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Será que o “Viagra feminino” chega lá?

Comunidade tenta aprovação nos Estados Unidos de uma droga que acelera os impulsos sexuais das mulheres há cinco anos e em breve pode chegar à Europa. Algumas feministas alegam que o medicamento é uma vitória para os direitos das mulheres, mas cientistas questionam se ele realmente funciona.

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Aos 45 anos, divorciada há nove, Amanda Parrish dedicava seu tempo livre para cuidar dos filhos. Na cidade de Nashville, Amanda vivia, em suas próprias palavras, como "aquela típica mãe de família batista no sul dos Estados Unidos que nunca fala sobre sexo." Até conhecer Ben, um advogado também divorciado, pai de dois filhos do primeiro casamento.

Com a experiência comum de relacionamentos que não deram certo, os dois se aproximaram e logo se casaram novamente. Amanda descreve o sexo dos primeiros anos de casada como "consistente, intenso e incrível". Mas, do nada, surgiu uma crescente indisposição sexual. "Eu me tornei uma daquelas mulheres que planejam dormir antes do marido", contou ao Buzzfeed News. "Comecei a fazer de tudo para evitar sexo – e, se fazíamos, parecia obrigação."

O problema não era atração física: Ben sempre foi um homem bonito e super em forma. Também não era por Amanda não sentir prazer durante o ato, já que ela ainda chegava ao orgasmo. "O problema era começar", explica. Ela não se sentia bem, como se tivesse perdido parte de sua feminilidade. E apesar de ter uma boa comunicação no relacionamento, evitava falar sobre a falta de desejo sexual com o marido. Ela nem mesmo sabia o que pensar a respeito: havia algo errado com seu corpo? Seria um problema psicológico? Essa diferença existia?

Com medo de que a vida sexual minguante causaria danos a um casamento até então saudável, Amanda procurou soluções desesperadamente. Comprou uns frascos de potencializadores de libido na internet, mas os jogou fora depois de surtar sobre a procedência. Perguntou ao médico se não lhe poderia passar um medicamento sem receita para testosterona ou um esteroide que mostrava bons resultados o aumento do desejo sexual feminino.

As doses de hormônio fizeram Amanda sentir uma energia física que não sentia há muitos anos. Mas nada de subir a libido. "Funcionou melhor na academia do que no quarto", ela ri. O médico investigou os possíveis culpados: trabalhar em tempo integral, cuidar de seis crianças ou uma diminuição de ritmo previsível no período pós-lua de mel. Mas Amanda jurava que era algo mais profundo.

Em menos de um ano, ela se viu cobaia de uma pesquisa clínica para um novo medicamento chamado flibanserina, conhecido como "o Viagra feminino". Isso em 2009. De lá pra cá, a flibanserina levantou um debate sobre a sexualidade feminina nos Estados Unidos.

O medicamento ainda não chegou a nenhum outro país, mas a Sprout Pharmaceuticals, empresa detentora da patente da droga, espera leva-la a órgãos reguladores da Europa e do Canadá ainda esse ano. Quanto a outras opções, depois do tratamento com testosterona Intrinsa sair das prateleiras na Europa, há poucas alternativas. Na Espanha, não existe, atualmente, remédios para o problema. A Argentina também não tem medicamentos aprovados, mas de acordo com a médica Maria Victoria Bertolino, a maioria dos profissionais opta pela terapia sexual ou outros tratamentos que visam melhorar a qualidade de vida da mulher. No Brasil, onde também não temos remédios aprovados, é sabido que os especialistas prescrevem o uso off-label de testosterona ou, o que é bastante controverso, de antidepressivos.

Neste ano, a flibanserina foi submetida a uma última chance de aprovação pelo FDA, o Food and Drug Administration, órgão governamental americano responsável pelo controle de alimentos e remédios. A distribuição comercial já foi negada duas vezes. Se aprovada agora, será o primeiro medicamento disponível para tratar a disfunção sexual feminina, em contraste com as nove drogas prescritas disponíveis para os homens.

A discussão atual, travada por fabricantes e órgão regulador, é: será que o desejo sexual feminino deve ser tratado com medicamentos? Algo tão subjetivo deve ser considerado meramente biológico?

A baixa libido é uma das queixas sexuais mais comuns entre mulheres – e não só as de meia-idade, como Amanda. Aproximadamente 10% das mulheres americanas em idade pré-menopausa são diagnosticadas com "distúrbio do desejo sexual hipoativo" (DDSH), definido pela primeira vez na literatura médica a menos de 30 anos. Pessoas com DDSH não se interessam por sexo independente do humor ou da ocasião, sentindo uma dose de angústia ou uma forte ansiedade na possibilidade do ato. E, o mais importante, o problema existe mesmo sem qualquer outro culpado – como questões psiquiátricas, efeitos colaterais de remédios ou um parceiro negligente.

A questão fisiológica para o desejo feminino é tão pouco compreendida quanto as questões sociais, mas a primeira tem o benefício de ser modificada com o remédio certo. Um adesivo de testosterona foi testado por mulheres em 2004, mas nunca chegou ao mercado americano. Atualmente, vários outros fármacos hormonais e não-hormonais fabricados por pequenas companhias estão em estágio de testes clínicos.

A droga mais avançada nessa categoria é, de longe, a flibanserina. Inicialmente testada em 2006 como um antidepressivo, não funcionou tanto como reguladora de humor, mas pesquisadores notaram um efeito colateral intrigante: ao contrário da maioria dos antidepressivos, que acabam com a libido, a flibanserina parecia fazer o exato oposto.

Em 2007, o então fabricante do remédio, a gigante alemã Boehringer Ingelheim, mudou sua categoria para a de drogas que potencializam a vontade sexual. A farmacêutica fez dois estudos clínicos nos Estados Unidos e na Europa, testando seu uso em cinco mil mulheres pré-menopausa e, em 2010, pediu a aprovação do medicamento pelo FDA.

Caso conseguisse, a companhia sabia, a droga se tornaria famosa. O Viagra, afinal, é um dos remédios mais vendidos na última década, prescrito a mais de 30 milhões de homens em 120 países e lucra cerca de 1.6 bilhão de dólares por ano.

O Viagra funciona aumentando o fluxo sanguíneo para o pênis fazendo assim o homem conseguir ter e manter uma ereção durante o sexo. O fabricante, Pfizer, também testou o medicamento em mulheres com DDSH para ver se – como os homens – os impulsos sexuais femininos poderiam ser resumidos a uma questão hidráulica. Mas ainda que o Viagra tenha aumentado o fluxo sanguíneo e a circulação lá embaixo, não deixou nenhuma mulher com mais tesão.

Ainda que a flibanserina seja considerada o "Viagra feminino", o medicamento funciona de forma completamente diferente da opção masculina. Ele tem um alvo muito mais subjetivo: o cérebro. A flibanserina altera os níveis de serotonina e de dopamina afetando os circuitos cerebrais, impulsionando o prazer e o desejo. Seus defensores alegam que os desejos sexuais das mulheres foram reduzidos a problemas sociais e psicológicos há tempo demais. E que é hora de parar de ignorar a fisiologia feminina.

"Sexo é complexo", diz ao Buzzfeed News Cindy Whitehead, CEO da Sprout Pharmaceuticals. "Nossa religião, nossa criação e o que acontece no dia a dia vão para a cama conosco. Mas tanto homens quanto mulheres também levam a fisiologia para o quarto."

Chegamos a uma questão científica ardilosa: como é que se mede o efeito de um medicamento para algo tão abstrato quando desejo sexual?

Amanda se deparou com os testes clínicos de flibanserina por acaso, depois de ver um panfleto na sala de espera de um consultório médico. Ao ler, começou a responder mentalmente as perguntas sobre baixa libido. "A cada item, percebia que era exatamente o que estava rolando comigo", explica ao Buzzfeed News. Ela falou sobre a questão com o médico, que eventualmente a diagnosticou com o distúrbio, e se voluntariou para os ensaios clínicos na mesma hora.

Duas semanas após começar a tomar o remédio uma vez por dia, Amanda estava dirigindo quando de repente sentiu "aquilo". "Para ser bem clara, eu estava com tesão." Ela parou o carro e mandou uma mensagem de texto para Ben, que ainda estava trabalhando: "Gostaria de me almoçar?"

Dali em diante, conta Amanda, o sexo passou a ser totalmente revigorante. Em vez de evitá-lo, ela passou a ter a iniciativa, e com frequência. Ao invés de ir dormir depois de um longo dia de trabalho, preferia ficar acordada e transar. Ela se sentia espontânea. E até mandou uma foto de lingerie para o marido.

"Em um mês já voltamos a sermos como éramos quando começamos a sair", explica Amanda. Ela se sentiu aliviada ao descobrir que o problema não estava nela. "Eu não sei se, sem o remédio, meu marido entenderia que era o meu corpo que estava fazendo aquilo, e não eu."

Toda manhã, ela registrava e quantificava sua vida sexual em um diário virtual explícito e detalhado – contando se tomou a iniciativa, se usou lubrificante, se chegou lá e dando uma nota à experiência. A necessidade de anotar tudo e uma dor de cabeça esporádica eram os únicos efeitos colaterais.

Amanda foi uma das 1600 mulheres do ensaio clínico. E os resultados pareciam positivos: as mulheres que tomaram uma dose do medicamento diariamente, por seis meses, pareciam demonstrar mais vontade sexual e menos angustia em relação ao sexo. Mas também havia um efeito placebo forte: as notas nos diários virtuais eram as mesmas tanto para as mulheres que tomavam o medicamento certo quanto para as que tomavam, sem saber, pílulas de açúcar.

É importante notar que efeitos similares ocorreram com o placebo nos testes para Viagra. Quando falamos de desejo sexual, independente do gênero, é difícil saber se as mudanças são exatamente no corpo ou na mente.

Amanda não sabia (e ainda não sabe) se as pílulas que tomava todas as noites eram remédio ou placebo, mesmo tendo a possibilidade de descobrir ao fim dos testes. Com tantas mudanças positivas em sua vida, decidiu que não precisava saber: estava convencida que tomara flibanserina. E se os médicos dos testes clínicos permitissem certamente as tomaria para sempre.

Mas em 2010, após usar o medicamento por 8 meses, Amanda precisou devolver o remédio. O FDA reprovou o pedido da Boehringer Ingelheim para comercializar a flibanserina.

Segundo o órgão americano, a discussão começa por ser muito difícil conseguir mensurar a libido.

Enquanto o Viagra tem um indicador bastante óbvio nos homens – a inegável presença de uma ereção – o desejo sexual feminino é difícil de quantificar. Amanda se sentiu completamente mudada pela experiência, mas quando os resultados de todas as participantes foram computados, os números não foram suficientes para provar que a droga funcionou.

Mesmo rejeitando a comercialização da flibanserina, o FDA não negou a importância do DDSH: em 2012, a agência destacou a disfunção sexual feminina como uma das 20 doenças a serem priorizadas. "Sim, o FDA reconheceu o problema, isso não é nem discutível", diz a psiquiatra Anita Clayton, da Universidade da Virgínia, que conduziu testes com flibanserina, ao BuzzFeed News. "Mas como medir o desejo? Como dizer o se um aumento nele é ou não significativo?"

Depois do pedido negado, a Sprout Pharmaceuticals comprou a patente para o medicamento e começou um novo teste clínico com pesquisas mais rigorosas para quantificar o desejo sexual. O ensaio contou com a participação de 1000 mulheres, visando três pontos específicos: o aumento do desejo, a diminuição da angústia e um maior número de "eventos sexuais satisfatórios".

Mesmo com os novos testes da Sprout apontando resultados promissores, a flibanserina não é de forma alguma milagrosa. Cerca de 10% das mulheres abandonaram os testes clínicos após seis meses por causa de efeitos colaterais. As mulheres que usaram o medicamento indicaram melhoria de 37% no desejo sexual e na satisfação em eventos sexuais e redução de 21% da angústia sexual, todos os índices diferindo significativamente dos resultados do grupo que tomava placebo.

Não foi suficiente: em 2013 a droga foi novamente rejeitada pelo órgão regulador, agora devido aos efeitos colaterais como sedação, tonturas, náuseas e infecções respiratórias raras. As preocupações com a segurança em longo prazo são cruciais para um fármaco tomado uma vez ao dia (ao contrário de um reforço eventual de libido, como é o caso do Viagra). Mas essa questão deixou muitas mulheres enfurecidas com a agência do governo, dizendo que se tratava de uma decisão sexista.

A farmacêutica, a psiquiatria e um grupo de defesa chamado Even the Score (ou "Empatando o jogo", parcialmente financiado pela primeira) alegam que há uma disparidade problemática entre os tratamentos aprovados pelo FDA para problemas sexuais masculinos e femininos. Os homens dispõem de nove medicamentos no mercado para tratar a disfunção erétil – mais de uma dúzia de opções se você incluir os genéricos e as combinações de tratamento. Mas fora dois medicamentos que tratam dores durante o sexo em mulheres pós-menopausa, não existem medicamentos disponíveis para o prazer feminino.

Em relação à segurança, os defensores apontam uma longa lista de efeitos colaterais relacionadas ao uso de Viagra: cegueira, ereções permanentes que podem durar mais de quatro horas, perda de audição. Os efeitos colaterais da flibanserina parecem inofensivos em comparação. "Os maiores riscos do uso da flibanserina são os mesmos de remédios sem prescrição como o antialérgico Claritin, considerado seguro por 99% das pessoas", defende Susan Scanlan, membro do Even the Score, ao BuzzFeed News. "Os homens escolhem correr riscos e o FDA, de forma paternalista, e não permitem que as mulheres escolham."

Scanlan também fala da Europa, onde em 2012 o tratamento de testosterona Intrinsa era amplamente disponível para mulheres com baixa libido. O Intrinsa foi bloqueado pelo FDA quando a agência pediu testes adicionais de segurança para um período de cinco anos. Esses testes extras custariam muito, então a empresa abandonou o mercado americano.

"O sexismo é profundamente enraizado nos EUA, e ele aparece em nossas instituições, como no FDA", diz Clayton. "A ideia que uma mulher precisa ser protegida e não tomar decisões junto a seu médico não faz o menor sentido."

A Sprout apelou a rejeição do FDA, e terça-feira passada apresentou dois ensaios adicionais sobre a capacidade de condução após ingerir o medicamento – motivo de a sonolência ser preocupante – e como a droga é metabolizada em mulheres com doenças genéticas raras.

O FDA deve dar seu veredito final na flibanserina em agosto.

Como a droga está atualmente sendo revisada, a agência se recusa a comentar qualquer uma das alegações específicas sobre a sua eficácia. No entanto, em um comunicado a respeito de suas ações em relação a medicamentos para a disfunção sexual feminina em geral, o FDA se defendeu: "A agência avalia medicamentos com base científica e nega com veemência acusações de preconceito de gênero", disse um porta-voz.

Algumas mulheres discordam que o sucesso da flibanserina é uma questão de direito das mulheres.

Elas argumentam que o transtorno é uma questão de responsabilidade pessoal – que as mulheres devem corrigir as questões que, de alguma forma, criam problemas no quarto do casal. Na era da medicação excessiva, os detratores apontam que as empresas farmacêuticas têm interesse em lucrar com a baixa libido, que não deveria ser rotulada como um distúrbio para começo de conversa.

"Há um grande problema em conseguir distinguir e delimitar o que significa ser normal e se o desejo é uma questão de saúde que requer tratamento farmacêutico", defende Barbara Mintzes, uma professora assistente na Universidade da British Columbia, ao Buzzfeed News. "Você tenta vender uma doença para vender uma cura."

A opinião foi ecoada em outubro do ano passado, em uma série de palestras promovidas pela FDA sobre o distúrbio do desejo sexual hipoativo. Além de médicos e cientistas, centenas de pacientes foram convidadas a dividir suas experiências pessoais convivendo com o problema. Mas algumas mulheres vociferaram o que consideram a abordagem uma forma de envergonhar mulheres com baixa libido, encorajando que sofram e se mediquem caladas, muitas vezes só para manter um casamento.

Uma mulher – não diagnosticada com o distúrbio – foi ao palco e listou as várias maneiras que superou a pouca vontade de fazer sexo – e sem a ajuda de uma droga farmacêutica: "Trocar de namorado, comer chocolate, tomar café, alguns episódios de Grey's Anatomy, pornografia, um vibrador tecnológico, a frase 'Um pouco mais pra esquerda', a frase 'Vai com calma', a frase 'Eu te amo', ler "Cinquenta Tons de Cinza", um chuveirinho, pedir dicas para minhas amigas, receber massagens, uma boa noite de sono e não me sentir julgada pelo meu namorado ou por minhas amigas, desafiar os julgamentos da sociedade e aceitando quem eu sou e como é minha libido".

Para a última questão, sobre a aceitação da libido, alguns apontam que drogas como a flibanserina ajudam a estigmatizar a sexualidade feminina em vez de apoiá-la. "Essa abordagem supõe que existe um desejo sexual normal e que se uma mulher não está tão interessada em sexo, então ela é anormal", diz a professora Mintzes. "Acho isso errado. Não é assim que se luta pela igualdade sexual."

Mas Amanda discorda. Ela e o marido também estiveram no encontro. "Eu me senti ofendida, frustrada e nervosa com muito do que foi dito por mulheres que não tem a disfunção", desabafa.

O que ela ouviu a fez lembrar os argumentos usados pelos opositores dos antidepressivos, que afirmam que o grande mundo farmacêutico está explorando pessoas que deveriam melhorar com seus próprios esforços. O distúrbio do desejo sexual hipoativo, diz Amanda, também não merece esse desdém. "As pessoas não estão procurando tratamento porque têm medo", e questiona: "Por que negá-las a cura?".

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