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Updated on 27 de jul de 2018. Posted on 25 de jul de 2018

Presidente da Associação de Críticos do RJ deixa de dar aula após alunas o acusarem de assédio

O roteirista e crítico de cinema Rodrigo Fonseca lecionava na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Rio, até que no começo de julho mais de dez das suas alunas afirmaram à diretoria que ele as havia assediado. Ele nega.

ATUALIZAÇÃO 27/07/2018: Depois desta reportagem, a Escola de Cinema Darcy Ribeiro confirmou em nota o afastamento de Rodrigo Fonseca por conta das acusações de assédio. Alunos divulgaram carta pública relatando "ligações durante a madrugada, mensagens abusivas, olhares asquerosos, tentativa de contato físico, perseguição dentro de eventos” (veja íntegra no final deste post).

Rodrigo Fonseca, que é presidente da Associação de Críticos do Rio de Janeiro e escreve sobre filmes para alguns dos principais veículos de imprensa do Brasil, deixou de dar aula na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Rio, depois que mais de dez alunas relataram que ele as havia assediado.

O BuzzFeed News conversou com dez funcionários, professores e alunos da escola. Todos confirmaram que houve acusações públicas de assédio, moral e sexual, antes do desligamento de Fonseca. Entre os ouvidos pela reportagem, há uma aluna que afirma ter sido assediada.

Fonseca afirmou na tarde de quarta (25) que foi ele quem pediu afastamento, por problemas de saúde. E negou que tenha praticado assédio.

Reprodução/Facebook

Reunião com choro

O caso começou a vir a público em junho, quando quatro alunas foram à diretoria da Darcy Ribeiro para afirmar que o professor as havia assediado.

No dia 9 de julho, a escola promoveu uma reunião com cerca de 80 alunos do primeiro semestre, de cursos como Roteiro, Montagem e Produção. Todos tinham aula com Rodrigo Fonseca.

Presentes na conversa afirmam que 13 mulheres contaram histórias similares do professor durante o encontro, em que houve choro e frases como “comigo também aconteceu”.

As histórias narradas têm uma estrutura parecida: o professor abordava as alunas no intervalo, ou após as aulas, que acontecem à noite, e as convidava para tomar um café ou uma cerveja, oferecendo ajuda com o conteúdo das aulas. Se a aluna aceitava o convite, o professor fazia investidas físicas quando estavam sozinhos.

Uma aluna ouvida pelo BuzzFeed News diz que o professor colocou a mão na sua nuca e tentou lhe beijar. Ela se esquivou. “Nas semanas seguintes, ele começou a me destratar em sala. Tudo o que eu respondia ou escrevia estava errado”, diz a mulher, que pediu para que seu nome não fosse publicado.

Caso a aluna não aceitasse o convite para sair, também havia represálias na sala de aula, segundo o relato das alunas.

As pessoas ouvidas afirmam que não foi feita nenhuma denúncia à polícia. Alunas afirmaram temer por seu futuro profissional e por manchar a imagem da escola.

Na última semana, após pressão de alunos e de professores, a escola passou a oferecer assessoria psicológica e jurídica às alunas que trouxeram a público seus casos de assédio.

A Darcy Ribeiro é apontada como uma das melhores escolas livres de cinema do Rio de Janeiro. O processo seletivo é considerado rigoroso, e um semestre letivo ali custa R$ 4.730.

O BuzzFeed News foi até a escola para falar com sua diretoria. Esperou por duas horas e não foi atendido. Mensagens de texto não foram respondidas. Por telefone, uma das diretoras disse: “Não vou falar agora”.

Outro lado

Rodrigo Fonseca nega que tenha assediado qualquer aluna. “Eu não estou sabendo disso, você é que está me contando agora”, ele disse ao BuzzFeed News. O professor afirmou que saiu da Darcy Ribeiro por questões de saúde. “Estou com problemas de estômago e não ia conseguir dar aula no próximo semestre.”

Fonseca escreve com frequência críticas e entrevistas para o site Omelete. Além disso, colabora com o jornal O Globo, o Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo. Ele também trabalhou como roteirista para programas da TV Globo, onde foi redator do “Encontro com Fátima Bernardes”.

Em suas redes sociais, ele também aparece como professor titular da Academia Internacional de Cinema. O professor e crítico está anunciado como mediador de dois debates que acontecem na sexta e no sábado na Casa de Cultura de Paraty, onde acontece a Flip. O evento não faz parte da programação oficial da Festa Literária de Paraty.

Atualização (27/07/2018)

Após a reportagem de quarta-feira (25), a Escola de Cinema Darcy Ribeiro confirmou o afastamento de Rodrigo Fonseca por conta das acusações de assédio. Alunos divulgaram carta pública relatando "ligações durante a madrugada, mensagens abusivas, olhares asquesoros, tentativa de contato físico, perseguição dentro de eventos”. O site Omelete anunciou que encerrou "imediatamente a colaboração com o crítico". Fonseca pediu afastamento da presidência da ACCRJ.

Veja a íntegra da carta pública dos alunos:

"CARTA ABERTA DOS ALUNOS DA DARCY RIBEIRO

Em reunião realizada no dia 09 de julho de 2018, 13 alunas da Escola de Cinema Darcy Ribeiro relataram às turmas de Roteiro, Direção, Montagem e Produção I assédio sofrido pelo professor Rodrigo Fonseca ao longo das aulas do primeiro semestre do ano corrente.

Rodrigo Fonseca tornou-se professor da turma em março do ano de 2018, aparentemente cordial e prestativo. Docente notável, sempre tentando aproximar-se e agradar os alunos, levava comida e livros para distribuir durante as aulas, sempre sorridente e simpático. Mas sua simpatia tinha interesse restrito e direcionado. Desde as primeiras aulas dava orientações profissionais às suas alunas; os biscoitos e ofertas de livros logo viraram ingressos para filmes e debates, entradas gratuitas em eventos e cursos, bajulações sem fundamento profissional que poucos ou nenhum homem recebiam.

A partir disso, as alunas, crendo em sua boa fé, começaram a ver-se em situações constragedoras. Ligações durante a madrugada, mensagens abusivas, olhares asquesoros, tentativa de contato físico, perseguição dentro de eventos. A bondade e atenção viraram constatação: a contribuição dele não era profissional, mas sim, dotada de interesse sexual, que como nunca foi correspondido, resultou em inúmeras ofensivas por parte do professor.

O docente não respondia mais às perguntas das alunas assediadas, e quando o fazia, era sem seriedade, demonstrando fúria e imaturidade, colocando-as em posição de extrema opressão. Durante as aulas, fazia piadas vexatórias com as alunas abordadas, com intenção de humilhação.

Com o tempo as aulas se esvaziaram, muitas mulheres ausentes; mulheres disciplinadas, assíduas, já não frequentavam as aulas. Um estranhamento começou a ocorrer, e com ele, uma identificação. As alunas começaram a se falar, e enfim, estavam num grupo de 13 mulheres relatando as mesmas vivências e opressão, do mesmo assediador.

Durante a reunião, foram relatados inúmeros assédios, desde simples cantadas, presentes dados às alunas pelo professor, ligações inexcrupulosas, ameaçadoras e em horários inapropriados, a uma tentativa de beijo na boca de uma aluna sem consentimento e perseguição a outra durante um evento. Cabe ressaltar que todas as alunas que informaram ser comprometidas deixaram de contar com a mesma atenção.

Além dos relatos de assédio sexual, foram presenciados durante as aulas assédio moral, com ameaças de perda de pontos para quem questionasse o professor em qualquer conceito que não o agradasse. O mais grave ocorreu no dia 04 de julho, quando o professor disse, grosseiramente e de modo alterado, a um aluno que não responderia nenhuma pergunta enquanto ele “não sentasse o rabinho na cadeira”. Durante a reunião, outras pessoas denunciaram falas racistas, xenófobicas, homofobicas, preconceituosas e intolerantes. Todas travestidas de piada e licença poética.

Cabe ressaltar que o assédio pode vir de uma atitude verbal ou física, com ou sem testemunhas, e

acontecer em sala de aula, ônibus, ambiente de trabalho, boates, consultórios médicos, na rua, em templos religiosos. O assédio não tem um local específico. No caso, há clara relação de poder de um professor, reconhecido no mercado, investindo contra alunas que sentem-se intimidadas com as consequências de suas denúncias.

Quando um homem tem interesse em conhecer uma mulher, ou elogiá-la, ele não lhe dirige palavras que a exponham ou a façam sentir-se invadida, ameaçada ou encabulada. Caracteriza-se como assédio verbal (artigo 61, da Lei das Contravenções Penais n. 3.688/1941), quando alguém diz coisas desagradáveis ou invasivas - como podem ser consideradas as famosas “cantadas” - ou faz ameaças.

Diante dos inúmeros relatos, reiterados de forma contundente e emocionada, a turma comunicou à coordenação da Escola de Cinema Darcy Ribeiro em uma reunião com a presença de cerca de 80 alunos, naquele mesmo dia, cobrando providências. Com a gravidade dos fatos e dos inúmeros relatos das alunas, a coordenação se comprometeu em frente aos presentes a desligar o professor, ratificando que esse tipo de comportamento não pode ser aceito pela instituição.

Destarte, reiteramos tudo que foi exposto na reunião e com o pronunciamento oficial da escola, para resguardar a integridade e a honra das alunas denunciantes, que foram vítimas de assédio.

Esta carta não é somente uma denúncia pública e coletiva, mas também uma resposta ao senhor Rodrigo Fonseca. As vítimas são muitas e estão unidas, fortes e tranquilas de sua postura, contando com o apoio da instituição, de todos os discentes e da opinião pública.

Não nos intimidaremos. Não nos silenciará. Somos muitos! Ao contrário do que você e muitos imaginam ao assediar, nós nos falamos e nos cuidamos e denunciamos, sim, cada assédio sofrido. A cada assédio denunciado, outros tantos aparecem. Não por histeria coletiva, não estamos fantasiandos, e não queríamos estar aqui hoje, perdendo saúde, tempo e vida para berrar os assédios sofridos; queríamos não ter sido, mas fomos, por você.

Os inocentes não ficarão calados, por mais difícil que seja falar.

ASSINADO: TODOS os alunos do Módulo I"

Veja a nota da Escola de Cinema Darcy Ribeiro:

Veja a nota do site Omelete:

"A Omelete informa que o profissional Rodrigo Fonseca não faz parte do seu quadro de funcionários. Como crítico de cinema, ele apenas colaborava com textos para o site cobrindo festivais.

A empresa tem entre seus valores o total repúdio a qualquer tipo de assédio, algo que evidencia diariamente nas publicações de todo seu ecossistema e no seu ambiente de trabalho.

Portanto - e em respeito às estudantes da Escola de Cinema Darcy Ribeiro no caso reportado pelo BuzzFeed Brasil - encerramos imediatamente a colaboração com o crítico."

Contact Chico Felitti at chicofelitti@gmail.com.

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