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"Eu estava esperando por uma bala a qualquer momento"

Após um ataque que matou mais de 300 pessoas em uma mesquita no Egito, moradores locais temem que o Sinai vire o novo campo de batalha da facção terrorista Estado Islâmico.

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Mohamed El-shahed / AFP / Getty Images

Egípcios durante vigília no centro do Cairo.

CAIRO — A casa de Um Mohamed fica a uma curta caminhada da principal mesquita de Rawda, na Península do Sinai.

Com 45 anos e mãe de duas crianças, Mohamed mora nessa vila simples e árida com outras 2.500 pessoas, muitas das quais trabalham na agricultura ou nas minas de sal das proximidades.

A população do vilarejo cresceu muito nos últimos anos, conforme famílias chegaram para escapar da violência entre grupos insurgentes — incluindo o ramo local da facção terrorista Estado Islâmico — e o exército egípcio, que usa táticas cada vez mais brutais para afastar milicianos da região.

Moradores temiam a aproximação do conflito, mas, na maior parte do tempo, as coisas permaneciam calmas em Rawda.

Isso mudou recentemente. Um Mohamed pendurava roupas no quintal de sua casa em uma tarde fria e com vento quando o tiroteio e as explosões começaram. "No começo, eu pensei que fossem atividades normais do Exército", disse ela em uma entrevista por chamada de voz. "Mas, após um tempo, comecei a ouvir gritos vindos da rua."

Em pânico, ela saiu correndo para procurar suas filhas, e elas se esconderam no canto de um quarto. O tiroteio durou cerca de 20 minutos, mas, para Um Mohamed — que pediu que seu nome completo não seja divulgado —, pareceu ter durado horas.

"Eles não paravam de atirar contra nós", contou Magdy Rizk, professor de matemática do ensino médio, ao jornal egípcio independente Mada Masr, de seu leito no hospital. "Nós não conseguíamos ouvir nada por causa dos disparos. Todo mundo estava correndo. Alguns estavam tentando escapar e outros procuravam por seus filhos. Nenhuma criança ou idoso foi poupado."

Uma horda de homens armados em caminhonetes haviam atacado a mesquita, em um massacre que matou pelo menos 305 pessoas, incluindo 27 crianças. Eles abriram fogo não só ali, mas aparentemente tentaram matar qualquer pessoa que se movesse nas ruas próximas. Entre os mortos estava o marido de Um Mohamed, um agricultor cujo corpo cheio de balas foi encontrado em uma rua perto da mesquita. "A maioria dos homens da vila foram mortos", disse ela. "Nós não sabemos o que acontecerá conosco."

Muitas perguntas sobre o ataque continuam sem resposta, em parte porque os jornalistas e observadores independentes estão banidos do norte do Sinai. No entanto, a maioria dos especialistas acredita que o grupo afiliado local do Estado Islâmico, Província do Sinai, esteja por trás da ação terrorista.

Apenas cerca de 1 milhão de pessoas, de um total de 90 milhões da população do Egito, vive na Península do Sinal, que separa o Egito de Israel e já foi o cenário de diversas guerras entre os dois países. Muitos egípcios ignoram amplamente o que acontece no norte do Sinai, mas o ataque do dia 24 de novembro colocou-o em destaque em um país que tem se concentrado principalmente em levar sua economia à normalidade, após vários anos de revolução, inquietação civil e um golpe de Estado.

Sobreviventes descreveram um ataque impiedoso contra civis. Mohammed Abdul Fattah, imã de 26 anos da mesquita de Rawda que se recupera de um ferimento na perna, contou ao BuzzFeed News que estava fazendo o sermão de sexta-feira quando ouviu uma explosão e tiros, primeiramente fora e, em seguida, no interior da mesquita. Em pânico, ele se jogou ao chão. Dois fiéis caíram sobre ele, e ele começou a repetir o shaheda, o voto de fé muçulmano, enquanto se esforçava para não se mexer.

"Eu senti o sangue de meus fiéis escorrer em meu rosto e pensei que a melhor coisa a fazer era só ficar ali e não me mexer", disse em uma entrevista por telefone de sua casa, na cidade do Delta do Nilo, Sharqiya, no norte do Cairo. "Eu estava esperando por uma bala a qualquer momento."

Stringer / AFP / Getty Images

Tensões entre a população majoritariamente tribal do Sinai e as autoridades centrais do Cairo acontecem há décadas. Israel ocupou partes do Sinai entre 1967 e 1982, e as forças de segurança do Egito têm observado seus habitantes com suspeita desde então. O exército há muito tempo adotou uma abordagem brutal na península, alienando a população local, destruindo vilas e lançando ataques aéreos. Isso só piorou a falta de oportunidades econômicas e os serviços de educação e saúde deficientes na região.

Esse último ataque evidenciou as falhas das autoridades em lidar com uma insurgência islâmica que se expandiu desde 2011, quando uma revolta derrubou o ditador Hosni Mubarak. Os problemas só aumentaram desde que um golpe militar derrubou o presidente islâmico eleito Mohamed Morsi, em 2013. Grupos recém-chegados afiliados à al-Qaeda e, posteriormente, ao Estado Islâmico — alguns deles veteranos das guerras do Iraque e da Síria — começaram a tirar proveito das reivindicações dos habitantes locais, atraindo homens jovens desempregados para uma insurgência que resultou em respostas ainda mais severas do exército egípcio.

"Os extremistas estão no Sinai desde o começo da década de 1990. Mas não era assim, desse jeito louco", disse um empresário e líder comunitário em Arish, o principal agrupamento urbano do norte do Sinai, a cerca de 50 quilômetros ao leste de Rawda. "Nós começamos a descobrir que os jovens estavam dizendo que até seus próprios familiares eram ateus, e alguns deles estão se desvinculando de suas famílias e se escondendo. Eles começaram a dizer 'Essa comida é haram. Esse dinheiro é haram'."

(Haram refere-se a tudo aquilo que é proibido pela fé islâmica.)

O empresário, assim como outras pessoas no Sinai, falou em uma chamada de voz sob a condição de permanecer anônimo, por medo de represálias por parte das forças de segurança. Jornalistas independentes foram banidos há muito tempo do norte do Sinai e os que relatam os bombardeios são, às vezes, impedidos de entrevistar sobreviventes por forças de segurança à paisana que patrulham hospitais.

O Estado Islâmico avisava que a mesquita seria atacada há mais de um ano, por conta de sua ligação com uma ordem mística sufista chamada de Jaririyah, que é considerada herege pelos militantes. "Ainda há algumas mesquitas fora do alcance do Califado" no Sinai, disse um representante do afiliado local do EI a uma publicação do grupo radical. "O Estado Islâmico as destruirá quando puder, se Deus quiser. Os meios do Jaririyah são os mais perigosos e infiéis e os mais distantes de Deus."

Moradores locais haviam avisado as forças de segurança que um ataque era iminente e chegaram a construir barreiras de barro ao redor do perímetro da cidade para impedir um ataque, segundo relatos da imprensa. A cidade tinha a reputação de receber Sufistas e o Estado Islâmico teria mandado os moradores locais parar de praticar ritos Sufistas, de acordo com vários habitantes locais. No Egito, acredita-se que os Sufistas cooperam com as forças de segurança egípcias, ou pelo menos as toleram. "Há certo ódio entre os Sufistas e os Jihadistas", disse o empresário de Arish. "Os Sufistas não estão cooperando com o exército, mas eles não são contra o exército."

Especialistas em segurança do Sinai também dizem que a disputa entre grupos jihadistas rivais pode ter causado o ataque. A Província do Sinai, o afiliado do Estado Islâmico, está perdendo recrutas e território para o Jund al-Islam, o renovado afiliado da al-Qaeda. "Eles precisavam desse tipo de ataque para provar que ainda existem", disse Ahmed Saqr, ex-oficial de desenvolvimento econômico do Sinai, agora pesquisador na Universidade Keio, em Tóquio.

De fato, a maioria dos outros grupos militantes do Egito negou responsabilidade pelo ataque.

Str / AFP / Getty Images

Crianças egípcias em frente a pilha de sapatos pertencentes às vítimas do ataque na mesquita de Rawda.

Os egípcios ficaram abismados com as proporções do ataque. Até aqueles que normalmente não prestam muita atenção na insurgência em andamento no Sinai ficaram horrorizados pelo número de mortes, bem como a natureza puramente civil dos alvos. Muitos se preocupam com o que virá a seguir.

"Isso afeta muito as pessoas", disse o general de inteligência do Egito aposentado Sayed Ghoneim. "Isso mostrou às pessoas que parte do Egito não é segura e que ninguém pode fazer nada. Olhe para o moral das pessoas após esse ataque — elas estão muito tristes."

Muitos estão bravos pela forma que as autoridades egípcias lidaram com o ataque e suas consequências. Um Mohamed disse que as forças armadas demonizam os moradores locais e não os protegem em momentos cruciais. Muitos questionam como o tiroteio pode ter durado tanto tempo sem intervenção nenhuma.

O empresário disse que as forças de segurança não estavam preparadas para um ataque nessa escala. "Nós nunca tivemos uma experiência como essa no Egito", disse ele. "Nós nunca pensamos que eles se voltariam contra uma mesquita dessa forma. Então eu não culpo as forças de segurança."

Oficiais insistem que não conseguem proteger todas as mesquitas do Egito. "Nós temos milhares de mesquitas pelo país e não há como a polícia e o exército protegerem todas", disse o porta-voz do governo Abdel Aal ao Parlamento, segundo a agência oficial de notícias MENA. "Nós não podemos falar sobre nenhum tipo de negligência de deveres em um momento em que policiais e soldados estão sacrificando suas vidas para manter a estabilidade e a segurança da nação."

No entanto, muitos esperam que os ataques façam o governo egípcio repensar suas estratégias. "Nós temos que fazer uma análise honesta do que fizemos nos últimos anos", disse Saqr. "Agora o Estado Islâmico não tem os mesmos números, o mesmo dinheiro ou as mesmas armas. Eles estão mais fracos, mas eles ainda podem causar muita dor. Nós devemos encarar as raízes do problema, não só por meio de armas. Gastamos dinheiro em estratégias que não deram resultado, que foram corrompidas e que fomentaram injustiças. Então muitas pessoas se juntaram ao Estado Islâmico por vingança, não por ideologia."

Houve poucos sinais de mudança na tática. As forças armadas responderam ao ataque à mesquita lançando ataques aéreos em locais em que supostamente haveria militantes.

Nas redes sociais, renovou-se a discussão sobre armar os moradores locais em milícias para derrubar o EI, uma ideia que ressurge periodicamente.

Mesmo entre a elite do Egito, que geralmente apoia o governo de Abdel Fattah el-Sisi, o ataque sinalizou uma nova era e trouxe à tona novas dúvidas sobre a direção do país. "Essa vez foi diferente", disse Youssef Abdel Aal, consultor de negócios que trabalha no Cairo. "Obviamente há um fracasso do Estado em lidar com essa situação. Faz três anos que [as forças armadas] estão fazendo grandes ataques e bombardeios no Sinai, e a situação está piorando. É muito preocupante, já que o Estado Islâmico está perdendo território na Síria e no Iraque. É como se o Egito fosse ser um novo campo de batalha."

Apesar da atenção da mídia, houve poucas campanhas públicas no Egito para ajudar as vítimas do massacre de Rawda. Ainda assim, a tragédia aproximou as pessoas do norte do Sinai. Mohamed Khalil, 25, engenheiro de Bir al-Abd, cidade das proximidades, foi rapidamente à vila para ajudar no resgate e doar sangue. Ele acabou passando a noite inteira ajudando a enterrar os corpos. "Esse ataque chocou todas as pessoas da vila e deixou uma mensagem de terror em seus corações", contou ele ao BuzzFeed News.

"Eu vi as famílias dos feridos e as vítimas vindo ao hospital, e o choque era evidente em seus rostos", disse ele. "Elas não se mexiam, não falavam. Elas se sentiam sozinhas no mundo e que suas vidas não valiam nada."

Colaborou Munzer al-Awad, de Istambul (Turquia).

Este post foi traduzido do inglês.

Veja também:

16 fotos que retratam o horror do ataque terrorista a uma mesquita no Egito

Borzou Daragahi is a Middle East correspondent for BuzzFeed News and is based in Istanbul.

Contact Borzou Daragahi at borzou.daragahi@buzzfeed.com.

Maged Atef is a journalist based in Cairo.

Contact Maged Atef at magedatef73@gmail.com.

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