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No Complexo do Alemão as pessoas não têm água para lavar as mãos contra o coronavírus

Sem água há três dias, Raull criou o #DiarioDeUmFaveladoNaPandemia. "Tem uma galera tranquila, se cuidando, mas outras preocupadas com como vai fazer quando a doença chegar na favela."

Lavar as mãos com água e sabão deveria ser a tarefa mais simples no combate à pandemia do coronavírus. Mas no Complexo do Alemão, do Rio de Janeiro, assim como em outras favelas do país, é uma missão quase impossível. Raull Santiago, 31, mora com a mulher e os quatro filhos numa casa de dois quartos num beco da favela da Alvorada, no Alemão, e está no terceiro dia sem água em casa.

A água no Morro da Alvorada, como ele diz, "cai duas vezes na semana, mas sem ninguém saber o dia". A família fica atenta para ouvir a caixa d'água enchendo e correr para armazenar a água em baldes. Assim conseguem passar dois dias, controlando o banho das crianças, juntando toda a louça em um balde para lavar tudo de uma vez e aproveitar ao máximo a água.

Arquivo pessoal

Santiago é ativista social, atua em grupos de defesa dos moradores de favelas e periferias do país, como a ONG Papo Reto, no Alemão. Em suas redes sociais, faz campanhas como #COVID19NasFavelas e #CORONAnasperiferias. Uma de suas postagens ensina os moradores de favela a lavar as mãos com o mínimo de água, fechando a torneira enquanto esfrega o sabão pelos 20 segundos necessários para matar o vírus.

O ativista sabe do que está falando: nesta quinta-feira (19) ele e a família só conseguiram lavar as mãos com um copo de água. É um trabalho que deve ser feito em dupla. Enquanto um esfrega as mãos molhadas com o sabão, o outro despeja com cuidado a água do copo para enxaguá-las. É isso ou nada.

"A gente tem uma consciência com a água, a preocupação em armazenar em recipientes, em usar com cuidado. Mas estou no terceiro dia sem água, sobrevivendo com os baldes, que já estão no finalzinho", contou o ativista em entrevista ao BuzzFeed News.

#DiariodeUmFaveladonaPandemia: Quinta, dia 19 de Março de 2020. Zero água nas torneiras. Diferente de ontem que estava um dia nublado, hoje o sol brilha forte lá fora. Está calor. As crianças estão na sala, algumas no celular, outras assistindo vídeo no YouTube.

Raull Santiago mora no Complexo do Alemão desde que nasceu. E água é um problema desde sempre. "É uma vida inteira controlando".

O temor de moradores de favelas é a chegada do coronavírus às localidades periféricas, sem abastecimento de água nem saneamento básico adequados, além de pouca infraestrutura de saúde.

"Aqui os moradores estão divididos. Tem uma galera tranquila, se cuidando, mas outras preocupadas com como vai fazer quando a doença chegar na favela."

Para contar sobre como está se virando em época de Covid-19, o ativista decidiu criar nesta quinta-feira posts diários nas redes sociais. É o "diário de um favelado na pandemia."

Sob a hashtag #COVID19NasFavelas, os moradores do Alemão estão protestando contra a falta d'água na favela.

Muitos moradores do Complexo do Alemão estão reclamado que estão sem abastecimento de água e por isso não estão conseguindo se previnir contra o novo coronavirus. Não há álcool em gel nas farmácias e mercados. #COVID19NasFavelas

“”Não tem água na favela pra lavar a mão? COMPRA!”” Eu não posso comprar água nem pra beber, mesmo infectada e com gosto de barro. Vou comprar pra lavar a mão? Ter água na favela pra lavar a mão tá sendo luxo Não fazem ideia da nossa realidade! #COVID19NasFavelas #coronavirus


Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

Contact Tatiana Farah at Tatiana.Farah@buzzfeed.com.

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