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Updated on 31 de jul de 2018. Posted on 31 de jul de 2018

40 funcionários deste hospital na Califórnia perderam as casas em um incêndio. Mesmo assim, eles foram trabalhar

"É difícil pôr em palavras neste momento. É importante voltar à normalidade, na medida do possível. E, para mim, isto significa vir aqui [ao hospital] todos os dias", disse ao BuzzFeed News a enfermeira Michele Woods.

Brianna Sacks

Enquanto ajeitava o jaleco branco, a enfermeira Michele Woods lia prontuários na manhã de ontem (30). O trabalho dela no hospital Dignity Health, em Redding (Califórnia), tem ajudado a amenizar o sofrimento e a dor de perder a casa durante o intenso e imprevisível incêndio no norte da Califórnia — mesmo sentimento que dezenas de colegas estão vivendo.

Apesar de terem perdido seus lares durante o incêndio florestal que já dura uma semana, cerca de 40 funcionários do hospital continuam a ir ao trabalho. Eles dormem no chão e atendem cerca de 145 pacientes por dia, muitos dos quais estão "bastante doentes" e requerem cuidados intensivos, segundo o porta-voz Mike Mangas.

"O hospital é bastante resiliente. Nós somos uma família. O que estamos fazendo pelos nossos pacientes também estamos fazendo um para o outro. Neste momento, somos uma comunidade de cuidados", diz ele.

Horas após deixar sua casa para trás junto com o marido, por volta das 3h30 da madrugada desta terça (31), Woods foi informada que o lar em que viveu nos últimos 12 anos virou pó, consumido pelo fogo. A filha, o genro e o neto dela também ficaram desabrigados pelo incêndio, e agora a família toda se aperta em um pequeno quarto de hotel.

"Eu me sinto anestesiada", diz Woods. "É difícil pôr em palavras neste momento. É importante voltar à normalidade, na medida do possível. E, para mim, isto significa vir aqui [ao hospital] todos os dias."

Noah Berger / AP

O médico Edward Zawada também está lidando com a realidade de nunca mais poder sentar em seu sofá ou consultar os livros de sua biblioteca. Poucas horas depois de descobrir que sua casa havia sido consumida pelo fogo, o médico foi para o hospital.

"Trabalhar é a minha identidade", diz o médico, que tem 70 anos de idade e é especializado em nefrologia (rins). "E nós estamos lidando com pacientes que estão bastante mal, por não terem conseguido fazer hemodiálise a tempo por causa do incêndio. Nós temos uma janela de ação muito pequena para ajudá-los."

Zawada e sua equipe estão ocupados "recuperando o tempo perdido", tratando entre 20 e 30 pacientes por dia enquanto o incêndio, que já matou seis pessoas e é considerado o sétimo maior na história da Califórnia, continua a avançar sobre áreas residenciais.

"Os pacientes têm prioridade", diz Zawada. Ele admite que "a crescente angústia da perda e o sentimento de o que fazer em seguida" começaram a bater. Mesmo assim, afirma, "se o hospital não está comprometido, nada funciona".

"O que é perigoso em uma crise como esta é que nós percebemos que, no geral, já há poucos profissionais de saúde", ele continua. "Então, perder mais [médicos e enfermeiros] por causa das casas é preocupante."

A dedicação do hospital reflete a união da comunidade enlutada, que chora a perda de entes queridos e de bairros inteiros consumidos pelas chamas.

O incêndio forçou cerca de 40 mil pessoas a deixarem suas casas, abrigando-se em escolas, igrejas e outros acampamentos improvisados. Algumas lojas puseram placas oferecendo refeições e cortes de cabelo grátis, e centros de doação improvisados também surgiram em esquinas.

"Nós estamos descobrindo que as pessoas realmente importam", diz Woods, limpando uma lágrima dos olhos. "Nós não estamos abandonando a cidade de Redding."

Este post foi traduzido do inglês.

Brianna Sacks is a reporter for BuzzFeed News and is based in Los Angeles.

Contact Brianna Sacks at brianna.sacks@buzzfeed.com.

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