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"Herói nacional não é o Ustra, é o Ayrton Senna", diz Alexandre Frota

Ameaçado de expulsão do partido do presidente, Frota diz que fala de Bolsonaro sobre Brilhante Ustra é, "mais uma vez, uma declaração desnecessária".

O deputado Alexandre Frota (PSL-SP) já tomou uma invertida do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que lhe tirou os cargos na Câmara por não gostar de suas declarações. Dois outros parlamentares pediram sua expulsão da legenda. Nesta entrevista ao BuzzFeed News, o deputado fala que "não, ainda não" está arrependido de ter apoiado o presidente.

Mas reclama: "Se eu soubesse que ao apoiar o Bolsonaro eu estaria também colocando o Herculano Quintanilha da Virgínia no poder, que é o Olavo de Carvalho, talvez eu repensasse nisso. Esse senhor tem feito muito mal ao governo, à Câmara. Ele, os alunos e aqueles que vivem em volta do nosso presidente".

Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Herculano Quintanilha foi o personagem central da trama da Globo "O Astro", vivido primeiramente por Francisco Cuoco e depois por Rodrigo Lombardi. Ele é um guru que faz fama e fortuna nos palcos.

O sr. é alvo de dois pedidos de expulsão. Por que isso está acontecendo?

Já fui informado pelo Luciano Bivar, presidente nacional do PSL, que ele vai rejeitar o pedido da Carla Zambelli e já rejeitou o do Major Olímpio. E isso está acontecendo porque segundo os dois eu não estou me enquadrando nas fileiras do PSL. Eu tenho feito críticas ao Jair Bolsonaro, eu não tenho concordado com determinadas coisas do governo e, com isso, eles resolveram entrar com pedido de expulsão. A Carla Zambelli não gostou quando eu dediquei a vitória do primeiro turno da reforma da Previdência ao Rodrigo Maia (DEM-RJ). De qualquer forma, respeito a ação deles, o que tiver de acontecer sem maiores problemas. Acho um absurdo colega de partido pedir expulsão, fazer banner, dar mil entrevistas. Eu, enquanto a Carla estava dando entrevista, eu tava trabalhando. Ela fez banner e tudo como se eu fosse um inimigo. Ontem eu resolvi a situação pessoalmente com ela. Agora, juridicamente, eu deixo na mão dos advogados.

O sr. disse que bastaria chamar uma coletiva, que metade do partido sairia. O que diria nessa coletiva para causar essa debandada? E vai chamar uma coletiva para contar o que sabe sobre a bancada?

Metade sai, talvez, para me acompanhar para outro lugar. Tem muita gente insatisfeita, que tem falado para mim, inclusive, não se manifesta publicamente, mas está insatisfeita. A outra metade por algum erro ou alguma coisa que eu venha apresentar. Agora eu diria isso na coletiva. Se é na coletiva, eu vou dizer na coletiva, não agora. Se eu vou chamar a coletiva para contar o que sei sobre a bancada? Não sei. Vai depender do meu processo, da época que isso venha acontecer. Eu não quero muitas confusões não. Eu tenho feito um trabalho bom, as pessoas estão me respeitando.

Divulgação

Foto postada por Frota contando os votos pró-reforma da Previdência.

Os filhos do Bolsonaro atrapalham mais que os filhos do Lula? O sr. concorda com o ex-ministro Bebianno?

Concordo. Os filhos do Lula atrapalhavam bastante. E, né, tem todo um processo de desvio de dinheiro, ações fraudulentas e, enfim, o pai preso. Os filhos do Bolsonaro, se eles ficassem um pouco mais comedidos, não falassem tanto, ou se não se intrometessem tanto em diversas questões do governo, do partido, as coisas poderiam andar de uma maneira melhor.

Sua abstenção em uma votação da Câmara foi um recado a Bolsonaro?

Sim, foi um recado para o sistema. Para mostrar que o nosso voto tem peso. E o meu voto nesse dia não era necessário. Vale lembrar que eu votei todas as vezes com o governo, mesmo quando não concordava. Meu problema não é com o PSL. Meu problema é com algumas ações e atitudes do nosso presidente.

Foi o próprio presidente que o tirou da vice-liderança do partido e do comando das reformas?

Foi. Eu passei o dia na casa do Rodrigo Maia fazendo o mapeamento do segundo turno dos votos [da Previdência] e quando eu cheguei na Câmara o Bivar me chamou e me informou isso, que o Jair tinha pedido o meu afastamento e do comando das reformas, principalmente da tributária. Eu atribuo isso a uma retaliação. E também à vontade. Ele é o presidente e ele é o dono do partido, junto com o Luciano Bivar ele escolhe o que quer e o que não quer. Não acho que seja democrático, não acho que seja a melhor maneira de fazer as coisas. Mas se essa é a decisão dele só por discordar de críticas que eu faço é sinal de que ele não está sabendo ouvir.

O sr. tem sido bastante crítico ao governo Bolsonaro, sobretudo a falas do presidente.

Sou bastante crítico quando preciso ser crítico. Não posso falar para Bolsonaro tudo o que ele quer ouvir. Ele tem falas que realmente complicam muito. Hoje nós temos nos defendido e defendido demais o presidente. Fui uma das primeiras pessoas a vestir a camisa dele. Não posso agradar todo mundo e não posso agradar ao Bolsonaro também. Se eu não agrado ao Bolsonaro, problema dele. Não posso fazer nada. Antes agradava, agora não agrado mais.

Adriano Machado / Reuters

O que acha das recentes declarações de Bolsonaro, hoje chamando Ustra de herói nacional e na semana passada dizendo que sabia o destino do pai do presidente da OAB, morto pelo regime militar segundo documentos oficiais do governo?

Olha, herói nacional para mim é o Ayrton Senna. Eu não acho que tenha sido uma boa, um bom momento para falar sobre isso. A gente está aí com a reforma tributária, estamos em trâmite com a reforma da Previdência, saindo vitoria da Câmara para o Senado. Então isso, mais uma vez, é uma declaração desnecessária, né? Na semana passada ele disse qual era o destino do pai do presidente da OAB. Eu também quero saber qual era o destino, o que aconteceu. Acho que é um direito do Felipe Santa Cruz saber, ainda que eu discorde das maneiras partidárias do Felipe, eu acho que o nosso presidente teve um pouco de excesso. Seria um assunto que ele deveria deixar passar. Não precisava falar sobre esse assunto, mas já que falou, então ele apresente aí, conte a história, que ficou todo mundo curioso para saber.

O senhor pensa em deixar o PSL?

Não penso em deixar o PSL. O PSL é que quer a minha expulsão. Meu trabalho foi extremamente coerente e coeso.

Acredita que o presidente e sua família estejam por trás da pressão para deixar a legenda?

Em Brasília, eu aprendi uma coisa: você precisa acreditar em tudo com dois pés atrás e não duvidar de nada.

Como está sua relação com o presidente Bolsonaro, que já chegou a ir à Câmara, a seu convite, para homenagear Carlos Alberto de Nóbrega?

Ele é presidente e eu sou deputado federal. Esta é minha relação com ele. Eu fiquei muito agradecido e honrado de o presidente ter ido a minha sessão solene de homenagem ao Carlos Alberto de Nóbrega, do SBT. Eu e Bolsonaro, a gente não precisa ser amigo. Ele precisa muito do meu voto aqui dentro.

E com os filhos do presidente?

O Carlos Bolsonaro eu não sei por onde ele anda porque ele é bloqueado nas minhas redes. E eu não tenho interesse em nada que ele fala, não compactuo com as coisas que ele diz por aí. E ele também é vereador no Rio de Janeiro, eu não tenho contato nenhum com ele. O Flavio Bolsonaro, eu gosto dele, mas o Flavio está com problemas sérios para serem resolvidos. Ele está lá no Senado e eu estou aqui na Câmara. Já o Eduardo, eu pouco encontro com ele aqui nas sessões na Câmara. O Eduardo é uma pessoa que tem muitos trabalhos, viaja muito.

O sr. está arrependido de ter apoiado Bolsonaro?

Não. Ainda não. Eu acho só que se eu soubesse que ao apoiar o Bolsonaro eu estaria também colocando o Herculano Quintanilha [protagonista guru da novela O Astro] da Virgínia no poder, que é o Olavo de Carvalho, talvez eu repensasse nisso. Esse senhor tem feito muito mal ao governo, à Câmara. Ele, os alunos e aqueles que vivem em volta do nosso presidente. Mas aí a vida é feita de escolhas e o presidente parece ter escolhido eles para transitarem durante esses quatro anos.

Joshua Roberts / Reuters

Olavo de Carvalho, nos Estados Unidos, onde vive, em março.

O governador Doria continua insistindo nos convites para ir para o PSDB?

Doria me convidou por três vezes. Deixou as portas abertas do PSDB. O DEM me convidou. O Podemos me convidou. O Podemos, o PROS, o PP também me convidou. Me sinto prestigiado, me sinto honrado com os convites, mas só vou pensar nisso futuramente, caso eu saia do PSL.

Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.

Contact Tatiana Farah at Tatiana.Farah@buzzfeed.com.

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