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Posted on 20 de abr de 2018

Como era aprender a ser repórter antes de as fake news virarem o maior problema do mundo

Eu era um jovem repórter no Leste Europeu em 2001 e esperava testemunhar o “fim da história” e o florescimento da democracia. Foi só um dos erros que cometi.

O fim da história – isto é, os anos 1990 para os americanos – chegou para um punhado de repórteres em Belarus, onde a grande matéria de 10 de setembro de 2001 era o florescimento do livre mercado e da democracia com "D" maiúsculo.

O país era conhecido na época como A Última Ditadura da Europa, um Estado retrógrado e de estilo soviético governado por Alexander Lukashenko, um ex-chefe de fazendas coletivas que dominava a política do país. Eleições estavam marcadas para dois dias antes do 11 de setembro, e correspondentes dos principais veículos de imprensa do Ocidente estavam reunidos para cobri-las e – talvez – assistir à queda da última peça do dominó comunista.

Eu era um mero freelancer para a edição europeia do Wall Street Journal, baseado na vizinha Letônia. Também era provavelmente o repórter mais sem noção cobrindo aquela curiosidade para um jornal renomado: uma ditadura se equilibrando entre a União Europeia, que crescia rapidamente, e a Rússia, que vivia um ímpeto modernizador. Eu tinha 24 anos e, como verdadeiro filho dos anos 1990, era complacente em relação à direção tomada pela história, o que fazia de mim um repórter especialmente ruim.

Eu tinha 24 anos e, como verdadeiro filho dos anos 1990, era complacente em relação à direção tomada pela história, o que fazia de mim um repórter especialmente ruim.

Me reconhecia num livro de Suzy Hansen sobre as desilusões da minha geração de americanos no exterior, Notes on a Foreign Country (notas sobre um país estrangeiro, em tradução livre).

“Jamais teria admitido nem sequer pensado em dizê-lo, mas olhando para trás sei que achava, lá no fundo da minha consciência, que os Estados Unidos estavam no final de algum espectro evolucionário de civilização, algo que o mundo inteiro estava tentando alcançar”, escreveu ela.

Essa definitivamente era a tese operacional do Journal. O prêmio para um freelancer como eu – 1.500 dólares, espaço na primeira página e prestígio interno – era a matéria chamada “A-hed”, uma reportagem longa e colorida cujo design lembra a letra “A” e até hoje figura com destaque na capa do jornal. A ideia da “A-hed”, como tinha percebido à distância, era divertir ligeiramente os leitores do Journal contando histórias de tentativas equivocadas de resistência à marcha do capitalismo. Em uma viagem a Belarus no primeiro semestre daquele ano, encontrei uma candidata: a V.I. Lenin Minsk Tractor Works, fábrica gigante de tratores que empregava cerca de 20 mil pessoas em um complexo cercado por muros na capital. A empresa produzia a maioria dos tratores usados na ex-União Soviética. E, fiel às raízes comunistas, operava de acordo com sua lógica interna, não segundo as demandas do mercado. Era um caso perfeito. Tratores limpavam a neve das ruas de Minsk; tratores estavam parados em fazendas coletivas que – sem dinheiro para o diesel – aravam as terras usando cavalos.

Você aprende a ser repórter em grande parte errando, e cometi alguns dos meus piores erros em Belarus.

O acesso foi mais difícil que eu imaginava. Um vendedor estava disposto a se gabar das suas vendas para o leste e das oportunidades do oeste, mas não a me contar sobre a fábrica ou me deixar entrar. Mas consegui o suficiente para uma matéria que achei que seria engraçada e ligeiramente desdenhosa.

Você aprende a ser repórter em grande parte errando, e cometi alguns dos meus piores erros em Belarus. Tenho pensado neles recentemente porque muitas das coisas que enfrentávamos na época parecem relevantes: questões sobre o poder americano e pós-soviético, sobre a lealdade e as responsabilidades dos repórteres, e sobre o poder das narrativas. Tenho pensado, em particular, sobre o que fiz com um jovem ativista bielorrusso chamado Alexei Shydlovski em 2001. Quando voltei ao assunto recentemente, descobri que estava mais errado do que imaginava.


Shydlovski tinha 22 anos quando o conheci, algumas semanas antes do 11 de setembro, num café que ficava no porão do melhor entre os poucos restaurantes de Minsk. Em qualquer outra ex-república soviética, a formalidade e o serviço brusco seriam uma lembrança dolorosa de tempos passados. Mas, somente uma década depois da queda da URSS, era cedo demais para ser nostálgico.

Shydlovski era o contato de imprensa do Zubr, um novo grupo que se opunha a Lukashenko. O logo do Zubr era a silhueta de um bisão. Embora a campanha fosse caprichada, Shydlovski era meio tosco. Ele claramente era briguento: me lembrou um jogador de hóquei no gelo vestindo casaco de couro. O inglês dele era tão ruim quanto meu russo, então nos comunicávamos numa mistura das duas línguas.

Minha sorte foi que Shydlovski era mais cândido que seus pares, os revolucionários profissionais.

Comendo o que teoricamente era uma salada e tomando água, ele me contou sobre suas viagens frequentes à Polônia para receber dinheiro do governo americano, que secretamente financiava o Zubr. Eu não tinha certeza se estava entendendo direito, então ele repetiu nas duas línguas, e deu risada.

Saí do restaurante tremendo, como acontece quando sou o único dono de uma matéria quente.

Meu coração ficou acelerado: era uma coisa temerária para contar a um repórter. E eu sabia que a notícia teria impacto mundial.

Saí do restaurante tremendo, como acontece quando sou o único dono de uma matéria quente. Era o maior furo da minha curta carreira. Achei um computador em uma ONG local e mandei a matéria, esperando conseguir um espaço melhor que meu tradicional canto na página 27.

A matéria foi para a página 3: “Alexei Shydlovski”, dizia o começo do texto, “é um revolucionário europeu moderno. Suas armas são adesivos e teatro de rua. Suas tropas usam roupas pretas estilosas. Seu alvo é um presidente autoritário e de estilo soviético. E a maior parte do financiamento de seu grupo de oposição, o Zubr, vem do governo americano. ‘Eles transferem dinheiro para bancos europeus na Polônia, e nós trazemos de lá’”.

Nunca mais ouvi falar de Shydlovski, mas a matéria foi para o topo do meu clipping pessoal. Como toda boa reportagem, ela tocava em algo verdadeiro e desconfortável, neste caso a mecânica da projeção do poder americano. Senti o frisson de contar algo que eu nem sequer deveria saber, uma história que os poderosos queriam manter em segredo. Tinha certeza de que o embaixador dos Estados Unidos em Belarus, um antigo guerreiro da Guerra Fria chamado Michael Kozak (cujo posto anterior fora Cuba e que via jornalistas com ceticismo), ficaria furioso.

Voltei para Riga – uma cidade movimentada e agitada em comparação a Minsk – para passar alguns dias depois do furo sobre o Zubr. Quando fui de novo a Belarus para cobrir a eleição, soube que a embaixada americana estava de fato furiosa. O vice de Kozak, John Kunstadter, me chamou para um encontro informal. Ele foi cortês, mas estava lívido. Disse, pelo que me lembro, que eu tinha sido incrivelmente irresponsável. Minha reportagem tinha resultado no espancamento e na prisão de Shydlovski. Esse tipo de jornalismo tinha consequências; eu deveria lembrar de que lado estava.

As consequências brutais da política pareciam exóticas para alguém criado na realidade americana  dos anos 1990.

Meu coração ficou apertado. Não sabia o que responder. Segredos eram segredos por um motivo; o poder nem sempre era arbitrário; os dois lados não eram equivalentes; o governo americano tinha razão. Balbuciei alguma coisa na tentativa de dizer que ele, não eu, tinha colocado Shydlovski naquela situação. Saí de lá confuso, humilhado e sentindo culpa.

As consequências brutais da política pareciam exóticas para alguém criado na realidade americana dos anos 1990, os pequenos dramas e as grandes vitórias do governo Clinton. Eu esperava clareza, triunfo – aquele senso oriental de destino manifesto.

Não acompanhei mais o assunto. Mas, nos anos seguintes, sempre pensei muito em Shydlovski, preocupado com o que tinha acontecido com ele. E, às vezes, usava a lição aprendida e tomava cuidado nas minhas reportagens.

Str / AP

Soldados bielorrussos recebem cédulas de votação, 9 de setembro de 2001.

Cheguei a Belarus em 2000, basicamente por acidente, depois de uma passagem por Indianápolis e uma tentativa frustrada de ir a Praga, onde uma geração de americanos jovens e curiosos explorava a fronteira pós-comunista. Minsk não oferecia os mesmos confortos de capital tcheca, mas tinha uma vantagem: menos jornalistas concorriam pelas reportagens.

Não havia um corpo de jornalistas estrangeiros, por assim dizer. Na verdade, o único integrante permanente desse grupo era um britânico alto e gentil que escrevia sob pseudônimo porque trabalhava oficialmente como professor de inglês. Na minha primeira viagem a Belarus, consegui fazer uma reportagem que agradou aos editores do Wall Street Journal: o fechamento de uma fábrica que produzia carros de médio porte para a Ford.

Com a aproximação das eleições, achei que o tempo que eu já tinha passado por lá seria vantagem em relação aos correspondentes que estavam chegando – de Moscou, Washington e Londres – uma semana antes da votação. Caminhávamos por bulevares vazios, admirávamos as estátuas de Lênin e do notório fundador da polícia secreta soviética, Felix Dzershinsky, na frente da sede da KGB, como o serviço secreto é conhecido até hoje em Belarus. Lembro de visitar uma venda na área rural em cujas prateleiras havia apenas algumas berinjelas. Observávamos tudo com olhos arregalados, e os mais jovens conseguiam enxergar ali a antiga União Soviética, a grande reportagem que minha geração perdeu. Todos estávamos de acordo em relação a Alexander Lukashenko e seu regime antiquado.

“Estávamos todos nos deleitando com a matéria sobre o último ditador.”

“Estávamos todos nos deleitando com a reportagem sobre o último ditador. Era um anacronismo se rendendo à democracia”, lembra John Daniszewski, que estava em Minsk pelo Los Angeles Times e hoje é vice-presidente de padrões jornalísticos da agência Associated Press.

Eu estava empolgado não só por cobrir geopolítica de verdade, mas também por ver de perto algumas estrelas do jornalismo que um dia esperava emular: Daniszewski, Michele Kelemen, da NPR, Ed Lucas, da The Economist, Peter Baker, do The Washington Post, e Susan Glaser, do The New York Times. Apesar de a oposição local ser claramente fraca e desorganizada, ela tinha as forças da história do seu lado.

E estávamos confiantes que Lukashenko não duraria muito.

A União Europeia e a OTAN estavam finalizando suas mudanças para os países vizinhos do oeste, construindo prédios envidraçados em Varsóvia (Polônia) e projetos modernos em Riga (Letônia) e Vilnius (Lituânia). A leste, Moscou era o centro de uma marcha complicada mas inevitável rumo à democracia e ao capitalismo.

Sergei Grits / AP

Alexander Lukashenko, presidente de Belarus, fala com a imprensa Minsk, em 10 de setembro de 2001.

Obviamente, Lukashenko ganhou.

Foi uma lavada. Os Estados Unidos tinham convencido a oposição dividida a apoiar um fraco candidato de consenso – o idoso líder trabalhista Vladimir Goncharik, que nunca teve chances reais de vitória. No dia chuvoso da votação, perambulamos pela praça em que estudantes universitários e aposentados se reuniram para ouvir Goncharik admitindo a derrota. Os policiais da tropa de choque, armados com Kalashnikovs, eram muito mais numerosos que os manifestantes e não desperdiçavam nenhuma oportunidade de usar violência. Goncharik tentou falar; o som foi cortado.

A ficha caiu. O que eu tinha levado para Belarus era risível e inadequado: um russo ruim, clichês sobre o fim da Guerra Fria e basicamente expectativas sobre o que deveria acontecer.

“Se você tiver de sair para a rua nesta semana, hoje é o dia”, disse para mim, com lágrimas nos olhos, um jovem engenheiro de software que estava na multidão.

A história não caminhava na direção que eu imaginava. Me sentia arrasado, mas não tinha por que ficar surpreso: nada na minha apuração sugeria um resultado diferente. A ficha caiu. O que eu tinha levado de Indianápolis e Yale para Belarus era risível e inadequado: um russo ruim, clichês sobre o fim da Guerra Fria e basicamente expectativas sobre o que deveria acontecer. Naquela noite, nada se encaixava na realidade que se acontecia diante dos meus olhos.

No dia seguinte, nos reunimos num prédio lúgubre, conhecido como Sarcófago, para ouvir Lukashenko agradecer os parabéns formais das inúmeras delegações diplomáticas do Leste e responder às perguntas da imprensa. Senti inveja quando Ed Lucas fez uma pergunta longa e complicada, num russo excelente.

Maxim Marmur / AP

O candidato da oposição, Vladimir Goncharik, vota na eleição de Belarus, em 9 de setembro de 2001.

Mas fui embora me achando sortudo por ter testemunhado um pouco de história – a reeleição espúria de um ditador europeu –, algo que, apesar de tudo, parecia estar acontecendo pela última vez. Putin aparentemente estava abrindo as coisas no Leste; a União Europeia, no Oeste; e o autoritarismo na Europa obviamente tinha chegado ao fim. Consegui assinar uma reportagem na revista New Republic, na qual descrevi o argumento vencedor como “imperfeito” e “deprimente”. “Para as pessoas comuns da ex-União Soviética, a prosperidade que lhes foi oferecida pelo Ocidente com o fim da Guerra Fria não tinha se materializado”; e na Belarus que “os liberais imaginam como uma Polônia, a próxima história de sucesso pós-comunista, a maioria da população ainda olha para os vizinhos grandes a leste e a sul: Rússia e Ucrânia. O que eles veem é o caos”.

Mais de 16 anos depois, esse argumento ainda prevalece em Minsk. Os combates continuam na fronteira entre Ucrânia e Rússia, logo ao sul de Belarus. Lukashenko está no quinto mandato e disse recentemente que pelo menos “é melhor ser ditador que gay”.

“Se me dissessem naquele dia que, 16 anos depois, Lukashenko ainda estaria no poder, jamais teria achado possível – aquilo era anacronismo”, disse Baker, hoje correspondente do The New York Times na Casa Branca. “Não era possível essa ilha de repressão, de atraso. Ela tinha de ser levada junto com as forças da história.”

John Garrison para o BuzzFeed News

No ano seguinte, quando as atenções do mundo se voltaram para Saddam Hussein, Belarus voltou a aparecer aqui e ali no noticiário sobre as armas iraquianas.

Ao ler as matérias, corei.

“Um dos acordos feitos pelos iraquianos foi com a fábrica de tratores de Minsk. Relatos públicos dão conta da produção de tratores para uso civil. Mas ela também produz lança-mísseis para o Paquistão”, disse um especialista em controle de armas ao britânico The Observer. “A [verdadeira] especialidade bielorrussa é lança-mísseis.”

O Relatório Duelfer, que em 2004 rejeitou as afirmações do presidente George W. Bush de que o Iraque tinha armas de destruição em massa, contém dezenas de referências a Belarus e conclui que o país “era o maior fornecedor de sofisticadas armas convencionais de alta tecnologia para o Iraque, de 2001 até a queda do regime.”

Na minha ingenuidade, encaixei a fábrica de tratores numa parábola simples sobre os absurdos do planejamento central e do modo de produção comunista. Minha reportagem descrevia vários detalhes – da estátua de Lênin ao terno ruim do vendedor – que reforçavam essa narrativa, porque eu sabia que era o que meus editores queriam. Mas, além da minha historinha sobre os últimos suspiros do comunismo, havia uma reportagem muito maior, e real, sobre resistência e hostilidade ao projeto americano. A fábrica não era piada. Era um órgão essencial no comércio global clandestino de armamentos, muitas vezes envolvendo países que os EUA consideram “vilões”.

Belarus ainda é um polo no negócio de armar inimigos dos Estados Unidos. Mais recentemente, o país foi acusado de trabalhar secretamente no programa de mísseis do ditador sírio, Bashar al-Assad.

John Garrison para o BuzzFeed News

Durante anos lembrei dessas lições e tentei aplicá-las ao meu trabalho: considerando o impacto das minhas reportagens nas vidas das pessoas; procurando sinais de mentiras ou detalhes que parecem bons demais para ser verdade; e, acima de tudo, lutando contra as presunções complacentes daquela criança dos anos 1990.

Pensar que minha ideologia – publicar é o que importa – possa ter sido responsável pelo espancamento e prisão do jovem Shydlosvski me persegue até hoje. Minha resposta a Kundstadter – você o colocou nessa situação, ele sabia o risco que estava correndo – parecia boa o suficiente, mas também é meio que uma declaração de crueldade, a crueldade do jornalismo que virou a crueldade das redes sociais e da nova guerra da informação.

Existe uma máxima no jornalismo – cristalizada por Janet Malcolm em "O Jornalista e o Assassino" – segundo a qual, no fundo, o jornalismo é traição. É o que eu achava que tinha feito com Shydlovski. E já pensei muito sobre o equilíbrio entre a responsabilidade do jornalista para com suas fontes e para com os leitores.

No ano passado, estava de novo procurando Shydlovski no Google. Decidi soletrar o nome de outras maneiras. Eis que aparece uma entrevista dele num site tcheco – na qual ele dizia, de passagem, ter tido a sorte de não ser preso por causa de suas ideias.

Eu mal podia acreditar. A tradução do Google era rudimentar, e a fonte era obscura: achei que estava fantasiando palavras dele para expiar minha culpa. Esqueci o assunto. Mas sempre penso em Minsk na época do 11 de setembro, quando as pessoas lembram o que estavam fazendo na hora dos atentados. Estava lendo o livro de Hansen e comecei a pensar em escrever este artigo. Achei que deveria pelo menos perguntar a Shydlovski o que realmente aconteceu.

Encontrei-o no Facebook. Ele tinha saído de Belarus e estava morando em Praga com a família. A idade o acalmou, mas sua página estava cheia de fotos do filho com equipamentos de hóquei, como eu imaginei o pai no passado. Marcamos uma conversa por videochat. Conversamos há alguns meses, antes de ele ir para o trabalho em um hotel tranquilo perto do rio Vltava. Ele é o gerente da noite; a mulher dele cuida da loja de souvenires.

Shydlovski disse que não foi preso depois da minha reportagem que revelou o financiamento secreto americano. “Em 2001, não era problema, porque tínhamos um pouco de democracia”, disse ele. Se admitisse algo do gênero hoje, depois de mais uma década de governo brutal de Lukashenko, Shydlovski acredita que “iria para a cadeia por cinco anos ou mais”.

Cada um foi para um canto, porque o 11 de setembro rearranjou nosso mundo: os que conseguiram foram para Cabul ou Islamabad. Eu voltei para Nova York, para cobrir os destroços do World Trade Center.

Anos depois de minha partida, ele trabalhou como jornalista independente na minúscula imprensa livre de Belarus. Foi só em 2007 que a KGB começou a criar problema. Shydlovski me contou que passou duas semanas preso por se manifestar contra o governo; ele esmurrou um agente da KGB que o assediava. Os companheiros do agente reagiram, e Shydlovski foi parar no hospital – durante a recuperação, foi ameaçado com 10 anos de prisão. Ele finalmente fugiu do país, levando a mulher e o filho. Escolheu Praga para o exílio – é perto, e ele acha que Lukashenko não vá durar para sempre. Mas hoje ele pensa que pedir asilo político nos Estados Unidos teria sido uma opção melhor.

Shydlovski disse que se lembrava de mim, mas nosso encontro e minha reportagem não causaram tanta impressão. Entusiasmado e ainda falando um inglês ruim, naquela época ele era a melhor cara pública do Zubr, então ele deu “10 entrevistas em 10 restaurantes diferentes” para jornalistas estrangeiros. Mas ele não contou a nenhum outro repórter a história do dinheiro americano que ele ia buscar na Polônia.

Os relacionamentos com os jornalistas não valeram de nada, no fim das contas. Poucos repórteres ficaram no país para cobrir o pós-eleição. Cada um foi para um canto, porque o 11 de setembro rearranjou nosso mundo: os que conseguiram foram para Cabul ou Islamabad. Eu voltei para Nova York, para cobrir os destroços do World Trade Center para um novo jornal da cidade.

“Os jornalistas ficaram lá [mais] dois dias”, disse Shydlovski, antes de sair para trabalhar. Aí “aconteceu o ataque terrorista nos Estados Unidos da América e tudo ficou esquecido; o problema era nosso”.

Sergei Grits / ASSOCIATED PRESS

Ruzhana Verchenko, 3, coloca vela na porta da embaixada americana em Minsk, 12 de setembro de 2001.

Minha primeira reação foi fúria, mesmo tantos anos depois: em relação a Kozak, o embaixador, e seu vice, Kunstadter, que – segundo me lembro – mentiu para mim. Isso era outro tipo de erro, outro governo mentiroso. Não demorei para encontrar Kunstadter na internet: um site em que ele posta fotos branco-e-preto do idílico interior de Belarus. O projeto parece consumir seu tempo desde que ele se aposentou da diplomacia, em 2005.

Achei o endereço dele, numa rua tranquila em Washington, e seu número de telefone. Deixei várias mensagens com sua mulher e também na secretária eletrônica. Para minha surpresa, ele nunca respondeu. Tampouco tive resposta para os emails que mandei para uma conta da AOL associada a seu nome.

Mas consegui encontrar Kozak, que respondeu rapidamente a um email que mandei usando a fórmula tradicional dos emails do Departamento de Estado. Quando conversamos, numa sexta-feira recente, ele estava trabalhando no último andar de um prédio num bairro tradicional de Washington. Reclamou do frio; tiraram os antigos radiadores do edifício num esforço de sustentabilidade.

Expliquei por que estava telefonando e por que estava confuso sobre a mentira que tinham me contado tantos anos atrás. Ele não se mostrou muito surpreso.

“John costumava fazer coisas do tipo”, disse ele, em referência a seu vice. “Por isso não durou muito tempo lá.” (Mandei um email e deixei recado para Kunstadter perguntando sobre esse comentário; ele não respondeu.)

Kozak não lembrava do incidente e acha que não fiz nada especialmente errado. “Se [Shydlovski] disse isso on the record, você tinha o direito de publicar”, afirmou ele.

Kozak, que hoje é chefe do Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado, riu da minha percepção dele: um guerreiro profissional da Guerra Fria, caracterização também conferida pelo governo bielorrusso. Ele foi mandado para o país, disse ele, pelo vice-secretário de Estado de Clinton, Strobe Talbot, porque teria aprendido em Cuba como se navega uma burocracia comunista hostil. Ele sabia do tráfico de armas – uma de suas principais atribuições era bloquear a venda de sistemas de defesa antiaérea para Saddam Hussein.

Mas ele tinha outros problemas. Por trás da campanha de marketing e dos dólares, o grupo oposicionista Zubr, de Shydlovski, era particularmente “problemático”. Eles tinham se enrolado na política duvidosa das facções de oposição – um dos grupos estava usando o Zubr para extorquir dinheiro dos outros opositores. Segundo Kozak, a certa altura o Zubr chegou a “realizar operações contra a embaixada americana”.

A estratégia dos Estados Unidos em relação a Lukashenko e às eleições de 9 de setembro de 2001 eram simples: “Sabemos quele ele vai fraudar a votação, mas vamos fazer barulho e pressioná-lo”.

A embaixada montou uma central de monitoramento para lidar com o pós-eleição, e Kozak estava saindo da sala no dia seguinte quando lhe contaram do avião que atingiu o World Trade Center. Lukashenko correu para expressar condolências, e foi isso.

Eu já tinha ido embora. Saí de Belarus num trem noturno um dia depois da eleição e atravessei a fronteira da Ucrânia na manhã de 11 de setembro, um dia tão claro quanto em Nova York. Naquela tarde, sentado numa redação de Kiev, vi ruir minhas crenças sobre o poder americano. Saí na rua e encontrei ucranianos fazendo fila para trocar seus dólares.

Mas Kozak ficou; ele ainda trabalha no projeto Lukashenko no prédio frio. Sua experiência, diz ele, o ensinou a não dar crédito a julgamentos confiantes a respeito de governantes autoritários.

“Você tem essa ideia displicente de que o status quo vai permanecer o mesmo para sempre – ou então que o cara é tão ruim que uma hora vai cair”, disse ele. “Nenhuma das duas coisas é necessariamente verdadeira, ou necessariamente falsa.”

E Kozak está certo: a principal lição que deveria ter aprendido tinha a ver com previsões, com a confiança na minha cultura americana e nas fontes oficiais dos dois lados, com achar que eu sabia mais do que realmente sabia. Até mesmo na era de The Post – A Guerra Secreta e de uma espécie de glorificação do trabalho dos jornalistas, a profissão de repórter não oferece lições fáceis. É um negócio incerto e necessariamente anárquico. Hoje fico feliz em ter escrito a matéria sobre Shydlovski – não apesar do fato de não saber onde ela iria parar, mas justamente por causa disso. ●

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Este post foi traduzido do inglês.