Meus olhos são asiáticos porque eu sou asiática

    Sempre me perguntei se ter dobra na pálpebra me deixaria mais feliz, ou, pelo menos, faria com que me sentisse menos discriminada. Mas minha etnia e eu nunca poderemos ser definidos por uma característica tão pequena.

    Charlotte Gomez / BuzzFeed

    "Por que você não tem olhos? Isso não é normal", me explicava um estranho, enquanto eu o encarava com um misto de confusão e raiva. Ele continuou insistindo sobre o curioso caso dos meus olhos, sem notar meu desconforto, e tentou se aproximar para olhar mais de perto. Eu me afastei, estava atrás da mesa de atendimento ao cliente, tentando colocar a maior distância possível entre nós. Uma colega pediu para que ele fosse embora.

    Depois que ele saiu, ela olhou para mim e perguntou com ironia: "O que foi aquilo?".

    Murmurei algo do tipo "Vai saber", mas é claro que eu sabia — ele não estava olhando nos meus olhos, mas sim para os meus olhos, um traço natural da minha etnia e como ele se expressava no meu rosto.

    Várias piadas e comentários sobre este assunto — "O que há com seus olhos?" — me perseguiram durante toda a minha vida. A resposta curta: minha família é da China, então tenho "olhos asiáticos". Embora a maioria das pessoas possa deduzir exatamente o que isso significa (mesmo que não admita abertamente), em uma linguagem mais politicamente correta, meus olhos às vezes têm pálpebra sem dobras, que geralmente são atribuídas a aproximadamente 50% das pessoas descendentes do Leste Asiático.

    Se você pesquisar pálpebras sem dobras no Google pelo seu nome formal, "dobras epicânticas", perguntas estranhas como "Por que os asiáticos têm olhos fechados?" e "Chineses têm pálpebras?" podem aparecer. As indústrias de beleza ocidentais e orientais favorecem olhos grandes e bem abertos. Então meus próprios olhos, muitas vezes estreitos ou ofuscados por pálpebras sem dobras, foram uma fonte de escrutínio, vergonha e frustração — e, apenas recentemente, algo parecido com orgulho.

    Várias piadas e comentários sobre este assunto — "O que há com seus olhos?" — me perseguiram durante toda a minha vida.

    Mesmo hoje em dia, com o movimento de positividade corporal encorajando pessoas (especialmente as mulheres, e especialmente mulheres cis brancas) a aceitarem suas falhas evidentes, as características étnicas, como pálpebras sem dobras, ainda são tratadas como algo a ser (educadamente) corrigido ou (grosseiramente) debochado. Sempre me deparei com aquela maquiadora que, mesmo sendo asiática, porém com pálpebras com dobras, me disse casualmente que não fazia sentido usar o delineador no canto interno do meu olho, já que essa parte não iria aparecer nunca mesmo. Ou a amiga que, "só de brincadeira", me contou a vez em que fez um amigo asiático abrir os olhos o máximo que conseguisse. (A conclusão da história: "Ei, agora eu consigo enxergar melhor!")

    Lembram quando Miley Cyrus virou notícia quando puxou seus olhos com os dedos em 2009? A imprensa na época pareceu chocada com a possibilidade de alguém se portar assim, tão desrespeitosamente, nos dias de hoje, ainda mais nessa idade; claramente, a maioria desses repórteres nunca cresceu com olhos asiáticos nos Estados Unidos.

    Minhas pálpebras sem dobras são inevitáveis. Elas foram o que sempre me definiu instantaneamente e distintamente como "asiática" — mesmo que às vezes eu tivesse pálpebras com dobras, ou uma com uma dobra e a outra sem. O formato dos meus olhos mudaram, e ainda mudam, dependendo do quanto eu dormi, se esfreguei demais meus olhos ou se estive chorando.

    Quando eu era mais jovem, não notava como o formato dos meus olhos podia mudar, mas à medida que envelheci e comecei a ver e ouvir as piadas de "olhos asiáticos", entendi: eu era asiática e tiravam sarro dos meus olhos asiáticos. Pessoas com pálpebras com dobras, mesmo asiáticas, não sofriam esse tipo de provocação. Às vezes eu tinha as pálpebras com dobras tão cobiçadas, mas elas não ficavam para sempre; o que eu poderia fazer a respeito?

    A primeira solução possível foi maquiagem. Comprei meu primeiro delineador no ensino médio. Algumas pesquisas rápidas na internet me levaram ao delineador em gel, aplicado com um pincel inclinado. Com minha falta de habilidade, o gel grudou na minha pálpebra como uma mancha de óleo, mas, quando retirei o excesso, algo mágico aconteceu: conseguia ver uma clara definição ao redor dos meus olhos nas fotos.

    Sempre entendi por dentro que, quando eu tinha as pálpebras com dobras, eu ficava "melhor".

    Sim, a maquiagem ficava evidente; sim, como não colocava nenhum prime nem aplicava o delineador cuidadosamente, ele escorria e manchava tudo, muitas vezes me dando um lindo rosto de "noiva abandonada" até o final do dia. E sim, sempre entendi por dentro que, quando eu tinha as pálpebras com dobras, a marquinha, consequentemente meus olhos e consequentemente eu, ficávamos "melhores". Foi uma solução, embora imperfeita.

    A segunda solução possível não se apresentou até vários anos depois. O ponto de partida foi o vídeo de transformação da Lady Gaga/"Bad Romance" da Michelle Phan. Foi quando comecei a assistir seu canal no YouTube, particularmente os tutoriais de maquiagem, religiosamente. Então um dia ela publicou este vídeo, revelando que, assim como eu, já teve dois formatos de olho diferentes. Mas suas duas pálpebras eram com dobras agora; como isso aconteceu? A resposta, ela explicou, era fita para pálpebras — ela "treinou" seus olhos para que eles mantivessem uma dobra na pálpebra. E, a partir daí, a façanha estava terminada: fui apresentada ao mundo da correção formal das pálpebras.

    Não consigo me controlar; a primeira coisa que noto quando vejo o rosto de uma celebridade do Leste Asiático é o tipo de olhos que ela tem. A maioria, especialmente das gerações mais jovens, tem pálpebras com dobras. O fato de muitas das personalidades asiáticas mais notáveis do Ocidente serem birraciais (e, portanto, com mais chances de ter pálpebras com dobras) chama minha atenção.

    Mas é notável a quantidade de ídolos nascidos e criados no Leste Asiático que também tem pálpebras com dobras, embora, geneticamente falando, a taxa de ocorrência entre eles, tanto para pálpebra com dobras como para sem, seja de 50%. E isso se deve à prevalência de cirurgias de pálpebras nesses países.

    Nos últimos anos, a mídia ocidental tomou conhecimento do crescimento das cirurgias de pálpebras e outras cirurgias plásticas faciais, e muitas pessoas acreditam que isso se deve ao aumento da influência dos padrões de beleza ocidentais nos países do Leste Asiático. A influência do Ocidente sobre os padrões de beleza é certamente muito forte: De acordo com o livro de Cho Kyo, "The Search for the Beautiful Woman: A Cultural History of Chinese and Japanese Beauty" [A busca pela mulher bonita: uma história cultural da beleza chinesa e japonesa, em tradução livre], o tipo de pálpebra não estava ligado à beleza no Leste Asiático até a era moderna — o ideal era focado na qualidade muito mais misteriosa das "íris reluzentes".

    Isso mudou. A primeira cirurgia de pálpebras da Ásia foi realizada no Japão, curiosamente em uma mulher que tinha uma pálpebra sem dobra e outra com dobra. Agora, a cirurgia de pálpebras é, em algumas comunidades asiáticas e asiático-americanas, um ritual de passagem. É aqui que está o problema. Seja qual for a "verdadeira" origem dos padrões modernos de beleza do Leste Asiático – como pálpebra com dobra ou clareamento de pele – essas "preferências" não são mais discutidas, mas sim incorporadas em muitas comunidades asiáticas e asiático-americanas.

    Seja qual for a "verdadeira" origem dos padrões modernos de beleza do Leste Asiático, essas "preferências" não são mais discutidas, mas sim incorporadas em muitas comunidades asiáticas e asiático-americanas.

    Ouvi falar de pais que oferecem a cirurgia de pálpebras como presente de formatura, aparentemente usando a cirurgia como forma de sinalizar a chegada da idade adulta e, de forma mais capciosa, uma vida à altura desses padrões seletivos da classe média e alta. (Afinal, mesmo uma cirurgia "barata" de pálpebras ainda é um custo eletivo e não insignificante.) Isso reflete outras tradições culturais em que os pais tentam facilitar a entrada do filho na idade adulta, ou no mundo externo, "corrigindo" algo que pode ser visto, literalmente, como uma barreira física, assim como a velha ideia da plástica de nariz rotineira para meninas judias.

    Embora meus próprios pais nunca tenham mostrado nada além de indiferença sobre minhas pálpebras (e minha aparência de modo geral… algo para pensar em outro momento), até nos momentos em que estava conformada com os padrão de beleza fiz reflexões rápidas sobre o que eu poderia fazer para "corrigir" meus olhos.

    Poderia ter ido para a Coreia ou Taiwan em um "feriado" e fazer o procedimento. (É fácil pesquisar sobre isso, considerando a quantidade de depoimentos disponível na internet.) Eu poderia tentar a fita para pálpebras ou seu primo mais sinistro, o óculos de pálpebras, ou tentar manter minhas pálpebras dobradas por bastante tempo, de maneira estratégica e cuidadosa.

    Esses momentos passaram. Perseguir a beleza dá trabalho e custa caro, e, na maioria das vezes, sou apenas muito preguiçosa e muito pão-dura para seguir com a ideia. Mas quando olho uma foto minha sem maquiagem e me assusto, às vezes me pergunto se é apenas minha reação normal ou meu desinteresse pela aparência, ou se é porque estou procurando algo que não está (e talvez nunca esteja) lá — aquela característica sem sentido, mas claramente determinante. E o mais perturbador para mim é imaginar se eu realmente seria mais feliz caso encontrasse essa característica.

    Um artigo recente sobre dicas de maquiagem para pálpebras sem dobras é um dos primeiros que li que realmente sugere uma "aceitação" completa da pálpebra sem dobra, mas sua linguagem minuciosa e respeitosa é uma raridade. A maioria dos tutoriais de maquiagem para pálpebras sem dobras são sobre "abrir" os olhos — eles não prejudicam ninguém, mas são codificados para sugerir a profundidade visual da pálpebra sem sobra. Quando eu tento mostrar a diferença para os colegas que não são do Leste Asiático, eles fingem compreensão ou dizem que sentem muito.

    Ainda não sei como expressar as diferentes mensagens que recebo dos outros e as expectativas que eu mesmo coloco sobre mim. Sinto orgulho da minha ancestralidade e do rosto racializado que levo para o mundo, mas uma cirurgia só é contra a natureza se você a vê como tal.

    As características racializadas são tão sagradas que mudá-las significa não ter orgulho de sua ascendência nem da forma como ela é expressada em características físicas? (Não.) Tenho raiva de pessoas asiáticas com pálpebras com dobras, sejam naturais ou com cirurgia? (Não.) Acho que a correção das pálpebras é a coisa mais importante das várias obsessões de beleza do povo asiático? (Definitivamente não.)

    Tenho raiva de pessoas asiáticas com pálpebras com dobras, sejam naturais ou com cirurgia? Não. Acho que a correção das pálpebras é a coisa mais importante das várias obsessões de beleza do povo asiático? Definitivamente não.

    Embora eu esteja em paz com meu corpo e com as maneiras mais sutis que ele expressa minha raça, não posso dizer o mesmo do meu rosto. Isso não me impede de aplicar o delineador (agora com uma caneta, e uma mão mais firme) nem me impede de examinar se e como a maioria desse delineador "desaparece" quando olho diretamente no espelho. Meu reflexo é e não é o que eu queria que fosse — a primeira impressão, meu próprio avatar, o que me marca como alvo de insultos racializados e me dá autoridade visual ao falar sobre questões raciais.

    Afinal, tudo se resume a isso: raça como experiência, raça como cultura, raça como marcador de Alteridade algumas vezes e marcador de aceitação em outras. Isso é algo que jamais pode ser capturado em um espelho ou em uma foto, ou em qualquer característica física. Eu não podia, e não queria mudar isso; afinal, em última análise, não interessa a ninguém o que faço ou não faço com meus olhos. Eles são asiáticos porque eu sou asiática, e não importa quais outras representações eu veja, eu sou essa interação imperfeita e perfeita.

    Quando vou para a loja de cosméticos japonesa, onde compro meu delineador, eu ainda paro na frente das fitas e dos óculos de pálpebras com suas ilustrações contendo "instruções" e descrições alegres. "Estamos aqui para te ajudar", elas parecem dizer. Eu sei, e vou embora.


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