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Para humilhar Maria, colocaram sua cabeça a prêmio por apenas R$ 50

A vida de uma pessoa marcada para morrer pelas "máfias do ipê", grupos criminosos ligados a madeireiros que promovem o desmatamento da Amazônia.

A cabeça de Maria já valeu R$ 50 mil. Mas, para humilhá-la, alguns matadores sugeriram fazer o serviço por R$ 50. Defensora da Amazônia — que o presidente Jair Bolsonaro disse na ONU que não está em perigo —, Maria é uma das pessoas marcadas para morrer que são acompanhadas, ainda que à distância, por um programa federal de proteção aos defensores de direitos humanos.

"Eu tenho medo porque sei do que são capazes, e mais medo ainda eu fico quando eu vejo que alguém tombou em algum lugar", disse Maria ao BuzzFeed News.

Maria tem 48 anos, três filhos e dois netos e defende a preservação da floresta na região de Santarém, no Pará. Ela vive na Resex (Reserva Extrativista) Renascer, à beira do rio Amazonas, trabalha em uma escola pública e é líder comunitária. Seu nome real e o local exato onde atua serão preservados nesta reportagem por motivos de segurança.

Maria é um dos alvos das chamadas "máfias do ipê", grupos criminosos ligados a madeireiros, que promovem o desmatamento no Pará e em outros Estados amazônicos. Segundo ela, são esses grupos que estão por trás das queimadas crescentes. Chamam máfia do ipê porque essa é uma das madeiras mais cobiçadas pelos madeireiros.

"A gente tem um problema muito sério com madeireiros. Quando começarem os focos de fogo aqui, em outubro e novembro, será monstruoso", disse Maria.

Porta trancada

Os inimigos dela rondam sua casa com motos, já forçaram a porta — que vive trancada, coisa rara na região — e tocam o terror na vizinhança anunciando que estão à procura de Maria, deixando todos sempre apreensivos. Mas não são fáceis de se reconhecer.

"Antes, era mais fácil de identificar, mas hoje você não consegue. É uma nova estratégia deles porque antes eles acabavam multados, tinham a madeira apreendida; já teve empresa fechada por causa disso. Eles sofriam prejuízo. Agora eles compram a madeira já no ponto de embarcar", disse a líder comunitária.

Primeiro, os madeireiros derrubam as árvores cuja madeira eles têm interesse em vender — o ipê é uma das madeiras mais valorizadas e abundantes na região. Depois, alguém com autorização para extrair madeira (algumas áreas têm permissão) "esquenta" essa madeira, ou seja, fornece documentos falsos para dar um ar de legalidade ao crime. O que resta da floresta é derrubado e queimado para o desmate.

Programa governamental de proteção

Para esses grupos, uma mulher como Maria é uma pedra no sapato. Ela apresenta denúncias aos órgãos de controle, como o Ibama, e faz um trabalho de conscientização da comunidade sobre a importância da preservação da floresta.

"Sempre recebi ameaça. Hoje é mais diretamente na minha casa. Tem quem fica rondando. Tem gente de moto. Tem gente a pé. Teve um cidadão que foi lá e ameaçou; e tem muito boato, conversinha de beira de rua, que é para assustar a gente."

Desde 2012, Maria está em programas de proteção governamentais. Hoje, é uma das protegidas pelo Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), subordinado ao Ministério dos Direitos Humanos, da ministra Damares Alves.

De acordo com o site do governo, há 342 pessoas na mesma condição, ameaçadas de morte, sob a guarda do programa. Na realidade, a maioria apenas conta com um monitoramento telefônico, em que relata a funcionários do governo as ameaças sofridas e os riscos reais de agressão. Nessas situações, a polícia é acionada.

Precauções

No caso de Maria, um homem já foi preso pela polícia paraense depois de ameaçá-la. "Em 2010, eles contrataram pessoas por R$ 50 para passar atirando contra a minha casa", contou ela ao BuzzFeed News.

"Às vezes eu estou sozinha, e um carro fica parado por horas perto da minha casa. Eu mesma tenho algumas precauções: não fico saindo à noite, não fico com a porta aberta, que é muito comum por aqui."

Maria disse que um dos problemas é que muitas pessoas da comunidade — em sua Resex vivem 3 mil pessoas — acabam acreditando que desmatar e vender a terra a qualquer preço é um passaporte para viver uma vida melhor na cidade.

"Não é. Não tem filho da terra que tenha virado doutor. O que tem é muito filho e filha caindo nas drogas, no crime e na prostituição quando saem daqui".

A Resex tem 211 mil hectares. As famílias sobrevivem de pesca, do extrativismo, do plantio e da criação de gado. Cada família tem seu lote.

300 assassinados

Em um relatório divulgado na semana passada, a ONG Human Rights Watch denunciou os riscos dos defensores diante das máfias do ipê. De acordo com o documento, nos últimos dez anos 300 pessoas foram assassinadas em razão de conflitos no campo, pelos registros da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da Procuradoria-Geral da República.

A ONG examinou 28 assassinatos dessa lista, 4 tentativas de assassinato e 40 ameaças de morte "nos quais havia evidências críveis de que os responsáveis por esses crimes estavam envolvidos no desmatamento ilegal e viam suas vítimas como obstáculos as suas atividades criminosas".

"Algumas vítimas eram agentes públicos. A maioria era indígenas ou outros moradores que denunciaram a exploração ilegal de madeira às autoridades", afirma o relatório.

Em resposta a questionamentos do BuzzFeed News, o Ministério dos Direitos Humanos disse que o programa PPDDH atende atualmente 468 pessoas e tem 103 casos sob análise. Este ano, apenas uma pessoa foi integrada ao programa. Trata-se de um defensor do meio ambiente, que pediu segurança no final do ano passado. Outros 20 pedidos foram feitos este ano, mas 14 estão sob análise e 6 foram arquivados. A previsão é que, no próximo mês, haja uma decisão sobre os que estão sob análise.

Entre todos os atendidos pelo programa, três pessoas tiveram de ser retiradas de suas casas devido às ameaças e transferidas para local não divulgado.

De acordo com nota enviado pelo ministério, “as medidas de proteção são pensadas caso a caso. Logo, não há como afirmar que exista apenas um padrão de atendimento das demandas por proteção aos defensores incluídos. Dessa forma, é importante pontuar que o monitoramento das situações de ameaças se dá por meio da elaboração de mapas de riscos realizados pelas áreas de segurança de cada Estado e que o contato telefônico é essencial para que haja por parte do protegido, o reporte sobre a situação em que está inserido, inclusive os telefones de plantão são disponibilizados para acionamentos independentemente do horário e do dia”.

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