Updated on 15 de ago de 2018. Posted on 15 de ago de 2018

    Me assumir lésbica não me livrou das inseguranças em relação ao meu corpo

    Eu pensei que tinha vergonha de ser gorda porque o mundo hétero me disse para ter. Mas não era tão simples.

    Shannon Levin for BuzzFeed News

    A primeira vez que usei um top cropped foi em uma Parada do Orgulho Lésbico e Trans – a Toronto Dyke March – em 2016. Eu encontrei o top de lantejoulas rosa em um brechó e o usei com um par de shorts jeans que iam até a minha cintura, com purpurina dourada espalhada nas minhas bochechas.

    Eu marchei pela rua mostrando uma parte da minha barriga que nunca tinha sido exposta ao sol. A única coisa que separava essa roupa de qualquer outra que eu já tinha usado eram dez míseros centímetros de pele exposta — mas você tem que entender o peso desses centímetros.

    Eu não tenho o corpo em que é "aceitável" usar tops cropped. É claro que seu corpo não deve limitar suas escolhas de estilo, mas tenho certeza que você entendeu o que quero dizer.

    Eu sou gorda. Tipo, muito gorda mesmo. Ao longo dos anos, meu relacionamento com meu corpo — junto com meu peso e como eu cuido de mim mesma — passou por altos e baixos. Ou eu era uma deusa cheia de curvas ou tudo que uma mulher não deveria ser. Mulheres gordas não podem ser neutras sobre seus corpos. Nós os abraçamos ou menosprezamos, comemos ou morremos de fome — e todo mundo sabe qual é a preferência geral da sociedade nessa dicotomia.

    Então, para mim, os tops cropped são um posicionamento político. Eles são rebelião, libertação. Uma foda-se para os padrões de beleza dos quais eu estou exausta de estar exausta. E somente na Dyke March é que me sinto bem em fazer isso.

    Quando parei de sentir vergonha da minha homossexualidade, achei que também iria parar de sentir vergonha do meu corpo.

    Eu saí do armário aos 23 depois de anos sentindo vergonha por meus sentimentos pelas mulheres. Eu passei esses anos namorando homens, vivenciando o tipo de vergonha com o corpo que apenas o romance heteronormativo pode trazer. Eu era magra o suficiente para namorar? Ele só gostava de mim porque tinha um fetiche por garotas gordas?

    Quando parei de sentir vergonha da minha homossexualidade, achei que também iria parar de sentir vergonha do meu corpo. Parte disso era a minha repentina liberdade do olhar masculino. No seu novo especial de comédia, Rape Jokes, Cameron Esposito fala sobre assumir a homossexualidade e perceber que ser lésbica significava mudar o jeito que as mulheres são valorizadas.

    Quando você cresce como uma mulher, quando se é criada como uma mulher, a coisa pela qual você é valorizada – a coisa pela qual você é ensinada a ser valorizada – é o nível de desejo sexual que você desperta. É isso.

    Então, eu também estava saindo de todo esse sistema, o sistema criado para avaliar se eu tenho ou não valor, por causa da pessoa que era.

    Ela conclui que isso é uma situação confusa de lidar, especialmente quando você é jovem e está isolada em sua homossexualidade. E isso é verdade — mas também é libertador. Esse sistema é uma merda e você pode virar as costas para ele. Você define o seu valor. Isso é um dos muitos presentes que a homossexualidade me trouxe.

    Então lá estava eu, uma bebê lésbica, convencida de que eu odiava meu corpo só porque o mundo hétero me disse para fazer isso. Mas eu estava errada.


    Quando eu comecei a transar com mulheres, uma das primeiras coisas que reparei — além de que eu deveria ter feito isso antes, porque uau — era como eu era obcecada com os corpos de outras mulheres.

    Todas as mulheres são, até certo ponto, não? Mas é diferente quando você está perto e de forma íntima, quando você pode passar as mãos para cima e para baixo em cada curva. A mulher nua deitada em uma cama desarrumada ao seu lado depois do sexo é linda de uma maneira que eu não tinha ideia.

    As primeiras mulheres com quem fiquei tinham corpos como o meu — grandes, carnudos e opulentos. Estar com elas me deu uma nova apreciação do meu próprio corpo. Se eu podia olhar e tocar essas mulheres com carinho, atração e luxúria, então eu acreditava que elas podiam fazer o mesmo comigo.

    Há algo de mágico nisso — ser duas mulheres cujos corpos são considerados muito indisciplinados, muito distantes do padrão, dando prazer uma à outra em prol do próprio prazer. Isso é a revolução acontecendo na cama, na minha opinião.

    Então, eu conheci a Amanda.

    A Amanda me enviou uma mensagem no OkCupid há quatro anos. Agora, ela diz que não se lembra quem deu o primeiro passo, mas eu sei que foi ela, porque eu jamais ousaria.

    Se eu podia olhar e tocar essas mulheres com carinho, atração e luxúria, então eu acreditava que elas podiam fazer o mesmo comigo.

    A Amanda era gostosa do jeito que a garota mais gostosa da sua turma do ensino médio era. Uma de suas fotos de perfil era ela vestida de Lara Croft para o Dia das Bruxas. Eu pensei que ela tivesse cometido um erro ou era um bot, mas não — ela me mandou uma mensagem e queria sair para jantar.

    Ela chegou alguns minutos atrasada no nosso primeiro encontro, e esses minutos de espera foram um inferno. O pensamento que passou pela minha cabeça foi que ela tinha revisto minhas fotos e mudado de ideia. Mas então ela chegou.

    Foi um bom encontro. Um ótimo encontro, até. Ficamos um pouco bêbadas e, quando nos despedimos, eu me acovardei e a abracei, ainda com medo de ela ter percebido seu engano. No táxi para casa, mandei uma mensagem para ela e disse que gostaria de tê-la beijado. Ela disse o mesmo.

    A primeira vez que transamos foi suado, sensual e intenso. No entanto, nós não estávamos sozinhas. Apesar de toda a minha autoconfiança, o olhar masculino tinha voltado ao quarto, como um ménage horrível.

    A forma como o corpo de outras mulheres se pareciam com o meu tinha me confortado antes, mas agora eu estava com uma mulher mais convencionalmente atraente do que eu. Por que, claro, ela era muito mais magra.

    Eu me lembro dela sobre mim. Meus dedos passando ao longo de seus ossos do quadril, enquanto os meus próprios ossos estavam afundados em carne e gordura. Seus seios redondos e empinados, enquanto os meus eram indisciplinados, caídos por causa do peso. Sua barriga era lisa e macia, os meus tinham pneus. Ela tinha um pequeno coração claro no quadril, uma marca deixada por um adesivo enquanto ela se bronzeava — o tipo de coisa que garotas gostosas fazem, pensei. E eu, naquele momento, não me sentia como uma garota gostosa.

    Eu fiquei pensando que ela tinha cometido um engano, como se fosse de repente perceber que trouxe uma pessoa gorda para casa e gentilmente me pedir para ir embora. Eu me lembro de lutar contra o desejo de cobrir minha barriga com um travesseiro ao ir ao banheiro, como se ela não tivesse olhado para mim o tempo todo em que estivemos na cama.

    Eu não me sentia mal só por causa do meu corpo, mas também porque tinha deixado um padrão hétero de beleza invadir minha vida sexual. Eu não só estava magoada com meu próprio corpo, mas porque estava reduzindo a mulher com quem eu estava a nada mais do que uma coleção de partes. Naquele lugar escuro, nós éramos dois corpos prontos para comparação. Era assustador como era fácil julgar a mim mesma em relação a ela, mesmo no meio do sexo.

    Eu não deveria já ter superado essa merda?


    Se eu tivesse alguma autocompaixão na época, poderia ter me lembrado de que nada disso é minha culpa. O meu eu-bebê-lésbico tinha me convencido, de forma muito doce, que abraçar a minha homossexualidade me levaria para um universo paralelo onde corpos são apenas corpos. Onde não há valor moral atribuído a volume de carne, onde a magreza nem sempre é uma virtude. Onde todos nós apenas amamos e transamos umas com as outras, e nos deliciamos em nossa libertação.

    Bonito, né?

    Mas esse não é o mundo em que vivemos. Os mesmos padrões de beleza que estiveram comigo durante toda a vida – com flutuações de autoestima, com distúrbios alimentares e vergonha que ninguém merece – me seguiram com a revelação da minha homossexualidade.

    Aprendi a valorizar a magreza da mesma forma que aprendi a valorizar a heterossexualidade. As duas coisas não são muito diferentes, na verdade. Ambas têm sido forçadas em todos os meios de comunicação, todos os filmes, todos os programas de TV que consumi desde criança, desde a primeira vez que vi a primeira das princesas da Disney com uma cintura mais fina do que sua cabeça. Você podia ser burra, ou indelicada, ou chata, ou sem graça, mas nada disso importava, desde que você fosse magra e hétero.

    Ter um corpo fora do padrão era lindo, porque o jeito que eu amava também não era o padrão.

    Quando adolescente, estava convencida de que estava escolhendo ser gorda porque era fraca demais e indisciplinada demais para ser magra. E eu estava convencida de que, enquanto eu continuasse escolhendo os homens, nunca teria que lidar com o quão lésbica eu era. Nenhuma dessas coisas era realmente uma escolha, mas o mundo ao meu redor me convenceu de que eu estava totalmente no controle de ambas as coisas.

    Essas regras e suposições não se aplicam somente a mim, mas a todas as outras mulheres. Todas nós existimos em um espectro de valor: quanto mais magra e hétero, melhor. De um lado está a parceira perfeita, a filha perfeita, a mulher perfeita. E estamos constantemente nos avaliando para descobrir onde estamos nesse espectro, querendo ou não. Até hoje luto contra o impulso de olhar para outras mulheres gordas e me perguntar se sou menor ou maior do que elas — melhor ou pior, mais ou menos gostosa. Essa é a ordem que aprendemos a cumprir.


    Mas todas essas dúvidas desapareceram com o tempo, com a ajuda da comunidade e com muito trabalho para me amar como sou. Teria sido superlegal se sair do armário fosse o suficiente para consertar tudo e deixar de lado toda aquela vergonha. Mas não é assim, e eu deveria saber que não era.

    Então, mesmo que eu pudesse orgulhosamente andar no meio da rua com um top cropped brilhante, mesmo que sair do armário libertasse meu corpo, minha homossexualidade não me salvou das minhas inseguranças. E tudo bem.

    Com o tempo, melhorei tanto em amar a minha homossexualidade quanto o meu corpo, transferindo a alegria que senti na rua na primeira Dyke March de 2016 para a alegria na cama. Não havia fórmula mágica, mas mergulhar em uma comunidade LGBTQ era fundamental. Eu me cerquei de mulheres duronas e machões doces, namoradas de identidade não binária e amigos andróginos. Seus corpos vinham em todos os tamanhos e em todas as apresentações de gênero, e eu encontrei um lugar onde meu corpo se encaixava exatamente como era.

    Eu comecei a apreciar a forma como as unhas deixam impressões de meia lua nas minhas coxas, e como meus quadris parecem que estão saindo da lingerie, e como ter um corpo fora do padrão era lindo, porque o jeito que eu amava também não era o padrão.

    Com o passar dos anos, levei todos os tipos de mulheres para a cama e, embora a vontade de achar defeitos e me criticar ainda exista, agora é mais tranquilo. A Amanda não foi a última garota magra com quem eu transei. E três anos depois de uma separação amigável, nós voltamos a ficar juntas.

    Na primeira noite juntas novamente em seu quarto escuro, antigos medos ressurgiram. Eu ainda me perguntava se ela poderia querer uma garota gorda. Mas eu deixei essas preocupações de lado.

    Voltamos há cerca de um ano e, aos 28, estou mais gorda e mais lésbica do que jamais estive. A diferença hoje em dia é que – quando esses pensamentos voltam, quando me vejo comparando nossos corpos – eu me perdoo. Por enquanto, isso basta.

    E, neste ano, quando perguntei a Amanda o que eu deveria usar na Parada do Orgulho Lésbico, ela sugeriu um top cropped. ●



    A tradução deste post (original em inglês) foi editada por Luísa Pessoa.