Updated on 17 de ago de 2018. Posted on 17 de ago de 2018

    Como "The L Word" me fez querer uma turma de amigas lésbicas

    As dificuldades das mulheres lésbicas interferem até mesmo na amizade entre elas.

    Ken Russell / Via vintag.es

    Meninas britânicas nos anos 50.

    A primeira vez que assisti à série "The L Word", confinada no meu quarto num verão sonolento em que trabalhei no meu campus universitário, fiquei abismada. As tramas desajeitadas, os personagens ainda incoerentes e transfóbicos não poluíram meu primeiro contato com a série, o que aconteceria mais tarde. Na época, eu fiquei basicamente admirada — impressionada com a enorme quantidade de mulheres lésbicas que povoavam a tela do meu computador.

    Para mim, a magia de "The L Word" não estava tanto nos relacionamentos românticos (em sua maioria desastrosos), nos encontros sexuais (às vezes muito estranhos) ou nas representações (financeiramente questionáveis) de lésbicas como pessoas inteligentes e bem-sucedidas. A magia estava nas amizades — poder ver um grupo de lésbicas sempre juntas na Planet, uma utopia homossexual na forma de cafeteria fictícia em West Hollywood.

    Parecia um maldito sonho.

    Naquela época, a coisa mais próxima que eu tinha do convívio da Planet era jogar no meu time feminino de rúgbi na faculdade, que era a única coisa que se salvava em um campus de Connecticut (EUA) cheio de pessoas totalmente heterossexuais. Aquele time era como uma família para mim. Meu último ano jogando foi um pouco complicado porque eu namorei — e depois tive um longo, forte e terrível rompimento com — uma das minhas capitãs (#problemaslésbicos). Mas tudo que aconteceu não abalou a profunda e dolorosa afeição que ainda sinto por aquela época da minha vida, em que eu estava tentando me entender em emaranhados de lama, braços e pernas em um campo de rúgbi, lutando fisicamente por um bando de garotas que eu amava.

    Desde que consegui me entender (veredicto: homossexual por completo), eu queria a versão adulta de uma turma de garotas lésbicas. Minhas amigas homossexuais, bis e indecisas do rúgbi me ajudaram a passar por toda a merda que eu estava sentindo — o que meu amigo John chama de segunda adolescência — e, depois de terminar a faculdade, eu pretendia me cercar de outras mulheres sapas tão confiantes de sua homossexualidade como de suas metas, paixões e convicções.

    Mas, até agora, depois de mais de um ano em Nova York, isso não aconteceu. E estou começando a me perguntar se isso vai acontecer algum dia.

    Showtime

    No meu primeiro verão em Nova York, decidi fazer tudo: comprei um ingresso obscenamente caro para uma festa de garotas e, depois, passei a madrugada de bar em bar. Eu saí com duas amigas, um casal de lésbicas; eu estava solteira havia pouco tempo, então, por mais que adorasse (e ainda adoro) sair com elas, elas não eram necessariamente a melhor companhia naquele momento. Eu era uma "vela" de coração partido no meio de uma farra lésbica. Enquanto minhas amigas dançavam uma com a outra no Henrietta Hudson — um dos poucos bares de lésbicas de Nova York, que tem uma consumação de US$ 10 que raramente parece valer a pena —, fiz papel de idiota flertando com uma professora universitária com o dobro da minha idade. Depois de alguns agarramentos decepcionantes e desajeitados, eu estava sozinha, sentada em um banco do lado de fora do bar. Minhas amigas foram para casa. Pedi um cigarro a uma mina que estava passando. Foi um dos momentos mais solitários da minha vida.

    Eu queria me sentir parte da cultura LGBTQ de Nova York, em vez de uma intrusa inquieta na calçada.

    Não era só a solidão de estar solteira, embora isso definitivamente influenciasse de alguma forma. Os bandos de amigas caindo bêbadas perto de mim eram o que eu realmente invejava. O que eu queria naquele momento era alguém que entendesse exatamente o que eu estava passando. Eu queria alguém que se compadecesse de mim, ao contrário da mina que, poucos minutos antes, tinha me acusado de ser hétero só porque não me interessei por ela (não foi a primeira vez, e provavelmente não será a última). Eu queria alguém que compartilhasse meu pânico diante da alta possibilidade de uma ex passar. Eu queria alguém que se simpatizasse com minha tristeza de passar pela situação de um homem hétero claramente perdido puxar conversa comigo no caminho para o metrô, quando o que eu mais queria, como sempre, era apenas ser claramente identificada como lésbica. Eu queria alguém que sentisse minha mágoa pós-rompimento, que estivesse emaranhada em complicações de gênero, poder e políticas pessoais distorcidas.

    Eu queria me sentir parte da cultura LGBTQ de Nova York, em vez de uma intrusa inquieta na calçada. Eu queria alguém — uma melhor amiga, ou melhor ainda, um grupo inteiro delas — que intimamente entendesse que eu passei quase 20 anos sendo uma pessoa e que, desde meu grande despertar sapatônico, tenho tentado descobrir como viver sendo outra pessoa.

    Se existe um lugar ideal para formar um grupo lésbico, esse lugar é Nova York, certo? Mas os recém-chegados a uma cidade grande logo percebem que suas vidas sociais não se parecem em nada com as de "Friends" ou "Sex & the City": Como aquelas pessoas conseguem morar ao lado de todos os seus amigos? Por que todos eles são brancos, heterossexuais e bem de vida morando em uma das cidades mais caras do mundo? Como eles têm tempo aparentemente infinito para ir a cafeterias??? Da mesma forma, logo me dei conta de que uma turma de mulheres lésbicas não é tão fácil de encontrar, como a criadora de "The L Word", Ilene Chaiken, (enganosamente) me levou a acreditar.

    É claro que TV é TV. Eu não acreditava realmente que "The L Word" projetasse a realidade de alguém. Mas o espírito de amizade homossexual, porém, era bem crível para mim. Desejável. Eu queria — e ainda quero — uma Shane para a minha Alice.

    Showtime

    Ideais de melhores amigas.

    Naturalmente, isso revela minha dificuldade de cultivar qualquer grupo unido de amigas no mundo frio e difícil da vida adulta, em que passamos horas no metrô. Ter amizade na vida adulta é difícil. E, por ser difícil, as únicas amizades a que recorro, mesmo quando estou irritada e cansada, e enjoada do Netflix, são minhas poucas amizades mais íntimas — que, basicamente, durante toda a minha vida, foram garotas héteros. Elas são aquelas que procuro quando estou tendo algum tipo de colapso; aquelas cuja companhia, intelecto e humor eu me identifico mais do que de qualquer outra pessoa; aquelas que me conheceram quando eu namorava homens e ainda gostam de mim depois que me tornei lésbica assumida. Eu não as trocaria por nada nesse mundo. Mas nem tudo é um mar de rosas.

    Algumas delas não se empolgam muito com a ideia de ir a bares de sapa comigo, mesmo que eu tenha que aguentar homens estúpidos me cantando e derramando cerveja nos meus sapatos sempre que vamos a lugares "normais". Por fim, quando todo mundo começa a se casar e a ter filhos, minhas amigas heterossexuais não vão entender minhas lutas para engravidar e/ou adotar como lésbica. Agora, quanto às nossas conversas sobre sexo, algumas coisas acabam se perdendo no meio do caminho. Quando estou tendo algum problema particularmente lésbico, o conselho das minhas amigas héteros, embora muito valioso e apreciado, tem um certo limite porque, para elas, essa é uma área bastante desconhecida.

    Como Kristin Russo, do site Everyone Is Gay, me disse quando comecei a perguntar informalmente a lésbicas sobre seus próprios grupos de amigas lésbicas, ou a falta deles: amigas héteros cisgênero podem ser pessoas e aliadas incríveis — mas "não dá para explicar [a homossexualidade]. Na verdade, ela só tem que ser vivida."

    Toda vez que me sinto solitária do lado de fora do bar lésbico que frequento, ou fetichizada por algum aspecto machista da cultura pop, ou ouço de uma forma ou de outra que minha homossexualidade é reversível, irrelevante ou menos que isso, eu sinto vontade de me cercar de pessoas que vivem como eu.

    Não muito tempo atrás, em um mundo especialmente hostil à comunidade homossexual, os bairros, bares e centros comunitários LGBTQ eram alguns dos únicos lugares onde os homossexuais podiam se sentir totalmente à vontade com sua aparência e com quem eles transavam. Ter um grupo de garotas lésbicas era mais do que uma comunidade em prol da amizade e da conexão: a comunidade era uma questão de sobrevivência.

    Ainda hoje, os bares de lésbicas são alguns dos últimos lugares em que as mulheres podem ir e ser elas mesmas sem que o mundo despeje baboseiras em cima de nós. Eles não são apenas lugares para beber e dançar — eles são centros comunitários. Mas os bares de lésbicas estão fechando em todo o país. Não sobrou nenhum em São Francisco.

    Recentemente, num bar gay em Chelsea, um cara que acabei de conhecer me perguntou por que não existem bares de lésbicas na mesma escala que os bares "deles". "A demanda é menor?", ele se perguntou. Acho que ele não fez por mal, mas sua pergunta me deixou irritada mesmo assim. Existe uma antiga teoria de que os bares de lésbicas estão condenados porque nos levam a relacionamentos mais rapidamente do que os de gays; pelo visto, assim que formamos nossos pares, preferimos ficar em casa acariciando nossos gatos e falando sobre nossos sentimentos do que continuar bebendo. Deve haver uma ponta de verdade nisso — mas muitas pessoas enjoam de festas, não só as lésbicas. Então eu digo que é besteira. Muitas lésbicas ainda querem lugares para ficarem juntas. Mas ir a esses lugares está ficando caro demais para elas.

    Muitas lésbicas ainda querem lugares para ficarem juntas. Mas ir a esses lugares está ficando caro demais.

    Minha colega de trabalho Jenna me disse que, quando ela se mudou para Williamsburg (região afastada de Nova York) oito anos atrás, todas as lésbicas estavam lá. Ela comparou isso ao Mission District de São Francisco (na Califórnia): todas iam às mesmas festas e aos mesmos lugares. "Eu adorava poder caminhar até as casas das minhas amigas", disse ela. Agora, as lésbicas em seus 20 e poucos anos não conseguem promover os mesmos encontros devido à gentrificação: os aluguéis estratosféricos de Nova York obrigam as lésbicas a ficarem mais espalhadas do que nunca. O aluguel de US$ 1.200,00 que Jenna pagava em um apartamento de dois quartos em Williamsburg deve ter triplicado de preço desde que ela saiu de lá. Ao passo que homens gays brancos e ricos podem se dar ao luxo de morar em bairros caros como West Village ou Chelsea, passar o fim de semana na praia e patrocinar negócios gays, muitas lésbicas — particularmente as que estão no meio de diversas identidades marginalizadas — não têm as mesmas bases econômicas e geográficas. Os espaços para lésbicas estão desaparecendo; nós estamos nos afastando cada vez mais umas das outras. Como eu tinha dito, as poucas amigas lésbicas que eu tenho moram a muitos bairros (e vidas) de distância de mim.

    Hoje em dia, ainda não é fácil ser lésbica em público, mas, em cidades como Nova York, assumir abertamente a homossexualidade está ficando cada vez mais viável. Os gays não precisam mais viver em comunidades fechadas por questões de segurança. Quando o assunto é o direito de ir e vir, as mulheres trans negras — para as quais a simples sobrevivência é uma preocupação premente e fundamental — merecem a maior parte de nossa defesa. As lésbicas negras também continuam sendo submetidas a terríveis abusos em uma América após a legalização do casamento gay. Como uma lésbica cisgênero branca, vivendo nesta cidade, neste momento cultural, eu tenho muita sorte. Não preciso necessariamente de espaços lésbicos, e grupos de amigas lésbicas, para ter proteção física.

    Acho que eu quero esses espaços, e um grupo de amigas, para garantir um tipo diferente de sobrevivência. Após a legalização do casamento gay, espero que possamos aproveitar os direitos que finalmente recebemos (ao mesmo tempo que participamos ativamente das lutas ainda à frente) sem insistir que, finalmente, somos pós-gays, que ser homossexual não importa e que a homossexualidade não é mais significativa do que ser alta ou morena ou canhota. Ser canhota não afeta minha maneira de pensar, sentir ou viver. Embora a homossexualidade não seja responsável pela totalidade da minha visão de mundo, com certeza não é um elemento insignificante. Às vezes, em certas situações, procuro esse elemento em outras pessoas. Como Kristin Russo me disse: "Há uma compreensão fundamental quando você tem amizade com pessoas que estão experimentando as mesmas coisas que você no mundo."

    Nem todo homossexual vai ter exatamente as mesmas experiências que todos os outros homossexuais, o que é aceitável — incrível, na verdade. Mais uma razão, então, para evitar o colapso de nossa comunidade em um monólito sem graça: insistir que somos exatamente como todos os outros. Se a gente realmente fosse como todo mundo, eu não daria a mínima para ter amigas lésbicas, muito menos um grupo inteiro delas.

    Talvez eu não tenha uma turma de amigas lésbicas porque estamos ficando sem espaços específicos, por causa da gentrificação ou porque, visto que hoje muitos héteros não nos rejeitam imediatamente, não temos mais apenas umas às outras. Eu também não morei em nenhum lugar por muito mais que um ano desde a faculdade, o que com certeza faz uma grande diferença — se eu ficar mais tempo em Nova York, acredito que meus círculos de lésbicas só vão aumentar. E, se eu conseguisse ser amiga das minhas ex, o potencial para ter uma turma de garotas cresceria ainda mais.

    Se eu assistisse a "The L Word" de novo hoje em dia, acho que perceberia mais como aquelas personagens vivenciam o mundo de forma diferente de mim — a primeira vez que eu vi, só percebi como éramos exatamente iguais. Meu coração recém-saído do armário abraçou todas aquelas lésbicas e disse: Essa sou eu. Eu. Ali estou eu. Eu.

    Hoje, eu vejo que não posso pagar por uma piscina no quintal da minha casa.

    Houve um tempo em que esse universo lésbico-separatista pareceria o paraíso para mim, mas eu amadureci e abandonei essa fantasia

    Em "The L Word", basicamente todos os personagens são mulheres lésbicas. Um ou dois homens héteros entram e saem rapidamente. Será que uma mulher realmente heterossexual apareceu alguma vez? Houve um tempo em que esse universo lésbico-separatista pareceria o paraíso para mim, mas eu amadureci e abandonei essa fantasia — até porque esse universo não tinha espaço para qualquer pessoa que fosse bissexual, trans ou não binária, o que não é um universo do qual eu gostaria de fazer parte. E estar cercada apenas por lésbicas o tempo todo também não seria agradável — eu ainda quero pessoas na minha vida que vivem de forma diferente de mim, de várias maneiras. Prefiro mais um sistema solar LGBTQ do que um universo.

    Ainda não tenho certeza do que exatamente esse sistema solar poderia ou deveria ser. Quando eu ficava reclamando com minha namorada que eu queria mais amigas lésbicas — uma conversa que acabou se transformando neste artigo — ela me perguntou: "Você e eu não somos amigas lésbicas?" Acho que ela estava meio que brincando, e na hora eu gesticulei discordando. Mas talvez ela estivesse certa, de certo modo. Nós duas somos nosso próprio grupinho de garotas lésbicas contra o mundo. E, quando saímos com outro casal de amigas, nós criamos uma turma de garotas lésbicas um pouco maior. E meus amigos gays, a quem eu amo muito, são uma parte diferente e valiosa do meu fragmentado reino LGBTQ.

    Talvez o que eu precise fazer seja deixar de lado a ideia de um grupo de lésbicas como eu tinha pensado originalmente. Qualidade é mais importante que quantidade. Cinco anos atrás, a única lésbica que eu conhecia era minha (meio enrustida) professora de inglês do ensino médio. Eu nem me considerava lésbica naquela época. Ou seja, já fizemos grandes avanços.

    Então, estou tentando não me preocupar tanto com isso. A amizade — essa coisa estranha, bagunçada e frágil — é melhor quando acontece naturalmente. E se alguém estiver interessada em conversar sobre livros/ rúgbi/fã-clube da Kristen Stewart, é só me avisar. Suponho que nós temos que começar em algum lugar.

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    A tradução deste post (original em inglês) foi editada por Victor Nascimento.