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Cursinho gratuito da USP começou o ano com 800 alunos. Veio a pandemia e só sobraram 40.

Wendy perdeu o entusiasmo na quarentena e desistiu. Ana Júlia teve de ficar dois meses sem fazer as aulas online porque teve Covid-19.

Arquivo pessoal de Lara Rocha

O cursinho popular em uma das aulas convencionais, antes da pandemia.

O Cursinho Popular Florestan Fernandes, de alunos e professores da USP e de outras universidades, começou o ano em São Paulo com 800 alunos. Com a pandemia, os estudantes foram desistindo de assistir as aulas online e, hoje, os coordenadores informam que não restaram mais que 40 pessoas.

Há mais de 10 anos, o cursinho é gratuito e preparatório para vestibular e Enem. Antes da pandemia, as aulas eram realizadas aos sábados, durante todo o dia, no prédio da Geografia, na universidade. Na aula inaugural, em março, compareceram 800 estudantes.

"O que me fez desistir foi a própria quarentena. Fui na primeira aula do ano, estava muito animada porque nunca tinha ido a um cursinho. Mas, depois disso, me bateu um desânimo, uma desmotivação enorme", contou ao BuzzFeed News a estudante do terceiro ano do ensino médio Wendy da Silva Gomes.

Filha de funcionário público e bancária, Wendy tem 17 anos e estuda em uma escola particular em Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Seu objetivo era cursar medicina e se especializar em neurologia. Hoje, esses planos estão enevoados.

Arquivo pessoal de Wendy Gomes

Wendy perdeu o ânimo para seguir no cursinho e tem dúvidas sobre o vestibular.

Wendy disse que tem computador e celular, que lhe permitem acompanhar as aulas online da escola. Mas as tarefas do ensino médio aumentaram muito seus afazeres em casa. Ela se esforça para cumprir as lições e ajuda os dois irmãos menores a estudarem pelo computador.

"Esta quarentena está horrível. É um desânimo enorme. Com o tempo, você vai perdendo a vontade de estudar. A maioria dos meus amigos que prestaria vestibular este ano já desistiu. Eu ainda não desisti do vestibular, mas não consegui fazer o cursinho. É muita pressão", disse Wendy.

"Eu tento me motivar pensando no futuro porque se eu for olhar para o agora não tem como. A parte mais desgastante desta quarentena mesmo, além das tarefas acumuladas, é se sentir presa. Meus pais querem que eu preste vestibular, dizem que estão investindo em mim. Eu sinto que não tenho nenhum norte. Se eu estou me sentindo assim, como estão as pessoas que não têm equipamento para estudar?", reflete ela.

Além do desânimo, a falta de internet, de computador, de espaço para estudar e o acúmulo de tarefas em casa têm sido os principais motivos para os estudantes desistirem do cursinho, disseram ao BuzzFeed News as coordenadoras do Florestan Fernandes.

"Os nossos alunos evadiram porque não têm como acompanhar as aulas online. Eles passaram a acumular muitas tarefas em casa. A maioria dos que têm acesso à internet, têm um acesso limitado, com pacote de dados do celular", disse Lara Santos Rocha, 28, professora de Língua Portuguesa e coordenadora do cursinho.

O Cursinho Popular Florestan Fernandes conta com 60 professores, que trabalham gratuitamente. "Encaramos mais como uma militância do que um voluntariado", disse Lara. A pandemia pesou para alguns dos professores, que tiveram de desistir. Mas nada comparado à evasão dos próprios alunos.

"Tem professores saindo por motivos de saúde mental, por não conseguirem elaborar o material online que consideram bom", disse a coordenadora Greyce Silva Francisco, 23, estudante de Publicidade na USP.

Apoio nas aulas de redação do cursinho, Greyce é uma ex-aluna do entidade. Ela tem acompanhado a evasão tentando entender as razões dos alunos. "Eles relatam que não têm um ambiente adequado para estudar, nem internet. E tem a questão da instabilidade emocional. Toda semana tem uma novidade sobre as universidades, sobre como serão os vestibulares, sobre o Enem. E eles também vêem o relato dos universitários, dizendo que as aulas remotas não estão funcionando", disse ela.

As mudanças do Enem, por exemplo, deixaram o estudante João Vitor Batista dos Santos, 17,"muito nervoso". Ele está no terceiro ano do ensino médio e começou o cursinho da USP para buscar uma aprovação em escola do Exército. Quer seguir a carreira militar. Ele é um dos que resistiram à pandemia. "Eu não desisti porque é uma força a mais, o cursinho agregou muito para mim. Fora da pandemia, ia agregar mais."

Em tempos de normalidade, o cursinho funciona com oito salas, aos sábados, das 9h às 18h na USP, zona Oeste de São Paulo. Os alunos têm aulas e círculos de debates sobre as disciplinas regulares do ensino médio, além de atualidades e acompanhamento vocacional.

Arquivo pessoal de Lara Rocha

Uma das turmas do cursinho Florestan Fernandes em novembro passado.

A história de Ana Júlia, que teve Covid, perdeu o pai para a doença, e conseguiu voltar para o cursinho

"A USP é longe da sua casa?"

"Não, é perto. Eu levo umas duas horas, uma hora e meia".

O diálogo mostra como a estudante Ana Júlia Fernandes, 18, encara os desafios. Aluna de escola pública, ela concluiu o ensino médio no ano passado. Passou para Matemática na Unicamp e para Filosofia no campus de Marília da Unesp. Seu sonho sempre foi ser professora de Filosofia. Mas, moradora de Cotia, na Grande São Paulo, ela não foi para a Unesp por falta de condições financeiras.

Então, Marília, a 410 quilômetros de Cotia, é longe, mas a USP, a 30 quilômetros, é perto. E é lá que Ana Júlia quer fazer filosofia, mestrado e doutorado até tornar-se professora doutora. No ano passado, não prestou vestibular para a Fuvest porque não podia pagar a inscrição e não conseguiu isenção. Este ano, a mãe já prometeu dar o dinheiro.

Com isso, o Cursinho Popular Florestan Fernandes é uma ferramenta importante para ajudar no vestibular. Ela começou o cursinho no ano passado, quando seu maior problema era conseguir o dinheiro do transporte para as aulas.

Este ano tudo ficou mais grave. Ana Júlia teve de parar por dois meses: seu pai, o socorrista aposentado Renato Lopes Fernandes, morreu em julho com Covid-19. Ela também contraiu a doença e foi internada com pneumonia. Os efeitos da doença ainda são sentidos e ela tem dificuldade de ajudar os irmãos nas tarefas da casa. A mãe, enfermeira, era socorrista, mas hoje trabalha na administração do Samu.

Arquivo pessoal de Ana Júlia Fernandes

Ana Julia, na mesa da cozinha, onde assiste a maior parte das aulas online.

"Quando fui internada, fiquei com muito medo de morrer. Estava com muita falta de ar. Fiquei desesperada. No dia em que meu pai faleceu, só a minha mãe e a minha irmã mais velha estavam no enterro. Eu estava isolada. Do meu pai só tenho boas memórias, momentos felizes", contou ela por telefone ao BuzzFeed News.

Ana Júlia afirma que teve de parar com os estudos por causa da doença e dos problemas em casa.

"Fiquei dois meses sem ver as aulas. Achei que não ia dar conta de voltar. Agora é que estou me animando para voltar. Porque meu pai sempre me deu muito força, assim como a minha mãe."

A estudante fala que o pai, que tinha 73 anos, tinha diabetes e problemas cardíacos. "Em maio, eu comecei a trabalhar em uma empresa de telemarketing, mas me demiti porque as pessoas não respeitavam a pandemia, não tomavam os cuidados. Não sei se fui eu que passei a doença para o meu pai. Mas, uma semana depois que eu me demiti, ele ficou doente e morreu cinco dias depois."

Sobre o cursinho, o que anima Ana Júlia é o resultado. "No ano passado, eu vi um monte de gente que, pelo cursinho, conseguiu uma boa faculdade. Tem de ter bastante concentração para conseguir estudar sem ir para a escola e eles ensinam muitas técnicas de concentração."

"Com essa pandemia, a gente fica pensando 'ah, por que eu vou estudar?' Eu respondo que é porque é meu sonho ser professora de filosofia. Quando eu vou estudar, eu fico pensando no que eu vou estar fazendo daqui a alguns anos, que é ser professora, professora doutora de universidade. E seria uma experiência boa dar aula para o ensino medio, porque tive uma experiência muito boa com os meus professores nessa época."


Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

Contact Tatiana Farah at Tatiana.Farah@buzzfeed.com.

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