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A entrevista de Rodrigo Maia ao Roda Viva foi cheia de recados a Bolsonaro, Moro e Paulo Guedes

O presidente da Câmara elogiou a Vaza Jato, criticou a retórica do presidente e a Medida Provisória que tira receita dos jornais: “Hoje é contra a imprensa. Amanhã pode ser contra qualquer outra pessoa”.

TV Cultura

A entrevista que concedeu ao programa "Roda Viva", da TV Cultura, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, foi coalhada de recados ao presidente Jair Bolsonaro e a integrantes do primeiro escalão do governo, como os ministros Sergio Moro (Justiça) e Paulo Guedes (Economia).

Principal articulador da reforma da Previdência e da agenda econômica do governo na Câmara, Maia criticou a Medida Provisória do presidente Jair Bolsonaro que desobriga as empresas com mais de 20 acionistas a publicar balanços financeiros nos jornais. Na ocasião em que anunciou a edição da MP, o presidente foi irônico dizendo que esperava que o jornal Valor Econômico, que pertence ao Grupo Globo, sobrevivesse à medida.

“O presidente não foi muito feliz da forma como colocou. Você não pode ter uma lei ou MP, que tem efeito imediato, que seja feita porque não estou satisfeito com a ou com b. Ele tem direito de não estar satisfeito com a imprensa. É direito de cada um. Agora, uma MP para isso? Vamos ver como é que o parlamento vai tratar isso. Hoje é contra a imprensa. Amanhã pode ser contra qualquer outra pessoa”, disse Maia.

O presidente da Câmara lembrou que o próprio presidente havia sancionado uma lei em abril que criava um período de transição até 2022 para os jornais que publicam balanços financeiros se adaptarem à perda de receitas. Segundo ele, a imprevisibilidade atrapalha o país.

“Eu não tenho poder de devolver uma MP. Se fosse, eu iria ao presidente antes, conversar com ele, tomar uma decisão em conjunto, porque não cabe o enfrentamento, mas o diálogo. Se for pra prejudicar o Valor, não vai prejudicar o Valor. O que ele vai conseguir com isso? O Valor é um jornal de grande circulação, de uma empresa muito grande no Brasil que vai reduzir seus preços para outros anunciantes. O que ele vai tirar é mercado dos menores para concentrar no Valor e em outros jornais da mesma empresa”, disse.

E emendou: “Se o objetivo era prejudicar o Valor, ele certamente não olhou por esse ângulo. Uma empresa do tamanho da que comanda o Valor pode reduzir o preço do seu comercial, atrair o setor privado de outros jornais menores e, no fundo, acabar com os outros antes do ‘fim’, entre aspas, do jornal Valor. É uma decisão do presidente do Congresso. Quando essa matéria chegar à Câmara, vou discutir com os líderes, com o presidente, que já sabem da minha opinião sobre esse tema.”

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"Graças a Deus, não é problema meu", diz Rodrigo Maia sobre Moro e crise das mensagens

Quando instado a responder se o ministro Sergio Moro tem condições de ficar confortável no cargo após a divulgação das mensagens obtidas de fonte anônima pelo site The Intercept Brasil, o presidente da Câmara saiu-se com uma tirada irônica: “Graças a Deus não é um problema meu.”

“Em relação ao ministro Moro, os maiores problemas a serem explicados pelos procuradores que pelo ministro Moro, até porque não era o celular dele. Agora, para ele que tem uma posição de destaque na sociedade, de respeito de admiração, qualquer tiro, mesmo que seja de chumbinho, dói mais", afirmou.

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Pouco antes, ele havia defendido a divulgação das mensagens porque a Constituição garante o sigilo da fonte dos jornalistas, mas criticou a mudança de opinião de setores do Ministério Público que antes defendiam, no contexto das chamadas 10 Medidas, o uso da prova ilícita em processos judiciais, quando obtida de boa fé.

"A minha preocupação maior é separar o que é legal e o que não é legal nesse processo. O que me preocupa mais é que uma parte dos procuradores defendia o uso da prova ilícita de boa fé. Aí agora em tese o Glenn [Greenwald, editor cofundador do Intercept] está com boa fé. Não tenho nenhum argumento para achar que ele não está de boa fé, tentando desvendar algo que ocorreu", afirmou.

“O importante é entender que a gente vive numa democracia, que a liberdade de imprensa é um ativo fundamental e que isso não pode ser destruído porque a ou b está incomodado com o que está aparecendo”, completou.

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Segundo Maia, o presidente e Paulo Guedes precisam explicar por que o país não está crescendo

Rodrigo Maia também disse que a escalada retórica do presidente Bolsonaro nas últimas semanas não representa, segundo ele, um risco à democracia, mas que faz o país perder oportunidades.

“Às vezes a retórica tira dele a oportunidade de ele ter um governo crescendo mais rápido. Muitos investidores ficam incomodados com alguns discursos do presidente. O que pode acontecer é a gente organizar o Estado e a recuperação da economia [pode ser prejudicada], por algum tipo de radicalismo, e alguns discursos do presidente afetam, sim, a imagem do Brasil. A questão do meio ambiente, por exemplo. [Alguns discursos] podem prejudicar a possibilidade do Brasil ser um ator relevante na economia internacional”, afirmou.

O país virou o ano com perspectiva de crescer 2,5% em 2019, mas fechou o segundo trimestre com encolhimento e nova perspectiva de recessão. Ontem, Guedes disse que o país precisava de mais tempo para voltar a crescer. Maia não fez concessão.

“O ministro Paulo Guedes precisa responder uma pergunta: por que a expectativa em relação ao governo do presidente era de um tamanho no final do ano, se projetava um crescimento de mais de 2%. Quando o governo Michel Temer aprovou o orçamento com crescimento de 2,5% no final do ano ninguém contestou. O governo atual está dizendo que o crescimento não era real. Era real naquela época. Ninguém disse que estava errado”, questionou.

“Por que se deterioraram essas expectativas dos agentes econômicos no Brasil? Essa é uma pergunta que o ministro Paulo Guedes e o presidente da República precisam olhar. Olha aí como é que frases podem prejudicar um crescimento tímido, mas que existiria em 2019”, disse.

Ligado ao setor financeiro, o presidente da Câmara negou que sua equipe faça qualquer concorrência com a equipe de Paulo Guedes na agenda econômica do país, especialmente na proposta de reforma tributária.

"Não acho que o Paulo Guedes esteja nessa agenda medíocre de falar que se eu competir a coisa vai ficar feia. Eles sabem que eu fui eleito, o Paulo Guedes não foi. Eu sou presidente da Câmara. Fui eleito por 334 deputados”, estocou.

Maia também disse que a perspectiva de criação de um imposto sobre movimentações financeiras nos moldes da antiga CPMF não passa no Congresso. O imposto é defendido pelo secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, mas enfrenta oposição entre aliados.

“A CPMF está morta. O presidente está contra. Se o presidente está contra, se a Câmara está contra, se o Senado está contra, vai aparecer CMPF de onde?”

Graciliano Rocha é Editor de Notícias do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ele pelo email graciliano.rocha@buzzfeed.com.

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