• newsbr badge

MC Dricka: a rainha dos bailes de rua de SP com mais de 50 milhões de views no YouTube

O BuzzFeed News acompanhou uma noite da artista, que foge dos padrões do funk.

Uma voz feminina domina os bailes funks de São Paulo. Uma voz de uma mulher preta, lésbica, feminista e que "não tá nem aí pra porra nenhuma", como a mesma diz. Fernanda Adrielli, 21, a MC Dricka, acumula mais de 50 milhões de visualizações nos vídeos de suas músicas no YouTube e ganhou o apelido de "rainha dos fluxos" pelo seu sucesso nas festas de rua das favelas de São Paulo.

Mas até o dia 11 de junho de 2019, Fernanda estava passando dificuldades para comprar comida e pensava em largar o sonho de virar MC. Foi quando sua primeira música de maior sucesso, "Empurra Que Eu Sou Puta", foi postada no YouTube. Hoje, a canção soma mais de 20 milhões de plays no YouTube.

"Eu mal tinha o que comer e meu objetivo era que a música batesse 20 mil visualizações. Aconteceu tudo muito rápido pra mim. É muito louco pensar que sou destaque no funk, ver todo mundo cantando minhas músicas onde passo, as pessoas gostando do meu trabalho."

Parte da letra de "Empurra Que Eu Sou Puta" diz: "Quanto mais eu vou gemendo / o Will [produtor da música] me fode mais / Empurra, Empurra / Empurra Que Eu Sou Puta."

Veja este vídeo no YouTube

youtube.com

A letra, composta pela própria MC, pode não ser a mais adequada para o churrasco em família, mas Dricka aponta para importância de subverter a lógica das composições feitas e cantadas por homens.

"Homem pode cantar que faz isso, faz aquilo e não pega nada. Eu quero cantar o que faço também, tenho o direito disso. Cantar o que eu canto é um ato feminista, sim."

O BuzzFeed News acompanhou a MC durante a noite de quarta (18) para quinta-feira (19), onde ela fez uma apresentação na periferia de Guarulhos. Numa casa que comporta 800 pessoas e que estava lotada, Dricka subiu ao palco às 3h40 e cantou por cerca de 30 minutos.

Mulheres se acotovelavam em frente ao palco, gritando loucamente cada verso de Dricka como uma espécie de mantra. A cantora encerra seus shows com a frase "Mulheres no topo".

No Rio de Janeiro, a cultura baile funk produziu nomes femininos como Tati Quebra-Barraco, Deize Tigrona e Valesca Popozuda. Em São Paulo, terra do "funk ostentação", o espaço para o sexo feminino é reduzido.

Feminista e de esquerda, Fernanda se diz petista, mas não votou na última eleição – ela ainda não tem título de eleitor. "Sei que sou exceção no funk."

Nascida na Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, Fernanda é a primogênita – tem dois irmãos, de 7 e 8 anos. Ela teve uma infância e adolescência complicadas, com dificuldade de ser aceita por sua mãe.

"Eu tenho pai, mas não gosto de falar sobre ele, não tenho nada de bom sobre ele. Morava só eu e minha mãe e desde sempre ela queria me impor um padrão que não era o que eu queria pra minha vida. Ela queria que eu estudasse e trabalhasse, que seguisse um roteirinho. Mas eu não queria trabalhar pra ninguém, ser funcionária de ninguém. Comecei a cantar com 11 anos, nada muito sério, mas ali já falava que queria ser artista e ela achava que isso não tinha futuro. Eu que não queria ser mais uma dona de casa que apanha do marido dia e noite, como muitas aí pelo Brasil."

Fernanda sempre teve gênio forte e sabia que não seguiria muitas regras. Após repetir diversas vezes a 6º ano, em 2013 ela abandonou a escola sem terminar o Ensino Fundamental, no 9º ano.

O abandono da escola fez com que as brigas com a mãe se tornassem constantes e, no ano seguinte, ela saiu de casa e passou a morar em ocupações e casa de amigos.

"Foi um período meio foda pra mim. Foi nessa época que conheci a militância, fui a vários lugares do Brasil para acompanhar protestos e aproveitava para cantar em um espaço ou outro, participava de discussões sobre feminismo."

Dricka, porém, não via sua carreira decolar. Preta, lésbica e com um corpo bem franzino, ela fugia dos padrões do mercado do funk paulistano.

"Fui super rejeitada por cantar o que eu canto, não expor meu corpo, ser sapatão, não sair com os empresários. Teve uma vez que tentei entrar numa produtora, mas não me aceitavam de jeito nenhum. Ninguém falou nada diretamente pra mim, mas muitas vezes não precisa falar. Enquanto isso, na mesma produtora, uma mina branca, bem padrão normativo, conseguiu uma vaga sem saber cantar, literalmente", disse.

"Já passei por muita merda, muito preconceito. Mas o que mais me incomoda é quando sofro racismo. Quando alguém me ataca porque sou lésbica é diferente, o racismo me deixa mal mesmo."

Veja este vídeo no YouTube

youtube.com

Enquanto a carreira não deslanchava, Fernanda se virava: trabalhou consertando celular, vendendo fones de ouvido e tantos outros bicos que ela mal lembra. Isso tudo em parceria com sua namorada, Valeska, a quem ela conheceu em 2017.

2019 chegou e com ele a situação apertou. Os trabalhos esporádicos rarearam e o casal mal conseguia comer.

"Lembro um dia que tinha em casa uma batata, cebola e um pouco de farinha. Coloquei tudo numa panela e dei pra Valeska, porque só dava para uma comer".

O perrengue foi até o dia 11 de junho de 2019, lançamento de "Empurra Que Eu Sou Puta". Junto com o sucesso, começaram a chegar os shows e os bons cachês. A primeira compra da Dricka foi um cachorro de R$4.900.

"Eu amo bicho. Estava no shopping, comprei algumas roupas e passei por uma dessas lojas pets. Vi o cachorro, que era igual aquele que aparece em 'As Branquelas' e comprei um", disse a cantora, se referindo a raça spitz alemão.

Agora com o sucesso repentino, a MC Dricka faz, em média, 15 shows por semana, entre quinta e domingo, principalmente entre região metropolitana e interior de São Paulo, além do estado de Minas Gerais. Nem ela nem a empresária quiseram abrir o valor do cachê por show.

Utilizamos cookies, próprios e de terceiros, que o reconhecem e identificam como um usuário único, para garantir a melhor experiência de navegação, personalizar conteúdo e anúncios, e melhorar o desempenho do nosso site e serviços. Esses Cookies nos permitem coletar alguns dados pessoais sobre você, como sua ID exclusiva atribuída ao seu dispositivo, endereço de IP, tipo de dispositivo e navegador, conteúdos visualizados ou outras ações realizadas usando nossos serviços, país e idioma selecionados, entre outros. Para saber mais sobre nossa política de cookies, acesse link.

Caso não concorde com o uso cookies dessa forma, você deverá ajustar as configurações de seu navegador ou deixar de acessar o nosso site e serviços. Ao continuar com a navegação em nosso site, você aceita o uso de cookies.