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Aqui estão os bastidores do que aconteceu no STF antes da decisão de manter Lula preso

Conversas vazadas entre Sergio Moro e Deltan Dallagnol chamaram a atenção de Celso de Mello, mas não foram suficientes para fazer com que o ministro derrubasse a condenação de Lula.

Evaristo Sa / AFP / Getty Images

Parado há seis meses no gabinete do ministro do STF Gilmar Mendes, um habeas corpus que pedia a liberdade do ex-presidente Lula e a suspeição do então juiz Sergio Moro foi liberado para julgamento no último dia 10.

A data era justamente o dia seguinte da divulgação pelo site The Intercept Brasil da primeira leva de mensagens trocadas entre Moro e o chefe da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol.

O alvoroço político inicialmente causado pela reportagem chamou a atenção do decano do Supremo Tribunal Federal e peça-chave no processo que poderia resultar na liberdade de Lula: Celso de Mello.

O ministro, em 2013, já havia sido favorável à suspeição de Sergio Moro num dos processos do caso Banestado.

STF

Julgamento do recurso de Lula nesta terça-feira no STF

Naquele ano, Celso de Mello entendeu que o então juiz Sergio Moro havia abusado de suas prerrogativas e impedido o equilíbrio do devido processo legal ao monitorar advogados de um dos acusados.

Com a divulgação das conversas e a aparente cooperação entre Moro e Deltan, interlocutores de Celso avaliaram que o magistrado estaria disposto a, mais uma vez, colocar o hoje ministro da Justiça, Moro, sob suspeita.

Mas, ao mesmo tempo em que o Intercept prometia novas e fortes revelações, o entusiasmo de Celso com o material, segundo esses interlocutores, foi perdendo força.

O processo, liberado no dia 10, tinha previsão de julgamento no dia 25. Havia uma aposta no STF de que, até esta terça-feira, fatos novos poderiam surgir e renovar uma percepção contrária de Celso sobre Moro.

Sem novidades consideradas mais eloquentes por parte dos ministros do STF, Gilmar Mendes tentou adiar o julgamento do caso que ele mesmo havia trazido para a pauta.

Independentemente das revelações do Intercept, Gilmar e o ministro Ricardo Lewandowski já entendiam que Moro havia abusado de suas prerrogativas e que não poderia, entre outros fatos, ter grampeado a central telefônica do escritório de advocacia de Roberto Teixeira, que defendia Lula.

Com a disposição dos dois ministros de colocar Moro sob suspeita e libertar Lula no caso do triplex do Guarujá, a Segunda Turma do STF ficou dividida.

De um lado, Mendes e Lewandowski; de outro, o relator do processo, Edson Fachin, e a ministra Cármen Lúcia, contrários à libertação do ex-presidente.

Com o movimento de entusiamo inicial com as revelações do Intercept e posterior arrefecimento de Celso tendo sido percebido no STF, duas operações foram iniciadas.

Gilmar tentou adiar o julgamento do habeas corpus e fez uma proposta: que Lula fosse solto liminarmente e que aguardasse em liberdade a conclusão definitiva do julgamento sobre a parcialidade de Moro.

Noutro campo, Cármen agiu para acelerar o caso e garantiu que o mesmo não fosse adiado.

Ela aproveitou um pedido feito pelo próprio advogado de Lula, Cristiano Zanin, que queria o caso julgado rapidamente.

Advogados que acompanharam a análise do recurso nesta terça-feira avaliaram que Zanin ainda parecia estar convencido de que Celso mantinha seu entusiasmo inicial com a revelação da troca de mensagens de Moro e Dallagnol.

Com o julgamento em curso, o cenário foi favorável ao grupo formado por Cármen e Fachin.

Celso disse nesta terça-feira que não via indícios tão claros de parcialidade de Moro a ponto de determinar numa liminar em habeas corpus a suspeição do então juiz.

Sobre o material divulgado pelo Intercept, avaliou que o mesmo não foi periciado e que pode ter sofrido alterações.

O decano, no entanto, não fechou todas as portas.

Disse que estava com longo voto já pronto sobre o mérito da questão, mas que o proferiria em agosto, quando a Segunda Turma vai retomar os trabalhos e, possivelmente, o julgamento deste habeas corpus.

Nos bastidores do Supremo, a mensagem foi interpretada como uma cautela de Celso para uma compreensão mais ampla da crise apelidada de Vaza Jato.

A avaliação é que o decano poderá considerar Moro suspeito se informações contundentes e com transparência na possibilidade de autenticação sejam reveladas até o julgamento definitivo do caso.

Evaristo Sa / AFP / Getty Images

Lula em 2017.

Severino Motta é repórter do BuzzFeed News, em Brasília

Contact Severino Motta at severino.motta@BuzzFeed.com.

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