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Suicídio mata mais policiais do que confronto durante o serviço

Foram 26 suicídios de policiais civis e militares de São Paulo em 2017. "A sociedade não vê o policial como ser humano", diz especialista em segurança pública.

O suicídio mata mais os policiais de São Paulo do que os confrontos com criminosos durante o horário de serviço. Um levantamento da Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo revelou que em 2017, entre policiais civis e militares, houve 26 suicídios. No mesmo período, foram seis mortes durante o serviço.

O relatório elaborado pelo ouvidor Benedito Mariano aponta que esse índice de suicídio "deve ser alvo de análise e preocupação por parte dos comandos das instituições" e propõe que, além de intensificar o acompanhamento de saúde dos policiais, o Estado investigue as causas dessas mortes.

Noipornpan / Getty Images

Setembro Amarelo é uma campanha de prevenção ao suicídio.

No ano passado, 16 policiais militares morreram por suicídio. Em confronto durante o horário de trabalho, foram três mortes. Chama a atenção também o número de homicídios fora do horário de trabalho, quando estão de folga (período que alguns usam para fazer bicos): 33. Na Polícia Civil, foram três homicídios durante o serviço e dez casos de suicídio. Durante a folga, cinco policiais civis foram assassinados.

Em termos proporcionais, segundo a Ouvidoria, o número de policiais civis que se suicidaram é mais alarmante do que o de PM mortos.

Pesquisador de instituições policiais do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o professor da FGV Rafael Alcadipani considerou grave os números do levantamento da Ouvidoria. Para ele, o tema não pode ser abafado pelas corporações.

"Se a gente quer combater a morte dos policiais, a gente não pode olhar apenas para os fatores externos, como o confronto com criminosos. É preciso olhar para dentro das polícias, porque os policiais estão morrendo devido a suas poucas condições de trabalho", diz o especialista.

Segundo Alcadipani, a pesquisa de São Paulo reflete a realidade de todo o país. "O suicídio é uma coisa abafada pelas corporações porque isso significa que as corporações vão ter de mudar muitas de suas práticas, ter de melhorar as suas chefias, o governo vai ter de remunerar melhor os policiais."

O pesquisador revelou que o número de suicídios entre policiais é maior do que na média da população. "Isso ocorre devido ao risco da atividade, o constante contato com muita coisa que gera dor emocional. E no Brasil esses problemas são muito mais agravados pela falta condições de trabalho."

Alcadipani disse que, além da baixa remuneração, os policiais sentem que falta reconhecimento por seu trabalho. "Ninguém parece querer ver um policial como ser humano. A sociedade não vê o policial como ser humano. Isso é muito grave."

Outro problema é a dificuldade maior de um policial decidir procurar ajuda psicológica do que da média da população. "Um policial procurar ajuda é visto como uma derrota. 'Você não é um herói'. O herói precisa aguentar tudo, não pode sofrer", afirma Alcadipani.

A Ouvidoria da Polícia propõe criar um programa de prevenção ao suicídio. Para o ouvidor, o melhor é que esse programa tenha profissionais de fora das instituições policiais.

Em nota ao BuzzFeed News, a Secretaria de Segurança Pública do Estado afirmou que a PM conta com um sistema de saúde mental e que a Polícia Civil dispõe de uma divisão de prevenção e apoio assistencial.

Veja a íntegra da nota:

"As polícias paulistas dedicam especial atenção aos cuidados psicológicos dos policiais que integram os quadros das instituições fornecendo todo o suporte necessário. O Sistema de Saúde Mental da PM disponibiliza aos policiais serviços de atendimentos psicossociais realizados por psicólogos e assistentes sociais do Centro de Atenção Psicológica e Social (CAPS), sediado na Capital, bem como nas unidades policiais que possuem Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS).

Este sistema está respaldado na Lei Estadual nº 9.628, de 6 de maio de 1997, no Decreto Estadual nº 46.039, de 23 de agosto de 2001, e no Regimento Interno do Sistema de Saúde Mental da PMESP (RI-25-PM), e é operado por meio de seus diversos programas, como o PAAPM- Programa de Acompanhamento e Apoio ao Policial Militar: programa que avalia as condições psicoemocionais do Policial Militar envolvido em situações de risco à sua integridade física e psíquica, propiciando o adequado retorno às atividades profissionais, dentre outros programas. Todo esse trabalho e seus resultados são acompanhados e supervisionados pelo Comando da instituição.

A Polícia Civil esclarece que o Departamento de Administração e Planejamento da Polícia Civil (DAP), possui uma Divisão de Prevenção e Apoio Assistencial, onde psicólogos e assistentes sociais ficam disponíveis para atendimento. Os casos de suspeita de problemas psiquiátricos/psicológicos são encaminhados ao Departamento de Perícias Médicas do Estado (DPME) para avaliação. Os policiais são atendidos pelo Hospital do Servidor Público Estadual ou na rede conveniada pelo Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (IAMSPE) disponível em todo o Estado."


Como pedir ajuda

De acordo com o CVV (Centro de Valorização da Vida), o suicídio mata um brasileiro a cada 45 minutos — e poderia ser evitado em 9 de cada 10 casos. A entidade presta serviço voluntário e gratuito de amparo emocional para quem precise conversar sobre isso, com discrição. Os telefones são 188 ou 141, de acordo com a região do país. Mais informações: www.cvv.org.br.

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Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

Contact Tatiana Farah at Tatiana.Farah@buzzfeed.com.

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