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“Fui chamado de macaco depois que passei a criticar Bolsonaro”, diz ex-apoiador

O youtuber negro Hícaro Teixeira diz que se envergonha de ter combatido cotas e pregado o voto em Bolsonaro. Agora, ele é alvo de insultos racistas e até ameaças de morte de antigos aliados.

Durante a campanha eleitoral de 2018 o blogueiro Hícaro Teixeira foi um dos muitos youtubers e digital influencers que apoiaram Jair Bolsonaro para a Presidência da República.

Ele encarnava duas coisas caras ao então candidato: Hícaro era contra as políticas de cotas nas universidades e, por ser negro, poderia ajudar Bolsonaro a combater as acusações de racismo, que ganharam terreno depois do discurso do então pretendente à Presidência em que ele disse que afrodescendentes de uma área quilombola "não serviam nem para procriar" porque o mais leve deles "pesava sete arrobas" (medida de peso que equivale a 15 kg, usada para pesar animais).

Morador de Brasília, Hícaro tem 27 anos e vive com os pais. Não tem emprego fixo e sua principal fonte de renda é o seu canal no YouTube. Segundo ele, sua renda nunca fica abaixo de um salário mínimo, mas em alguns meses, com maior visualizações de seus vídeos, o rendimento é maior.

Ainda em 2018, por se autodeclarar "liberal na economia", passou a refletir sobre que candidato apoiaria. Ao perceber a onda bolsonarista crescendo, inclusive dentro de sua própria o família – o pai era um dos principais entusiastas –, resolveu passar a apoiar o candidato.

Hoje, quem acessa seu canal não encontra mais vídeos em que ele defende o presidente da República. “Fiquei com vergonha e apaguei muita coisa”, disse ao BuzzFeed News.

Hícaro disse que, além de mudar sua visão sobre cotas, passou a ver os apoiadores de Bolsonaro – especialmente depois de ele apoiar o presidente dos EUA, Donald Trump, no conflito com o Irã – como "supremacistas".

“Também percebi que a juventude que foi levada por Bolsonaro se radicalizou durante a eleição, mas somos, na verdade, progressistas, queremos nossas liberdades e ter confiança na democracia”, disse.

Em sua melhor fase, ele teve 136 mil inscritos no You Tube. Após romper com Bolsonaro ficou com 114 mil, mas percebeu que, ao mesmo tempo em que perdia público bolsonarista, ganhava adeptos progressistas.

A média do canal é de cerca de 500 mil views por mês em seu conjunto de vídeos sobre política. Seu maior hit (350 mil views) foi um vídeo que tratava sobre apropriação cultural, falando sobre o uso de tranças afro por pessoas brancas.

O vídeo abaixo, em que critica a relação entre Trump e Bolsonaro, foi o ponto de virada do youtuber, disse ele.

Veja este vídeo no YouTube

youtube.com

Bastou o vídeo ganhar a internet e circular em grupos bolsonaristas que Hícaro passou a ser agredido não somente por sua postura política, mas também pela cor de sua pele.

Reprodução
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Em alguns dos casos, sua própria vida era ameaçada.

Reprodução

Ele já registrou boletins de ocorrência contra alguns dos que proferiram ofensas raciais e promete fazer o mesmo caso novos casos surjam.

“É impressionante como não debatem política e passam para a pura agressão. Fui chamado de macaco e urubu depois que passei a criticar Bolsonaro”, disse.

Severino Motta é repórter do BuzzFeed News, em Brasília

Contact Severino Motta at severino.motta@BuzzFeed.com.

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