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Opinião: O bolsonarismo vence quando um editor se enforca nas tripas de um escritor

Em texto para o BuzzFeed News, o escritor J.P. Cuenca diz que uma metáfora deu início a campanha orquestrada para acusá-lo de crime de ódio.

Na terça-feira da semana passada (16), li que o governo federal gastou R$ 30 milhões em emissoras de rádio e TV de pastores que apoiam o presidente Jair Bolsonaro. A notícia está aqui. E, antes de ir fazer um café, publiquei no Twitter, entre aspas: “O brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal.”

Com fins de sátira, parafraseei um ditado do século XVIII bem conhecido e atribuído aos iluministas Voltaire e Diderot, mas de autoria do abade francês Jean Meslier (1664-1729). Originalmente sobre reis e padres, a frase teve diversas encarnações. Trata-se de um clichê, apropriado por anarquistas, liberais, anarcocapitalistas, ambientalistas: gente de esquerda e direita.

Reprodução

Em 2015, Vladmir Safatle publicou essa blague na Folha de São Paulo: “Ela (a corrupção) só terminará quando o último corrupto petista for enforcado nas tripas do último corrupto tucano.”

Uma rápida pesquisa no Google mostra que o principal ideólogo do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, usou pelo menos duas vezes a construção: “o capitalismo só será superado (....) quando o último marxista foi enforcado nas tripas do último 'homo oeconomicus'” e “o mundo só será feliz quando o último ministro da Educação for enforcado nas tripas do último funkeiro” (?!).

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Jean Meslier (1664-1729)

Em fóruns na internet do sistema operacional Ubuntu há uma versão curiosa: “computadores só serão livres no dia em que o último usuário de Windows for enforcado nas tripas do último usuário de Mac.”

Ainda no terreno da tecnologia, alguém tuitou em 2018: “O Brazil será um país desenvolvido no dia em que o último YouTuber for enforcado nas tripas do último coach de empreendedor.” [a grafia está conforme o original]

A minha preferida não é a que nenhuma dessas, mas outra, pichada nas ruas de Paris em maio de 1968: “E depois de estrangular o último burocrata nas tripas do último sociólogo, ainda teremos problemas?”

Os que caluniosamente me acusaram de “pedir o enforcamento do presidente” parecem ter dificuldades de entender: 1) o que é uma metáfora; 2) a metáfora presente na frase de Meslier: a igreja e a nobreza (ou outras ‘famiglias’ como ela) devem manter-se afastadas do poder republicano em prol do povo.

***

O caos rapidamente instaurado nas minhas redes sociais, com ameaças de violência física e processo judicial em todos os inboxes, sem falar numa rápida e muito bem-sucedida campanha difamatória que resultou na minha demissão pela DW Brasil, para onde escrevia uma coluna, é fruto de uma tecnologia social muito bem azeitada e consolidada com o bolsonarismo.

Os gabinetes do ódio e seus robôs detectam muito rapidamente seus alvos e partem para o ataque. Trata-se de um mecanismo de coação psicológica e censura relativamente eficaz e barato. O objetivo aqui é o de inviabilizar a voz dissidente – e dessa vez o neofascismo brasileiro teve para isso a cumplicidade de uma empresa pública alemã, a Deutsche Welle.

A Deutsche Welle comunica que deixa de publicar a coluna quinzenal Periscópio, de J.P. Cuenca, após o colunista ter escrito, em perfil privado nas redes sociais, mensagem que contraria os nossos valores.

Como seus editores sediados em Bonn são adultos alfabetizados, com as funções cognitivas em dia, e leram e editaram meus textos antifascistas nos últimos meses, acredito que saibam o que é uma metáfora. Eu ainda lhes ofereci escrever um texto ou nota esclarecendo a frase, mas eles apressaram-se em publicar uma nota desastrada e mentirosa, me atribuindo um crime que não cometi: discurso de ódio.

Por isso, só resta uma dúvida: ou cederam à pressão do chamado gabinete do ódio no Brasil ou os tentáculos deste governo chegaram até a matriz alemã, via o Itamaraty mais aparelhado (e iletrado) da história do país.

O ruído das hordas fascistas comemorando a decisão da DW dá a dimensão do tamanho do recado errado dado pela empresa. Mais grave ainda: naturaliza um estado de coação e censura no campo dos artistas e intelectuais de oposição ao governo que não existe do outro lado, livre de escrutínio semelhante.

Muito pelo contrário. Como vinha denunciando, inclusive em colunas para a DW Brasil, o governo Bolsonaro e seus apoiadores transformaram o discurso de ódio no 'novo normal' no Brasil. Seria irônico não fosse trágico: o governo eleito prometendo fuzilar opositores, cujos integrantes e apoiadores repetem slogans e ostentam bandeiras nazifascistas, me acusou mentirosamente do crime que comete todos os dias.

E teve o coro de uma assustada DW na sua campanha difamatória.

Parabéns @dw_brasil . Ainda há esperança em alguns segmentos da mídia que pretendem fazer um trabalho ético e minimamente respeitoso 👍 Além disso estou em contato com meu jurídico para processá-lo. https://t.co/gdnOkIaM8J

*Este é um texto de opinião que expressa a visão de seu autor, não necessariamente a do BuzzFeed News.

Contact jpcuenca at jpcuenca@gmail.com.

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