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Como colocar meio seio fez com que eu me amasse por inteiro

Um conto de dois seios irregulares, e a mulher a quem eles estão ligados.

Charlotte Gomez / BuzzFeed

Quando um pedaço de silicone, aproximadamente do tamanho e da forma de uma costela de frango, voa para fora de seu sutiã no vestiário da aula de ginástica, isso acontece em câmera lenta.

E isso aconteceu em câmera lenta para mim, em um fatídico dia após a aula de ginástica do colegial, enquanto eu estava tirando minha camiseta suada. Normalmente, eu me protegeria durante a troca — um jeitinho de cobrir meu peito de uma forma que tentava muito parecer casual — para garantir que as duas inserções de silicone que eu secretamente mantinha enfiadas em meu bojo direito não fossem reveladas ao mundo (ou, sem dúvida pior, a um vestiário cheio de meninas de 14 anos de idade).

Então, quando o silicone se libertou dos limites do meu sutiã, voou pelos ares, caiu no chão do vestiário e quicou — quicou! — Eu fiz o que qualquer pessoa racional faria: eu fingi que tropecei no banco para que pudesse arremessar meu corpo inteiro sobre o silicone descontrolado, a fim de escondê-lo. Eu, então, o enfiei, junto com a sujeira do chão do vestiário e tudo mais, de volta no meu sutiã. Meu coração batia forte durante as minhas próximas duas aulas, mas ninguém viu. O meu segredo estava a salvo.

Crescendo com seios severamente assimétricos, eu aprendi uma forma muito singular de discrição. Eu nunca poderia dizer uma mentira sem abrir bem os meus olhos, e eu não sou capaz de fazer uma brincadeira com alguém nem se isso for salvar a minha vida. Mas meus seios — o esquerdo uma taça C cheia, o direito completamente plano — eram um segredo que eu nunca, nunca revelei.

Em vez disso, eu fazia enchimentos. Mas não um pequeno chumaço de tecido. Não, eu tive que sacar grandes armas. É aí que as costelas de frango entraram. Felizmente para mim, elas vinham em pares (como se poderia esperar), porque eu precisava de ambas, uma sobre a outra, para equilibrar minha assimetria.

Crescendo com seios severamente assimétricos, eu aprendi uma forma muito singular de discrição.

Eu cortei fendas no revestimento de todas as minhas roupas de banho para colocar as próteses. Eu usava exclusivamente biquíni tomara-que-caia — definitivamente nada de tops, formatos triangulares ou qualquer outra coisa com decote na frente. Meu seio direito era muito plano para se passar por qualquer coisa parecida com o colo que eu tinha do lado esquerdo, então eu resolvi não usar decote de jeito nenhum.

Ir ao médico era meio que o pior. Eu tive meus hormônios testados para ver se alguma coisa estava causando a minha assimetria, mas os testes voltaram totalmente normais. Eu era simplesmente azarada. Na maioria das vezes, quando eu perguntava se havia algo que poderia ter levado à diferença, o médico olhava para mim condescendente e me dizia tipo "todo mundo é um pouco irregular". Eu era mais do que um pouco irregular, mas era educada demais para falar sobre o problema.

As coisas ficaram ainda mais complicadas, pois minhas colegas começaram a namorar e contar histórias sobre o que já havia feito e deixado de fazer. E com certeza eu namorei um pouco e atingi algumas bases, mas toda a experiência era marcada pela ansiedade em vez de prazer. A primeira vez que tive relações sexuais, eu mantive meu sutiã e pedi muitas desculpas. Era difícil entender como o sexo poderia ser bom quando o meu foco principal estava em planejar uma desculpa para ficar de sutiã.

Mais para o final do ensino médio, estava bastante claro que meus seios nunca se equilibrariam sozinhos, então eu tomei uma decisão drástica: eu iria arrumar um seio falso. Ou melhor, metade de um.

Eu estava bastante assustada, e eu temia que as pessoas me julgassem por querer fazer uma cirurgia plástica. Mas para mim essa cirurgia não era opcional ou cosmética. Eu sabia que se eu quisesse me sentir confortável com meu próprio corpo, algo tinha que mudar.

Fiz a cirurgia no verão antes de começar a faculdade. Meus pais me levaram lá. Fizemos o check-in, me deitei na mesa de operação, eles colocaram uma máscara de anestesia em mim e então tudo ficou escuro.

Não me lembro muito de acordar, mas eu me lembro de que estava chorando. Lembro-me de estar com muito medo. Meu peito ainda estava dormente demais para dizer como a cirurgia tinha ficado, mas eu não queria nem olhar. Fui para casa.

Foi a coisa mais estranha, finalmente fazer aquela operação, depois de anos odiando meus seios. Eu estava toda inchada e dolorida. O implante parecia apertado, duro e pouco natural (leva meses antes dos implantes assentarem-se e "caírem"). Minha aureola esquerda, que foi reduzida para ficar igual à outra, estava cercada por pontos que me faziam parecer uma boneca de pano assustadora. Eu estava coberta de ataduras e drenos saindo das minha laterais.

A dor física era ofuscante. Eu não podia sair da cama sem meus pais praticamente me carregarem. A parte superior do meu corpo e os braços estavam doendo tanto que eu não conseguia alcançar a mesa de cabeceira da minha cama; uma noite, eu acordei com muita sede e fui incapaz de chegar a um copo de água a alguns centímetros de distância de mim.

Eu tinha ouvido que a depressão muitas vezes acontece logo depois do aumento de seios, mas eu realmente não tinha entendido como isso poderia ser possível — afinal, eu tinha esperado anos para fazer a cirurgia. Eu esperava minha recuperação para inaugurar uma nova fase na minha vida onde eu teria seios de estrela de cinema perfeitos e a confiança que correspondia a ter esses seios. Eu pensava que estaria comemorando antes mesmo de me recuperar. Eu pensei que me sentiria atraente e feminina — imaginei que me sentiria correta, enfim.

Em vez disso, eu não conseguia nem mais olhar para mim mesma. Minha mãe teve que me ajudar a trocar minhas ataduras porque eu não podia ver meu próprio corpo sem cair em lágrimas.

Minha mãe teve que me ajudar a trocar minhas ataduras porque eu não podia ver meu próprio corpo sem cair em lágrimas.

Depois de algumas semanas, meu corpo se curou e minha força voltou. Eu podia caminhar e me vestir e usar os braços e sair de casa. Eu podia tomar banho sem ajuda. Eu fiz planos para ir à praia com os meus amigos mais tarde naquele verão.

Essas pequenas coisas ajudaram a aliviar a carga emocional intensa do procedimento. Ainda assim, os resultados que eu esperava nunca chegaram. Eu esperei e esperei, mas meu seio direito nunca foi capaz de esticar o suficiente para acomodar o implante, de modo que o implante ficou apertado e pressionado grotescamente contra o meu peito.

A única coisa que eu podia fazer era tentar novamente no verão seguinte, com um cirurgião diferente. Eu estava com raiva e devastada por ter sofrido tanto à toa, e com medo de fazer isso novamente. Parecia muito injusto. Para piorar a situação, isso teria que acontecer no verão seguinte ao meu primeiro ano de faculdade. Como meus amigos saindo para estágios extravagantes e férias legais, eu iria para casa sem planos, exceto duas semanas de repouso e uma pilha de DVDs antigos da biblioteca.

Apenas dois meses antes de eu ir para casa para a segunda rodada da cirurgia, fui almoçar com alguém com quem eu tinha recentemente feito amizade (e que viria a ser uma das minhas melhores amigas e colega de quarto). De alguma forma, a conversa se voltou para o quanto a puberdade era uma droga, e eu me vi contando a essa mulher de quem eu tinha acabado de me aproximar sobre a minha cirurgia.

"Eu sei que isso soa estranho, mas eu costumava ter peitos super irregulares, e eu fiz uma cirurgia para...". Eu comecei a dizer, nervosa para ver a reação dela.

Mas ela abaixou o garfo e deu um sorriso realmente grande.

"Eu também", disse ela. E então nós conversamos por horas.

A segunda rodada de recuperação não foi tranquila, mas desta vez, eu sabia que não estava sozinha; Agora eu tinha uma amiga que realmente entendia como isso era de verdade. E, felizmente, a cirurgia funcionou muito melhor.

Meus seios ficaram mais ou menos do mesmo tamanho depois — o direito finalmente encheu meu sutiã sem precisar de ajuda —, mas ainda assim, a cirurgia plástica não é mágica. Estava claro que os seios grandes, redondos e perfeitamente simétricos dos meus sonhos simplesmente não aconteceriam.

Seja por estar relutante em fazer uma cirurgia novamente ou por subitamente ter ficado satisfeita com meu corpo, eu disse "foda-se". Meus seios estavam muito bem como estavam.

E depois, de alguma forma, lenta mas seguramente — entre colocar essas costelas de frango na parte de trás da minha gaveta de calcinhas e a primeira vez que eu tirei meu sutiã na frente de alguém sem explicar minhas cicatrizes; entre ser medida para um sutiã de tamanho adequado (e comprá-lo em cinco cores) e a noite em que fui nadar nua no Oceano Atlântico — eu percebi que eu amava meus seios.

Meus seios são incrivelmente demais. Eles podem ser cortados, esticados e machucados; eles podem crescer, mas mantêm sua forma. A beleza deles está na singularidade deles, na sua teimosia, no fato de que eles estiveram no inferno, voltaram e viveram para contar a história.

Eles me ensinaram a amá-los pela simples razão de que este é o corpo que me foi dado, e o corpo no qual e com o qual eu vou viver para sempre.

Meus seios são lindos porque eles tornaram a mulher a quem eles estão ligados amável e menos crítica. Eles me permitiram ver o puro deslumbramento na diversidade dos outros. Eles me ensinaram a amar o meu corpo, radical e ativamente. Eles me ensinaram a amá-los pela simples razão de que este é o corpo que me foi dado, e o corpo no qual e com o qual eu vou viver para sempre.

Meus seios também me surpreenderam com uma melhor amiga. Eles me lembraram várias vezes de que eu não estou sozinha, de que o segredo que eu mantive durante anos é um segredo mantido por muitas mulheres. E eles me ensinaram a nunca mais pedir "desculpas" para as pessoas que eu permitir que vejam e toquem meus seios. Elas não precisam de nenhum pedido de desculpas.

O meu último ano de faculdade, dois anos e meio depois da minha segunda e última cirurgia, eu atuei na produção de Os Monólogos da Vagina da minha faculdade. Na noite de abertura, segundos antes de nós entrarmos no palco, uma mulher no elenco virou para mim e agarrou meu braço.

"Eu estou muito nervosa!", ela disse. "Rápido, diga alguma coisa louca que eu não sei sobre você!"

Eu soltei a primeira coisa que me veio à mente. "Hum, eu costumava ter seios superirregulares, então eu usava seio falso!"

Os olhos dela se arregalaram, e por um momento terrível eu pude imaginar aquelas costelas de silicone voando pelos ares, tudo de novo. Mas então ela sorriu.

"O quê?! Isso é muito legal!"

Ela me cumprimentou e nós entramos no palco.


A Semana De Bem Com o Seu Corpo é voltada para explorar e celebrar nossas complicadas relações com nossos corpos. Você pode ler os posts da Semana De Bem Com o Seu Corpo aqui.


Chris Ritter / BuzzFeed


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