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Ataque americano leva confusão e incerteza à guerra na Síria, que já dura 6 anos

Estados Unidos lançaram 59 mísseis Tomahawk, nesta madrugada, contra uma base aérea síria, em retaliação ao ataque com armas químicas ocorrido na terça-feira (4).

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ISTAMBUL, TURQUIA — A decisão unilateral do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de lançar um ataque aéreo contra o regime sírio de Bashar al-Assad trouxe mais caos e incerteza a um conflito que já dura seis anos.

Como ninguém sabe o que Trump fará a seguir, as reações têm sido diversas — alguns rebeldes comemoraram o ataque, enquanto outros ficaram irritados ao descobrir que boa parte dos jatos e soldados sírios foram retirados da base aérea horas antes do ataque.

Enquanto isso, diplomatas ficaram confusos com a mudança de posição americana, questionando se o ataque foi mais que um ato simbólico voltado a agradar cidadãos americanos, ou se marca um ponto de virada na guerra.

Por toda a Síria e o Oriente Médio, autoridades políticas e militares se esforçam para compreender as implicações da decisão surpresa de Trump em lançar um ataque aéreo com 59 mísseis Tomahawk contra a base aérea de al-Shayrat, na cidade de Homs, em retaliação a um ataque com armas químicas na cidade de Khan Shikhoun, na última terça-feira (4).

Rebeldes contrários ao regime de Bashar al-Assad viram sua sorte virar no último ano, e durante meses assistiram com desesperança ao aparente desejo da Casa Branca em se entender com Damasco. Eles comemoraram a mudança de posição, mas não acreditam que o ataque aéreo seja capaz de parar Assad.

"O ataque confirmou a necessidade de abater este criminoso, esta máquina de matar, que não tem lugar em qualquer sociedade civilizada", disse Omran Mohamed, porta-voz de Ahrar al-Sham, uma facção islâmica que está entre os maiores grupos rebeldes combatendo o regime de Assad. "Mas este ataque foi um fato isolado, não configura uma mudança de estratégia. De qualquer maneira, nós não iremos descansar antes de pararmos essa máquina de matar. Esta é a nossa estratégia, não importa o quanto as circunstâncias mudem."

Ao menos 13 militares sírios foram mortos ou feridos no ataque, segundo um oficial do governo citado pela rede de TV Al Jazeera. O ataque aéreo adiciona uma nova dimensão a uma já extremamente complexa guerra na Síria, em que rebeldes — com o apoio da Turquia e da Arábia Saudita — combatem um regime apoiado pela Rússia e pelo Irã, enquanto uma coalizão liderada pelos Estados Unidos com a Arábia Saudita e milícias curdas lutam contra o Estado Islâmico. Isto é, quando eles não estão brigando uns contra os outros. Por enquanto, combatentes que apóiam a Síria, incluindo o poderoso Hezbollah, mantiveram distância dos militares americanos que dão assistência ao combate contra o Estado Islâmico.

"Por enquanto, eu acho que o ataque significa uma forte mensagem a Assad e seus apoiadores, de que os Estados Unidos não vão tolerar violações como o uso de armas químicas", disse Nadav Pollak, um analista de contraterrorismo. "Se mais ataque ocorrerem, aumenta a possibilidade de retaliação. Mas, por enquanto, eu acho que isso é improvável."

Um diplomata de um país envolvido na coalizão contra o Estado Islâmico ficou visivelmente surpreso quando foi informado sobre o ataque americano. Na semana passada, autoridades dos Estados Unidos declararam publicamente que não fariam oposição ativa a Assad, e diplomatas tentavam reajustar o discurso para definir aonde, exatamente, o país se posiciona em relação à Síria.

"Eu acho que [Assad] merece, mas me preocupo com o que vem depois", afirmou esse diplomata.

O ataque marca uma mudança significativa no papel americano desde que a guerra civil teve início, em 2011. Apesar de ter sido descrito por autoridades dos Estados Unidos como uma resposta contra o uso de armas químicas, o ataque direto contra Assad levantará questões sobre a política internacional do país.

"Não há nada que sugira um apetite da Casa Branca em retirar Assad do poder", escreveu Torbjorn Soltvedt, especialista em Oriente Médio, em uma análise enviada a clientes da consultoria Verisk Maplecroft. "O impacto [do ataque] no balanço de forças do conflito provavelmente será limitado, mas de maneira alguma insignificante."

Um ex-agente de inteligência dos Estados Unidos afirmo que o ataque representa uma escalada no conflito e uma nova dinâmica na Síria, mas que restam muitas perguntas sem resposta. "O que eu quero saber é: e agora?", ele disse, falando na condição de anonimato. "É como o ataque de Bill Clinton contra o Afeganistão em 1998 após o bombardeio numa embaixada? Ou é o início de algo a mais longo prazo?"

Apoiadores do regime sírio ficaram irritados e criticaram abertamente a decisão de Trump. Pela primeira vez em vários anos, alguns repararam, foi a vez de Rússia e Irã divulgarem declarações vazia sobre a Síria, em vez dos Estados Unidos. Teerã e Moscou fizeram eco à declaração síria de que os ataques químicos foram mentira ou perpetrados por forças rebeldes — agora, ambos acusam os Estados Unidos de ajudarem "terroristas". O ministro das relações exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, classificou o ataque como uma "agressão".

"Washington distorceu completamente o que ocorreu", disse, em uma nota divulgada pelo ministério russo, referindo-se ao ataque químico em que ao menos 72 pessoas morreram, incluindo muitas crianças. Foram fotos dessas mesmas crianças que parecem ter convencido Trump a mudar de ideia e lançar os mísseis. "Os Estados Unidos não têm escolha senão entender que tropas do governo sírio não usaram armas químicas. Damasco simplesmente não as possui", diz a nota.

Alguns ressaltaram, no entanto, que a resposta do governo russo poderia ter sido mais dura. "Isso é mais ou menos o que se esperava ouvir", afirmou Andrey Baklitsky, analista do PIR Center, um think tank em Moscou. Ele previu que o Kremlin não reagiria com muita força ao ataque. "O fato de que [o secretário de Estado americano] Rex Tillerson está com uma visita marcada a Moscou e provavelmente haverá algum tipo de conversa para pôr a reação americana em contexto impõe limites à reação russa", ele afirmou ao BuzzFeed News.

Autoridades na Turquia, bem como organizações internacionais, confirmaram que as armas usadas no ataque são consistentes com gás Sarin e outros tipos de artefatos químicos que agem no sistema nervoso central.

Nesta sexta (7), a Rússia pediu uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU e anunciou a suspensão dos canais de comunicação com os Estados Unidos que têm sido usados para evitar confusões durante operações de ambos na Síria.

Apesar de o secretário de Estado, Rex Tillerson, ter declarado que o ataque não significa uma mudança de posição, comandantes dos rebeldes sírios ficaram empolgados. Eles estão perdendo território — e a guerra — para as forças de Assad nos últimos meses.

A Turquia, que tem sido a principal aliada dos rebeldes sírios, apoiou veementemente o ataque e pediu ao governo Trump que expanda a ofensiva e dê mais proteção a civis sírios, incluindo a criação de uma ou mais zonas de exclusão aéreas. "A destruição da base aérea de Sharyat marca um importante passo para garantir que ataques contra civis não fiquem sem punição", disse Ibrahim Kalin, porta-voz do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, em uma nota à imprensa. "A fim de prevenir massacres semelhantes de acontecerem novamente, é necessário impor uma zona de exclusão aérea e criar aréas seguras na Síria o mais rapidamente possível."

Rebeldes sírios disseram que não conseguiram dormir durante a madrugada diante da notícia do ataque, mas que ficaram desapontados ao saberem do alcance limitado da ação. "Como é possível que apenas seis pessoas tenham sido mortas por aqueles mísseis?", afirmou Mohammed, porta-voz do Ahrar al-Sham. "Se você jogasse uma batata neles, teria causado mais perdas."

Um ex-comandante militar sírio disse que o ataque é apenas um gesto simbólico, dado como aviso. "A ofensiva americana é tanto uma mensagem para dentro como para fora", disse o coronel Ahmad Hamada. "É verdade que causou o fechamento da base aérea, mas não irá impedir o uso de forças militares contra o povo sírio."

Este post foi traduzido do inglês.

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Borzou Daragahi is a Middle East correspondent for BuzzFeed News and is based in Istanbul.

Contact Borzou Daragahi at borzou.daragahi@buzzfeed.com.

Munzer al-Awad is a journalist based in Istanbul.

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