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O desabafo deste professor em busca de emprego virou um manifesto contra a piora das condições de ensino

Salário baixo, nenhum benefício como férias ou 13º, acusações infundadas de "doutrinação". Dennis Almeida, que viralizou sem querer no Twitter, falou com o BuzzFeed News.

O professor Dennis Almeida, 36, descreveu ontem (24) em uma thread no Twitter uma oferta de emprego em um colégio particular que ele tinha ACABADO de recusar.

O relato — feito ainda com a cabeça quente, disse Dennis ao BuzzFeed News — viralizou e atraiu respostas de outros professores que passaram por situações semelhantes.

"Ficou cheio de erros de português, mas queria escrever logo", contou Dennis.

Dennis é professor de história e literatura para alunos do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio. Atualmente, dá aulas somente às quartas e às sextas numa escola particular.

A entrevista de emprego, ele esperava, era para uma vaga em que trabalhasse todos os dias da semana.

A hora-atividade são as horas de trabalho para planejamento das aulas, preparação e correção de provas e preenchimento dos relatórios diários. Pela proposta, nada disso seria remunerado.

Assim como qualquer tipo de falta, disse Dennis. "Se fica doente, não ganha", disse.

Dennis contou que o entrevistador disse que esse tipo de contratação era bom para o professor, que se tornaria um "empreendedor", e para o colégio, que poderia usar a economia em impostos para remunerar melhor os funcionários.

Na thread, ele relata outros problemas que os professores vêm enfrentando:

"Muito antes do Escola Sem Partido, quando ainda era o PT na Presidência, às vezes eu tinha problema quando tinha de falar para os alunos sobre escravidão, nazismo ou, depois do 9º ano, sobre Martin Luther King, direitos LGBT", disse Dennis ao BuzzFeed News.

"Mas era um ou outro pai que questionava, e a direção da escola orientava a conversar com esse pai e tentar explicar para ele por que ensinávamos sobre esses temas", disse Dennis.

"Só que nos últimos anos as redes sociais mudaram essa dinâmica. Em vez de um pai, são 20 de uma vez", disse. E as escolas pressionam o professor para não desagradar aos pais. "Na escola particular, a gente é refém disso. Chamam os alunos de 'clientela'. Falam que a gente tem que ter cuidado com o que fala. Já me falaram que a aula tem que ser um show", disse.

Dennis comparou a situação à de um médico que só pudesse dar boas notícias aos pacientes:

Outros colegas professores se solidarizaram com Dennis e disseram ter recebido propostas parecidas:

@DennisAlmeida82 Caro colega.....já recusei duas propostas na rede particular por esse motivo.....entendo a necessidade de melhorar a renda hj, q no ensino público não dá financeiramente, mas se tds recusassem, o ensino nao seria precarizado dessa forma....sorte na busca por emprego.... abraços

E não foram só professores:

@DennisAlmeida82 @zehdeabreu Ñ é só com os professores. Também está acontecendo com os médicos que trabalham em hospitais aqui na minha cidade. Está acontecendo uma corrida de médicos para criar seis MEIs, para atender as novas exigências dos hospitais aqui na Grande Vitória (ES)

Benjamin Ribeiro da Silva, presidente do sindicato de escolas particulares de São Paulo, o Sieeesp, disse que a contratação de professores como MEI, e não via CLT, ainda não é muito comum, mas que não há nada de irregular nela. "É legal. A reforma trabalhista acaba permitindo isso", disse.


Contact Mauro Albano at mauro.albano@buzzfeed.com.

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