de sentir o coração apertado no peito.

    O que mudou? Pode ser que o mundo esteja mais cheio de imagens perturbadoras do que antes. Isso provavelmente é verdade, até certo ponto – todos têm um celular com câmera, as fotos podem correr o mundo todo em minutos. Porém, a situação não mudou tanto assim desde 2011.

    Algo óbvio na minha vida mudou, no entanto. Eu me tornei pai.

    Billy tinha cerca de 18 meses quando Alan morreu. Ele tem dois anos e meio agora. Ele é obcecado por trens, futebol e, por alguma razão, cabras. Ele hoje tem uma irmã de 11 meses, Ada, que está começando a andar de um jeito desengonçado. Billy geralmente é muito amável com ela, exceto quando não é. É tudo padrão beirando o clichê.

    Desde que nasceram, eu me tornei visivelmente mais sentimental. Eu costumava sair de um vagão do metrô se tivesse um bebê chorando, agora eu sorrio de maneira compreensiva para os pais. Eu pergunto aos pais qual a idade de seus bebês – "Nossa! Que grande para a idade!" – e faço ruídos fofos quando seguro os recém-chegados de amigos, em vez de mantê-los cautelosamente a um braço de distância como bombas não detonadas da Segunda Guerra Mundial.

    E, claramente, eu me tornei extraordinariamente vulnerável a histórias, ou imagens, de crianças sofrendo.

    Eu não deveria precisar ter filhos para saber que crianças sofrendo e morrendo na guerra é algo ruim.

    O que começou a acontecer é que, quando vejo essas fotos, eu quase que posso ver o rosto de Billy. Alan e Billy não se pareciam muito, exceto pelos rostos gorduchinhos que é padrão das crianças pequenas – Billy é branco, com cabelo loiro cor de areia, Alan tinha cabelo castanho escuro e pele em tom de oliva. Mas eu consegui ver o rosto de Billy naquela foto. Eu tive um sentimento repentino de luto, como se tivesse acontecido com o meu filho. Eu senti o medo de Alan – de Billy – conforme o barco virou. Isso me fez estremecer.

    Quando as fotos de Omran Dagneesh, uma criança síria de 5 anos sentada em uma ambulância coberta de poeira e sangue, vieram a público, a mesma coisa aconteceu. Eu imaginei o pânico e a confusão de Billy. A pior coisa, eu acho, é que ele não entenderia o que estava acontecendo. Ele ficaria tão assustado, o mundo ficaria cheio de coisas horríveis e assustadoras, e nada disso faria sentido para ele. E eu não conseguiria explicar para ele o porquê de coisas ruins estarem acontecendo, sua incompreensão seria vazia e total. Eu não conseguia tirar esse pensamento da cabeça. Eu fiquei olhando para o meu telefone por mais de um minuto, com a foto, novamente passando do rosto de Omran para o de Billy na minha mente.

    Mas tem uma coisa ridícula nisso tudo. Eu não deveria precisar ter filhos para saber que crianças sofrendo e morrendo em uma guerra é algo ruim. Tudo isso é – ou deveria ser – óbvio. É óbvio que Alan era o filho de alguém, que alguém em algum lugar está arruinado e em frangalhos por causa de sua morte, e é óbvio que ele morreu sozinho e com medo. É óbvio que Omran estava aterrorizado. É óbvio que essas coisas pavorosas não deveriam acontecer.

    Rebecca Hendin / BuzzFeed

    Em 2008, o jornalista Christopher Hitchens foi submetido ao waterboarding (um afogamento simulado). Ele havia escrito que essa era uma técnica aceitável de interrogatório, não "tortura". Então as pessoas disseram: se não é tortura, por que você não tenta? E ele tentou. A matéria na revista "Vanity Fair" saiu com o título "Pode acreditar, é tortura".

    Hitchens descreveu como, quando ele não podia mais segurar sua respiração, "a inalação trouxe os panos molhados bem próximos às minhas narinas, como se uma pata gigante e molhada tivesse de repente e de maneira brutal se prendido ao meu rosto". Ele durou alguns segundos antes de terminar o experimento. Ele concluiu que "se o waterboarding não é tortura, então tortura não existe".

    Conforme destacou o blogueiro Scott Alexander, há algo estranho nisso. O que Hitchens tinha realmente aprendido? A que nova informação ele realmente teve acesso quando foi submetido ao waterboarding? É óbvio que o waterboarding é desagradável – caso contrário, por que seria usado como técnica de interrogatório, em primeiro lugar?

    Mas os humanos não funcionam bem assim. Nós não somos apenas analistas de custo-benefício racionais. Nós podemos, até certo ponto intelectualmente, apreciar o sofrimento de alguém, mas também podemos sentir aquele sofrimento nos nossos estômagos. Às vezes precisamos de um caminho, uma chave para destravar os portões da empatia e deixar tudo fluir livremente. Para Hitchens, foi o sentimento de afogamento conforme um ex-oficial da marinha jogou água no seu nariz. Para mim, aparentemente, foi a paternidade.

    Pais não tomam, necessariamente, as melhores decisões. Eles só cometem erros diferentes

    Há um perigo aqui, no entanto. O perigo é que essa explosão de empatia que a paternidade oferece possa fazer com que eu pense que eu entendo melhor. "Como pai, eu entendo do sofrimento das crianças.Como pai, eu sei o que é melhor para as crianças."

    Mas eu não sei.

    Angela Leadsom, que chegou bem perto de ser a primeira-ministra do Reino Unido, caiu nessa armadilha. Ela pensou que a maternidade a faria uma política melhor do que seus rivais sem filhos. Eu entendo seu pensamento, mas ela estava errada. Os pais não tomam decisões melhores. Eles só cometem erros diferentes.

    É uma espada de dois gumes – o preço do discernimento é a perda da indiferença. Às vezes, o discernimento é uma ferramenta poderosa, mas, igualmente, às vezes, você quer tirar a decisão das mãos de pessoas que sabem, visceralmente, como essa decisão os afeta. Pode não ser bom que CEOs decidam quanto os CEOs devem receber de salário, mesmo eles tendo maior discernimento sobre quão incrível é ganhar muito dinheiro por ser um CEO.

    A paternidade me deu muito discernimento, e agora as fotos da Síria e de qualquer outro lugar me afetam profundamente. Eu vi a foto de Alan sozinho na praia e, à beira de lágrimas, gritei com as pessoas que estavam compartilhando a imagem, pedindo para que parassem. Eu vi a foto de Omran, empoeirado, ensaguentado e perdido, e queria trazer todas as crianças que ainda restam na Síria para a Inglaterra.


    Compartilhar a foto de Alan era a coisa certa a se fazer? Não sei. Trazer todas as crianças da Síria para o Reino Unido resolveria mais problemas do que causaria? Não sei. Mas, mais importante do que isso, na hora, eu não me importava. Eu não estava pensando nisso. Eu não estava perguntando, racional e friamente: "Como podemos transformar o mundo em um lugar melhor?". Eu estava agitado e desesperado para que isso parasse. A verdade – egoísta – é que eu só queria que nunca mais tivesse que ver outras fotos como aquelas.

    Então eu sou mais coração-mole e mais emocional do que era. Mas também estou mais ciente das minhas emoções. Hoje me esquivo de assuntos emotivos nas redes sociais, porque não confio em mim mesmo. Eu acho que, da próxima vez que uma dessas fotos se tornar viral, vou sair do Twitter em vez de discutir sobre o assunto. Caso contrário, lá estarei de novo, com o rosto vermelho e choroso, gritando, implorando em vão para que o mundo seja mais bondoso do que é.

    Está na hora de pedir desculpas, mesmo que atrasadas, a Paul Waugh.

    BuzzFeed Daily

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