Um guia para iniciantes do vocabulário feminista contemporâneo

    Entenda o que é "interseccionalidade", "transmisoginia" e TERF.

    Nos últimos anos, o feminismo cresceu em popularidade e cada vez mais pessoas hoje se identificam como feministas.

    Apesar da popularidade, a linguagem usada para falar sobre feminismo ainda depende de siglas de nicho, definições acadêmicas e piadas internas. Se você não passa todo o seu tempo livre no Twitter ou lendo blogs feministas, pode ser fácil ficar perdido(a).

    Então, aqui está um guia para iniciantes de como entender o vocabulário feminista.

    1. "Feminismo"

    blogs.kqed.org

    "Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica de ambos os sexos."

    Feminismo é, de acordo com o dicionário Merriam-Webster e o Houaiss, a “teoria que sustenta a igualdade política, social e econômica de ambos os sexos” – conforme demonstrado por este gif magnífico da faixa "Flawless" de 2013 da Beyoncé.

    Em "Flawless", Beyoncé faz referência à palestra da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie no TED intitulado "Todos devemos ser feministas". Adichie citou a definição de "feminista" do dicionário e acrescentou sua própria versão:

    Feminista é o homem ou a mulher que diz: "Sim, o gênero como o conhecemos hoje é um problema, e precisamos rever isso, precisamos melhorar."

    2. "Interseccionalidade"

    Fox / img2.wikia.nocookie.net

    Interseccionalidade é acreditar que todos deveriam ser incluídos no feminismo, não apenas mulheres brancas de classe média e fisicamente aptas que geralmente representam o movimento na mídia.

    A visão de que você não pode ser feminista se ignora as pessoas que são diferentes é articulada perfeitamente por bell hooks em seu livro "Não sou eu uma mulher? Mulheres negras e feminismo":

    "Frequentemente mulheres negras me pedem para explicar como posso me chamar de feminista e, ao usar esse termo, me aliar a um movimento que é racista. Eu digo: 'A pergunta que devemos fazer de novo e de novo é como mulheres racistas podem se chamar de feministas'."

    Como feministas, devemos reconhecer coisas como racismo, classismo, sexismo, capacitismo e muita outras estruturas sociais e de poder que impactam nossas vidas. Ava Vidal resumiu muito bem isso no jornal "The Telegraph", dizendo:

    "A ação principal que a 'interseccionalidade' está tentando fazer, eu diria, é apontar que o feminismo que é excessivamente branco, de classe média, cisgênero e fisicamente apto representa um único tipo de visão e não reflete as experiências dos diferentes aspectos de vida que mulheres de todas as origens enfrentam."

    3. "Privilégio"

    BuzzFeed / Via buzzfeed.com

    Privilégio é a ideia de que todos nós temos vantagens sobre outras pessoas e que é importante reconhecer isso. Por exemplo, como uma mulher hétero, branca, de classe média, eu estou protegida do racismo, do classismo, da homofobia e de muitos outros tipos de discriminação.

    Isso é privilégio. Eu também tenho maior probabilidade de ser ouvida em círculos feministas e maior probabilidade de ter meus textos publicados on-line. A maneira como eu reconheço esse privilégio é promovendo mulheres que não têm as vantagens que eu tenho e as apoiando quando sofrem discriminação.

    Como Heather J escreveu na Marcha das Vadias:

    "Privilégio é algo que temos e que nos dá vantagens intrínsecas na vida sobre outras pessoas. O fato de o privilégio ser 'intrínseco' é exatamente o porquê de não enxergamos sua existência ou como ele opera, exceto se nos for mostrado ou se, de alguma forma, formos forçados a enxergá-lo."

    Interessado em descobrir o quanto você é privilegiado(a)? Temos um teste para isso.

    4. "Transmisoginia"

    Time

    Transmisoginia é uma combinação de transfobia (ódio a pessoas transgêneras) e misoginia (ódio a mulheres e atributos femininos).

    O relatório GLADD 2012 revelou que 53% dos homicídios ligados à comunidade LGBTQ foram contra mulheres transgêneras.

    Como Laura Kacere disse no portal Everyday Feminism:

    "Pessoas trans sofrem taxas desproporcionalmente altas de pobreza e situação de rua causadas por discriminação em empregos e moradia, mas também sofrem maiores taxas de encarceramento, principalmente devido à discriminação de gênero pela polícia."

    5. "Cis/cisgênero"

    Flickr: mag3737

    A definição de cisgênero do oxforddictionaries.com é:

    "Denota ou relaciona-se a uma pessoa cuja auto-identificação obedece o gênero que corresponde ao seu sexo biológico."

    Da mesma forma, o Houaiss:

    "Diz-se de ou gênero de percepção de identidade em que o indivíduo, por suas experiências de vida, aceita como verdadeiro o sexo que lhe foi atribuído ao nascer."

    Ou, em outras palavras:

    ribenafaace.tumblr.com

    "Anonymous perguntou: Você pode me explicar o que cis significa?
    coolben94: quando o médico dá um tapa na sua bunda depois que você nasce e diz: 'É um(a) ___!' e você fica tipo "pode creee" por toda sua vida
    "

    O termo cisgênero vêm do latim, cis, que significa "da parte de cá". Ele é o oposto de trans, que significa "para lá de". (Isso mesmo, latim – por isso que precisamos deste guia!)

    Para muitas feministas, ser chamado de cis é como ser chamado de hétero em vez de homossexual, ou branco em vez de negro. Antes de cis, não havia uma palavra para descrever não ser trans (além de "não ser trans").

    Mas outras feministas acreditam que chamar as pessoas de trans ou cis reforça a ideia de que homens e mulheres são fundamentalmente diferentes. Elas acreditam que o gênero é um espectro, não somente homem ou mulher, e que se dividirmos as pessoas em cis ou trans, estaremos limitando as formas como elas definem a si próprias.

    6. "Feminismo radical"

    Jone Johnson Lewis escreve que o feminismo radical gira em torno da crítica generalizada às atuais instituições sociais e políticas, por elas estarem intrinsicamente ligadas ao patriarcado e consequentemente à "dominação social das mulheres pelos homens":

    "Feminismo radical é uma filosofia que busca chamar a atenção para as raízes patriarcais da desigualdade entre homens e mulheres ou, mais especificamente, para a dominância social dos homens sobre as mulheres. O feminismo radical enxerga o patriarcado como um divisor de direitos, privilégios e poder por sexo e, como resultado, que oprime as mulheres e privilegia homens."

    A Universidade Stanford (EUA) também descreve a abordagem do feminismo radical como uma vertente que enxerga o "poder em termos de relações diádicas de dominância/subordinação, frequentemente entendido com a relação entre mestre e escravo."

    Jonathan Dean fez essa observação histórica no jornal "The Guardian".

    "Embora uma minoria das feministas radicais seja hostil aos homens, o feminismo radical foi instrumental para gerar amplo apoio a campanhas voltadas a problemas como estupro, violência doméstica e assédio sexual. (...) Três décadas atrás, a noção de que o estupro e a violência doméstica eram assuntos políticos urgentes, não bobagens, ou que os homens deveriam ter um papel ativo na criação das crianças seria vista por muitos como radical e perigosa. Hoje, graças à influência das diversas vertentes do feminismo (incluindo, mas não só o feminismo radical), essas ideias hoje fazem parte do mainstream. "

    7. "TERF"

    tumblr.com / Via gifs-for-the-masses.tumblr.com

    Nas últimas décadas, o feminismo radical se dividiu, dando origem a um grupo menor de mulheres hostis a pessoas transgêneras e seus aliados. Essas feministas são frequentemente chamadas de "TERF", a sigla em inglês para Feministas Radicais Trans-excludentes.

    As feministas radicais trans-excludentes acreditam que a transexualidade não existe e que pessoas transgêneras não podem ser feministas.

    Algumas sugerem que os homens transgêneros são misóginos que não querem mais ser mulheres e que mulheres transgêneras estão tentando se infiltrar no grupo porque isso as excitaria.

    Muitas feministas discordam dessas ideias.

    Aqui está a explicação de Roz Kaveney sobre TERF na revista "The Advocate":

    "As [TERF] acham que a existência de pessoas trans é uma ilusão perpetuada como um novo modo de opressão – mulheres trans existem para dar a ideia de plausibilidade de gênero e para dividir a comunidade das mulheres infiltrando-se nela."

    8. "SWERF"

    Flickr: nicasaurusrex / Via Flickr: nicasaurusrex

    SWERF é a sigla em inglês para Feministas Radicais que Excluem Trabalhadoras Sexuais (não deve ser confundida com TERF).

    As SWERF acreditam que profissionais do sexo não podem ser feministas, pois a indústria do sexo prejudica todas as mulheres.

    Elas acreditam que, se os homens podem comprar os corpos das mulheres, isso os incentiva a pensar nas mulheres como objetos que podem ser comprados e vendidos, não seres humanos.

    Uma crítica constante às SWERF é que elas não ouvem profissionais do sexo antes de fazerem generalizações sobre a indústria do sexo.

    A trabalhadora sexual Cathryn Berarovichon falou sobre a SWERF para o portal "The Gloss":

    "Elas nos dizem que ou nós somos cegas à nossa escravidão ou que é errado falarmos que estamos felizes com a carreira que escolhemos, visto que há milhões e milhões de mulheres e meninas (os homens e meninos não importam, como você pode ver) que são forçadas à escravidão sexual."

    9. "#NotAllMen"

    Matt Lubchansky / Via i.kinja-img.com

    “– O sinal do homem! Alguém deve estar praticando o sexismo reverso! A misândrica não é páreo para…Nem Todos os Homens. O defensor dos já defendidos! O único protetor dos que já são protegidos! A voz dos que já têm voz!
    – Estou cansada de como os homens…
    – Posso ser o advogado do diabo?"

    A hashtag #NotAllMen ("Nem Todos os Homens") foi inspirada no trabalho de Matt Lubchansky, artista de quadrinhos que criou Not All Man, super-herói que é o "defensor dos já defendidos". Not All Man se certifica de que as mulheres não usem a palavra "homens" quando elas querem, na verdade, dizer "alguns homens".

    Erin Gloria Ryan escreveu uma ótima explicação no site Jezebel:

    "Not All Men! é uma representação cômica das pessoas que não enxergam o ponto em questão e cuja reação imediata como parte de um grupo privilegiado é defender a si mesmas contra insinuações de que elas, como membros do grupo criticado, talvez sejam cúmplices no status quo... Na mente de Not All Men, é pior ser chamado de sexista do que ser vítima de sexismo."

    10. "Mansplaining"

    feminainvicta.wordpress.com / Via wordpress.com

    "Não, querida, não é isso que mansplaining significa"

    "Mansplaining" é a palavra para quando um homem explica algo a uma mulher quando ela obviamente já entende do que está sendo discutido.

    Como, por exemplo, quando uma mulher é apresentada como especialista em alguma coisa (qualquer coisa, de linguística medieval à fabricação de cervejas ou luta de unicórnios), e o homem a quem é apresentada começa a explicar para ela coisas que fazem parte da especialidade DELA.

    Como Anna Robinson escreveu no site The Nation Institute:

    "Mansplaining é quando um homem explica algo a uma mulher e que, não só ela já sabe, como há evidências circunstanciais que sugerem esse conhecimento por parte dela, mas que o homem deliberadamente ignorou."

    Embora isso possa parecer apenas irritante, muitas feministas acreditam que "mansplaining" representa a maneira como a sociedade desconsidera as opiniões das mulheres.

    Soraya Chemaly criou três frases que toda mulher precisa para combater "mansplaining":

    "Pare de me interromper."

    "Eu acabei de dizer isso."

    "Não precisa me explicar."

    Veja também:

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    A tradução deste post (original em inglês) foi editada por Luísa Pessoa.

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