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Updated on 31 de jul de 2020. Posted on 30 de jul de 2020

Uma nova exposição revela a dura realidade da mudança climática

"Assim como a COVID-19, a crise climática pode quase parecer invisível às vezes, e é difícil de entender, a menos que você seja diretamente afetado — e, mesmo assim, há pessoas que parecem não entender a realidade dela."

Four boys in rubber boots cross a flooded walkway while holding hunting rifles
Katie Orlinsky

Em uma caçada de pássaros de verão, Kenyon Kassaiuli, Jonah Andy, Larry Charles e Reese John atravessam uma passarela inundada em Newtok, no Alasca, em 27 de maio de 2019. A aldeia iúpique de Newtok, no Alasca, está afundando à medida que o pergelissolo abaixo dela derrete e a terra sofre erosão. Estima-se que em três a cinco anos ela possa estar debaixo d'água. Newtok é a primeira comunidade no Alasca a começar a realocação como resultado direto da mudança climática — sendo pioneira em um processo pelo qual muitas outras aldeias do Alasca poderão passar em breve.

As Nações Unidas têm descrito a ameaça iminente da mudança climática como a "crise definidora do nosso tempo". Hoje, como grande parte do mundo lida com as consequências econômicas e de saúde da pandemia de coronavírus, a dura realidade de uma catástrofe global talvez seja mais real do que nunca.

Uma nova exposição online no Bronx Documentary Center explora alguns dos efeitos imediatos da mudança climática nos EUA, reunindo uma rede de informações sobre como o atual governo não está conseguindo lidar com essa preocupante realidade. A exposição faz parte de uma série recorrente de programação chamada Trump Revolution (Revolução Trump, em tradução livre), que narra o impacto das políticas de Trump nas questões globais. Embora a exposição estivesse originalmente programada para ser realizada nas galerias do centro do Bronx, a pandemia de coronavírus obrigou a exposição a ser adaptado para a web.

Aqui, a coordenadora da exposição Cynthia Rivera compartilha com o BuzzFeed News o trabalho de seis fotojornalistas apresentados na exposição, e seus pensamentos sobre como a atual crise de COVID-19 pode prenunciar os efeitos mais graves da mudança climática.

Você pode falar um pouco sobre o conceito por trás da série de exposições Trump Revolution?

A ideia começou quando Donald Trump começou a fazer campanha. Quando ele assumiu o cargo, as coisas começaram a acontecer muito rapidamente em termos de mudanças políticas, e acho que muitos de nós ainda estávamos processando as eleições. Para ajudar a levar em conta todas essas coisas, decidimos desenvolver uma programação de exposições que usaria a fotografia para descobrir se havia algum tipo de elemento ou tema de conexão em termos do que achávamos que o presidente tinha como alvo.

A imigração foi o tema da nossa primeira exposição, e foi desenvolvida em um momento em que os ataques à Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) estavam em primeiro plano nos noticiários. Em seguida, optamos por focar na crise climática no momento em que Trump decidiu deixar de fazer parte do acordo de Paris. À medida que o ciclo de notícias muda de uma semana para outra, pensamos que seria importante trazer esses tópicos de volta ao foco e mostrar que essas coisas ainda estão acontecendo, independentemente de serem ou não publicadas nos noticiários.

Factory smokestacks are barely visible in a cloud of smog from behind telephone wires and a metal fence
Stacy Kranitz

A enorme indústria química da Exxon fica ao lado da refinaria da ExxonMobil, no bairro de Standard Heights, em Baton Rouge, Louisiana, em abril de 2017. A ExxonMobil Chemical Company tem sido pega regularmente liberando poluição no ar acima do que é permitido legalmente em sua licença.

Quem são alguns dos fotógrafos que você apresentou em Trump Revolution: Climate Crisis (Revolução Trump: Crise Climática, em tradução livre)?

Para esse capítulo, queríamos focar nosso escopo em como a crise climática estava afetando especificamente os EUA. Abordamos o tema da elevação do nível do mar através do trabalho de Bryan Thomas na Flórida, bem como do trabalho de Katie Orlinsky sobre como os povos indígenas do Alasca estão sendo afetados. Discutimos a devastação causada por incêndios na Califórnia através do trabalho de Marcus Yam, e discutimos a poluição no ar e na água com o trabalho de Stacy Kranitz. Por fim, os projetos de Yuri Kozyrev e Kadir van Lohuizen, em parte no Alasca e em parte na Rússia, registram o efeito geral do que estava acontecendo no norte e como isso afeta o resto do mundo em termos de elevação do nível do mar e mudança climática.

Esses cinco pontos-chave cobrem visualmente de uma maneira bonita e trágica o que realmente está acontecendo. Normalmente discutimos a crise climática de uma maneira abstrata que pode ser difícil de entender. Então, queríamos mostrar as pessoas de verdade afetadas pela mudança climática, e como elas realmente são.

Como a pandemia de coronavírus afetou essa exposição?

Nós rapidamente conseguimos adaptar a exposição para um formato digital. Meu objetivo era desenvolver um site que refletisse a maneira como um visitante se moveria através do nosso espaço físico.

Na parte superior da página da nossa exposição, está a nossa linha do tempo, que seria exibida em toda a parte superior do espaço da galeria e, a partir daí, você acessa as páginas de cada artista, as quais estão sequenciadas da maneira como seriam vistas na galeria. Um desafio único de adaptar a exposição para o meio on-line é manter a energia viva o bastante para garantir que os visitantes não queiram sair da página. São muitas informações para digerir, então meu desafio era abordar isso rapidamente, mas não tão rápido que você perdesse muitas coisas.

Nossa última página é a página de solução e ação ambiental. Para nós, sentimos como se a exposição precisasse de um espaço para mostrar o que as pessoas podiam fazer a respeito de todas as coisas terríveis que acabaram de digerir. São coisas que você pode fazer pessoalmente de modo que não se sinta congelado nessas circunstâncias — isso é esperança.

Piles of construction rubble are visible from behind a wall painted with a mural of a young girl with a balloon standing on a beach
Bryan Thomas

A construção começa no Auberge Beach Residences and Spa em Lauderdale-by-the-Sea, Flórida. As ruas da vizinha Fort Lauderdale inundam regularmente durante as "marés-rei". De acordo com o pesquisador da Climate Central, Benjamin Strauss, "mesmo que pudéssemos simplesmente parar as emissões globais amanhã de uma hora para outra, Fort Lauderdale, Miami Gardens e Hoboken, em Nova Jersey, estarão abaixo do nível do mar".

A team of cheerleaders in blue uniforms perform in their school gymnasium
Stacy Kranitz

Louisiana, setembro de 2017. A Southern University oferece belas vistas do rio Mississippi, mas está localizada próxima ao local do Devil’s Swamp Superfund e cercada por usinas petroquímicas e locais de resíduos tóxicos. Uma série de vazamentos, descargas e acidentes tem afetado a Southern University, incluindo vagões-tanque vazando produtos tóxicos, oleodutos rompidos, derramamentos de produtos químicos de caminhões-tanque e barcaças vazando no rio, tornando-a a instituição de ensino superior mais impactada pelo país.

Na sua perspectiva, como a atual crise da COVID-19 reflete a realidade da crise climática?

Sinto que, em ambos os casos, existem grupos e tipos de pessoas que prestam atenção a coisas como essa, mas também existem muitas pessoas que não prestam atenção. É bastante evidente que este país está dividido em termos de pessoas que realmente entendem o que está acontecendo, o que é maluco.

Assim como a COVID-19, a crise climática pode quase parecer invisível às vezes, e é difícil de entender, a menos que você seja diretamente afetado — e, mesmo assim, há pessoas que parecem não entender a realidade dela.

O que você espera que as pessoas tirem de lição da exposição?

Espero que, dentro de todas as informações que reunimos e conectemos, as pessoas entendam melhor a conexão entre a palavra e a ideia da crise climática. Espero que, ao destacar as pessoas afetadas pela crise hoje... elas se vejam nessas fotos. Essa é sempre a minha esperança — ajudar as pessoas a terem empatia.

A young boy in work gloves stands in a dark ice cavern surrounded by bloody whale carcasses
Katie Orlinsky

Após uma caçada bem-sucedida, Josiah Olemaun, um jovem membro da tripulação baleeira, faz uma pausa no processo de mover e empilhar carne de baleia na cava de gelo de sua família em Utqiagvik, Alasca, em 29 de abril de 2018. As cavas de gelo são enormes freezers subterrâneos de velhas gerações escavadas profundamente no pergelissolo. À medida que o pergelissolo derrete, está causando estragos, derretendo o que costumava ser solo permanentemente congelado, e destruindo e inundando muitas cavas de gelo. Outras se aqueceram a ponto de ficarem inutilizáveis, estragando a carne de baleia e outros alimentos de caça cruciais.

A city skyline at night is illuminated by wildfire flames
Marcus Yam / Los Angeles Times

Fumaça das ondas de incêndio de Maria, acima de Santa Paula, Califórnia, em 31 de outubro de 2019. A maior empresa de serviços públicos do estado, a Pacific Gas & Electric Co., iniciou vários turnos de interrupções de energia que deixaram quase 2,5 milhões de pessoas na escuridão no norte e no centro da Califórnia.

A woman wipes her tears in the foreground of a burning home
Marcus Yam / Los Angeles Times

Uma moradora de 16 anos de Island View Drive enxuga as lágrimas em Ventura, Califórnia, em 5 de dezembro de 2017; a casa de sua família foi destruída pelo incêndio Thomas.

A factory worker stands dwarfed by gigantic steel vats and molten steel
Yuri Kozyrev / NOOR for Fondation Carmignac

A usina de cobre em Norilsk, Rússia, em agosto de 2018. Três usinas de Norilsk — a usina de níquel, a usina de cobre e o complexo metalúrgico — foram construídas sucessivamente em 1942, 1949 e 1981. Cinquenta e seis por cento da população da cidade trabalha nesses lugares.

A couple and their baby girl swim in the shallow coastal waters of Florida
Bryan Thomas

Da esquerda para a direita: Esmeralda Garcia, Kali Cedeno e Anthony Cedeno estão no oceano em Destin, Flórida. Dadas as tendências atuais da poluição, 50% da cidade de Destin estará submersa até 2070.

An Inuit man looks out over the ice fields of Alaska while standing on a large ice pillar
Kadir Van Lohuizen / NOOR for Fondation Carmignac

Caça de baleia em Point Hope, Alasca, em maio de 2018. A comunidade inuíte de Point Hope tem permissão para capturar 10 baleias-da-groenlândia por ano. Devido ao desaparecimento precoce do gelo do mar, está muito mais difícil para a comunidade capturar baleias.


Este post foi traduzido do inglês.

Gabriel H. Sanchez is the Senior Photo Essay Editor for BuzzFeed News and is based in New York City.

Contact Gabriel H. Sanchez at gabriel.sanchez@buzzfeed.com.

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