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Ex-funcionários relatam rotina de assédio e humilhações na Vogue Brasil

“Toda hora alguém voltava do banheiro com cara de choro", contou uma ex-funcionária. O BuzzFeed News ouviu 27 pessoas que trabalharam no grupo que edita a revista de moda mais importante do país.

Rob Dobi, para o BuzzFeed News

Quando Marina Milhomem começou a estagiar na Vogue Brasil, em setembro de 2016, podia ter pensado que estava vivendo o enredo de um filme da Sessão da Tarde. Uma estudante de jornalismo de 24 anos, vinda da classe média de Brasília, viu o anúncio em um site de recrutamento, se inscreveu, fez entrevistas e conquistou a vaga na versão brasileira da revista de estilo mais importante do mundo, sem ter sido para isso indicada por alguém ou ter tido sua entrada facilitada por um sobrenome conhecido.

Mas, logo no primeiro dia que entrou na torre espelhada no Jardim América, um dos bairros mais ricos de São Paulo, ela poderia ter se dado conta de o que a trama não casava com um filme vespertino. Nas primeiras horas trabalhando, ouviu gritos vindos de uma sala da chefia, o que se tornaria sua rotina, daquele dia em diante.

A cultura tóxica no prédio em que fica a Vogue brasileira é tão arraigada que há anos corre a anedota: funcionários brincam que os banheiros da redação são feitos para chorar, e não para outras funções fisiológicas. A piada disfarça um assunto sério que nos últimos 15 anos dá as caras em conversas sussurradas e mensagens enviadas de madrugada: assédio moral e exploração trabalhista. Desde 2010, a Vogue brasileira é publicada pelas Edições Globo Condé Nast, uma joint venture entre o Grupo Globo (70%) e a editora internacional Condé Nast (30%).

“Humilhação lá era uma coisa que rolava o tempo todo. Toda hora alguém voltava do banheiro com cara de choro", contou ela.

"Eu mesma fiz isso muitas vezes, chorava muito.”

Nos meses de julho e de agosto, o BuzzFeed News ouviu 27 pessoas que trabalharam na empresa como funcionários ou prestadores de serviços nos últimos anos. E todas elas relataram situações de abuso e ter presenciado gritos e xingamentos, muitas vezes durante jornadas de 24 horas ininterruptas antes do fechamento de cada edição. Outra queixa recorrente é que colaboradores tinham de assumir funções profissionais que fugiam aos seus contratos sem receber nada por isso.

Os trabalhadores ouvidos pela reportagem relataram medo constante nas interações com seus chefes. Alguns que foram corajosos o suficiente para reagir não encontraram apoio quando denunciaram situações de assédio. Uma repórter, depois de ser chamada de "fedelha" aos gritos na redação, apresentou uma queixa aos recursos humanos. O caso, segundo ela, não teve nenhuma consequência: ela apenas foi chamada para fazer um teste psicotécnico, sem que suas queixas tivessem gerado qualquer efeito.

O relato dessas dezenas de funcionários aponta um nome por trás dessa cultura corporativa: a jornalista Daniela Falcão, diretora-geral das Edições Globo Condé Nast. Falcão é o nome à frente da Vogue desde 2005, quando o título ainda pertencia a outro grupo editorial, e ganhou poder nos últimos 15 anos, em uma trajetória análoga à da sua equivalente americana, a editora Anna Wintour. Desde 2017, Falcão é a responsável pelas revistas Vogue, GQ, Glamour e Casa Vogue, e no mesmo ano foi considerada uma das 500 pessoas mais importantes da moda mundial pelo site Business of Fashion.

Conhecida por sua ética de trabalho incansável, seu perfeccionismo implacável e estilo de microgestão, Daniela Falcão é principal responsável pela cultura trabalhista da Globo Condé Nast, disseram os ex-funcionários ouvidos pelo BuzzFeed News, e mais de um deles a comparou à editora que ganhou vida na interpretação de Meryl Streep no filme "O Diabo Veste Prada" (2006).

Fernanda Calfat / Getty Images

Ao centro, Daniela Falcão durante desfile durante a Sao Paulo Fashion Week, em novembro de 2014.

As Edições Globo Condé Nast e Daniela Falcão foram procuradas pelo BuzzFeed News desde 20 de agosto para comentar as alegações específicas das ex-funcionários e ex-colaboradores. Os contatos foram feitos por e-mail, WhatsApp e telefone. Após os primeiros contatos, a empresa pediu datas específicas das alegações dos ex-funcionários ouvidos pela reportagem a fim de verificá-las. A informação foi enviada pelo repórter.

Na noite de segunda-feira (24), o grupo Edições Globo Condé Nast enviou nota em que afirma que “não toleramos comportamentos abusivos ou qualquer forma de assédio em nossas equipes” e que há um canal de Ouvidoria para o recebimento de denúncias e há uma área de Compliance independente. A empresa não negou nem confirmou as alegações de abuso.

A empresa Edições Globo Condé Nast, no entanto, não respondeu a nenhuma das alegações específicas de abuso, apesar de terem sido enviados detalhes dos casos mencionados.

A íntegra da nota do grupo é a seguinte:

“A Edições Globo Condé Nast oferece a seus colaboradores e a quaisquer terceiros, um canal de Ouvidoria para denúncias de violação às regras do Código de Ética do Grupo Globo e uma área de Compliance independente, que se reporta ao Conselho de Administração do Grupo Globo. Não toleramos comportamentos abusivos ou qualquer forma de assédio em nossas equipes e todos os relatos são criteriosamente apurados assim que tomamos conhecimento, com a garantia completa de sigilo de todos os envolvidos no processo. Não fazemos comentários sobre as apurações e sempre tomamos as medidas cabíveis, que podem ir de uma advertência até o desligamento do colaborador.”

“Além disso, nossas publicações se guiam por princípios editoriais claros e públicos, que consideram, entre outras premissas, uma distinção clara dos conteúdos comerciais. A Editora Globo Condé Nast (EGCN) reafirma o seu compromisso em combater práticas que estejam desalinhadas com seus princípios éticos.”

Na terça (25), o grupo Edições Globo Condé Nast foi novamente procurado pela reportagem e foi perguntado se não desejaria responder as alegações específicas dos ex-funcionários. Por meio da assessoria, o grupo Edições Globo Condé Nast respondeu que se posicionamento se resume à nota enviada.

Daniela Falcão também foi procurada pela reportagem desde a semana passada, mas preferiu não se manifestar publicamente.

O BuzzFeed News também procurou a Condé Nast nos Estados Unidos na quinta-feira (25). O grupo global, que detém 30% das Edições Globo Condé Nast no Brasil, respondeu as alegações dos ex-funcionários com a seguinte nota:

“A Condé Nast é acionista minoritária em uma operação conjunta com o Grupo Globo no Brasil. Como acontece com todos os nossos parceiros de negócios e licenciados, trabalhamos com eles para ajudar a garantir que nossa força de trabalho global e padrões editoriais sejam mantidos, incluindo a adesão a um ambiente de trabalho sustentável que priorize a diversidade e a inclusão, o respeito e o bem-estar. Enquanto examinamos mais profundamente as operações de negócios no Brasil, continuaremos a instar o nosso parceiro à responsabilidade pela criação de um ambiente de excelência para nossos funcionários, o nosso público e os nossos clientes.”

(NOTA DA REDAÇÃO: O jornalista que escreveu esta reportagem, Chico Felitti, estava entre os autores convidados pela revista Glamour para escrever um texto sobre o tema "raízes", para uma edição especial online em 2019. Só depois ele descobriu que se tratava de conteúdo publicitário. Felitti criticou publicamente o caso em suas redes sociais este ano – leia aqui e aqui. Depois disso, a Glamour se desculpou publicamente "por não ter deixado explícito, desde o primeiro e a todos os participantes, que a edição contava com um patrocinador". As críticas de Felitti viralizaram e ele foi procurado pelos primeiros ex-funcionários com os relatos de assédio, que deram origem a esta reportagem. Além disso, um dos jornalistas que participaram da edição desta reportagem nos Estados Unidos no passado também criticou publicamente a Globo Livros, a editora de livros do Grupo Globo, por pedir-lhe que removesse as referências à empresa antes que ela concordasse em publicar uma tradução para o português de seu livro sobre corrupção no futebol. A Globo acabou publicando o livro Cartão Vermelho no Brasil sem mudanças.)

BuzzFeed News; Globo Condé Nast

“SÓ EXISTIA UMA MANEIRA DE CONVIVER COM ELA: CONCORDANDO”

O primeiro contato de Daniela Falcão com a equipe na redação, logo pela manhã, passava pela avaliação das roupas de suas subordinadas, contam algumas das entrevistadas.

“Que roupa é essa?!”, perguntou certa vez a chefe a uma subordinada, segundo o relato de uma delas.

“Não dá para você usar gola alta, minha filha, olha o tamanho do seu peito!”, relembrou uma outra ex-repórter.

“Vai passar uma maquiagem, aonde você pensa que vai com essa cara?”, contou uma designer que trabalhou no grupo.

As críticas, muitas vezes gritadas, seguiam pelo resto do dia, descreve uma ex-funcionária da empresa que trabalhava no departamento comercial.

“Isso era institucionalizado: ou você aceita uma posição de sempre ela está certa, ou vai ser humilhado. Existem as humilhações simples, como quando ela vira e deixa você falando sozinho, e as mais diretas, como gritos em reuniões com clientes ou com o resto da equipe.”

O que criava uma lógica que uma ex-executiva define como “perversa”. “Você entrava numa reunião sabia que alguém ia ouvir grito. Se era outra pessoa, era um alívio e dava graças a Deus que não foi com você.”

Os relatos de assédio no trabalho compreendem a última década e meia, e vão da base da pirâmide, onde se encontrava a estagiária Marina, até os cargos mais altos, aonde chegou a jornalista Mônica Salgado, que entrou na Vogue em 2007, foi uma das criadoras da Glamour brasileira e dirigiu a revista até 2017.

“Infelizmente, não foi uma nem duas vezes que, em reunião de diretoria, Daniela, já como diretora editorial ou geral da Edições Globo Condé Nast, usou palavras fortes para desmerecer o trabalho (ou a capacidade intelectual) dos diretores, interromper suas explanações, diminuir seus feitos. Eram momentos constrangedores e desconfortáveis para todos”, disse Salgado, em uma entrevista por e-mail.

Mônica Salgado / arquivo pessoal

Mônica Salgado

A ex-diretora afirma que não havia espaço para diálogo. “Só existia uma maneira de ter uma convivência pacífica com ela: concordando integralmente com suas posições e opiniões. Não existia meio-termo. Discordar era abrir uma caixa de Pandora que renderia inúmeras dores de cabeça.”

Mônica, que tem uma coluna no jornal Zero Hora, já até escreveu textos sobre a chefe. A entrevista completa da ex-diretora está aqui.

“Daniela era figura fortíssima, inteligentíssima, manipuladoríssima. Cheia de superlativos positivos e negativos. A energia dela é tão poderosa e intensa que impregna (às vezes intoxica) pessoas e ambientes. É difícil se imunizar... Até hoje, quando encontro ex-colegas de trabalho, o assunto é invariavelmente... ela. Imagina quando trabalhávamos juntas: ela era o tema dos almoços, dos happy hours, das caronas, das respectivas terapias e até de brigas de casais.”

“UMA PESSOA GRITANDO COM VOCÊ 70% DO TEMPO”

Marina Beltrame entrou para a Vogue com 20 anos de idade, em 2006, e trabalhou como produtora-executiva por seis anos, sob um método de trabalho que define como: “baseado em infinitas horas, humilhação e gritos, mas com um tule protetor por cima.”

“Ouvi um milhão de gritos. No fim, uma pessoa gritando com você 70% do tempo. Muita insatisfação, ela [Daniela Falcão] não gostava de nada nunca.” Havia também formas mais sutis de assédio do que os gritos. “Eu uma vez entrei na sala dela e lembro que ela falou: ‘Você está doente?’. Eu disse que não. Ela disse: ‘Você está com cara de doente. Então vai passar um rímel que não dá pra olhar para sua cara desse jeito’. Na hora é tão maluco que você ri, mas olhando para trás você percebe o que é de verdade. É um terror psicológico muito absurdo.”

Com o passar do tempo, Marina entrou em um estado emocional que hoje considera insustentável. “O telefone tocava e eu tinha palpitação.”

Marina enfrentou um câncer enquanto trabalhava na Vogue. “Eu ia fazer procedimento na hora do almoço, escondida, não contava para ninguém. Não contava porque precisava ser produtiva, uma máquina de trabalho. Eu não tinha nem noção de que podia ir fazer um procedimento e ir para a minha casa.”

Afirma que havia um lado bom na relação profissional com a chefe. Mas ele era menos frequente. “Eu tive momentos legais com a Dani, que geralmente eram fora da redação. Eram momentos de sensibilidade, tipo uma vez por ano.”

A Globo Condé Nast foi procurada e informada do teor das afirmações dos ex-funcionários, mas preferiu não fazer comentários sobre alegações específicas. A manifestação da empresa está expressa na nota, publicada na íntegra, mais acima.

"FUI GOVERNADA PELO TERROR", DISSE DANIELA FALCÃO EM UMA ENTREVISTA

Daniela Falcão tem uma ética profissional fundamentada na dedicação ao trabalho. Uma dedicação que excede em muito as oito horas diárias previstas num contrato CLT. Todos os ex-funcionários ouvidos relataram receber mensagens de Falcão em grupos de WhatsApp, ou ligações, durante fins de semana ou até no meio da madrugada.

Parecia haver certo orgulho da chefia nessa lógica. Em meados de 2016, a o site da revista publicou um texto com o título: “Quer trabalhar na Vogue? Então vem ver essas dicas aqui!”. Entre as recomendações, estavam “dormir apenas cinco horas por noite”, ter “flexibilidade física e emocional” e “se multiplicar e ser multitasking”. As exigências causaram debate nas redes sociais, e a reportagem foi retirada do site da Vogue e das redes sociais do grupo.

A trajetória da pessoa mais poderosa da imprensa de moda brasileira passou por longe das passarelas, nos seus primeiros anos. Nascida em Salvador, Daniela se formou em jornalismo e se mudou para São Paulo, onde trabalhou em jornalismo diário. Teve uma trajetória como repórter de rua, de economia e foi correspondente internacional da Folha de S.Paulo em Nova York.

Após sair da Folha, foi para Revista de Domingo do Jornal do Brasil, cuidar das reportagens e editoriais de moda. Teve uma passagem pela revista da empresa de telefonia Oi e, no começo dos anos 2000, foi contratada para tocar a TPM, título feminino da revista Trip. Em 2005, foi convidada para substituir o escritor Ignácio de Loyola Brandão no comando da redação da Vogue, que então era publicada pelo grupo Carta Editorial. Quando assumiu as rédeas da Vogue, pouco entendia de moda, e não tinha vergonha de admitir. Em várias entrevistas, ela conta a anedota que entrou para a Vogue achando que a estilista japonesa Rei Kawakubo era um homem, e que o designer nipônico Yohji Yamamoto era uma mulher.

Em uma entrevista, ela admitiu: “Já houve uma fama de [eu] governar pelo terror. Eu fui governada pelo terror. Os grandes chefes de redação, e eu venho da imprensa diária, jornal. Então era: ‘Põe o ponto final agora!’, e mil palavras impublicáveis. Você recebe uma herança, até você conseguir se despir e ver quem você quer ser, leva um tempo”, disse Daniela Falcão ao programa de YouTube Garden Girls, em 2013.

Na mesma entrevista, uma das apresentadoras diz que conhece a equipe da Vogue, e que todos “adoram” Daniela. A então diretora de redação da Vogue responde: “Será que as pessoas gostam de apanhar?”.

Mesmo depois que virou diretora de quatro revistas, Daniela Falcão continuou exigindo que cada página da Vogue passasse por seu crivo antes de ser publicada, afirma sua equipe.

Uma designer relatou como isso acontecia na prática: “Tem de aprovar todas as páginas com ela. Imagina 300 páginas E ela não aprovava, eu cheguei a ter de fazer 11, 12 versões da mesma página. E não é que mudava uma coisa, mudava tudo”.

Mesmo durante as férias, Daniela fazia questão de ver todas as páginas. “Teve uma vez que ela estava de férias, num barco, e a gente tinha que esperar até de madrugada para ela ver página por página, e fazer mudanças.”

Há profissionais que narram jornadas de 24 horas consecutivas na redação, durante as semanas de finalização das maiores revistas da década de 2010.

“Eu já não conseguia mais, estava magra, não dormia, tinha uma insônia seríssima, e aí começaram os ataques de pânico”, conta uma designer.

Segundo o relato de pessoas que ainda trabalham na empresa, o ritmo de trabalho diminuiu nos últimos anos. “Hoje em dia, é raro passar das dez da noite. Nunca mais virei uma noite lá”, diz uma colaboradora da revista.

A diminuição do volume de trabalho está alinhada com a diminuição do número de páginas e da circulação da revista nos últimos anos. Em 2019, a tiragem da revista era de 43 mil exemplares por mês, contra 78 mil exemplares em 2018, segundo dados da própria Globo Condé Nast que foram enviados ao mercado publicitário.

Se dez anos atrás a revista chegava a ter edições com 300, 400 páginas, a Vogue que está nas bancas em agosto de 2020 tem 174 páginas.

Benoit Tessier / Reuters

Da esquerda para a direita: a prefeita de Paris Anne Hidalgo, a editora-chefe da Vogue Anna Wintour, o executivo-chefe da Christian Dior, Sidney Toledano, e Daniela Falcão durante a Semana da Moda de Paris, em 2016.

“ELA BERRAVA: SUA FEDELHA! QUEM VOCÊ PENSA QUE É?”

Um dos casos que entraram para uma espécie de história oral da empresa é conhecido como “o da fedelha”. O episódio foi narrado pela própria repórter que foi vítima, e confirmado por outras três pessoas que estavam na redação.

Era a semana em que a revista era mandada para a gráfica, conhecida como “fechamento” no jargão jornalístico, e os dias em que a jornada de trabalho ia até a madrugada. Daniela avisou que uma matéria proposta por essa repórter não seria publicada naquela edição, e pediu que sua subordinada ajudasse em outros trabalhos. Às 20h, essa funcionária descobriu que sua reportagem estava de volta na revista, a pedido de Daniela Falcão. Mandou um e-mail para a diretora, dizendo: “Fiz todo o resto. Impossível fazer a reportagem para esta edição.”

Depois de Daniela responder com cinco e-mails seguidos, com intervalo de alguns segundos entre um e outro, alguém começou a gritar na redação. Era a chefe, saindo da sua sala e indo até a mesa da repórter. “Ela berrava. Berrava mesmo. As equipes da Casa Vogue e da GQ, que ficavam a bons 15 metros, ouviram e ficaram olhando. Ela falava: ‘Sua fedelha! Quem você pensa que é para fazer isso comigo? Como você ousa dizer que não vai entregar essa matéria?!’. Daí ela se debruçou na minha mesa e disse: ‘Olha no meu olho! Diz que você não vai entregar!’.”

A repórter se lembra de ter tremido enquanto segurava as transcrições das entrevistas que já havia feito para a matéria. Mas tomou coragem para olhar para a diretora e dizer: “Eu não vou conseguir entregar”, enquanto uma editora saía para chorar no banheiro. “Eu não vou passar a noite nessa redação, eu não vou fazer.”

Quando chegou ao seu carro, para ir embora, a repórter mandou um e-mail para o RH, dizendo que o trato era desrespeitoso e que o horário de trabalho era excessivo.

No dia seguinte, uma colega a puxou de canto e disse, segundo relatou: “Você falou para ela o que eu e as outras editoras queríamos ter falado.”

Tinha uma pasta no e-mail que chamava Assédio Moral. Imprimiu dezenas de e-mails e desceu na sala dos recursos humanos com um calhamaço de páginas impressas. Disse: “Está tudo errado nessa redação, e vocês não fazem nada.”

Como resposta, o RH pediu que ela fizesse um teste psicotécnico. “Sabe aquele teste dos tracinhos que a gente faz na auto-escola? Eu fui obrigada a fazer esse teste, além de responder perguntas.”

A partir desse dia, a profissional afirma que Daniela Falcão se recusou a ter contato com ela. “Por exemplo, se eu estava na sala dela e ela falava para uma pessoa na frente dela: ‘Fala para essa menina isso, isso e aquilo.’ Ela não se dirigia a mim.”

Meses depois, ela pediria demissão.

Após ser informada do teor das afirmações dos ex-funcionários, a Globo Condé Nast preferiu não se manifestar sobre casos específicos. A manifestação da empresa está expressa na nota, publicada na íntegra, no início desta reportagem.

“DENUNCIEI. FICOU NA MESMA, NÃO ACONTECEU NADA”

Além das reuniões com o RH que aparecem em ao menos seis relatos, houve ao menos duas denúncias à Ouvidoria do Grupo Globo. Outras duas pessoas relatam ter recolhido provas para entrar com ações judiciais contra a empresa, mas não levaram o plano adiante por medo de ficarem marcadas profissionalmente.

“A gente continua trabalhando nesse mercado, quem é que contrataria alguém que processou a mulher mais poderosa da moda?”, diz uma delas.

A jornalista Tamara Foresti, por exemplo, sempre quis trabalhar na Condé Nast. “Era o sonho de consumo trabalhar lá, ainda mais nessa época que revistas eram um negócio glamoroso.”

Mas, quando conseguiu um cargo de chefia, em 2013, aguentou menos de dois meses como redatora-chefe da Glamour, na época em que Daniela Falcão ainda não chefiava essa revista. Mas o clima de abuso na redação, diz Tamara, era generalizado, e insustentável.

“Era gente chorando no banheiro a todo momento. Eu fiquei só dois meses, mas entrei na síndrome de Estocolmo. Achei que não tinha nenhum valor, passei a pensar: ‘Ainda bem que me contrataram, porque eu não tenho nenhum valor.’ Eu não tinha confiança para fazer mais meu trabalho”

Depois de pedir demissão, Tamara afirma que foi conversar com o então CEO da Condé Nast Brasil, Alexandre Frota, e detalhou o que lhe aconteceu. Depois, foi chamada para um encontro com Frederic Kachar, diretor-geral da Editora Globo, que também comanda o jornal O Globo e as outras revistas da editora Globo, que não são publicadas com a Condé Nast, como Marie Claire e Época. Ela narrou aos executivos o motivo da sua saída, menos de dois meses após ter conseguido um emprego que pensava ser dos seus sonhos.

“Ficou na mesma, não aconteceu nada”, diz ela.

Depois dessa experiência, Tamara desistiu do jornalismo. Hoje mora na Espanha e trabalha com marketing.

Alexandre Frota, que agora trabalha para a Louis Vuitton, não respondeu aos e-mails enviados pela reportagem. Kachar também não respondeu a uma consulta direta sobre as denúncias e o Grupo Globo não atendeu a um pedido de resposta detalhada de Kachar.

Mônica Salgado, a ex-diretora de redação da Glamour, afirma que havia uma sensação de que denunciar assédios na empresa era tarefa vã.

“Nem o departamento de RH (que nas vezes em que acionei, não me pareceu ter uma atuação isenta), nem o compliance do grupo, nem os superiores hierárquicos deram mostras de que condenavam os atos. A sensação geral entre a equipe era de que não valia a pena reclamar formalmente, porque os antecedentes provavam que nada mudaria. E o medo de retaliação era real.”

Nenhuma das pessoas que denunciou os assédios sofridas dentro da Globo Condé Nast diz ter recebido uma resposta da empresa.

Na nota enviada ao BuzzFeed News, publicada na íntegra no início desta reportagem, a Globo Condé Nast afirma que "oferece a seus colaboradores e a quaisquer terceiros, um canal de Ouvidoria para denúncias de violação às regras do Código de Ética do Grupo Globo e uma área de Compliance independente". Segundo a nota, "todos os relatos são criteriosamente apurados".

A empresa preferiu não se manifestar sobre as alegações de ex-funcionários de que não tiveram conhecimento de nenhuma medida tomada após terem encaminhado relatos de assédio moral feitos ao RH e aos canais da empresa.

“A GENTE TOPA POIS É VÍTIMA DE UMA HIERARQUIA DE PODER”

No começo de 2019, o cabeleireiro e maquiador Dindi Hojah, que trabalha com artistas como Kanye West, foi convidado a fazer a beleza de uma capa de revista da Condé Nast. O cachê era de R$ 150, menos do que ele paga por uma diária de seus assistentes. Horas depois de ter começado a trabalhar, ele foi informado de que não faria só um editorial de moda. “Quando eu descobri, a contracapa era um anúncio. E era assim: outro look outra cena, outra luz outro tudo.” Dindi teve de começar um trabalho novo e inesperado do zero, sem ganhar nada por isso. “E o pior: eu tive que fazer um vídeo de tutorial, mostrando como fazer o cabelo da capa, para ser usado nas redes [sociais] da marca. Ninguém nunca tinha me falado de nada disso.”

O ensaio durou mais de 12 horas, e terminou à uma da manhã. E o cachê seguiria sendo de R$ 150, se Dindi não tivesse lutado por seus direitos. “Entrei em contato com eles, cobrei e consegui receber R$ 1.000, o que na real não é nada para um anúncio na contracapa de uma revista de publicação nacional.” O porquê de as pessoas se disporem a trabalhar de graça, ou quase, para uma empresa que está recebendo dinheiro de anunciantes para fazer publicidade foi uma questão que o profissional da beleza conseguiu articular com o tempo.

“A gente topa pois a gente sabe a importância de participar desse game. De como uma capa de Vogue pode mudar sua carreira. A gente topa pois é vítima de uma hierarquia de poder, a que somos submetidos o tempo todo. Parece hipocrisia falar tudo isso uma vez que fui lá. Mas a gente vai de trouxa. Não se trata talvez de fazer o abusador entender, mas sim de ajudar as vítimas a reencontrar seu valor”, defende Hojah.

"O MEU TEXTO É O QUE É POR CAUSA DA DANIELA"

Um número significativo de ex-funcionários da Globo Condé Nast admitiu sentir admiração por Daniela Falcão e até manter contato com ela, apesar de ter saído da empresa por não tolerar a cultura de trabalho.

Muitos elogiaram sua paixão pelo trabalho e seu perfeccionismo. A repórter que foi chamada de "fedelha" aos gritos, por exemplo, diz sentir uma certa gratidão pela ex-chefe.

“O meu texto hoje é meu texto por causa da Daniela. Ela foi a única editora que eu tive que se sentava com o repórter e passava o texto, palavra por palavra. Porque, tirando o fato de ela te humilhar e não saber usar meias palavras, dizer que uma frase era cafona ou blábláblá, ela te ensinava, te pegava pela mão. É realmente uma coisa muito esquisita.”

***

Uma ex-funcionária do alto escalão diz que levou quase três anos trabalhando na Globo Condé Nast para aprender a maior lição de estilo da sua vida: “O importante não é a coleção do vestido que você está usando. Nem a cor do batom. O importante é como você trata as outras pessoas.”


Contact Chico Felitti at chicofelitti@gmail.com.

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