Estas notícias falsas foram muito compartilhadas durante o impeachment

    Renúncia coletiva de senadores petistas. Dilma gastou R$ 18 milhões com seu cartão corporativo, sem prestar contas. Friboi recebeu ajuda de R$ 30 bilhões do governo. Era tudo mentira, mas um monte de gente compartilhou no Facebook.

    Assim como na Lava Jato, em que notícias falsas foram mais compartilhadas do que verdadeiras, o impeachment foi tema recorrente em sites que espalham informações infundadas.

    Desde dezembro, quando o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), deu início ao processo contra Dilma Rousseff (PT), essas notícias falsas foram compartilhadas milhões de vezes. O BuzzFeed Brasil lista 10 lorotas.

    1. "Governo Temer vai retomar refinarias 'doadas', por Lula, à Bolívia" — 196.807 engajamentos no Facebook.

    Reprodução

    Em maio de 2006, o governo de Evo Morales estatizou toda a infraestrutura de hidrocarbonetos do país e declarou um aumento nos impostos pagos pelas empresas que quisessem continuar operando no país, inclusive a Petrobras.

    Ao contrário do que dá a entender o título do texto acima, Lula não "doou" refinarias da Petrobras à Bolívia. As instalações da estatal brasileira foram, na verdade, tomadas pelo exército boliviano, conforme registra este texto do jornal Folha de S.Paulo publicado à época.

    Em relação à segunda parte do título, o texto do site Brasil Verde Amarelo afirma que "Temer fará contato diplomático com a Bolívia para tentar reaver os prejuízos causados ao Brasil com a tomada das refinarias", mas não cita a fonte da informação. Desde que assumiu a Presidência da República, Temer não se pronunciou publicamente sobre os ativos da Petrobras na Bolívia.

    2. "Gleisi fala em renúncia coletiva de senadores do PT se Dilma sofrer impeachment" — 122.575 engajamentos.

    Reprodução

    O título do site Veja Agora se baseia em uma nota à imprensa que teria sido divulgada pela bancada do PT no Senado. Na verdade, o texto é falso, e a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) jamais cogitou publicamente uma renúncia coletiva. A notícia foi desmentida pela primeira vez pelo site Boatos.org.

    3. "Dilma gastou sob sigilo, R$ 18 milhões com cartão corporativo em 2014" — 103.972 engajamentos.

    Reprodução

    Neste caso, o Revolta Brasil parte de dados verdadeiros, divulgadas pela ONG Contas Abertas, mas os distorce para criar uma notícia falsa.

    Segundo o texto falso, "a Presidência atingiu um total de R$ 21,7 milhões em gastos com o cartão corporativo no ano passado, sendo que Dilma foi responsável pelo gasto de R$ 18 milhões sigilosos".

    Na verdade, de acordo com a Contas Abertas, os gastos de toda a Presidência da República somam R$ 21,7 milhões, dos quais R$ 18,3 milhões foram secretos.

    Os valores, no entanto, não dizem respeito apenas a Dilma, como dá a entender o título da notícia falsa. Os números incluem, por exemplo, gastos feitos pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência) — que fica sob o guarda-chuva institucional da Presidência. Segundo a Contas Abertas, a Abin foi a "unidade orçamentária [dentro da Presidência da República] que mais pagou por bens e serviços por meio do cartão" no ano de 2014.

    4. "Deputados do PT farão renúncia coletiva se Dilma sofrer impeachment" — 94.631 engajamentos.

    Reprodução

    O caso é idêntico à ideia de renúncia coletiva atribuída à senadora Gleisi Hoffmann: se baseia em uma nota à imprensa completamente inventada. Também foi desmentido pelo site Boatos.org.

    5. "Farra do cartão corporativo consumiu R$ 52 milhões no último ano. Só Dilma moeu R$ 15 milhões" — 79.643.

    Reprodução

    Assim como o caso número 3, o site também cita como fonte a ONG Contas Abertas, mas os números não estão corretos.

    6. "Polícia Federal tenta desvendar os motivos para Dilma doar R$ 30 bilhões a Friboi" — 65.572 engajamentos.

    Reprodução

    O texto começa com a seguinte frase: "Dilma Vana Rousseff (PT) concedeu anistia de R$ 30 bilhões na dívida da Friboi com o BNDES". É mentira.

    A frase seguinte repete um dos boatos (falsos) mais divulgados na internet sobre o ex-presidente Lula: "Um escândalo nacional, levando em consideração todos os rumores de que o filho caçula de Luís Inácio Lula da Silva, é um dos sócios ocultos da Friboi". Também é mentira.

    7. "Fiesp montou caixa 2 de R$ 500 milhões para comprar impeachment de Dilma" — 40.876 engajamentos.

    Reprodução

    Publicado originalmente no blog do ex-ministro Roberto Amaral, do PSB, o texto é de autoria do economista José Carlos de Assis. "A Fiesp montou um caixa 2 de, por enquanto, R$ 500 milhões para comprar o impeachment de Dilma", ele escreve logo na primeira frase do texto.

    Segundo o autor, o dinheiro para financiar o impeachment seria proveniente do Sistema S e de federações industriais dos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Rio de Janeiro, "todos irmanados pelo impeachment", de acordo com o economista.

    Assis, no entanto, não apresenta evidências ou documentos que corroborem a afirmação, e o texto foi replicado em diversos sites não como uma coluna de opinião — forma como poderia ser tratado —, mas como notícia real.

    8. "Janot protege Temer e quer esquecer denúncias contra ele" — 39.190 engajamentos.

    Reprodução

    Em maio, o ministro do STF Marco Aurélio Mello determinou, em uma decisão temporária, que o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), deveria aceitar um pedido de impeachment contra o então vice-presidente, Michel Temer.

    Instado pelo tribunal a se posicionar em relação ao tema, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviou um parecer em que opina sobre a decisão de Marco Aurélio. No texto, de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, Janot pede que a decisão temporária do ministro seja revista, porque "extrapolou o pedido que chegou ao tribunal".

    O texto publicado pelo Portal Brasil, no entanto, tira todas as nuances da questão e afirma que Janot "agora defende abertamente o virtual futuro chefe [Michel Temer]". O título do site afirma, ainda, que o procurador-geral queria "esquecer" denúncias contra o então vice-presidente — o que também é falso.

    9. "Prefeitura tira ônibus em dia de manifestação a favor do impeachment" — 38.050 engajamentos.

    Reprodução

    Sem citar fontes ou provas, o Blog do Paulinho afirma que "o prefeito Fernando Haddad obrigou as empresas de transportes coletivos a retirar os ônibus de circulação, com intenção evidente de dificultar o deslocamento dos populares para a região da concentração".

    O texto é atribuído a Napoleão Dumont, a quem Paulinho se refere, em outro post publicado no blog, como "representante importante do militarismo brasileiro".

    A SPTrans, estatal municipal que controla a malha de ônibus em São Paulo, entrou com uma ação de R$ 100 mil contra o blogueiro por causa do texto. O processo corre em segredo, no Tribunal de Justiça de São Paulo.

    Em julho, Paulinho chegou a preso por determinação da Justiça, após um advogado mover ação por calúnia contra ele.

    10. "Dilma diz que Temer é 'bandido' e que 'guerrilheira' está de volta" — 31.440 engajamentos.

    Reprodução

    As palavras atribuídas à ex-presidente Dilma — "bandido", em relação ao presidente Michel Temer, e "guerrilheira", em relação a ela própria — nunca foram ditas publicamente pela petista.

    Veja também:

    Aprenda a denunciar notícias falsas no Facebook

    Notícias falsas da Lava Jato foram mais compartilhadas que verdadeiras

    Alexandre Aragão é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ele pelo email alexandre.aragao@buzzfeed.com

    Contact Alexandre Aragão at alexandre.aragao@buzzfeed.com.

    Got a confidential tip? Submit it here

    Utilizamos cookies, próprios e de terceiros, que o reconhecem e identificam como um usuário único, para garantir a melhor experiência de navegação, personalizar conteúdo e anúncios, e melhorar o desempenho do nosso site e serviços. Esses Cookies nos permitem coletar alguns dados pessoais sobre você, como sua ID exclusiva atribuída ao seu dispositivo, endereço de IP, tipo de dispositivo e navegador, conteúdos visualizados ou outras ações realizadas usando nossos serviços, país e idioma selecionados, entre outros. Para saber mais sobre nossa política de cookies, acesse link.

    Caso não concorde com o uso cookies dessa forma, você deverá ajustar as configurações de seu navegador ou deixar de acessar o nosso site e serviços. Ao continuar com a navegação em nosso site, você aceita o uso de cookies.