Os millennials estão tentando acabar com o estigma de voltar a morar com os pais

    O número de jovens que estão voltando a morar com os pais são os maiores desde a Grande Depressão. É assim que é para alguns deles.

    Ben Kothe / BuzzFeed News; Getty Images (2)

    De certa forma, Ryan, de 30 anos, é o típico adulto bumerangue. “Eu vivia confortavelmente e dentro das minhas possibilidades, mas tinha uma bela quitinete em Baltimore (EUA)”, ele me explicou. “Eu tinha minha vida, tinha meu emprego, realmente tinha tudo meio que dando certo.” Até a pandemia. O trabalho de Ryan na educação superior parecia especialmente vulnerável, e ele não sabia como pagaria o aluguel se fosse demitido ou licenciado. Seu prédio se tornou um local de ansiedade: “Eu estava preocupado em morar em um apartamento de um prédio alto com muitas pessoas, e meio que todos os dias fazia as contas: há pelo menos 300 unidades no meu prédio. Isso significa que alguns de nós já pagaram.” Ele começou a reconsiderar a antiga oferta de sua mãe, "voltar por qualquer motivo ou sem nenhum motivo." Sua reflexão terminou quando “acordei e havia um rato em meu apartamento no 14º andar. Eu estava tipo: é isso, é um sinal de que devo ir.

    Voltar para seu antigo quarto em Bel Air, Maryland (EUA), em maio, deu um respiro nas pressões mais imediatas das finanças de Ryan: ele conseguiu quitar seu carro e pagar seu cartão de crédito. Mesmo assim, ele não está imune à solidão: “Morando na cidade, eu via meus amigos em todos os lugares. Aqui nos subúrbios, nenhum dos meus amigos está por perto. Isso é um pouco difícil, ser um adulto ... e não ter ninguém da sua idade por perto.” A decisão de voltar a morar com a família, mesmo que a mudança seja basicamente para uma cidade vizinha, pode criar uma mudança mais ampla e sísmica na forma como os millennials mais velhos se veem — e como nos encaixamos nos modelos convencionais da idade adulta.

    Para George, de 33 anos, que está planejando deixar o norte de Londres para morar com a família em Devon, Inglaterra, porque teme uma perda de emprego iminente, o tumulto causado pelo COVID-19 é um eco enfurecido do desespero que ela conheceu em 2009, quando se formou no meio de uma recessão global: “Meus professores literalmente me desejaram 'sorte' no mundo. Aqueles anos voaram e me senti deixada para trás”, lembra ela. “Eu sentia que o mundo estava contra mim e questionava por que minha carreira [e] salário não haviam evoluído, mas todas as pessoas que eu conhecia estavam passando por isso.” Após ter trabalhado para construir uma carreira e uma vida independente, esse pavor torturante de ser deixada para trás, novamente, a faz reavaliar os padrões de referência da vida adulta, não só para si mesma, mas também para a geração: “Sinto que nós, enquanto millennials, tivemos problemas com a identidade da 'idade adulta' mais do que a maioria. Nos tornamos mais resilientes e versáteis porque sempre tivemos que ser assim.”

    Courtesy Ryan Antony Nictora

    Ryan Nictora

    George e Ryan não são os únicos jovens a tomar a decisão de voltar a morar com os pais. Uma nova pesquisa do Pew revela que a maioria dos jovens adultos (de 18 a 29 anos) estão morando com os pais — ultrapassando um recorde estabelecido durante a Grande Depressão. Esses números só aumentaram à medida que o lockdown se consolidou: a pesquisa do Pew diz que 47% dos jovens adultos estavam morando com pelo menos um dos pais em fevereiro; esse número subiu para 52% em julho. De acordo com o Pew, a tendência engloba "todos os principais grupos raciais e étnicos, homens e mulheres, residentes de áreas metropolitanas e rurais, assim como todas as quatro principais regiões censitárias". E embora nossas conversas culturais sobre adultos voltando para casa foquem em um "efeito bumerangue" dos jovens millennials e da Geração Z — enfrentando uma economia incerta e perspectivas reduzidas de emprego — voltando para ninhos recém-esvaziados, a pandemia também mandou de volta para casa aqueles que estão em um grupo um pouco mais velho (que uma filha Zoomer de um amigo carinhosamente apelidou de “vovó e vovô millennials”). “Vi muitos jovens profissionais que talvez ainda não tenham comprado suas primeiras casas voltando para casa”, disse Dea Dean, uma terapeuta familiar e matrimonial. As principais razões, observou ela, "são para economizar dinheiro ou por causa da perda de empregos", embora ela também tenha visto pais de crianças pequenas que estão se virando com o trabalho, a escola e os cuidados com os filhos em geral, buscando a ajuda de parentes.

    Voltei a morar com meus pais em abril. Com a propagação da pandemia, meu mundo encolheu. Vi as indústrias que me sustentavam começarem a desmoronar e me preocupei com minha situação financeira de longo prazo. O aconchego e a solidão do meu apartamento se transformaram em uma câmara que só cresceu com más notícias. Depois, houve a preocupação com meus pais, que já passaram da casa do setenta. Minha mãe, uma senhora que conhecia todos os caixas e farmacêuticos em seu mercadinho local pelo nome, precisaria de ajuda para aprender os meandros das compras de supermercado on-line e precisaria conseguir seu remédio de alguma forma, já que recebia avisos cada vez piores para ficar em casa.

    A ideia de morar com ela começou a surgir como aquarelas tomando forma lentamente no papel — então eu borrava tudo: aos 38 anos, eu era muito velho para isso; não seria triste? Voltar a morar com os pais era coisa de jovens que acabavam de sair da faculdade, que precisavam de ajuda para começar suas próprias vidas. Eu tinha minha própria vida. Então, uma tarde, enquanto preparava mais uma refeição solitária, o noticiário ao fundo anunciou outro marco nas mortes, meu coração disparou. Estiquei minhas mãos na bancada, minha cabeça zumbindo com o som da minha pulsação. O ar fugiu da minha garganta. Um ataque de pânico. Um sinal claro de que não poderia continuar sozinha. Liguei para minha mãe. Perguntei se poderia voltar para casa.

    Levar meu cachorro para passear no bairro suburbano deles, cheio de gramados bem cuidados e placas anunciando a formatura de uma criança, geralmente é como passear pelo portal de uma vida que eu, como uma mulher solteira que estará trabalhando como temporária ou freelancer em um futuro próximo (o que ainda me coloca em uma posição melhor do que muitas outras pessoas), provavelmente nunca terei — uma constatação que traz consigo uma pequena, mas delicada dor, não tanto sobre o tipo de vida em si, mas sobre o que ela representa. Christie Kederian, uma psicóloga e terapeuta familiar e matrimonial, disse que, à medida que os millennials mais velhos voltam a morar com suas famílias, “a noção anterior de ter uma casa própria aos 30 anos e ser independente foi substituída pelo 'modo de sobrevivência'.” Embora o "modo de sobrevivência" projete uma imagem triste, Kederian sugere que há uma oportunidade valiosa: "Nossa sociedade ocidentalizada coloca a independência em um pedestal ... essa nova tendência pode ensinar aos millennials que não tem problema em pedir ajuda, pode ensiná-los a se livrar da pressão de ter uma aparência melhor no Instagram do que na vida real e pode livrá-los da mentalidade imediatista, que traz o pensamento de que tudo o que você quer que aconteça na sua vida, todos os sonhos que você deseja realizar, devem acontecer antes dos 40 anos.”

    “Sinto que nós, enquanto millennials, tivemos problemas com a identidade da 'idade adulta' mais do que a maioria. Nos tornamos mais resilientes e versáteis porque sempre tivemos que ser assim.”

    Crescer com uma mãe do Oriente Médio ajudou Mina, de 40 anos, a se ajustar à convivência com sua mãe e seu padrasto conforme eles se mudavam pelo país enquanto ela progredia em sua formação. O mercado de trabalho acadêmico era cruel antes mesmo da pandemia. Mina: “senti que meus sonhos implodiam”. Ela foi morar com a mãe e o padrasto, o que trouxe alguns benefícios inesperados: destinar o dinheiro que gastaria com aluguel para viagens, construir um negócio independente e ajudar seus pais a se recuperarem de cirurgias. “Minha mãe é do Oriente Médio”, explica ela. “Meu entendimento é que a cultura, como um todo, não prioriza viver por conta própria após os 18 anos, como nos EUA. Acredito que as ideias ocidentais, e principalmente as norte-americanas, do que constitui a 'idade adulta' são muito limitadas e só servem para a máquina capitalista. Eles criam uma vergonha na situação de viver com os pais, para encorajar as pessoas a aceitar qualquer trabalho que possam encontrar e se matem de trabalhar."

    Agora, estar em casa também é fundamental para a saúde de Mina a longo prazo — ela é imunocomprometida, e ter o apoio imediato e a estabilidade da família ajudam a evitar a exposição e o risco. É claro, como em qualquer situação de convivência, existem problemas: “Minha mãe e eu temos um relacionamento complicado”, diz ela. “Ainda assim, tenho mais capacidade de enfrentar as emoções dela do que tinha na infância e adolescência: para estabelecer limites, para cuidar de mim mesma, para me desligar quando ela está brava ou chateada.”

    Mas até mesmo os relacionamentos familiares mais próximos podem ter sua cota de problemas, e especialistas dizem que a melhor maneira de manter as coisas equilibradas é estabelecer limites claros e diretos. “Muitos dos meus clientes millennials que voltam para casa sentem que estão regredindo emocionalmente”, disse Sara Stanizai, uma terapeuta familiar e matrimonial. “É muito comum que os adultos voltem a se sentir crianças ao interagir com os pais. Então, todo mundo precisa aprender a renegociar as regras da casa para adultos, coisas como horário para chegar em casa ou receber visitas. Alguns adultos acham ser óbvio que os pais não tenham o direito de determinar essas coisas. Mas alguns pais acham que o óbvio é: 'minha casa, minhas regras'." Dean, a terapeuta familiar, aconselha seus clientes a “lidar com as coisas com as quais você está preocupado, lidar com seus medos, lidar com a vulnerabilidade” ao estabelecer seus limites. Essas preocupações podem ir desde mensagens confusas sobre a criação dos filhos, até padrões diferentes de distanciamento social e, sim, discussões sobre as notícias. “Quando introduzimos nossos limites como desejos em vez de exigências, temos a tendência de ir muito mais longe uns com os outros”, disse ela.

    Às vezes, o melhor que se pode fazer é contornar esses problemas. Bob, de 38 anos, é um cineasta de Baltimore (EUA) que foi morar com sua mãe viúva para ajudá-la, mas algumas de suas diferenças políticas se mostraram insuperáveis: “Passei por isso não falando sobre o assunto ou desistindo e encerrando as conversas logo no começo”, disse ele. Os millennials e a geração Z em geral têm diferenças em relação aos boomers: uma pesquisa do Pew encontrou desvios significativos em suas atitudes em relação a tudo, desde o aquecimento global até o papel do governo na resolução de problemas — e essas tensões podem piorar à medida que as famílias se encontram em casas apertadas por longos períodos. Elas também podem agravar as frustrações naturais de ter que morar com outras pessoas após passar anos sozinho. Embora Bob esteja feliz por sua mãe estar segura, ele ainda lamenta por não ter mais a privacidade de antes da pandemia. “Gosto do meu momento sozinho; gosto da minha porta fechada. Perdi tudo isso aqui.” Ir morar com a família geralmente tem motivação em questões práticas, mas, para muitos adultos bumerangues, isso também representa uma mudança existencial.

    Antes da pandemia, Charlotte, de 32 anos, já estava trabalhando em busca dos sonhos de sua vida, morando em Los Angeles para tentar ser roteirista. Com os programas de TV em grande parte em pausa, ela se viu desempregada e, depois de seis longos meses morando sozinha, decidiu ir morar com sua irmã e sua família em Kansas City (EUA). “É estranho, obviamente, se mudar para um espaço que não é seu, principalmente sendo adulta”, disse ela. Ela está aproveitando a comodidade de morar em uma casa cheia — jantares em família e companhia —, principalmente quando considera como sua carreira pode ser em um futuro próximo: “Se ser uma roteirista de televisão não for mais uma carreira viável — tenho que reavaliar completamente minha vida inteira. Após 10 anos trabalhando na equipe de apoio em programas de televisão.” Ela diz que esses anos em uma indústria pouco convencional deram a ela uma perspectiva mais sutil sobre a idade adulta e a maturidade: “Sacrifiquei os namoros e a vida pessoal por programas, com muitas horas de trabalho e escrevendo em qualquer tempo livre. Então, eu não tenho uma carreira ou uma família — as características de um 'adulto'. Mas consegui manter a mim e meu cachorro vivos nos últimos sete anos. Então, devo estar indo mais ou menos bem, né?”

    "Então, eu não tenho uma carreira ou uma família — as características de um 'adulto'. Mas consegui manter a mim e meu cachorro vivos nos últimos sete anos. Então, devo estar indo mais ou menos bem, né?"

    Mesmo assim, ela teve que explicar a certos amigos e ex-colegas de trabalho que não estava abandonando suas ambições: o aumento dos espaços de trabalho virtuais permitiu que ela continuasse procurando trabalho, ao mesmo tempo que compartilha um espaço com as pessoas que ama. “Se eu precisasse estar em Los Angeles para encontrar um emprego agora, provavelmente não teria saído de lá”, disse ela. Seus amigos próximos, pelo menos, a entendem e a apoiam. "Tudo é tão incerto agora ... não faz sentido ficar deprimida e sozinha se você não precisa ficar." Mesmo assim, o estigma permanece. Até uma busca superficial no Google por "adultos voltando para casa" trará os seguintes resultados na categoria "As pessoas também perguntam": "É ruim voltar a morar com seus pais?" e "É vergonhoso voltar a morar com seus pais?" Quando cumprimentei um dos vizinhos dos meus pais, um homem que conheço desde a adolescência, ele me perguntou com uma mistura de condescendência e desprezo na voz: "Você está pensando em ficar por aqui, sabe, por um tempo?"

    As maneiras como estruturamos nossas escolhas podem ajudar a nos afastar desse estigma. Danielle Moye, uma terapeuta familiar e matrimonial, não só observou a tendência em seus clientes — ela também voltou a morar com sua família pouco antes da intensificação da pandemia, para ajudar na recuperação de um divórcio. Ela acredita em enfatizar os aspectos práticos e proativos da decisão como uma forma de questionar antigas noções de que, como adultos bumerangues, somos desamparados, preguiçosos ou patéticos: “Existem muitas maneiras de olhar para isso, e vejo não só como uma oportunidade de economizar e refocar, mas também como uma oportunidade de voltar para casa e focar naqueles relacionamentos que talvez precisem de mais atenção.” Ela usou o tempo em casa para processar e avaliar em que momento ela estava em sua vida, como histórias familiares e atitudes a moldaram e quais direções ela gostaria de seguir no futuro: “Estou tão acostumada a pegar as coisas e manter o ritmo sem conferir se estou realmente bem. Essa é a melhor parte, voltar para casa e para dentro de mim, de várias maneiras — na verdade, voltar para casa e voltar para dentro de mim emocionalmente. ”

    Courtesy Xian Horn

    Xian Horn e seu pai

    Para Xian, uma defensora dos deficientes e empreendedora de Nova York na casa dos trinta anos, dividir o espaço com sua família permitiu que ela se conectasse mais plenamente com seu pai, que se orgulhava de manter um horário de trabalho rigoroso mesmo em uma idade avançada: “A pandemia trouxe essa coisa incrível — meio que de cura — em que passamos a ser pais e filhos 24 horas por dia”, explica ela. “Obviamente é diferente porque somos todos adultos agora, mas, para mim, foram momentos muito preciosos com ele.” Saber que ela poderia garantir que seus pais seguissem a quarentena — ela fez seu pai adotar o teletrabalho e começar a usar álcool em gel nas mãos — também ajudou a acalmar Xian: "Senti que estava protegendo mais meus pais estando com eles, porque pelo menos eu sabia se eles estavam se comportando ou não", brinca ela. “Vejo desta forma: um dia, talvez terei minha própria família e não terei tanto tempo para meus pais como tenho agora.”

    “Um dia”, hoje em dia, parece o nascer do sol em um horizonte distante. Estou aprendendo a abrir mão das expectativas que tinha para mim antes de aparecer na varanda da minha mãe com uma mala e a esperança de que tudo isso fosse temporário. Sinto falta do silêncio de uma casa vazia; sinto falta de um espaço que é claramente meu. Meus desejos são menores agora: que eu possa manter todos próximos a mim seguros e bem; que não jantarei sozinha, noite após noite. Eles podem não ser grandiosos, mas devem ser o suficiente. ●

    Este post foi traduzido do inglês.



    Contact Laura Bogart at lauradianabogart@gmail.com.

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