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Por que voluntários americanos e europeus estão lutando na guerra contra o Estado Islâmico

Dezenas de idealistas entraram ilegalmente na Síria para combater em Raqqa, cidade controlada pelo Estado Islâmico. Mas oficiais do Exército americano os consideram um risco em potencial.

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RAQQA, Síria — Kevin Howard sempre buscou propósito e aventura.

O californiano de 28 anos serviu como fuzileiro naval dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão. Depois, ele alistou-se na Legião Estrangeira, na França, com o objetivo de aumentar os próprios horizontes, mas eventualmente ficou "cansado de esfregar banheiros". Agora Howard, com sua tez branca e seus cabelos loiros, tatuagens nos braços e no rosto, está lutando contra o Estado Islâmico no norte da Síria, ao lado de curdos, cristãos e da minoria Yazidi, dos quais ficou amigo quando foi enviado ao Oriente Médio.

"Eu aprendi sobre os curdos e os yazidis e sempre disse a mim mesmo que voltaria", Howard contou durante um breve intervalo no fronte a oeste de Raqqa, cidade controlada pelo Estado Islâmico. "Eu amo o povo yazidi", ele disse, referindo-se à minoria étnica submetida à violência genocida do Estado Islâmico, no Iraque. "E então, em 2014, o Estado Islâmico veio e matou quase todo mundo que eu conhecia, todo mundo com quem eu mantinha contato."

Isso foi há três anos. Agora, tropas americanas que ajudam o Exército iraquiano e milícias sírias estão em uma batalha para expulsar o Estado Islâmico para fora do território que o grupo terrorista conquistou como parte de seu autoproclamado califado.

Um dos aspectos mais surpreendentes do conflito é a presença de dezenas de combatentes ocidentais que se voluntariaram a lutar ao lado das forças curdas no norte da Síria, bem como no Iraque. Eles vieram ao Oriente Médio por diversos motivos. Alguns queriam usar suas experiências militares contra o Estado Islâmico. Outros são ativistas de esquerda que dizem acreditar na visão socialista dos curdos.

Ocidentais como Howard tiram inspiração de voluntários internacionais que se juntaram aos Republicanos espanhóis nos anos 1930, na Guerra Civil Espanhola contra o ditador Francisco Franco. Na batalha contra o EI, a coalisão liderada pelos Estados Unidos aumentou seus esforços após o grupo terrorista tomar a cidade iraquiana de Mossul, em 2014.

O Departamento de Estado americano divulgou diversos avisos posicionando-se contra civis que viajaram ao Iraque ou à Síria para atuar no conflito armado. Comandantes da coalisão liderada pelos Estados Unidos dizem considerar voluntários estrangeiros um incômodo com potencial para tirar o foco do conflito.

"Além dos riscos pessoais extremos que essas ações impõem, como sequestro, lesão ou morte, riscos legais incluem prisão, multa ou expulsão", disse o coronel Joe Scrocca, porta-voz da coalisão, em um email ao BuzzFeed News. "Cidadãos americanos devem saber que lutar em nome ou providenciar outras formas de apoio a organizações terroristas, incluindo o EI, podem constituir terrorismo, um crime que pode resultar em penalidades, incluindo prisão e multas altas."

Ou, como Howard admitiu: "Nós não deveríamos estar aqui."

Mesmo assim, comandantes de milícias sírias dão boas-vindas a voluntários estrangeiros, especialmente aos que lutaram em Forças Armadas ocidentais.

Durante o pôr-do-sol de uma tarde de julho, no fronte oriental de Raqqa, um grupo de voluntários ocidentais embarcaram numa picape vestidos para a guerra. Os homens, membros do Batalhão Internacional de Liberdade da Unidade de Proteção Popular — YPG, na sigla original —, liderada pelos curdos, estavam saindo para o que chamam de "missão", que consiste em retomar o controle de um edifício dentro ou próximo do território inimigo.

O comandante do grupo, Claudio Locatelli, um italiano de 29 anos nascido em Pádua, abraçou cada um dos homens e desejou-os boa sorte. O batalhão de mais ou menos 12 pessoas, ele explicou, é a única unidade internacional completamente ligada à YPG. Há combatentes nascidos nos Estados Unidos, na Inglaterra, no Canadá, na França, na Alemanha, na Espanha, na Itália, na Noruega e na Finlândia. "Todos tomamos diferentes caminhos", disse Locatelli. "Alguns de nós estão aqui como ativistas, em solidariedade ao YPG. Outros estão aqui para combater o Estado Islâmico. O que nos mantém unidos é a ideia de que o que estamos fazendo aqui é certo."

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BuzzFeed News

Todos eles cruzaram a fronteira da Síria ilegalmente durante os últimos anos, com a ajuda de coiotes, arriscando-se a sentenças de até 10 anos impostas por autoridades curdas iraquianas, que também combatem o Estado Islâmico mas são contrárias à YPG.

Todos os voluntários devem submeter-se ao treinamento da YPG, um curso de um mês que alguns reclamam ser denso em ideologia e light em relação ao treinamento militar propriamente dito. Outros acham os ideais esquerdistas da YPG interessantes.

"Eu gosto do fato de ser uma revolução feminista, democrática e secular", disse Macer Gifford, pseudônimo de guerra usado por um cidadão britânico de 30 anos, nascido em Cambridge, que atua no norte sírio há três anos.

“I like the fact that it’s a feminist, democratic, secular revolution,” said Macer Gifford, the nom de guerre of a 30-year-old British citizen from Cambridge who has been in northern Syria for three years, first as an aid worker, then later as a fighter for the Syriac Military Council, one of the pro-YPG militias fighting ISIS.

A Turquia considerada a YPG uma organização terrorista, e os combatentes estrangeiros foram criticados pelo país, bem como seus países de origem. Um oficial americano estacionado na Síria reclamou que muitos dos voluntários são, na verdade, viciados em guerra — ex-soldados em busca de um combate, uma aventura. Eles usam equipamentos de ponta, incluindo joelheiras e óculos de visão noturna, e parecem ansiosos para batalhar no fronte.

Jake Reiter, um americano de 25 anos nascido em St. Louis, decidiu juntar-se à guerra contra o EI após ter sido dispensado do Exército americano por uma "falha técnica", segundo ele. "Eu obviamente falhei em cumprir meu contrato com o meu país, e eu tinha que ajudar outras pessoas de alguma outra maneira", ele disse. "O Estado Islâmico claramente não é um grupo bom."

Às vezes os voluntários parecem fora de lugar na zona de guerra. Num dia em julho, por exemplo, Reiter e um voluntário britânico foram deixados em um posto de comando próximo ao fronte ocidental de Raqqa. Falantes do básico de curdo e analfabetos em árabe, eles estavam confusos, temerosos de estarem perdidos em um território contestado próximo a uma área controlada pelo Estado Islâmico. Eles lutaram para descobrir se estavam onde deveriam estar. Mas os soldados do posto os receberam com boas-vindas, e os convidaram a participar de uma ofensiva para tomar um enclave de Raqqa no dia seguinte

Eles ficaram ansiosos para participar.

Lutar contra o Estado Islâmico como voluntário é uma empreitada perigosa. Ao menos três voluntários americanos morreram em julho.

Todos os combatentes estrangeiros temem serem retaliados pelos governos de seus países de origem se e quando retornarem para casa. Um dos colegas de Howard disse a ele que foi convidado a prestar depoimento ao FBI seis meses após retornar aos Estados Unidos. Eles estavam monitorando seus movimentos e ligações telefônicas desde que ele pousou no país, segundo contou a Howard. Mas os agentes queriam apenas saber se ele havia se deparado com sentimentos anti-Estados Unidos entre os outros voluntários estrangeiros com quem combateu.

"Nós não temos nada a esconder aqui", disse Howard. "Nós estamos aqui literalmente para defender nossas vidas e as vidas de nossos amigos."

Para Howard, viajar à Síria foi uma forma de dar valor à própria vida, arriscando sua pele para atingir o que considera uma causa justa — defender as vítimas do Estado Islâmico —, bem como uma maneira de escapar do mal-estar e da mediocridade que caracterizam a vida diária nos Estados Unidos.

"Esta são apenas algumas pessoas que você vê no noticiário das 6 da tarde e depois muda o canal e assiste a Seinfeld", ele disse, referindo-se às vítimas do Estado Islâmico no Oriente Médio. "Mas são pessoas. Este é meu amigo Amir", ele disse, dando tapinhas nas costas de outro soldado.

"São bons homens e mulheres", continuou. "São pessoas pelas quais vale combater. No que depender de mim, eu não vou mais mudar de canal e assistir a Seinfeld."

Este post foi traduzido do inglês.

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Borzou Daragahi is a Middle East correspondent for BuzzFeed News and is based in Istanbul.

Contact Borzou Daragahi at borzou.daragahi@buzzfeed.com.

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