Posted on 8 de dez de 2016

    Como o Black Lives Matter tornou-se um movimento global

    Ativistas dos direitos das populações negras e indígenas do mundo todo adotaram o slogan “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam) em suas campanhas contra o racismo e a violência policial.

    Em 2016, o Black Lives Matter tornou-se global.

    O movimento, que começou nos Estados Unidos, chegou a países como Brasil, África do Sul e Austrália, onde ativistas tomaram as ruas e as redes sociais em solidariedade às vítimas da violência policial. Eles adotaram o grito de guerra “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam) para amplificar suas lutas em seus próprios países e para apontar o que consideram uma abordagem hipócrita da imprensa e do governo.

    “A mídia francesa enxerga cores em outros países e escreve em suas manchetes que um negro foi morto pela polícia nos Estados Unidos, mas não é capaz de fazer o mesmo [quando isso acontece] na França”, disse ao BuzzFeed News Fania Noël, coordenadora do Black Lives Matter França.

    Conexões internacionais entre movimentos anticolonialistas e em defesa dos direitos civis não são novidade. Mas, como fenômeno global, o BLM e suas ramificações, como o Native Lives Matter (Vidas Nativas Importam), estão ganhando força e ajudando grupos menores a se aliarem e a serem ouvidos. A plataforma política desenvolvida pelo Movement for Black Lives (Movimento pelas Vidas Negras) foi traduzida para espanhol, francês, árabe e chinês e endossada por ativistas canadenses, que a veem como um modelo.

    Reportagens do BuzzFeed News em diversos países – França, Brasil, Austrália, Canadá, Reino Unido, Estados Unidos e Senegal – mostram em que questões os ativistas locais do Black Lives Matter estão se concentrando, como eles trabalham em parceria e como veem o futuro desse tipo de organização diante do crescimento do nacionalismo branco de extrema direita em todo o mundo.

    Julien Mattia / NurPhoto via Getty Images

    Família de Adama Traore durante protesto em Paris contra a morte do jovem, em 30 de julho de 2016.

    PARIS – Em julho, centenas de pessoas foram às ruas de Paris e de Beaumont-sur-Oise para protestar contra a morte de Adama Traoré, um homem negro de 24 anos que morreu quando estava sob custódia da polícia. A hashtag #JusticePourAdama – justiça para Adama – rapidamente foi seguida por #BLMFrance e passeatas nas quais os manifestantes gritavam “Black lives matter!”, em inglês.

    Nascia um novo movimento, o Black Lives Matter França, dando início a um debate sobre raça num país que há muito tempo luta para lidar com seu passado colonial e que se considera uma república pós-racial, cega para as diferenças de cor. O slogan reuniu vários grupos que já defendiam a justiça racial e combatiam a violência da polícia. O objetivo dessa espécie de coalizão é dar mais visibilidade às suas causas.

    “Quando começamos a hashtag nas redes sociais, também queríamos denunciar a hipocrisia na França”, diz Noël, coordenadora do Black Lives Matter França, grupo focado em todas as formas de racismo estrutural. “A mídia francesa enxerga cores em outros países e escreve em suas manchetes que um negro foi morto pela polícia nos Estados Unidos, mas não é capaz de fazer o mesmo [quando isso acontece] na França.”

     “A mídia francesa enxerga cores em outros países e escreve em suas manchetes que um negro foi morto pela política nos Estados Unidos, mas não é capaz de fazer o mesmo [quando isso acontece] na França.”

    Outros grupos também tentam aprender com o BLM, incluindo o Urgence Notre Police Assassine, a principal entidade de combate à violência policial do país (o nome pode ser traduzido como “Emergência, Nossa Polícia é Assassina”). O grupo não tem foco único na questão da raça, mas também mantém contato com o BLM nos Estados Unidos e ajudou a coordenar uma visita de Evelyn Reynolds, ativista do BLM de Illinois (Estados dos EUA), à França em julho passado.

    “Nos reunimos para comparar nossos trabalhos, falar sobre o que vivemos todos os dias”, disse Amal Bentounsi, que criou o Urgence Notre Police Assassine depois da morte de seu irmão pelas mãos da polícia, em 2012. “É realmente difícil, e não sou muito organizada. Tenho de aprender com eles. Não nasci ativista, preciso da inspiração deles. E também quero mostrar o que sabemos fazer.” Bentounsi planeja criar um “observatório da violência policial” para registrar casos de violência e compartilhar mais informações sobre o tema.

    Os integrantes da coalizão BLM França participaram de protestos contra a violência policial e em apoio à família de Adama Traoré. Em novembro, eles organizaram um protesto em Saint-Denis, subúrbio a nordeste de Paris, depois de uma altercação entre policiais e um professor universitário branco que estava filmando a prisão de uma negra.

    Com as eleições francesas se aproximando, em 23 de abril do ano que vem, fala-se muito sobre a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e o potencial impulso que ela pode representar para partidos de extrema direita no mundo inteiro. Mas Noël não acredita que a vitória de Trump ou a política francesa tenham muita influência em seu trabalho.

    “Esse tipo de evento terá impacto principalmente nas pessoas que querem participar de movimentos como ‘Todos Unidos Contra o Ódio’ [campanha governamental contra o racismo], não do nosso”, disse ela ao BuzzFeed News. “Elas não vão procurar organizações que lutam pelo fim da supremacia branca.”

    David Perrotin e Cecile Dehesdin, repórteres do BuzzFeed News, França

    SÃO PAULO – Em julho deste ano, enquanto o mundo aguardava os Jogos Olímpicos do Rio, que começariam no mês seguinte, uma delegação do Black Lives Matter Estados Unidos visitou a cidade para se reunir com grupos locais que trabalham contra a violência policial.

    Foi uma viagem emocional para a reverenda Waltrina Middleton, uma ativista de Cleveland (EUA). Um de seus primos, o reverendo DePayne Middleton, foi um dos nove negros assassinados no ataque armado de um supremacista branco contra uma igreja histórica de Charleston, na Carolina do Sul, no ano passado.

    No Rio, Middleton conheceu Débora Maria da Silva, que perdeu seu filho Edson em maio de 2006, durante uma onda de violência que chocou São Paulo – quando a polícia do Estado deu início a uma onda de retaliações depois de uma série de atentados contra a PM. Em duas semanas, centenas de civis foram mortos. Ativistas dos direitos civis afirmam que muitos dos mortos foram jovens negros executados. Débora acredita que Edson, que tinha 29 anos, estava voltando para a casa da mãe para buscar remédios quando foi perseguido e baleado pela polícia.

    No Brasil, Middleton marchou silenciosamente ao lado de Silva e outras mães cujos filhos foram mortos pela polícia. As mulheres não foram autorizadas a conversar diretamente com as autoridades, mas se recusaram a ser ignoradas, fazendo uma peregrinação por delegacias de polícia carregando as fotos de seus filhos mortos.

    “Temos de ser as autoras da nossa história, e é isso o que essas mulheres fizeram”, disse Middleton ao BuzzFeed News. “Ver essas mulheres ocuparem seu espaço, e declará-lo sagrado em nome de seus filhos falecidos e assassinados, foi muito forte.”

    Thousands killed by police in Río and São Paulo each year #BLMinBrazil #BlackLivesMatter

    A delegação americana pediu uma bandeira do movimento Mães de Maio para levar aos Estados Unidos. “Foi como se elas tivessem levado nossos filhos com eles”, disse Silva ao BuzzFeed News.

    “A bala que mata lá é a mesma que mata aqui”, disse Silva a respeito dos assassinatos cometidos pela polícia nos Estados Unidos e no Brasil. “Policiais são absolvidos nos dois países.”

    Dez anos depois da morte de Edson, pouca coisa mudou. Um relatório de 2016 da Anistia Internacional aponta um padrão perturbador de execuções extrajudiciais e acobertamentos de crimes cometidos pela polícia brasileira – que raramente tem de responder pelos seus atos. Negros e mestiços são mais da metade da população brasileira, mas têm níveis inferiores de renda, escolaridade e representação no governo. Uma investigação recente do Congresso indicou que, a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil.

    As mães brasileiras se mantêm em contato com os americanos que conheceram em julho e também conversam pela internet com ativistas de El Salvador, Canadá, Colômbia, Chile e México. A ideia é que eles se reúnam novamente no Rio, em maio do ano que vem.

    Middleton diz que esses relacionamentos internacionais a ajudam a manter o comprometimento com seu ativismo nos Estados Unidos. “Assim que Donald Trump foi eleito, recebi muitas mensagens dizendo: ‘Estamos aqui para qualquer coisa, te amamos’”, disse ela ao BuzzFeed News. Ainda assim, ela afirma que, mesmo que Hillary Clinton tivesse sido eleita, seu trabalho não seria nada fácil.

    Para resistir à retórica racista e aos ideais que levaram Trump à vitória, os ativistas americanos têm de olhar além dos Estados Unidos. “Temos a responsabilidade de ser conscientes e nos preocuparmos com essa diáspora ao redor do mundo”, disse ela. “Não podemos nos dar ao luxo de ignorá-la.”

    Tatiana Farah, repórter do BuzzFeed News Brasil, e Susie Armitage, editora executiva global do BuzzFeed News

    Daniel Leal-Olivas / Getty Images

    Manifestantes do Black Lives Matter fazem marcha em Londres, em 10 de julho de 2016.

    LONDRES – Alguns ativistas britânicos passaram a ver uma missão mais ampla para o movimento Black Lives Matter depois do Brexit (a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia). Crimes de ódio e sentimentos antimuçulmanos e anti-imigrantes estão aumentando no país.

    “Quando você diz 'vidas negras importam', não estamos querendo dizer ‘vidas negras britânicas importam”, afirmou Alexandra Kelbert, 25, professora, pesquisadora e integrante da rede de ativistas que usa o nome Black Lives Matter UK. “Também estamos pensando na Lei de Imigração, que tem tornado impossível que muita gente, incluindo muitos negros, trabalhe, alugue uma casa ou simplesmente tenha uma vida neste país.”

    No entanto, as campanhas envolvendo questões mais amplas sob a égide do BLM UK nem sempre deram muito certo. O grupo foi alvo de fortes críticas no início de setembro por causa de um protesto contra a mudança climática realizado no London City Airport, que contou com a participação de nove pessoas – todas brancas. Kelbert, que é negra, disse que a decisão de usar apenas manifestantes brancos foi “estratégica, mas necessária”. Só que muita gente não comprou essa explicação nem a tentativa do BLM UK de enquadrar a mudança climática como uma “crise racista”.

    The UK is the biggest per-capita contributor to temperature change & among the least vulnerable to its affects.

    Discussões sobre violência do Estado, racismo e as várias maneiras pelas quais os negros são oprimidos no Reino Unido não são novidade. A maioria dos policiais britânicos não anda armada, mas um número desproporcional de negros e outras minorias étnicas, muitas vezes com problemas de saúde mental, morrem sob custódia da polícia. Grupos como Inquest e United Families and Friends Campaign trabalham há décadas para obter justiça e para apoiar as pessoas que tiveram parentes ou amigos mortos pela polícia.

    Parentes de vítimas passam anos esperando respostas. Uma investigação quatro anos depois da morte de Kingsley Burrell, negro de 29 anos morto em 2011, indicou que ele morreu por negligência e violência excessiva da polícia de Birmingham. Ativistas do Black Lives Matter nos Estados Unidos e no Reino Unido apoiam a campanha da família de Burrell. Em outubro, três policiais foram indiciados por perjúrio.

    "O sentimento antinegros não é um fenômeno específico dos Estados Unidos – ele é global"

    Manifestantes lembraram Burrell numa passeata que reuniu milhares de pessoas para protestar contra a morte do americano Alton Sterling, assassinado a tiros pela polícia dos EUA em julho. Protestos semelhantes ocorreram em todo o país para demonstrar solidariedade com as vítimas da violência policial nos Estados Unidos e também para chamar a atenção para casos semelhantes no Reino Unido. Grupos locais do Black Lives Matter, sem ligação oficial com a organização americana, foram criados em Londres, Birmingham, Liverpool, Nottingham e Manchester.

    “Acho que essa frase galvanizou pessoas que vêm falando disso há muito tempo”, disse Kelbert ao BuzzFeed News. “[A rede americana do Black Lives Matter] nos vê, e nós os vemos, e estamos crescendo.”

    “Deveríamos estar falando do sentimento antinegros em nosso próprio contexto, porque não se trata de um fenômeno específico dos Estados Unidos – ele é global”, disse Imani Robinson, um londrino de 24 anos que também faz parte da rede BLM UK.

    Fiona Rutherford e Victoria Sanusi, repórteres do BuzzFeed News UK.

    Peter Parks / Getty

    Manifestantes participam de protesto do Black Lives Matter em Sydney, Austrália, em 16 de julho de 2016.

    SYDNEY – “Vários de nós adoraríamos estar em Standing Rock”, disse ao BuzzFeed News Shaun Harris, um aborígene do oeste da Austrália, em referência aos protestos liderados por nativos americanos contra a construção do oleoduto Dakota Access Pipeline.

    Em um ano em que questões relacionadas à população indígena americana – que costumam receber pouca atenção – tomaram de assalto o Facebook e os assassinatos de negros americanos ganharam as manchetes da imprensa internacional, as populações indígenas da Austrália também querem chamar atenção para a violência contra sua comunidade.

    “O que acontece nos Estados Unidos é exatamente o que acontece aqui”, disse Harris, que teve uma sobrinha de 22 anos morta sob custódia da polícia, em 2014. Quando ouviu falar do movimento Black Lives Matters, em março passado, “foi como um momento ‘sim!’. Achei que precisávamos de algo parecido aqui na Austrália.”

    “O que acontece nos EUA é exatamente o que acontece aqui”

    A sobrinha de Harris, identificada como senhora Dhu (seguindo a tradição da tribo Yamatji de não usar o primeiro nome de uma pessoa falecida), foi presa em 2014 por multas atrasadas. Dois dias depois, ela morreu devido a uma infecção. Dhu disse repetidas vezes aos médicos que não estava se sentindo bem, mas seus alertas foram considerados “problemas comportamentais”. A família quer que as autoridades liberem para o público as imagens do circuito fechado de câmeras que mostram a morte de Dhu.

    Embora os aborígenes australianos há muito se inspirem na luta dos negros americanos – nos anos 1970, um pequeno grupo chegou até mesmo a formar uma versão local do Partido dos Panteras Negras –, movimentos online como Black Lives Matter, Native Lives Matter e Aboriginal Lives Matter criaram a possibilidade de conexão direta com outros povos indígenas e seus levantes.

    Em julho, Harris contou a história de sua sobrinha em um protesto do Black Lives Matter em Perth. Em outubro, ativistas do Grand Central Crew realizaram uma passeata em Nova York em solidariedade à família de Dhu.

    Last night, #PeoplesMonday shut down NYC for #MsDhu, a native woman killed by Australian police (pics: @KeeganNYC)

    Harris afirma que o Black Lives Matter amplificou o pedido para a liberação do vídeo da morte da Dhu. O premiê do Estado da Austrália Ocidental – cargo equivalente ao de governador – disse não ver problemas em divulgar as imagens. Dois senadores propuseram uma moção no Parlamento para forçar as autoridades locais a divulgar o vídeo.

    O tratamento que pessoas como Dhu recebem do Estado é o ponto central do movimento Black Lives Matter Austrália.

    Há 25 anos um relatório da comissão real reconheceu o racismo institucional no sistema judicial australiano. Mas aborígenes e naturais das Ilhas do Estreito de Torres continuam morrendo sob custódia da polícia. Desde o período coberto pelo, quase 400 negros morreram sob custódia policial ou na prisão. Indígenas correspondem a 27% da população carcerária da Austrália, mas representam apenas 3% da população do país. Nos Estados do Território do Norte e da Austrália Ocidental, o número é ainda mais chocante: mais de 80%.

    Ken Canning, aborígene e ativista veterano, disse ao BuzzFeed News: “[A polícia] pode não estar metendo bala na cabeça dos negros no meio da rua, mas os está matando a portas fechadas.”

    Allan Clarke, repórter do BuzzFeed Austrália para assuntos indígenas

    Alon Skuy / The Times / Gallo Images / Getty Images

    Universitários e policiais entram em confronto durante protesto em Johannesburgo, África do Sul, em 21 de setembro de 2016.

    DACAR, Senegal – A 13 mil quilômetros e um oceano de distância da Louisiana, no sul dos Estados Unidos, o ativista sul-africano Wandile Kasibe soube da morte do negro americano Alton Sterling e sentiu uma angústia familiar. Um dia depois, a morte de Philando Castile em Minnesota o levou à ação na Cidade do Cabo, palco de uma das piores segregações na África do Sul. Kasibe organizou uma dezena de pequenas manifestações e passeatas, que causaram tanto impacto no continente quanto as realizadas nos Estados Unidos.

    “Quando respondemos às mortes ocorridas nos Estados Unidos, é porque entendemos o que acontece lá”, disse ele ao BuzzFeed News. Antes do fim do apartheid, em 1994, cenas de policiais brancos atirando em homens negros eram comuns.

    Quando Kasibe liderou um grupo de manifestantes não armados até o consulado dos Estados Unidos, em julho, a polícia estava pronta para atirar. “Vemos o que eles estão fazendo nos Estados Unidos e vimos o que eles fizeram em Marikana”, disse Kasibe, em referência ao massacre de 2012 que resultou na morte de 43 mineiros em greve – a maioria foi baleada pelas costas, tentando fugir.

    Rodger Bosch / AFP / Getty Images

    Membros do grupo Black Solidarity Action durante marcha até o Consulado dos EUA, em protesto contra a morte de negros pela polícia americana, na Cidade do Cabo, em 13 de julho.

    Cidadãos de todo o continente traçam paralelos e buscam inspiração para lidar com o aumento da violência policial. Em Uganda, a hashtag “African Lives Matter” foi adotada para combater o problema dentro do país.

    Embora a questão da raça não ganhe tanto destaque na maioria dos países africanos – a África do Sul é uma exceção –, ativistas reconhecem o mesmo privilégio e poder que levam à impunidade policial no exterior. Inspirados pelos vídeos gráficos que mostram o assassinato de negros, os africanos vêm postando na internet cada vez mais episódios de violência policial. Em pelo menos dois casos recentes, na Costa do Marfim e na Guiné, as gravações viralizaram e levaram à suspensão de policiais – o que raramente acontece em ambos os países.

    O movimento Black Lives Matter reviveu a conexão dos anos 1960 entre africanos e a diáspora negra, quando o movimento pelos direitos civis dos Estados Unidos encontrou eco junto às populações envolvidas em lutas anticoloniais. No entanto, o #AfricanLivesMatter também é uma lembrança da falta de solidariedade recíproca – incluindo por parte dos negros americanos – quando se trata das tragédias do continente. Isso vai da relativa indiferença em relação aos africanos envolvidos na crise de refugiados da Europa à maior preocupação com a segurança de Barack Obama em sua visita ao Quênia do que com as 147 vítimas mortas no ataque terrorista de abril de 2015.

    Students and workers march through the streets of Braamfontein. We are marching against the police brutality… https://t.co/Q15skIA8j5

    "Estudantes e trabalhadores marcham nas ruas de Braamfontein. Estamos protestando contra a brutalidade da polícia."

    Na África do Sul, outros movimentos estudantis que já existiam buscaram inspiração do Black Lives Matter para lutar pela justiça racial. No ano passado, os manifestantes do movimento #RhodesMustFall (Rhodes tem de cair) exigiram a retirada de uma estátua de Cecil Rhodes, supremacista branco britânico do século 19, do campus da Universidade da Cidade do Cabo. O movimento pela “descolonização” dos campus sul-africanos, antigamente restritos aos brancos, transformou-se em #FeesMustFall (as mensalidades têm de cair), em resposta à tentativa das universidade de aumentar o preço dos cursos em um país que as famílias brancas têm renda seis vezes maior que as negras.

    Monica Mark, correspondente do BuzzFeed News na África Ocidental

    Roberto Machado Noa / Getty

    Membros do Black Lives Matter durante a Parada Gay.

    TORONTO – O movimento Black Live Matters desafia a ideia de que o Canadá, cuja população é cerca de 3% negra e 4%, indígena, seja um paraíso progressista.

    “Como grupo, sempre ouvimos que o racismo ‘não existe’ no Canadá da mesma maneira que está presente nos Estados Unidos”, disseram os organizadores do Black Lives Matter Vancouver em comunicado enviado ao BuzzFeed News. “Esse é exatamente o problema. O Canadá é inerentemente racista. É um Estado que tem em suas fundações a colonização, a opressão ininterrupta e a privação de direitos da população indígena.”

    Quando um júri decidiu não indiciar o policial Darren Wilson, acusado de matar o negro Michael Brown na cidade americana de Ferguson, os ativistas canadenses viram uma oportunidade. Jermaine Carby, um negro de 33 anos, havia sido morto a tiros durante uma checagem de trânsito de rotina em Brampton, um subúrbio de Toronto. Os negros canadenses têm maior probabilidade de ter de apresentar documentos de identidade e de ser revistados pela polícia.

    "Sempre ouvimos que o racismo ‘não existe’ no Canadá da mesma maneira que está presente nos Estados Unidos.”

    “Reconhecemos que algo precisava acontecer, e vimos o movimento ganhando força nos Estados Unidos”, disse ao BuzzFeed News jaya khan, co-fundadora do Black Lives Matter Toronto (khan escreve seu nome com letras minúsculas).

    O grupo organizou o primeiro protesto naquele mês e procurou Patrisse Cullors, cofundadora do ramo de Los Angeles do Black Lives Matter. Os canadenses acabariam por se tornar formalmente filiados ao movimento BLM dos Estados Unidos. Depois do assassinato de Andrew Loku, em julho do ano passado, o BLM Toronto procurou ativistas de Vancouver para começar um segundo grupo no país.

    O ramo de Toronto tem laços estreitos com ativistas indígenas. khan afirma que o movimento Idle No More, iniciado em 2012, foi responsável por trazer a Toronto o “radicalismo” que tornou possível a formação do BLM. Uma reunião de vários BLMs regionais em Detroit, no ano passado, também teve forte influência em khan.

    Fighting for Jermaine. Fighting for Abdirahman. Fighting for Andrew. Fighting for black lives to matter here, in Ca… https://t.co/xkzuRstYHV

    "Lutando por Jermaine. Lutando por Abdirahman. Lutando por Andrew. Lutando pelas vidas negras aqui, no Canadá."

    “A gente trabalhava e operava no que parecia um isolamento total”, disse khan. “Fazer parte de um movimento maior, com gente que acredita na vida negra e na igualdade da vida negra, foi transformador, mudou a vida, era necessário.”

    Teve início também uma relação pessoal – Cullors e khan hoje são casadas.

    Em dois anos de existência, o BLM Toronto tornou-se presença visível na cidade, e os ramos americanos e canadenses compartilham táticas. Uma “cidade de barracas” na frente da sede da polícia de Toronto foi inspirada diretamente por um protesto realizado em Minneapolis contra a morte de Jamar Clark e também serviu de modelo para uma ocupação da prefeitura de Los Angeles pelo BLM.

    Diante da iminente Presidência de Donald Trump, khan vê o BLM tentando criar mais relações com outros grupos ativistas, especialmente os envolvidos em justiça ambiental. “Acho que vamos ver o Black Lives Matter se infiltrar em vários movimentos diferentes, com o objetivo de prestar solidariedade”, disse khan. “Movimentos locais serão os agentes da mudança.”

    – Lauren Strapagiel e Ishmael Daro, repórteres do BuzzFeed News Canadá

    Justin Sullivan / Getty

    Manifestante coloca suas mãos para o alto durante protesto em 24 de novembro de 2014, em Ferguson (Missouri, EUA).

    WASHINGTON – Ativistas do movimento conhecido como Black Lives Matter – um movimento eficaz, difuso e politicamente maleável composto por grupos formais e uma liderança hierárquica não tradicional – contam várias histórias sobre quando e como o movimento tornou-se global.

    Alguns se referem a uma tática em particular ou a uma dica de segurança vinda de alguém do exterior. Outros, a um email ou mensagem direta com palavras de solidariedade ou incentivo. Muitos viajaram para outros países ou deram conselhos para jovens manifestantes no Reino Unido, no Canadá ou na França. No entanto, dois mapas mostram como, em 2014, as notícias e o ativismo que se seguiram aos protestos de Ferguson e as hashtags #BlackLivesMatter, #HandsUpDontShoot (mão para o alto não atire) e #IcantBreathe (não consigo respirar) explodiram como movimentos de protesto e fenômenos nas redes sociais em todo o mundo.

    Com os eventos ganhando as manchetes no mundo inteiro e a polícia reprimindo com gás lacrimogêneo os manifestantes que protestavam contra a morte de Mike Brown, ativistas palestinos, acostumados a esse tipo de repressão, foram às redes sociais para dar conselhos.

    Always make sure to run against the wind /to keep calm when you're teargassed, the pain will pass, don't rub your eyes! #Ferguson Solidarity

    "Sempre se certifiquem de correr contra o vento / de ficar calmo quando for alvo de bombas de gás lacrimogênio, o ardor irá passar, não esfreguem os olhos!"

    Naquele verão, quando polícia e manifestantes se enfrentavam em Ferguson, forças israelenses mataram 2.200 palestinos nos confrontos em Gaza, incluindo quase 1.500 civis. “Os químicos usados em Gaza foram produzidos nos Estados Unidos”, disse ao BuzzFeed News Umi Selah, um dos líderes do grupo Dream Defenders. “Então acho que foi um momento bastante explícito mostrando a importância da solidariedade. Embora nossas lutas não sejam as mesmas, definitivamente estamos lutando contra os mesmos sistemas.”

    Os protestos globais sob a égide do Black Lives Matter forçaram muitos ativistas americanos a olhar para a posição dos Estados Unidos no mundo.

    “Temos a posição bem particular de sermos manifestantes negros vivendo nas entranhas da besta, vivendo no coração do império.”

    “Não podemos enxergar nossas questões somente como problemas domésticos”, disse a cofundadora do Black Live Matters Cullors no Laura Flanders Show. “Temos de enxergar como o império americano exporta racismo, como ele exporta militarização... Acho que se não tivesse feito essas viagens não teria compreendido como é importante pedirmos um movimento global.”

    Para os ativistas americanos do Black Live Matters, abordar o trabalho por meio de lentes globais significa, por exemplo, garantir que as camisetas com os slogans do movimento não sejam produzidas em fábricas com más condições de trabalho para os funcionários, apoiar a campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) na Palestina e levar a conversa além de Ferguson, violência policial e racismo – para uma visão internacional da defesa dos direitos humanos.

    “Temos a posição bem particular de sermos manifestantes negros vivendo nas entranhas da besta, vivendo no coração do império”, disse Rachel Gilmer, estrategista-chefe do Dream Defenders, ao BuzzFeed News. Isso significa questionar todos os aspectos do nosso movimento e em especial questionar os privilégios de que desfrutamos sendo americanos.”

    Na esteira da vitória de Donald Trump, a organização Black Lives Matter pediu uma renovação do comprometimento com seu mandato para acabar com a violência sancionada pelo Estado. “O trabalho que temos pela frente terá tanto a ver com a pessoa que ocupará o Salão Oval quanto com a cultura que o levou até lá”, disse ao BuzzFeed News Brittany Packnett, cofundadora do Campaign Zero, um grupo que lugar para eliminar a violência policial.

    Ainda assim, as conexões globais seguem sendo fonte de inspiração e incentivo para um movimento que se prepara para sua maior luta.

    “É lindo ver o compartilhamento de táticas, linguagem e visão conjunta do Black Lives”, disse Thenjiwe McHarris, do Movimento for Black Lives, ao BuzzFeed News. “Nos momentos mais difíceis, me lembra que vamos vencer.”

    Darren Sands, repórter do BuzzFeed News


    Este artigo foi traduzido do inglês.

    Susie Armitage is the Global Managing Editor and is based in New York.

    Contact Susie Armitage at susie.armitage@buzzfeed.com.

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