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A eleição no Brasil mostrou o tamanho da encrenca que é combater fake news no WhatsApp

"O que sabemos é que as pessoas acreditam na informação que recebem no WhatsApp e estão mais propensas a ler as mensagens que recebem nessa plataforma."

Nelson Almeida / AFP / Getty Images

SÃO PAULO, Brasil — Um boato que circulou via WhatsApp no último fim de semana trazia uma alerta aos apoiadores do candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro: quem comparecesse aos locais de votação usando uma camiseta com o nome dele poderia ser impedido de votar ou ter o voto anulado. Mais grave ainda: isso era parte de um golpe orquestrado por ninguém menos que o próprio TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que tenta impedir a vitória de Bolsonaro. O fato de que nada disso é verdade, é claro, não impediu que o falso alerta fosse um dos conteúdos mais compartilhados nos grupos públicos de WhatsApp do Brasil.

A penetração do Facebook no Brasil é sem dúvida impressionante, a terceira no mundo, atrás apenas da Índia e dos Estados Unidos. Mas é o WhatsApp, plataforma que também pertence ao Facebook, que se transformou no verdadeiro coração da internet aqui. Um estudo de 2016 aponta que praticamente 100% dos usuários de internet no Brasil aderiram ao WhatsApp. Isso significa que cerca de 40% dos 207 milhões de brasileiros estão usando o aplicativo.

O WhatsApp é um pesadelo para as agências de checagem. O Nieman Lab, ligado à Universidade de Harvard, chamou-o de "caixa-preta de desinformação viral". A natureza do funcionamento do WhatsApp, com suas mensagens criptografadas e enviadas diretamente de um usuário para o outro, torna impossível saber o que as pessoas estão compartilhando pela plataforma e com qual frequência. Mas, se o monitoramento de WhatsApp do projeto Eleições Sem Fake serve como indicativo, o app parece tão coalhado de desinformação quanto o Facebook.

Fabrício Benevenuto, professor de ciência da computação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e criador do projeto, disse ao BuzzFeed News que a ferramenta coleta dados de 350 grupos de WhatsApp de conteúdo político. Ela reúne imagens, vídeos, áudios, links e mensagens de texto.

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Amostra de uma das versões da mensagem de WhatsApp com o falso alerta de que eleitores não deviam usar camisetas de Bolsonaro nos locais de votação.

"Não temos como saber se o conteúdo dos grupos públicos é compartilhado na mesma intensidade nos grupos privados", disse Benevenuto.

"É razoável presumir que uma campanha maliciosa de desinformação possa aumentar a audiência de suas fake news compartilhando-as em grupos públicos. Então, acreditamos que esses grupos sejam uma porta de entrada para a que desinformação atinja os grupos privados."

Aimee Rinehart, que trabalha no First Draft, um grupo internacional de pesquisadores e jornalistas contra a desinformação digital, disse que ninguém sabe realmente o que acontece dentro dos grupos privados de WhatsApp.

"Tudo o que sabemos é que as pessoas acreditam na informação que recebem no WhatsApp e estão mais propensas a ler as mensagens que recebem nessa plataforma", disse Rinehart.

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Uma lista dos grupos que compartilharam a conspiração dos locais de votação.

Moderar o WhatsApp não é impossível. Desde maio, a desinformação no WhatsApp contribuiu para 17 episódios de linchamento na Índia. Durante as eleições no Estado indiano de Karnataka, o WhatsApp detectou e baniu contas que apresentavam comportamento compatível com práticas de spam. Em um post de setembro, Mark Zuckerberg escreveu que os moderadores do WhatsApp e do Facebook estão coordenando o banimento de usuários mal-intencionados.

"Nossos sistemas são compartilhados, então quando encontramos pessoas com atuação maliciosa no Facebook nós também podemos remover contas linkadas a elas no Instragram e no WhatsApp", escreveu Zuckerberg.

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O link mais compartilhado nos grupos públicos de WhatsApp na segunda-feira (8) era essa petição para que os militares inspecionem a votação do segundo turno das eleições, no dia 28.

O boato do dia da votação faz parte de uma onda de denúncias de fraude que inundou o Twitter e o Facebook no domingo. Um vídeo que se espalhou na tarde daquele dia mostrava um homem digitando o "1" na urna eletrônica e a tela automaticamente mostrando o 13 do PT e a foto de Fernando Haddad, adversário de Bolsonaro. Vários veículos mostraram que o vídeo era falso, mas isso não impediu que ele fosse compartilhado por milhares de pessoas — incluindo Carlos Bolsonaro, filho do presidenciável e candidato ao Senado.

A campanha do segundo turno, que mal começou, não promete nenhum descanso na circulação de desinformação via WhatsApp. Na segunda-feira (8), o conteúdo mais compartilhado nos grupos públicos do app era uma petição para que os militares inspecionem a votação no dia 28.

Este post foi traduzido do inglês.

Contact Ryan Broderick at ryan@buzzfeed.com.

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